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Domingos: “Levava muita porrada. Usava caneleiras de carbono do tornozelo até ao joelho que não duravam uma época: partiam com os pitons”

Este sábado houve FC Porto-Sporting e Domingos Paciência, que jogou no primeiro e treinou o segundo, dá a sua perspetiva. E a conversa discorre sobre como o futebol mudou de então para cá, como os futebolistas de hoje são mais protegidos que antigamente, as técnicas de intimidação da altura e, claro, o que esperar da equipa de Conceição e de Amorim

Hugo Tavares da Silva

FABRICE COFFRINI

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O que gosta mais de lembrar daqueles clássicos dos anos 90?
Do público, do ambiente. Daquilo que se vive dentro de um estádio, o antes e o depois. O nervosismo, a ansiedade. Acho que são momentos que nos marcam como jogadores e também como treinadores.

Entre 93 e 96 marcou oito golos ao Sporting e resolveu três clássicos em Alvalade. O pé estava mais afinado nessas tardes? Gostava especialmente de marcar ao Sporting?...
Não [risos], não era uma questão de marcar ao Sporting. Acabaram por ser coincidências. A forma como eu encarava os grandes jogos era de acreditar muito no meus valor, e não deixava de fazer aquilo que fazia durante o ano todo, durante os treinos todos. Foi isso que fez de mim muito igual mesmo nos jogos grandes. Evidente que marquei mais golos a outras equipas, mas são esses que ficam para a história, são os grandes jogos.

Tem ideia se marcou mais golos a outra equipa?
Não sei… Com Benfica também acho que fiz oito ou nove golos, em Supertaças, campeonatos, Taças. Também são uns poucos.

Na época que começou há 25 anos, em 95/96, houve sete clássicos e o Domingos até bisou em três deles. Já tinha algum tratamento especial dos centrais, não? Quem é que foi o mais duro?
É assim, a minha de jogar nunca foi de me dar muito à marcação dos centrais, por isso é que criava alguma confusão na cabeça deles. Lembro-me que na altura o Sporting tinha bons centrais. O Sporting sempre teve muita qualidade, com centrais de grande qualidade, como Peixe, o holandês, o Stan Valckx, o André Cruz... Teve sempre bons centrais. Pela minha forma de jogar acabava por não ser muito massacrado pelos centrais.

Até no nacional de juniores resolveu um título em Alvalade, não foi?
Sim, esse ficou-me na memória. Marquei aqui no Estádio das Antas e no Estádio de Alvalade. Quando fiz o golo, o calcanhar da bota tinha saído, por pressão de algum defesa, e depois acabei por chutar a bota, a festejar, mandei-a para o ar com um pontapé. Lembro-me como se fosse hoje. Foram dois jogos com o Sporting que marcaram a minha carreira de junior. Dois grandes golos, creio que foram fora da área e no ângulo da baliza.

A única expulsão na carreira foi no estádio…
De Alvalade. Foi com o Fernando Santos, tinha acabado de me tirar. Eu acabei por protestar uma falta ali junto ao banco e acho que é o Isidoro Rodrigues, o árbitro, que me expulsa. Só houve dois árbitros na minha carreira, quer como jogador quer como treinador, que me expulsaram: o Isidoro Rodrigues em Alvalade, como jogador, e o Olegário Benquerença, como treinador, no Leixões. Nunca tinha sido expulso.

Hoje como treinador perdoava o Domingos jogador por esse comportamento?
Nunca fui mal-educado, nunca insultei os árbitros nem nada. A questão é que às vezes os árbitros também têm de ter um bocadinho de sensibilidade, porque estamos num momento de grande stress, adrenalina e pressão. Mesmo com um gesto menos bom, às vezes, há formas de o árbitro resolver as situações. Por exemplo, eu gostava dos grandes árbitros que nos apitavam, com quem tínhamos boa relação, que nos tratavam pelo nome, falavam de uma forma mais cordial, sempre conseguiram gerir melhor os jogos.

Já falou abertamente sobre aquela quase transferência para o Sporting, em 99, quando um telefonema de Pinto da Costa mudou tudo. Há alguma história ou capítulo por contar dessa história?
Isso aconteceu, é verdade. Ficou tudo até à última da hora. Quando voltei [para o Porto], os termos do contrato, quer o meu, que foi mais fácil, quer com o Tenerife, foi de uma pressão enorme para mim e para a minha mulher. Até às 21h30, 22h, a apresentação do Porto estava a ser feita e eu estava ainda a assinar contrato, a equipa já estava a jogar, e eu num gabinete lá em cima, à espera do OK do Javier Pérez, o presidente do Tenerife. Aquilo foi uma correria, saí lá de cima, equipei-me, entrei no estádio e fui marcar um penálti e ainda por cima falhei. Foi uma coisa impensável, porque já não acreditava que ia ser apresentado, muita gente já tinha ido embora do estádio. Jamais vou esquecer esse episódio.

Se essa transferência para o Sporting tivesse acontecido, teria vivido aquela festa do título 18 anos depois. Pensou nisso na altura?
Se calhar, se calhar. O Sporting estava a fazer uma grande equipa, e não há dúvida que fez uma grande equipa. Mas eu acho que, não retirando o mérito ao Sporting, perdemos o campeonato em Faro, estivemos a ganhar e fomos empatar um jogo.

Depois de marcar tantos golos ao Sporting sentiu alguma estranheza quando entrou em Alvalade como treinador?
Não, sempre me senti muito acarinhado pelas pessoas do Sporting, pelos adeptos. Sempre que tive oportunidade de ir a Lisboa, as pessoas trataram-me bem e reconhecem valor no que fiz. Já lá tinha ido fazer um jogo de solidariedade e já na altura me acarinharam muito. Sinceramente, adorei, adorei. Foi cinco estrelas o tratamento que tiveram comigo em Alvalade.

Em termos de cultura de clube, havia muitas diferenças entre Sporting e Porto?
Sim, isso era [diferente]. Não deixava de ser um clube organizado mas a velocidade com que se faziam as coisas e se trabalhava era diferente. Acho que a diferença entre o Porto e o Sporting é que as coisas acontecem mais rápido e com organização. No Sporting as coisas acontecem mais lentamente, foi isso que senti.

O único clássico com o FCP em Alvalade ficou 0-0...
Sim. Estávamos a fazer uma grande equipa, tivemos uma série espetacular. Foram 16 jogadores novos que entraram de vários países. Esse jogo foi um jogo equilibrado. Mas fiquei sempre com um sabor amargo, como é lógico. Uma coisa é o amor desde criança, desde que me formei, a um clube, onde cresci e vi crescer, que é o Futebol Clube do Porto; outra coisa é ganhar as pessoas de quem eu gosto e que estão a trabalhar comigo naquele momento, é assim que interpreto a minha profissão, que no fundo cria laços de amizade, e fazia com que as pessoas à minha volta ganhem, era isso que eu queria que o Sporting fizesse. Outra coisa é o clube do meu coração, que eu respeito pelo meu passado e pelo que é.

O que é que pouca gente sabe desses tempos de Sporting?
Houve ali alguns erros em algumas contratações. Houve muitos bons jogadores que vieram, como o Schaars, Wolfswinkel, Elias, Insúa, o próprio Onyewu, o americano, acho que houve ali outros que ficaram um bocadinho aquém do que se esperava. Sabíamos que quando se fazem tantas contratações vai haver uma ou duas que não funcionam. O próprio Carrillo demorou o seu tempo, mas veio-se a confirmar. O Arias, que infelizmente teve agora uma lesão grave, mas via-se que era um miúdo com muita qualidade. O único que não se conseguiu impor foi o Jeffren, que veio do Barcelona, com muitos problemas físicos. Foram jogadores de seleção que vieram para o Sporting. Acho que não houve tolerância e paciência para aguentar e acreditar no projeto a dois anos, com a eliminação na Taça da Liga, que foi o que ditou a minha saída do Sporting. Foi a precipitação do Godinho Lopes, que achou que a Taça da Liga era importante para o Sporting. Foi essa a precipitação que ele teve. E deu-me a entender, já me encontrei com ele depois, que se arrependeu da decisão que tomou.

Desde que vê futebol que Porto e Sporting é que apreciou mais?
Apreciei o Sporting do Carlos Queiroz [93/94], que era Figo, Balakov, Paulo Torres, Juskowiak, Iordanov, Filipe, Peixe… Acho que era a melhor equipa do Sporting. Levámos um massacre em Alvalade. Ganhámos 1-0, com aquele golo aos 7’, mas o Sporting jogou muito. Essa equipa jogava muito à bola. A nossa arma mais forte, o que fez com que ganhássemos esse jogo, na parte defensiva, era sermos muito fortes em termos de compromisso. Foi isso que ganhou em Alvalade. O melhor Porto para mim foi aquele Porto com a dupla Domingos e Kostadinov [risos]. Acho que era um Porto com muita facilidade em construção e chegada à baliza. Esses anos de Bobby Robson, Artur Jorge e Carlos Alberto Silva [início dos anos 90] acabam por ser a construção do penta. Acho que era melhor equipa na minha opinião.

O que gosta mais neste FCP e neste Sporting?
O que gosto neste Porto é a capacidade de trabalho que está bem visível. Quer sempre jogar a um ritmo alto. É difícil descrever este Porto em termos de qualidade porque tem mudado todos os anos, não é fácil nem para treinador e jogadores. Há jogadores que saem, outros que entram. Aquilo que mais admiro no Porto é isso, o compromisso forte que tem, ligado à forma de pensar de um treinador. É uma equipa que procura chegar muito rápido à baliza. O Sérgio [Conceição] gosta de velocidade e ele procura incutir essa velocidade em todos os momentos do jogo.

Jogou com o Sérgio. Como é que ele era?
É a imagem da equipa do Porto. O Sérgio é obcecado pela vitória, por ganhar. Faz tudo para ganhar, no antes e depois do jogo, e isso faz sempre com que esteja num estado de pressão, de stress, de adrenalina. O Sérgio é isto. É uma pessoa que tem um coração muito grande, que faz bem a muita gente e é um amigo fora do futebol. Vive o futebol, às vezes, demasiado, mas também fruto do seu crescimento e do seu passado faz com que seja assim, que seja essa a forma de estar no futebol e também na vida.

Como eram aquelas posses de bola, no treino, com Fernando Couto, Jorge Costa, Paulinho Santos e Sérgio Conceição?
Bom… isso começava logo na escolha das equipas. Era difícil porque queríamos ter uns para dar porrada e outros para jogar [risos]. Era um bocadinho do equilíbrio de raça com qualidade, os jogos eram muito renhidos. Quem perdesse ficava com uma azia enorme. Quem ganhava fazia uma festa de forma a que os outros ficassem revoltados com o que aconteceu. E isso levava-nos já a pensar no próximo treino e no próximo jogo.

E que gosta neste Sporting?
Sinceramente ainda não consigo ter uma ideia. Tenho visto que há jogadores que podem fazer a diferença, ainda agora o Nuno Mendes, que fez o golo, tem muita qualidade. Sinto que há bons jogadores, o Matheus no meio campo, o próprio Jovane. O Sporting está a querer construir uma equipa num sistema que eu gosto, já tive a oportunidade o usar, quer na equipa B do Porto e no último clube onde estive, em Belém. Quanto mais equipas jogassem assim melhor seria para o futebol. Mas acho que contra os grandes poderá ter algumas dificuldades em função dos corredores, no aproveitamento dos espaços nos corredores. Acho que o Rúben [Amorim]está a tentar implementar uma ideia, está a tentar fazer com que o Sporting tenha uma identidade. É evidente que vimos uma identidade do Braga de 10 jogos, com o Ruben Amorim, era o mesmo género. Está a procurar o mesmo estilo. O Ruben tem um percurso a fazer, como eu fiz desde 2005, desde aí que treinei vários sistemas, tentei enraizar o melhor sistema para os jogadores que tinha e o melhor modelo de jogo. Fui experimentando vários e é isso que dá bagagem ao treinador. É essa bagagem que o Ruben Amorim vai ganhar com o tempo. A ideia dele está certa, quer fazer o Sporting com a sua identidade para assim ser mais eficaz.

O que espera do jogo de sábado?
Se olharmos para o Porto e analisarmos o Porto com Braga e Boavista, diríamos que o Porto era o favorito. Perdeu agora com o Marítimo e de certa forma pode ter tirado alguma confiança, mas o Porto é uma equipa com a estrutura da época passada, acredito que o Sérgio vá mexer pouco, é naqueles que ele acredita. Do outro lado, temos a expectativa que o Sporting possa sempre fazer um jogo de superação, diferente, um jogo em que consiga ter o controlo. Numa fase inicial, como disse há pouco, o Sporting tem mostrado coisas boas, como em Paços de Ferreira e Portimão, mas também mostrou coisas menos boas contra o Lask Linz. É essa irregularidade que pode ter este Sporting.

Como ex-avançado, gosta de algum jogador dessa posição dos dois clubes?
Neste momento, o Sporting até está a jogar com dois na frente. Eu diria que o Jovane é um jogador que eu gosto. O Marega... e não é dizer mal do Marega, mas como treinador e jogador gosto de determinadas características que são os jogadores tecnicamente evoluídos, sabemos que o Marega não é tecnicamente evoluído. Por isso é que se calhar a minha escolha vai para um jogador mais tecnicamente evoluído, que é o caso do Jovane Cabral. Agora, não sei se o Sporting vai apostar neste momento num João Mário perto do Jovane Cabral…

Os clássicos dos anos 90 eram mais rasgadinhos. Tem a ver com os clube terem mais referências na altura?
O Porto quase que obrigava as outras equipas a serem como nós. A nossa capacidade de trabalho era a base do sucesso e todas as equipas, para nos conseguirem ganhar, tinham de nos igualar nessa capacidade de trabalho. Depois, os jogos eram mais renhidos porque a abordagem a cada lance era sempre para ganhar, por isso tínhamos jogadores com determinadas características dentro da equipa que incutiam isso. Agora, há outra coisa que temos de realçar: o futebol mudou, está mais protegido, com as câmaras, leis e regras que mudaram. O futebol ficou muito mais protegido do que antigamente. O jogo psicológico, que se fazia muitas vezes dentro de campo, hoje os jogadores não fazem, porque há câmaras a filmar, metem-se micros junto ao relvado. Só para dar um exemplo: os nossos defesas, quando havia um jogador que ia para lá fazer os seus malabarismos e aquelas coisas mais tecnicamente evoluídas, havia logo ali um problema. Um dos nossos jogadores dizia logo: “Olha, eu não vou estar aqui a ser o palhaço da corte, vais deixar de fazer isso à minha frente. Se vens para cá com esse tipo de fintas, vais passar mal…”. Era assim, havia um tipo de jogo psicológico.

Com essas mudanças e proteção, o Domingos seria mais implacável e goleador?
Não tenho dúvida que… eu nem queria estar aqui a … eu tinha uma facilidade de drible muito grande em relação aos adversários, no pára-arranca, no jogo de corpo, no passar o pé por cima da bola, nas vírgulas, nessas coisas todas. Era evidente que eu antes fazia, mas levava muita porrada. Eu usava umas caneleiras de carbono desde o tornozelo até cá acima ao joelho. Essas caneleiras não duravam uma época, partiam mesmo, por causa dos pitons que batiam. Era impressionante. Hoje, os jogadores jogam com uma caneleira do tamanho de um feijão verde, aquilo não cabe na cabeça de ninguém. Mas porquê? Hoje são protegidos: câmaras, videoárbitro. Antes havia entradas que quando estou a ver um jogo na RTP Memória até me dá dó. É totalmente diferente.

Acho que era o Hugo Sánchez que chegou a usar caneleiras à frente e atrás…
Sim. As nossas caneleiras que faziam de carbono na altura, quem as fazia era o Nelo, ali em Vila do Conde: faziam primeiro em gesso, faziam o molde da nossa perna e era até ao joelho. Só não passava do joelho porque ainda não tinham descoberto se calhar um encaixe de mobilidade para o joelho… Aquilo vinha mesmo até cá acima. Era assim mas tinha de ser assim.