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“O meu pai morreu num acidente de moto. Eu estava num dos cafés da aldeia, foram chamar-me: quando cheguei, vi-o no chão, levaram-me dali”

Sérgio Conceição apresenta-se com roupa nova, diz que foi escolhida especificamente para a ocasião. Talvez seja ironia, mas também é possível que esteja a remodelar o guarda-roupa, porque perdeu peso — “bastante peso” — durante e no pós-confinamento, quando decidiu começar a correr pela cidade do Porto. “Estou pronto.” A conversa começou depressa, logo a seguir. Esta é a primeira parte de uma entrevista publicada no último número da Revista E

Pedro Candeias

RUI DUARTE SILVA

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Acabei de perder uma aposta: desta vez chegou a horas.
Não, não, isso é um mito inventado por alguém [risos]. Não é verdade, Rui [Cerqueira, da comunicação do FC Porto]? Pronto, é nas conferências de imprensa, não é? É porque, normalmente, no final dos treinos, continuamos a trabalhar: bolas paradas, esquemas táticos, repetição e trabalho. Mas este ano correu bem, admito que na época passada me atrasava mais. Os jornalistas falam nisso, é? Acredito: vocês [os jornalistas] estão lá para trabalhar, eu também estou aqui para trabalhar. Sou muito rigoroso.

Fica assim queimada uma pergunta que queria fazer daqui a pouco: o Sérgio atrasou-se naquele jantar e foi isso que provocou a discussão com Danilo, no início da época?
Isso foi esclarecido. Atenção: foi muito falado na imprensa, mas situações destas acontecem em todas as equipas durante uma época. E não teve nada a ver com atrasos. Foi um jantar livre, que dou na pré-época, e nesse jantar não é obrigatório chegar a horas. Não teve nada a ver com isso, mas com outra coisa. Como dois homens de grande carácter que somos, resolvemos o assunto.

Fala muito em rigor.
O sucesso é rigor, disciplina, algum inconformismo. Para a maioria das pessoas, é normal ganhar de vez em quando; para mim, não é nada normal, estou aqui para ganhar sempre. Fui sempre assim, competitivo, intransigente, na relação com os meus amigos e com a minha família também. Irrita-me quando as pessoas pensam de forma diferente neste aspeto. Sou muito honesto e franco, e quando as pessoas não são, digamos, disciplinadas nessas honestidade e franqueza, isso irrita-me.

Não dá segundas oportunidades?
Dou, mas passa muito tempo até isso acontecer. Não gosto daquelas mentirinhas para parecer simpático, para não ferir alguém. Sou assim desde pequeno e é assim que vou morrer.

Foi criado assim?
Sim, foram os valores que os meus pais me passaram: liberdade e responsabilidade, mesmo nas dificuldades da vida.

É conhecida a sua infância difícil. De que forma é que essa dificuldade se manifestou?
Desde logo, na alimentação, o ter um bom prato de comida à frente.

Fazia três refeições por dia?
Era difícil haver três refeições em cima da mesa por dia. A partir dos 12 anos tive de trabalhar com o meu pai para ajudar em casa, mas era uma criança feliz. Jogava à bola na rua, brincava muito com os meus amigos lá da aldeia.

Sendo o sétimo de oito filhos, foi dos mais mimados?
Não havia mimo. Os meus pais... principalmente o meu pai, era duro, rígido, dificilmente dizia a um filho que gostava dele. Hoje digo muito aos meus filhos que os amo, mas era difícil o meu pai dizer isso a um dos oito filhos. Mas vivi muito tempo sozinho com eles, porque os mais velhos foram casando e saindo, e a minha irmã mais nova, face às nossas dificuldades, foi viver com os meus avós.

Os seus pais faleceram quando o Sérgio era muito novo.
O meu pai morreu num acidente de moto. Eu estava num dos cafés da aldeia e foram chamar-me: quando cheguei, vi-o no chão, tiraram-me dali para fora. Mais tarde, soube que não tinha resistido ao acidente. O mais incrível é que eu e a minha família tínhamos estado a tentar dar-lhe a volta durante meses para me deixar ir para o FC Porto, porque ele não queria. Até que se deixou convencer e foi comigo assinar o contrato — no dia seguinte, morreu. Foi terrível, para mim e para todos. A minha mãe estava numa cadeira de rodas, paralisada de um dos lados, e faleceu dois anos depois, já eu jogava no Penafiel, por empréstimo do FC Porto. Eu pensei em deixar o futebol, não fazia sentido, não tinha forças. Acredito que todos os filhos sejam apegados aos pais, e eu era mesmo muito chegado aos meus. Tudo o que faço, todo o meu trabalho, dedico-o a eles.

[...]
Sou feliz muitas vezes, pelos títulos de jogador e treinador que conquistei, mas sinto que nunca estou feliz a cem por cento. Tenho um lado negro dentro de mim e vou acabar assim, isto jamais vai sair daqui de dentro.

Alguma vez procurou ajuda para combater esse lado negro?
Não, porque é isto que alimenta o meu fogo. Sou determinado, ambicioso, carrego esse lado negro, mas não é raiva; estou resolvido, apesar da tristeza que tenho.

Tem algo a provar ao seu pai?
É um pouco por aí. Eu vi o sofrimento que eles passaram, a forma como trabalhavam para nos dar o mínimo. Eles não viviam, sobreviviam com muito sacrifício. A minha mãe estava em casa, o meu pai trabalhava nas obras, dia e noite, e eu ajudava-o nas férias. Fazia tudo aquilo que pode imaginar: desde carregar baldes de massa a assentar tijolo. E também fui feirante.

Feirante?
Sim, vendia roupa com um primo meu, que tinha um pronto a vestir em Taveiro [freguesia no concelho de Coimbra; Sérgio Conceição é natural de Ribeira de Frades]. Fazíamos feiras em Condeixa e na Lousã e, atenção, o meu primo queria dobrar-me o ordenado quando soube que eu ia para o FC Porto. Tinha realmente jeito para aquilo e, por outro lado, ir para a feira transformou-me. Três meses depois, era um miúdo diferente: tornei-me mais comunicativo. Tem de perceber o contexto: o meu irmão mais velho tem 60 anos, há uma diferença muito grande, e eu vivia basicamente com os meus pais. Falava com os miúdos da aldeia, tudo bem, mas se viesse alguém desconhecido...

Os estudos ficaram para trás?
Eu era um aluno q.b., gostava era de futebol. Mas era esperto: bastava ficar atento para ter positiva. Quando cheguei ao FC Porto, com contrato a ganhar algum dinheiro, deixei de estudar para me concentrar no futebol a cem por cento. Além de futebolista, pensava em ser piloto de automóveis, porque gosto muito de carros, mas nada por aí além e jamais pensei tirar um curso. Mas, agora, com os meus filhos [tem cinco, todos rapazes], é diferente: dois estão na faculdade e outro acabou de tirar o curso de gestão desportiva.

Quando o seu filho mais velho chegou à idade que o Sérgio tinha quando o seu pai morreu, pensou nisso?
[Silêncio] Pensei várias vezes, mas não quis que ele carregasse esse peso. Os meus filhos percebem o pai que têm e também sabem o que eu passei para chegar onde cheguei.

Como foi chegar ao FC Porto?
Foi muito difícil, muito difícil mesmo, era tudo diferente. Vinha de uma pequena aldeia, num contexto muito específico, e fui parar a uma grande cidade e a um grande clube com apenas 16 anos. Senti que tinha de me agarrar à religião e pus-me a ler a Bíblia — devo ter lido a Bíblia umas três vezes, de uma ponta à outra e sei salmos de cor: o Salmo 91, por exemplo, é fantástico. É a religião e a família que me dão equilíbrio. Além disso, gosto de ler Robin Sharma e Paulo Coelho, embora este já tenha passado de moda [risos].

Considera-se um místico?
Não... Bom, eu acho que todos nós temos energias negativas e positivas e tento aprofundar muito isso. Olhe, hoje o coaching é moda no futebol, até por causa da ligação da Susana Torres ao Eder, mas devo lembrar que a Susana Torres já trabalhava comigo no Sporting de Braga [antes do Euro-2016]. Um jogador tem de estar bem fisicamente, taticamente e emocionalmente. Dou muita importância ao lado espiritual e por isso leio muito sobre esse tema.

Voltando à sua entrada no FC Porto: conseguiu fazer amigos naquele tempo?
Alguns, sim, mas poucos e fora do futebol era muito difícil. E fui perdendo o rasto às amizades que tinha feito na aldeia. Acho que quem vive do futebol tem poucos amigos, porque é um mundo que absorve muito.

Hoje tem poucos amigos?
Tenho muitos conhecidos, poucos amigos.

Quantos?
[risos] Quatro ou cinco, praticamente todos do futebol. O Jorge Costa? Sim, o Jorge é um dos que ficou dessa altura. Lembro-me dos primeiros tempos no FC Porto e se, pessoalmente, foi difícil, desportivamente nem tanto, porque eu vinha de treinar e jogar em campos pelados — e o campo das camadas jovens do FCP também era assim [risos]. Obviamente, nem passámos à fase seguinte; um ano depois, foi melhor. E acabei emprestado durante três anos, porque, na altura, era assim. Então, fui para o Leça, Penafiel e Felgueiras.

E financeiramente?
No Penafiel não foi simpático, pois havia ordenados em atraso e eu recebia do Penafiel e não do FC Porto. Para mim foi pior ainda, porque desde os 16 anos que sustentava a minha família, ou melhor, ajudava os meus irmãos; ainda hoje os ajudo, porque quero.

Não era uma responsabilidade grande demais para um miúdo?
Nem pensava nisso, o dinheiro entrava e eu ajudava, era automático, não dava para pensar em juntar algum dinheirinho. Também foi assim no Leça, mas melhorou no Felgueiras, na I Liga. Só que, entretanto, casei-me, e as despesas aumentaram [gargalhada].

Quanto é que ganhava?
Ganhava 500 contos, como se dizia, 2500 euros.

Algum dos jogadores desse tempo chegou a ter uma carreira?
Chegaram alguns à I Liga, mas nenhum fez uma carreira equiparável à minha, que depois fui para Itália...

A diferença dos que singram para os que falham está na mentalidade?
O jogador português tem qualidade, mas em cima disto é preciso acrescentar mentalidade, força, carácter. Os que triunfam são diferentes, vivem o futebol de forma diferente, embora isto seja verdade para todos os sectores. E não tem nada a ver com contextos sociais — se és pobre ou não, isso é indiferente.

No Felgueiras apanhou Jorge Jesus, que agora regressou ao Benfica. Ele era realmente diferente dos outros treinadores?
Era um bocadinho diferente: gritava e dava mais do que os outros [risos]. Mas foi bom, claro, aprendi algumas coisas, embora eu não percebesse nada do lado mais tático da coisa. Hoje, quando ouço dizer que ele é o mestre e eu sou aluno... Quer dizer, não tem nada a ver, eu tinha 19, 20 anos.

Jesus disse que os jogadores treinados por ele vão dar todos bons treinadores.
Oh, isso são os exageros normais do Jorge Jesus, já todos o conhecemos. Quem for treinado por ele dará bom treinador e quem não for treinado não dará? Isso não existe [risos]. Se foi importante? Sim, permitiu-me voltar ao FC Porto depois do ano que passei em Felgueiras.

O Jorge Jesus é outro dos seus quatro ou cinco amigos?
[Pausa] Tenho carinho pelo Jorge Jesus, estamos juntos anualmente, ou de dois em dois anos. Lembro-me que, quando o meu filho Francisco estava no Sporting e o Jorge era treinador do Sporting, ele fez questão de o levar a casa dele e almoçaram juntos. São gestos fantásticos, de alguém por quem tenho muito apreço. Mas daí a dizer que é um dos meus quatro ou cinco amigos não é justo para os meus quatro ou cinco amigos.

Como foi regressar ao FC Porto três anos depois?
Foi um sonho, era tudo grandioso. Estar perto do João Pinto, do Jorge Costa, do Aloísio, do Paulinho Santos, do Vítor Baía, enfim, dessa malta toda... No início foi difícil adaptar-me, porque estivera em equipas pequenas, mas a seguir conquistei o meu espaço e essa sensação de estranheza passou em dois dias. Comecei a ficar com azia quando perdia uma peladinha, a entrar duro sobre um companheiro nos treinos (que eram muito competitivos), e aqueles nomes todos passaram a ser apenas jogadores para mim. Atenção: entrei duro e também sofri entradas duras. Havia aqui alguns que davam forte, o Paulinho Santos, o Jorge Costa, o João Pinto [risos].

Todos os jogadores têm uma alcunha, qual era a sua?
[gargalhada] Não vou dizer, não vou dizer. Quer dizer, para me estar a fazer essa pergunta é porque já lhe disseram alguma coisa. Não? Então, não tinha alcunha [risos]. Bom, pronto, havia o Balizas [Baía], o Bicho [Jorge Costa] e eu era o Sérgio, só Sérgio [gargalhada]. Vá, agora a sério, chamavam-me Mala, porque eu tinha uma anca larga, um rabo cheiinho [gargalhada].

Ganhou títulos no FC Porto e depois seguiu para Itália, para a Lazio. Fazia sentido sair?
Nunca me tinha passado pela cabeça sair, estava bem no FC Porto, tínhamos o tetracampeonato, ganhava um bocadinho mais — não muito, porque como era jogador da casa, recebia menos —, mas não olhava para isso. Estava, sim, a construir uma carreira e, num primeiro momento, não saí — era para ter ido para o Corunha. E acabei por ser transferido para a Lazio, onde passei uns meses iniciais muito difíceis, por causa da língua e do nascimento do meu filho [Sérgio]: se para o FC Porto tinha sido um grande salto, imagine o que era ir para a Serie A, na altura o melhor campeonato do mundo.

Sentiu diferenças?
Sobretudo ao nível do balneário, na relação entre os jogadores. Diria que eram muito mais individualistas, cada um no seu mundo, não havia companheirismo. Mais tarde, a chegada do Fernando Couto atenuou um bocadinho a ambientação — dois portugueses, vivíamos perto um do outro, etc. O Fernando vinha do Barcelona, mas já tinha passado pelo Parma; depois, perto de nós, estava o Ivan de la Peña, uma excelente pessoa que vivia com a namorada, e com a mãe da namorada também, o que, como há de perceber, era um bocado caricato e motivou ali umas brincadeiras [risos]. Um parêntesis: hoje a namorada é mulher dele, têm filhos e uma família lindíssima. Eu dava-me bem com o Matías Almeyda, com o Pavel Nedved, com o Mihajlovic...

Personalidades muito fortes.
Ui, muito fortes, sim. E ainda faltam aí o Verón e o Simeone e o Mancini. Foi onde assisti a mais problemas, tanto nos treinos como dentro do balneário. Houve vários confrontos, físicos e verbais, umas vezes era comigo, outras vezes com outros. Agora, repare: o Nedved é dirigente da Juventus, o Simeone treina o Atlético de Madrid, o Mancini é selecionador de Itália. Para se ter sucesso, lá está, é preciso ter carácter. Dali segui para o Inter, com lesões, não correu muito bem, regressei à Lazio, para ser treinado pelo Mancini, que fora colega, o que foi estranho — e decidi voltar ao FC Porto, em 2003.

Porque queria ir ao Euro 2004.
Sim, queria. E encontrei uma equipa já feita, que conquistara a Taça UEFA e estava alinhada, digamos que...

Calibrada?
Exato, sim, é esse mesmo o termo: calibrada. E eu fiquei frustrado, não só porque seria difícil entrar nessa equipa, por estar já “calibrada”, e pelos meus problemas físicos. Não consegui demonstrar tudo o que quis nesses seis meses. Queria ficar, mas fui obrigado a ir para fora novamente, primeiro para a Bélgica [Standard de Liège] e depois para a Grécia [PAOK].

Mas saiu porque quis ou porque não o quiseram?
Quando um ponto não encontra o outro, a culpa é sempre de ambos, não é? As coisas tinham de acontecer assim e fui para o Standard, e ganhei a bota de ouro do campeonato logo no primeiro ano. A ida para a Grécia tem uma história engraçada: pouca gente se lembra que, antes de ir para o PAOK, fui para o Koweit, onde o campeonato começava mais tarde, lá para setembro, por causa do calor. Fui para lá e achei que não merecia passar por aquilo.

Então?
Eh pá, treinar com 40 graus? Ok, pronto, aguenta-se. Mas treinar num clube que tinha uma mesa de snooker no meio de um balneário, treinar num clube em que um dia apareciam 15 jogadores e no dia seguinte apareciam 30, jogar num campeonato em que só eram permitidos dois profissionais por clube, disputar um jogo em estádios em que não há relva, mas erva alta e com contentores a servir de balneário? Aquilo não era para mim, preferia jogar com os amigos no CIF ou uma peladinha.

E, a seguir, o PAOK e o campeonato grego que, vá, é a sua cara.
[Risos] E há uma história curiosa. Eu rescindi em dezembro e havia a janela de mercado de janeiro; estive até à última para perceber qual era a minha saída, o clube que me desse as mínimas condições para acabar a carreira de uma forma digna. Pensei: vou ficar parado seis meses. Mas, entretanto, alguém muito importante da Igreja grega faleceu e eles adiaram o dia de fecho de transferências por 24 horas, para fazer o luto nacional, e eu falei com uma pessoa que falou com o Fernando Santos — e o Fernando Santos ligou-me. Foi tudo feito muito à pressa e assinei pelo PAOK. Fiquei lá três anos, gostei bastante, é intenso, aguerrido, os adeptos são apaixonados, talvez até exagerados.

Exagerados como...
[interrompe] Quer dizer exagerados como eu? [gargalhada]. Eles são encalorados, são.

E o Sérgio esteve envolvido num episódio encalorado também.
Quando eu atirei um objeto para a bancada? Eu estava para bater um canto quando levei com uma série de coisas em cima, rolos de papel higié­nico, garrafas, etc. Fui expulso, mas ao clube cujos adeptos fizeram aquilo nada aconteceu. Mas, pronto, é a Grécia. Foi importante para o final de carreira representar o PAOK, porque aquilo despertou a minha paixão.

Falemos de Seleção: o Sérgio estreia-se em 1996, contra a Ucrânia, mas o seu ponto alto acontece quatro anos depois, no Euro 2000, com aqueles três golos à Alemanha.
Os três golos foram bons, inesquecíveis, mas o que me deixou mais feliz foi que aquilo me permitiu chegar ao Humberto Coelho [selecionador de então] e dizer-lhe: “Mereço ser titular. Você não pode pôr-me mais no banco.” Depois disso, era difícil tirar um jogador que faz três golos à Alemanha.

Foi uma campanha inesperada, passando aquele ‘grupo da morte’.
Havia muita qualidade, talento e trabalho, apesar de eu não achar aquela geração a Geração de Ouro, porque muito embora tenha tido jogadores fantásticos como o Figo, o Rui Costa, o João Vieira Pinto, o Fernando Couto, nunca ganhou títulos. A Geração de Ouro é a do Euro 2016. Mas devo dizer que os meus tempos na Seleção foram dos melhores na minha vida. Nem sempre era titular, mas isso eram as decisões do selecio­nador, isso nunca criava atrito entre nós, porque dávamo-nos todos muito bem, brincávamos muito, foi fantástico. Mantenho uma boa relação com ele, com o Ruizinho [Rui Costa] falo muito, até porque o meu filho Rodrigo esteve quatro anos no Benfica.

E o seu filho Rodrigo nunca teve problemas por jogar no Benfica sendo filho do Sérgio Conceição?
Houve um ou outro episódio complicado, que envolveu um treinador do Benfica — não é a estrutura, atenção, foi um dos elementos. O meu filho não me contava muito do que se passava lá dentro, mas foi específico nesta história: nós, FC Porto, jogámos com uma equipa e houve um jogador que nos marcou um golo e esse treinador do Benfica começou a chamar o meu filho pelo nome desse tal jogador. Acho que é extremamente desagradável. Como é que eu reagi? Contei até dez [gargalhada]. Falei com um ou outro elemento da estrutura do Benfica, um deles o Rui Costa.

De volta à Seleção: o que aconteceu naquele Mundial 2002? Os antigos jogadores têm sempre pudor em falar sobre o assunto.
Não quero parecer politicamente correto, que não é de todo o meu género, mas vou dizer que a culpa é de todos. Dizer que a culpa foi apenas do [selecionador] António Oliveira não é justo. O staff, a FPF, os jogadores, todos nós fomos culpados e, se perguntar aos futebolistas se foram exemplares no dia a dia, estão a mentir. Eu não fui exemplar.

E o que aconteceu consigo e Scolari, visto que falhou o sonho de jogar o Euro 2004.
Olhe, lembro-me de um dia ele ter chamado os jogadores mais velhos e dito o seguinte: “Sou uma pessoa ambiciosa, estou aqui para chegar a um grande clube na Europa.” Não me caiu muito bem, mas, ok, ele foi frontal. Depois, também disse que era muito rigoroso — ou melhor, queria parecer rigoroso. Porque esse rigor de que ele falava não era acompanhado na prática. Como? Horários, jantares, enfim. Eu acho que ele teve alguma dificuldade em lidar comigo. Dizem-me que se tentou informar, e bem, sobre os jogadores mais velhos. Não sei o que lhe disseram de mim, mas deixei de contar quando ele operou a tal renovação. Quem lhe disse? Não sei, talvez quem tenha ido de férias para o Brasil com ele. Scolari não é certamente um dos meus quatro ou cinco amigos, nem um dos meus conhecidos pelo qual tenho carinho.