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O que une Benfica e Sporting, Jorge Jesus e Luís Castro, futebol e futsal? Estes quadros táticos 100% portugueses

Pedro Marques fundou a Sports Training em 2011, quando, ainda treinador de futsal, percebeu que não havia material de treino suficiente para ajudar os técnicos portugueses. Nove anos depois, fornece quadros táticos ao Benfica e ao Sporting, assim como à maioria da Liga NOS e a clubes estrangeiros, aos quais vai chegando através dos treinadores lusos: "Dois dias antes de ir para o Brasil, o Jorge Jesus telefonou-me a encomendar uma série de quadros para levar, porque não sabia o que ia encontrar lá"

Mariana Cabral e Nuno Botelho

Pedro Marques criou a Sports Training em 2011

Nuno Botelho

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No grande esquema das coisas, 2011 foi assim: Osama bin Laden morreu, a Guerra do Iraque terminou, a Primavera Árabe começou e Pedro Passos Coelho assumiu o Governo português. No pequeno esquema das coisas, 2011 foi assim: um dia, um treinador de futsal estava no treino, a falar com os jogadores, e percebeu que não tinha, visualmente falando, as ferramentas necessárias para explicar o que queria que eles fizessem. "O que havia era tudo muito mau e nem era nada específico de futsal, o mais parecido que havia era de andebol, nas grandes superfícies de desporto, que eu corri à procura de ajuda", recorda à Tribuna Expresso Pedro Marques, então treinador adjunto na equipa técnica de Alípio Matos no Belenenses.

A necessidade aguçou o engenho e Pedro Marques até já tinha todo o engenho necessário para avançar: "Juntei o útil ao agradável, porque eu já era designer gráfico de formação e de profissão, e decidi criar a primeira solução desde género aqui em Portugal. A Sports Training foi lançada no dia 1 de julho de 2011, fez este verão nove anos".

A lista é comprida mas é necessário enumerá-las: futsal, futebol, basquetebol, andebol, voleibol, hóquei em patins, futebol de praia e râguebi. Nove anos depois, são oito as modalidades em que a Sports Training disponibiliza todo o tipo de quadros táticos, pequenos, médios e grandes, em versões que nem sequer é possível enumerar, dado que todos os quadros são totalmente feitos à medida do freguês - ou, melhor dizendo, do treinador.

"No início só conseguíamos pôr o nome e o símbolo, mas agora temos todas as soluções possíveis: dá para marcar corredores, marcar setores, escrever frases - o que quiserem", explica Pedro Marques, diretor da empresa. "Cada um pode ter o quadro como quer. Já recebemos inúmeros pedidos complexos, mas, como dependemos só de nós, temos a vantagem de conseguir resolver quase tudo. Não vou dizer 100%, mas 99,9% do que os treinadores pedem nós garantimos que é exequível. Ainda não tivemos nenhum caso que não fosse exequível", acrescenta.

Nuno Botelho

O que foi "durante muitos anos um one man show" é hoje uma empresa com três pessoas a tempo inteiro, sediada em Odivelas. "A Sports Training começou do zero, de uma necessidade que senti, porque não havia nada do género em Portugal. Não sou um empresário que caiu aqui de paraquedas e que de repente se lembrou de vender quadros táticos", explica à Tribuna Expresso o ex-treinador, que interrompeu a carreira por questões familiares e que agora vai fazendo comentários ao futsal n' A Bola TV.

Depois da ideia, foi uma questão de pesquisar fornecedores que concretizassem o lado prático da parte gráfica, assegurada por Pedro Marques. "Procurámos fornecedores portugueses e com qualidade. Bati em dezenas de portas e quem nos tratou bem e nos resolveu os problemas ainda hoje é nosso fornecedor. Com alguns fornecedores era só problemas, sem encontrar soluções. O nosso fornecedor desde sempre manifestou muito mais vontade em resolver os problemas do que em encontrá-los", explica, sentado no escritório da Sports Training.

"Não quero parecer presunçoso, mas fomos os pioneiros em Portugal, isto ainda numa altura em qualquer post de Facebook tinha um alcance tremendo, não tem nada a ver com as métricas de hoje. Agora, se não fizeres publicidade paga, não chegas a ninguém, só chegas lá a casa. Na altura, nós ficámos conhecidos através das redes sociais", conta.

Do futsal para o futebol - e o pedido especial de Jorge Jesus

Antes, qualquer encomenda feita na Sports Training era concretizada através de e-mail, o que complicava o processo à empresa. "Havia vendas que se faziam com três e-mails e outras em que eram precisos 30 e-mails. Por isso, em 2017, investimos numa loja online, que não tínhamos, e poupámos imenso tempo", recorda Pedro Marques, que faz questão de ressalvar que a empresa sempre foi 100% portuguesa.

"Se calhar não temos em Portugal um preço tão competitivo como na China, mas temos qualidade. Fomos abordados por uma empresa chinesa de plásticos e o preço baixava drasticamente, mas juntamente com o preço também baixava a qualidade e isso não queremos", explica.

Depois da entrada inicial no mercado do futsal, com um empurrão do Sporting - "foi o primeiro clube com quem tivemos uma parceria oficial, por sugestão do Miguel Albuquerque [diretor das modalidades do clube]" -, a Sports Training teve a sua maior encomenda de diversos tipos de quadros através do Inter Movistar, clube espanhol onde então jogava o internacional português Ricardinho. "Até lá fomos entregar em mão. Podíamos ter enviado, mas decidimos ir lá entregar, até fizemos uma sessão fotográfica. Nessa altura ainda não tínhamos entrado tanto no futebol, foi em meados de 2016", recorda.

Nuno Botelho

Mas a passagem para o futebol mudou tudo. "Tanto o interesse como o número de encomendas disparou com o investimento no futebol", admite Pedro Marques, que nem consegue listar com exatidão todos os clubes que hoje são clientes regulares da empresa: "Felizmente há vários clubes que ao longo dos anos têm sido nossos clientes, porque fomos ganhando a confiança de muitos clubes da I Liga, tanto de futebol como de futsal. Mas o mundo do futebol não tem comparação com o resto, pelo número de praticantes e treinadores. Temos como clientes o Benfica, o Sporting, as seleções portuguesas, o Braga, o Vitória de Guimarães, o Tondela, o Moreirense, o Belenenses clube e a SAD, o Estoril, o Chaves, sei lá, tantos", diz, entre risos, o ex-treinador de futsal, elogiando o aumento das vendas e revelando que a empresa tem lucro todos os anos.

"Felizmente temos vindo a ganhar a confiança de cada vez mais clubes e de cada vez mais treinadores", gaba. "E temos de agradecer aos treinadores portugueses que vão para o estrangeiro e nos abrem as portas de muitos clubes, como o Luís Castro no Shakhtar Donetsk, por exemplo, ele que já utilizava o nosso material no Chaves e no Vitória. Havia também o Miguel Cardoso, que já estava na formação do Shakhtar antes e que nos ligou para encomendar material para lá. No Bordéus, o treinador de guarda-redes, o Paulo Grilo, já usava o nosso material desde que estava nos EUA e foi uma espécie de nosso embaixador por lá. O treinador português é muito bem visto, felizmente, lá fora, pela sua grande capacidade, pelo que vai mostrando e as pessoas gostam", revela.

Uma das histórias mais recentes de uma grande encomenda de um treinador português para o estrangeiro ocorreu no ano passado, quando um nome bem conhecido do futebol luso foi para o Flamengo. "O Jorge Jesus já utilizava o nosso material enquanto treinador do Sporting e, dois dias antes de embarcar para o Brasil, telefonou-me diretamente para encomendar uma série de quadros para levar, porque ele não sabia o que ia encontrar lá", conta Pedro Marques.

"Depois acho que até foi uma alegre surpresa em termos de condições, porque tive oportunidade de estar com ele quando ele voltou cá e fez uma nova encomenda mais específica, já sabendo para onde precisava de ter os quadros. Teve de dar tempo para fazer tudo o que ele pediu", graceja, notando que, obviamente, o facto de alguns treinadores de renome utilizarem o material ajuda "a chegar a mais pessoas", tanto no futebol como no futsal, onde Nuno Dias, do Sporting, Joel Rocha, do Benfica, ou Jorge Braz, da seleção nacional, também "são utilizadores da marca há muitos anos".

Ainda assim, Pedro Marques garante que a Sports Training quer sempre o feedback de todos os treinadores, sejam eles mais ou menos conhecidos, porque é assim que os produtos vão evoluindo. "É importante ter a perspetiva do utilizador para ajustar algumas coisas. Por exemplo, estivemos num torneio Lopes da Silva e na altura o selecionador Rui Caçador deu-nos a sugestão de termos dois campos na nossa capa, em vez de apenas um, e hoje é o que temos", assegura.

"Outro exemplo: para os treinadores de guarda-redes temos uma solução específica que nos foi sugerida por um treinador de guarda-redes que nos abordou nesse sentido. Foi o Gonçalo Simões, que antes estava no Sporting e agora está no Benfica. Ele queria algo específico, pedimos para ele fazer um desenho do que estava a pensar e pronto, avançámos e agora comercializamos esse quadro".

Agora, o próximo objetivo da empresa, depois de "cimentar a presença no mercado nacional", é apostar na internacionalização, aponta Pedro Marques. "Ainda há muito caminho para percorrer. Não queremos desfocar, porque às vezes surgem questões sobre livros ou software, mas temos o cuidado de dizer que neste momento não. Podes ter o iPad com vários softwares, mas os quadros táticos e o iPad complementam-se. Não é a mesma coisa estar num jogo a mostrar coisas com o iPad, principalmente no futsal, quando tens um timeout e só tens 30 segundos para falar".

No futuro, será possível ver José Mourinho ou Pep Guardiola com um quadro Sports Training? Pedro Marques ri-se: "Quem sabe o Mourinho, por exemplo. Já houve uma situação em que isso esteve perto de acontecer, mas quando há esses contactos não gosto de entregar por intermédio de alguém que faça chegar o quadro, prefiro ser eu a entregar. Gosto de ver a pessoa a pegar nas coisas, a experimentar e a ser honesta. Por isso é que marcamos sempre presença em vários eventos com treinadores: como disse, gostamos sempre de ouvir as opiniões de todos, sejam mais ou menos conhecidos." Afinal, foi assim que tudo começou.