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“Ai o Marega não tem técnica? A qualidade não se vê nos floreados, senão púnhamos uma bolinha no nariz e íamos para o circo como focas”

Nesta segunda parte da entrevista, Sérgio Conceição fala sobre o que é treinar o futebolista do século XXI, que é mais “frágil emocionalmente, mas muito mais esperto” e que percebe “logo se estamos a dizer alguma barbaridade”. Este é o seu modus operandi para gerir um plantel

Pedro Candeias

RUI DUARTE SILVA

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Porque decidiu ser treinador? Não foi por precisar de dinheiro.
Não, não foi. Mas, antes de ser treinador, fui convidado para ser diretor-desportivo do PAOK, que estava com algumas dificuldades financeiras e não tinha dinheiro para pagar parte dos salários. Antecipei seis meses o final da minha carreira e aprendi nesses seis meses que a coisa que eu não queria para a minha vida era ser diretor-desportivo. Estar sentado à secretária durante o dia todo e andar a contratar jogadores e a falar com os empresários? Hmmm, não. Depois, segui para adjunto do Standard de Liège, tirei o curso de treinador, estive com jogadores como o Fellaini, o Witsel, o Defour, uma bela geração. E ganhámos a taça e vim para Portugal, inscrevi os meus filhos no Liceu Francês, vivi em Belém durante alguns tempos e fui para o Olhanense: trabalhava durante a semana no Algarve e subia para Lisboa aos fins de semana. Começar por baixo, num clube modesto, foi muito gratificante. Cheguei ao Olhanense estava o clube em último, acabámos a época em 7°; e na temporada seguinte deixei o projeto quando estava no 8° lugar.

Quando saiu, deixou um célebre recado na TVI ao treinador Manuel Cajuda.
O Pedro quer sempre tocar em temas polémicos [risos]. Eu sabia que o Manuel Cajuda era amigo do presidente Isidoro — e sabia também que o Manuel Cajuda era presença assídua nas bancadas do Olhanense nos meus últimos jogos lá [Manuel Cajuda treinou o Olhanense após a saída de Sérgio Conceição]. Mas, acima de tudo, o importante para mim foi poder demonstrar capacidades para treinar na I Liga e mais do que isso até [antes do FC Porto, Conceição treinou Académica, Braga, Vitória de Guimarães e Nantes].

E agrediu ou não António Salvador, presidente do Braga?
O presidente António Salvador foi o melhor presidente que tinha tido, até ao dia da final da Taça de Portugal [o Braga perdeu nos penáltis contra o Sporting]. O presidente era fantástico, dinâmico, muito ambicioso, sempre perto da equipa, com uma visão muito interessante do futebol, foi mesmo uma surpresa. Depois, perdemos, nos penáltis, contra o Sporting, que jogou com menos um jogador, e depois de termos estado a ganhar por 2-0. E saiu um comunicado a dizer que tínhamos sido incompetentes. E não gostei, mas não agredi ninguém e há testemunhas, porque isto foi para os tribunais. Só que depois foi tudo extrapolado na imprensa, escreveram-se coisas que não eram verdade e foi muito difícil para mim e para a minha família. Se o presidente queria terminar a ligação, preferia que o tivesse feito dizendo que não contava comigo e eu sairia sem pedir o resto do que faltava receber do meu contrato. Fiquei novamente com esta imagem colada: “Sérgio, o terror dos presidentes” [gargalhada]. O que não é verdade, não é verdade, dou-me bem com o presidente do Olhanense, da Académica e recentemente cumprimentei, bem, António Salvador. Isso da agressão foi uma estupidez inventada.

Alguma vez foi convidado por outro grande?
Enquanto treinador, não, mas quando era jogador estive duas vezes para ir para o Sporting. E tê-lo-ia feito com muito gosto.

Até porque o Sérgio nasceu e cresceu sportinguista.
Sim, o clube da minha aldeia é o Ribeirense, que é uma filial do Sporting. Está a ver, não está? Verde e branco, Sporting, era tudo do Sporting ali.

Agora, no FC Porto, como definiria a sua carreira?
Trabalho. Quer que eu desenvolva? Ok, trabalho, muito trabalho em três anos. Temos gente muito profissional em todas as áreas, com bastante gente a trabalhar para aquilo que faz andar o barco, que é a equipa de futebol.

Dos dois títulos, qual foi o título mais difícil de conquistar? Ou que lhe soube melhor?
Eu cheguei num momento em que o FC Porto estava — e está — em grandes dificuldades financeiras [o FC Porto está sob a alçada do fair-play financeiro]. Percebi logo que ia ter um desafio enorme pela frente, mas acreditava que conseguia ter sucesso. E também sabia que, se não tivesse sucesso, seria normal, porque outros antes de mim também não tinham conquistado títulos. E, portanto, deu-me um gozo enorme ser campeão nacional pelo FC Porto. O gozo deste ano foi diferente, porque em 2018-19 merecíamos também ter sido campeões: não aconteceu por demérito nosso, por mérito do Bruno Lage e por questões de arbitragem, más decisões em três em quatro jogos.

Como é que se motiva uma equipa que está sete pontos atrás do primeiro lugar?
Acreditando no nosso potencial e nos homens que temos dentro do nosso balneário, fazê-los ver o que é representar o FC Porto.

Sim, mas o FC Porto não é só formado por jogadores portuenses, portistas e portugueses. Há alguns sul-americanos, africanos e chegaram colombianos e argentinos esta época.
Isso é uma questão interessante. Era mais fácil no meu tempo de jogador, é verdade, mas acredito que ainda hoje se consegue formar um grupo, com compromisso que tem de ter consequências na forma como vivemos o dia a dia. Depois daquele jogo com o Braga [final da Taça da Liga, perdida para os minhotos], disse-lhes: “Vocês têm de ouvir os adeptos e os críticos, e calem-se. Ouvir e calar. E trabalhar no máximo todos os dias.” Eu estava convicto, até pelo calendário, que íamos ainda assim ser campeões. Eles acreditaram em mim e foram atrás disso. Obviamente, quando disse publicamente que as coisas não estavam bem — e fi-lo de forma pensada — foi um toque a reunir. Para mim, é aceitável estar descontente quando as coisas não estão bem, mas não aceito que deixem de acreditar.

Como bloqueou o Benfica naqueles dois jogos?
Eu queria fazer a diferença — e fi-lo nos pormenores. O Benfica tinha alguns pontos débeis e não é só aquele espaço entre o Ferro e o Grimaldo que toda a gente apontou. Sim, o Marega explorou muito o espaço entre o central e o lateral-esquerdo, mas para fazer chegar a bola aos avançados, como é que é? Lembro-me de um passe de 30 metros do Corona para o Marega em Alvalade — e isso são situações muito trabalhadas ali [aponta para o campo do Olival] e não nascem do acaso. Também procurámos muito as fragilidades adversárias nas bolas paradas, no primeiro poste. Mais: sabermos que o que fazer quando não temos a bola é tão importante como saber o que fazer no momento em que a temos; onde é que recuperamos a bola, em que zona a recuperamos, quem é o jogador adversário que pode entregar mal a bola, para nós aproveitarmos o erro. E, por fim, tínhamos de ir depressa, mas não à pressa, o tal carácter.

Está a falar da questão emocional.
Tivemos de passar algumas mensagens. Relembro que, no primeiro jogo com o Benfica, na Luz, vínhamos da eliminação com o Krasnodar [play-off de acesso à Liga dos Campeões] e perdido o jogo com o Gil Vicente. Era importante ter personalidade e assim chegamos à pergunta que me fez lá atrás: podemos criar rotinas, repetições, mas mexer na cabeça dos jogadores é mais difícil.

E é mais difícil agora porque o jogador evoluiu?
Sim, os jogadores de hoje percebem melhor o jogo e trabalham melhor do que os jogadores do meu tempo, seguramente. Eles percebem quando o treinador está a dizer uma coisa em que não acredita ou quando está indeciso; e também percebem quando as ideias não estão a resultar em campo.

Ok, e como é que se convence os jogadores de que as ideias são boas quando se está a sete pontos do adversário direto?
Lá está, saber mexer com a cabeça dos jogadores é muito importante. O futebolista de hoje é mais frágil emocionalmente, mas é muito mais esperto, percebe logo se estamos a dizer barbaridades, se estamos a trabalhar para ganhar ou não. Já não existem jogadores burros, todos eles sabem o que são transições, esquemas táticos, combinações diretas ou indiretas; o meu filho, com 15 anos, já vinha com esses termos para casa. Temos de os surpreender no treino.

Com exercícios diferentes.
Sim, com exercícios diferentes, para não ser monótono e vê-los contentes com a bola. E depois há o lado emocional. Hoje, o atleta tem 12, 15, 20, 30 pessoas à volta e quando não joga tem logo alguém a prometer-lhe outro contrato noutro lado qualquer e a ganhar mais, seja o pai, a mãe, o empresário, amigo do empresário, departamento de comunicação próprio, enfim. Todos eles querem brilhar e depois deparam-se com treinadores, como este aqui, que vê tudo ao contrário.

Está a querer dizer-me que intervém diretamente com familiares e agentes dos jogadores?
Oh, muitas vezes. Eu faço questão de conhecer a mulher, os filhos, de saber o percurso dos jogadores e de saber coisas sobre eles sem que eles saibam que eu sei [risos]. Por exemplo, saber em que casa morava o Luis Díaz, quem era o melhor amigo de infância, até saber quais os sonhos de criança. Assim, no momento certo, também sei quando usar essa informação para mexer com ele, em grupo ou individualmente. Temos alguns segredos.

Conte um.
Olhe, não é bem segredo, mas este final de campeonato foi muito atípico: estivemos parados durante meses, confinados em quarentena, e depois voltámos para jogar em estádios vazios. E, numa célebre reunião, depois de termos perdido o jogo com o Famalicão na retoma, decidi que era altura de mexer com os futebolistas. Então, antes do encontro com o Tondela, cada jogador foi encontrar um objeto pessoal, de casa, que lhe dissesse algo no balneário. E, para isso, tive de entrar em contacto com as famílias, pais e mulheres, e eles deram um valor enorme a isso.

As ideias foram suas?
Não foram todas minhas, mas ninguém fez nada sem a minha autorização [risos].

É controlador?
Sou, no peso dos jogadores, nos batimentos cardíacos, o que comem, a massa gorda e a massa muscular. É tudo ao grama. Também controlo a qualidade do sono e há alguns atletas que dormem mal e tentamos compensar ao máximo. Eu durmo pouco, quatro ou cinco horas, mas quando durmo, durmo bem.

E socialmente?
Vem aí a pergunta da festa do Uribe, não é? Já sabia [risos], mas o tema foi esclarecido. Sobre a vida dos jogadores: sei que o Corona tem hábitos diferentes do Otávio, por exemplo; sei o que é que ele gosta de fazer, quando é que está mais triste ou o que é que o está a fragilizar num determinado momento. Sei o que eles fazem fora daqui deste espaço. Ok, podem sentir-se observados? Sim, mas também protegidos, e também há momentos em que lhes dou liberdade, tranquilidade.

O que aconteceu com Nakajima?
O Nakajima não cria confusão com ninguém, ele é muito calmo, até calmo demais [gargalhada]. O confinamento e a quarentena não foram fáceis para ele, é uma cultura completamente diferente e ele teve receio. Ele e a mulher dele, que, segundo informações do departamento médico, tem problemas de asma.

Falemos de futebol novamente: o Sérgio defende um estilo alemão, próximo do gegenpressing de Jürgen Klopp, com intensidade.
O futebol moderno está mais rápido e a intensidade e a velocidade são muito importantes hoje em dia. A capacidade de pressionar o adversário, de lhe permitir pouco, é uma qualidade incrível e os clubes alemães são incríveis nisso. E pressionar não é só fazer o encurtamento sobre o portador da bola, mas também a cobertura ao jogador que faz a pressão. Porque muitas vezes nem é ele quem vai recuperar a bola e a bola vai ser recuperada numa zona que nos favorece mais. É um trabalho coletivo e eu apanhei equipas alemãs a fazerem isso e ainda mais: sugerir ao adversário para não pôr a bola em determinada zona só com o movimento de corpo de um jogador, o que é espetacular.

E daí o físico.
E isso está associado ao físico: é muito importante ganhar duelos, porque o futebol é feito de duelos, de ganhar e de perder a bola, de transições ofensivas e defensivas. A inteligência está em aproveitar as qualidades dos jogadores que temos, mas, falando de uma forma mais abrangente, acho que devíamos pôr mais algo em cima do jogador português, que tecnicamente já é muito evoluído. É preciso fazer mais, dar mais robustez, músculo; há jogadores jovens em Portugal que chegam à Liga dos Campeões com muita capacidade técnica, mas falta-lhes intensidade e isso pode e deve ser trabalhado na nossa formação a partir dos 16, 17 anos.

O treinador português não é o melhor do mundo, portanto.
Não, não é.

Depreendo que o tiki-taka e a posse de bola como princípio único não sejam para si.
O tiki-taka veio muito à baila por causa do Barcelona, que realmente tinha jogadores baixinhos e com uma capacidade técnica e uma mobilidade incríveis. Bom, ter a posse de bola é importante, mas tem de haver eficácia. O jogador ter a bola numa zona em que estão três adversários não é particularmente eficaz; ele tem de ter várias soluções para isso resultar, para criar superioridade. Portanto, é preciso haver uma rápida aproximação ao centro de jogo, ao lugar onde está a bola. E, para tal, é preciso que as equipas estejam fisicamente bem preparadas. O Barcelona tinha a bola, chegava muitas vezes à baliza adversária e criava muitas dificuldades aos jogadores da outra equipa, porque estavam bem com bola e sem bola. Mas desse tipo de posse de bola eu gosto — e é bem diferente daquela que algumas equipas agora preconizam.

Uma posse de bola circular, redundante.
Isso mesmo, circular, entre os defesas e o guarda-redes. Nós tivemos muito mais vezes a bola do que o adversário, só que tentamos rapidamente chegar à zona de finalização; por isso, disseram que éramos uma equipa de bola para a frente. Criámos muita indefinição nos adversários e fico irritado quando dizem: “O FC Porto é bola no Marega e nos avançados que são grandes.” Fizemos golos fabulosos, após 12, 13 e 15 passes, com princípio, meio e fim. Isso foi pouco realçado, como também foram pouco realçados os golos de bola parada, que aparecem porque trabalhamos e inventamos soluções. Fizemos golos de todas as maneiras e feitios: canto, canto direto, com combinação, livres laterais frontais diretos.

Até Marega marcou de livre direto.
[Risos] E muito bem. Porquê? Porque trabalha aqui e bate muito bem na bola. Ai não tem técnica? Um jogador sem técnica não fazia aquele golo. A qualidade de um jogador não se vê apenas nos floreados. Senão, íamos para o circo ou para a praia, com uma bolinha no nariz como as focas. Futebol não é isso.

E o futebol são estes clubes-empresa, clubes com investidores opacos, detidos por oligarcas, fundos ou até por países? Como o Manchester City ou o PSG?
O futebol sempre movimentou muito dinheiro. O Famalicão, por exemplo, teve sucesso este ano, com esse modelo: promoveu jogadores jovens e fez negócio com esses mesmos jogadores. Para mim, depende de quem está à frente e gere esse determinado clube. Obviamente que, para adepto, que gostava que o jogador da terra jogasse no seu clube... Mas é o futebol moderno.

Mas prefere o futebol antigo ou o moderno?
Eu gosto de trabalhar com alguém que percebe de futebol, de falar de futebol, sobretudo com um presidente [Pinto da Costa] como o nosso. Eu até gosto de lhe explicar algumas das minhas opções — ele nunca o fez, nunca me questionou.