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"Quando era infantil, não tínhamos treinador de guarda-redes. Eu colava uma folha ao poste da baliza e tentava dar treino ao meu colega"

Precoce podia ser o nome do meio de Sandro Pinto. Aos 24 anos, já é treinador de guarda-redes no Al-Faisaly (e, antes, no Al Wehda), na Arábia Saudita, depois de uma passagem pela seleção da Índia de sub-17 e de várias experiências nos escalões de formação em Portugal, onde começou... aos 16 anos. "É claro que às vezes sei que as pessoas olham: 'Este gajo só tem 24 anos, o que é que este gajo está aqui a fazer? Ele tem idade é para jogar à bola, não é para treinar'"

Mariana Cabral

DR

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Se as minhas contas estão certas, começaste a ser treinador de guarda-redes aos 17 anos?
[risos] Aos 16.

Como é que isso aconteceu?
É assim, eu comecei como jogador, como quase todos os jovens...

Guarda-redes?
Sim, era guarda-redes. Mas percebi desde cedo que nunca iria passar de campeonatos distritais como jogador, portanto poderia continuar o meu sonho de outra maneira, podendo dar a outros aquilo que eu nunca tive enquanto guarda-redes, que foi um treino específico.

Não tinhas treinador de guarda-redes?
Não. Recordo-me de uma história, quando jogava no Sacavenense e ainda era infantil... Nós não tínhamos treinador de guarda-redes, mas tínhamos 20 minutos de treino em que estávamos os dois sozinhos, eu e o meu colega João. Então eu levava uma folha para o treino, com exercícios que fazia em casa, porque ia procurando na internet e ia escrevendo umas coisas... Chegava lá, colava a folha ao poste da baliza e tentava dar treino ao meu colega João, eram os nossos 20 minutos de treino de guarda-redes [risos]. Mais tarde, por coincidência, quando me sagro campeão nacional da 2ª divisão pelos juniores do Sacavenense, já enquanto treinador, o João era um dos meus guarda-redes [risos].

Portanto estavas a treinar guarda-redes exatamente da tua idade.
Exato, éramos da mesma idade. Quando comecei isso acontecia, e depois também, sempre fui tendo guarda-redes mais velhos do que eu. Aconteceu-me muitas vezes, mas todos sempre com muito respeito, sabendo que estou ali enquanto treinador, para ajudá-los.

Achas que até pode facilitar a relação, por serem praticamente da mesma geração, por vezes?
Às vezes pode facilitar, sim, na perspetiva de eu compreender melhor o jogador e o pensamento do jogador, o sentimento dele no treino e no jogo. Se calhar consigo ter outro tipo de abordagem com os jogadores por causa disso.

DR

Em que momento é que decidiste que irias deixar de jogar para ser treinador?
Olha, como sabes, o meu pai [Luís Nunes] também esteve muitos anos no futebol, agora saiu, e falei com ele naquela altura. Cheguei a casa, à hora de jantar, e disse-lhe que não queria jogar mais, que já chegava, que queria seguir outro rumo dentro do futebol. Comecei como analista das equipas do meu pai, fazia as análises estatísticas, penso que durante um ano. Depois, no ano seguinte, fui para a escola do Benfica no estádio da Luz, ao mesmo tempo que recebo um convite para ser treinador de guarda-redes dos juniores do Sacavenense. Mantenho a ligação a ambos, como estagiário na Geração Benfica e como treinador de guarda-redes do Sacavenense, e foi assim que esta - ainda curta - aventura começou.

Esse estágio na escola do Benfica também era como treinador de guarda-redes?
Não, aí era como treinador adjunto estagiário.

E foi útil?
É sempre útil, sim, o saber não ocupa lugar. O treinador de guarda-redes também tem de conhecer o jogo, mesmo na posição específica de guarda-redes, temos de conhecer muito bem o jogo. Por isso, claro que foi útil, foi uma aprendizagem muito enriquecedora. Depois fui para a escola do Belenenses enquanto treinador principal, mas estive lá pouco tempo, porque recebi um convite para ir coordenar a formação de guarda-redes e ser treinador de guarda-redes dos juniores do Casa Pia. Fiz um protocolo com eles, com a minha academia de guarda-redes, e duas vezes por semana todos os guarda-redes do clube tinham treinos específicos, e obviamente também tinha o meu trabalho enquanto treinador dos guarda-redes sub-19, que estavam no Campeonato Nacional de juniores.

Quando disseste ao teu pai que não querias jogar mais, o que é que ele te disse?
Apoiou-me, claro. Se era aquilo que queria, ele apoiava-me. Sem dúvida que desde aí e até ao dia de hoje tem sido sempre um grande apoio, é uma pessoa com quem converso diariamente sobre todos os assuntos, é um pilar que tenho e que me ajuda muito, pela experiência que ele tem de futebol.

Que mitos ainda há para desmistificar em relação aos guarda-redes, além do antigo "o gordo vai à baliza"?
Acima de tudo, acho que é preciso ressalvar o gosto. Para ser guarda-redes, tem de se gostar muito da posição. Quando isso acontece, é muito prazeroso. Acho que é uma posição muito específica, digamos que de certa forma somos especiais, por isso temos de ter um prazer enorme naquilo que fazemos, no calçar as luvas. Eu quando estou a calçar as luvas para ir para o treino fico a rir-me, porque é algo de que gosto, faz-me sentir bem, realizado. Temos de ter paixão por aquilo que fazemos.

Quando eras jogador quem eram as tuas referências?
O homem que me fez despertar o gosto pela baliza foi o Buffon, sem dúvida alguma. Acho que é um clássico [risos]. Em Portugal, o meu guarda-redes de eleição sempre foi o Moreira, tinha posters dele no meu quarto. Houve uma festa de anos em que pedi ao meu pai para ele ir e fiquei muito triste quando ele não foi [risos]. Hoje posso dizer que é uma honra ser amigo dele.

E em termos de treino específico de guarda-redes?
O Vital [treinador de guarda-redes do Sporting CP] que é, sem dúvida alguma, o melhor a nível nacional. Claro que sigo outros treinadores e mantenho contacto com eles, mas gosto muito do trabalho do Vital.

Porquê?
Vejo algo no Vital, e também já tendo falado com guarda-redes que trabalharam com o Vital, especial, que é conseguir no mesmo treino e no mesmo exercício, de forma excelente, fazer as coisas de maneira diferente para os diferentes guarda-redes, de modo a trabalhar no mesmo contexto o ponto mais fraco do guarda-redes nessa situação. Isso torna o treino muito mais completo para todos e isso é muito bom, é algo que eu também tento fazer.

Além do treino específico, obviamente, hoje em dia o guarda-redes já é mais integrado no treino conjunto?
Claro que existe ainda o treino específico, mas nós preparamos em conjunto com a equipa técnica aquilo que estará definido para o microciclo. Nós programamos para o trabalho específico mas é tudo preparado em relação à semana de jogo. Neste caso, aqui, é difícil observar o adversário, não temos como fazê-lo, mas normalmente tentamos fazê-lo. Depois há a integração com a equipa e aí claro que também tenho intervenção, estou a dar feedback para o guarda-redes melhorar, tendo em conta a forma de jogar da equipa.

Atualmente fala-se muito da nova necessidade de ter os guarda-redes a saber jogar mais com os pés.
Acho que isso acaba por ser muito importante, sim. Porque torna o guarda-redes muito mais completo, acaba por ser um atleta que dá uma opção de saída. Por exemplo, numa saída a três, em vez de estarmos a baixar o 'seis', jogamos com o guarda-redes. É muito importante ele ter qualidade para isso, assim começa a dar equilíbrio à equipa e o guarda-redes participa cada vez mais no jogo. Hoje em dia no alto rendimento o guarda-redes está cada vez mais integrado no sistema e nos modelos.

Como é que foste parar à Índia, na tua primeira experiência fora de Portugal?
A seleção da Índia surgiu a partir de um convite do mister Hugo Martins, uma pessoa por quem tenho um carinho especial, falo muitas vezes com ele. Foi uma experiência mesmo muito enriquecedora.

Chegaste a ir para a Índia?
Não, não cheguei a ir lá, porque fizemos estágios pela Europa: França, Itália, Hungria, Espanha... Andámos um pouco por toda a Europa para fazer jogos amigáveis e jogar contra outras seleções, de forma a preparar o Mundial sub-17.

É difícil ter uma comunicação específica com os guarda-redes em inglês?
Não, torna-se fácil. É assim, aqui na Arábia acaba por ser mais complicado, porque só temos um ou dois miúdos que falam inglês e têm de ser eles a traduzir. Mas tenho andado a aprender algumas coisas em árabe para melhorar a minha comunicação, porque isso ajuda muito no treino. Já consigo dar muitos feedbacks em árabe e isso ajuda na rapidez da compreensão dos guarda-redes. Também temos uma pessoa na equipa técnica, o fisioterapeuta, que faz de tradutor quando é preciso.

Em caso de dúvida, é insha'Allah?
[risos] É, insha'Allah, é se Deus quiser. Aqui usam muito o "insha'Allah tomorrow", que é uma espécie de 'se Deus quiser, será amanhã', mas depois nunca é feito. Ou é feito mas passado uma semana. As coisas aqui andam mais devagar. Pedes um papel hoje e tens o papel daqui a três ou quatro dias.

Como é que foste parar à Arábia Saudita?
Este é o meu segundo ano de Arábia Saudita, no ano passado estive no Al-Wehda, um clube da grande cidade religiosa muçulmana, Meca. Fui com um grupo de 10 treinadores portugueses para lá. Depois terminou a época e não houve oportunidade de renovar contrato, mas este ano, por intermédio de um treinador português que veio para cá para a Arábia, acabei aqui no Al-Faisaly. Ele mandou-me uma mensagem a perguntar como era vida aqui, porque vinha para cá e estavam a precisas de treinadores. E eu disse-lhe que se precisava de treinadores, eu estava disponível [risos]. Portanto tenho de agradecer ao meu colega Jorge Correia pela ajuda, assim como ao senhor Jorge Pereira, que conseguiu esta ligação ao clube. Vou ser sincero: eu gosto muito da Arábia Saudita, gosto muito de viver neste país, sinto-me bem. É um país super seguro, calmo...

Mas tem alguns problemas em termos de direitos das mulheres, por exemplo.
É verdade, mas está a melhorar cada vez mais, já se vê mulheres a trabalhar e a conduzir. Penso que se está a tornar um país melhor. Eles têm um projeto, que é o 2030, porque até 2030 querem tornar a Arábia Saudita mais liberal, um pouco como o Dubai, com mais espaços verdes, que aqui há muito deserto, e com mais abertura, em geral.

DR

Estás nos sub-19 do Al-Faisaly?
Sim, nos sub-19, jogamos a Superliga de sub-19.

E como é o nível competitivo?
É um nível alto. As equipas têm qualidade, ao contrário do que se possa pensar. Os atletas têm muita qualidade técnica e, cada vez mais, com chegada de mais treinadores estrangeiros, começam a ter mais conhecimento tático, o que vai aumentando o nível das equipas.

Eles conhecem jogadores e treinadores portugueses?
Conhecem, claro que conhecem o Mourinho, o Marco Silva, treinadores que acompanham mais. Eles acompanham muito a Liga espanhola, a Liga inglesa e conhecem os portugueses dessas Ligas, assim como os portugueses que vêm para a Arábia.

Como é a tua vida aí?
Eu vivo num aparthotel, com os restantes treinadores, temos um T1 para cada um. O campeonato já começou, portanto ultimamente tem sido mesmo casa-treino e treino-casa.

Como gerem a questão da covid-19?
Claro que há, estamos a falar de um país com 33 milhões de habitantes, não é? Continua a não haver adeptos nos jogos, por exemplo. As medidas de segurança são para seguir à risca. Aqui na Arábia tudo o que é regra é para cumprir. Usamos máscara, desinfetamos as mãos nos balneários, mesmo a viajar para os jogos fora, no avião, têm sempre o cuidado de nos dar um pack de máscaras, álcool gel, toalhitas... Nisso têm todos os cuidados de higiene.

Alguma vez sentiste alguma desconfiança, por aí ou antes, relativamente à tua idade?
Não, nada de especial. Sinto-me completamente seguro com isso. Sou uma pessoa que gosta de aprender, estou constantemente a querer saber mais, porque um dia vamos partir e não vamos saber tudo, mas tento aumentar o meu conhecimento, falando com treinadores de guarda-redes e partilhando ideias. Acho que isso é essencial para um treinador. Aqui na formação temos várias treinadores portugueses e é ótimo para partilharmos experiências sobre os jogos e sobre os treinos. Às vezes sentamo-nos a analisar jogadas e a partilhar ideias. Com a experiência que já tenho, a idade acaba por ser apenas um número. Nós vivemos de experiências, somos aquilo que bebemos. Acho que a idade não é uma barreira.

Mas referia-me a outras pessoas, se já tinham ficado de pé atrás em algum clube.
É claro que às vezes sei que as pessoas olham: "Este gajo só tem 24 anos, o que é que este gajo está aqui a fazer? Ele tem idade é para jogar à bola, não é para treinar" [risos]. Já aconteceu ter alguns projetos em mão e eles acabarem por fugir devido à minha idade. Mas é estar a julgar um livro pela capa. Podemos não gostar da capa mas gostar do conteúdo, que é o que importa. Acho que isso que importa cada vez mais, mesmo no futebol. Ainda agora, porque é que o João Félix é contratado por €120 milhões se ele só tem 18 anos? É o potencial e a qualidade de trabalho do atleta que faz com que ele valha aquilo. Não estou a dizer que valho €120 milhões, atenção [risos]. Estou é a falar da idade. A idade não pode ser um entrave para nada. Se as pessoas têm competência, tenham 20 ou 50 anos, devem ser vistas como competentes.

Que objetivos tens para a tua carreira?
Um dos objetivos que tenho é, sem dúvida, chegar à I Liga. Claro que há ligas em que gostava de treinar, são sonhos e quero concretizá-los. Trabalho para isso todos os dias: acordo com um sorriso na cara porque vou fazer o que gosto. Nós que somos profissionais nesta área devemos estar gratos por podermos acordar com um sorriso porque vamos fazer aquilo de que mais gostamos. Somos uns privilegiados por isso. Um dia a oportunidade chegará.

Para acabar: quem é o melhor guarda-redes do mundo?
[risos] É aquela discussão eterna. Existem guarda-redes com características diferentes e isso faz com que essa discussão seja sempre eterna. Mas eu gosto muito do Neuer e gosto muito do Oblak também, portanto logo aí falamos de dois guarda-redes muito distintos. Voltando ao que dizia há pouco, estes são guarda-redes que completam as equipas em que estão e que têm uma qualidade enorme. Mas, se me perguntares só por um, neste preciso momento, para mim, Oblak.