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Edmilson: “No FC Porto havia mais intensidade nos treinos, jogadores que eram amigos a pegarem-se. Vi muita coisa ali, vou-te falar...”

Foi uma entrevista acelerada, pois o presidente do Espírito Santo Sociedade Desportiva estava num corre-corre, como se diz por lá, a tentar contratar jogadores com um prazo apertado. Em dia de Sporting-Porto (20h30), o último homem a marcar com as duas camisolas em Alvalade conversou com a Tribuna Expresso

Hugo Tavares da Silva

MARCEL MOCHET

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Como eram aqueles clássicos entre Sporting e Porto nos anos 90?
Eram jogos grandes em que todos os jogadores gostam de jogar. É nestes jogos que você aparece e graças a Deus sempre procurei fazer o melhor para aparecer bem e ajudar o clube em que estava.

Quando falei com Domingos [AQUI], ele disse-me que era preciso caneleiras até ao joelho e que não duravam um ano. Era assim?
[risos] Sim, eram jogos muito duros. O campeonato português era bastante forte, ainda mais esses clássicos em que ninguém quer perder. Às vezes surgiam jogadas mais viris, faz parte.

Quem foi o defesa mais duro que teve pela frente?
O Marco Aurélio, quando joguei no Porto. Depois, Jorge Costa, Aloísio, Paulinho Santos [risos]...

Sabia que é o último futebolista a marcar pelo FC Porto e pelo Sporting em Alvalade? E até aconteceu em anos seguidos...
Tinha ideia que tinha marcado, mas não sabia. É uma marca boa no meu currículo. Fico muito orgulhoso por isso.

Com quem é que se entendia melhor nesses dois clubes?
No Porto, eu tinha maior afinidade com o Emerson, mas também me dava muito bem com o Drulovic, Jardel e Domingos. No Sporting dava-me bem com o central, o Marcos, e o [Ivo] Damas, que era extremo.

Quem era de longe o maior talento que viu de perto?
São muitos craques, é difícil falar, eram jogadores bons. Tanto Porto como Sporting tinham grandes equipas: Drulovic, Domingos, Jardel, Sá Pinto, João Pinto… Eram grandes jogadores. Ricardo Quaresma! Cheguei a apanhá-lo, pouco, quando ele ia subindo dos juniores. Eram craques. É uma lista infindável.

Teve concorrência para conseguir a camisola 10 do Sporting ou foi tranquilo?
Não, cheguei do Paris Saint-Germain e primeiro fiquei com a camisola número 30. A ‘10’ estava a ser usada e no ano a seguir fiquei com ela. Houve uma votação, os jogadores escolheram e a ‘10’ ficou disponível.

Era de Hadji.
Grande, grande jogador! Joguei contra ele, ganhei, perdi, realmente era um 10 fantástico. Internacional marroquino, não é?

Como foi viver a festa do título 18 anos depois?
Como costumo dizer, cada título meu, tanto no Porto como no Sporting, foi importante, sempre teve um significado especial. Como é lógico, esse título do Sporting, depois de 18 anos sem ganhar, foi mais especial ainda. Foi bastante bom, curti imenso. Foi bom dar essa alegria aos adeptos sportinguistas que tanto apoiam o clube, realmente são adeptos fanáticos que apoiam em qualquer momento. É uma pena ver novamente o Sporting há quase 20 anos sem ser campeão. Um clube como o Sporting não pode ficar tanto tempo sem ser campeão...

E o balneário era interessante. Havia Peter Schmeichel, por exemplo, que tinha sido campeão europeu há pouco tempo.
O Schmeichel era bastante difícil, sentia o jogo ao extremo, mandava sempre vir com a gente, com os jogadores. Havia atrito com vários jogadores pela intensidade do jogo dele, não gostava de sofrer golos. Mas era uma pessoa fantástica, dávamo-nos muito bem com ele.

O Edmilson também jogou com Sérgio Conceição nas Antas. Como era ele?
Hmm, hmm, sim, sim. Era outro que era praticamente o mesmo perfil do Schmeichel. Não gostava de perder, dava tudo sempre nos treinos, nos jogos também. Ele não gostava de perder. Essa filosofia passa-a agora para os jogadores do Porto. Sente muito o jogo.

Como eram nos treinos?
No Porto havia mais intensidade nos treinos. Você via jogadores que eram amigos a pegarem-se nos treinos. Quando acabava o treino, pronto, amigos na mesma, conversavam [risos]. Vi muita coisa ali, que vou-te falar…

Era quentinho.
Era bem quente, bem quente mesmo [gargalhada].

E Sérgio Conceição versão treinador, gosta?
É um grande treinador. Tem provado apesar de algumas críticas, os adeptos pegam um pouco pesado com ele. Mas tem mostrado, os números não mentem, como sempre digo. Tem mostrado que é um treinador à altura do Porto. É um treinador que gosta imenso do emblema do Porto, e ele não faz isso pelo dinheiro: o Sérgio podia estar noutros clubes com maior expressão a nível europeu e prefere estar no Porto. É a casa dele.

Quando chegou a Portugal, para jogar no Nacional, Rúben Amorim tinha oito anos. Tem alguma opinião do jovem treinador?
Tem provado pelos clubes onde passou que é um grande treinador e que essa aposta do Sporting é bastante válida. Na época passada pegou na equipa num momento conturbado e conseguiu levá-la a bom porto. Este ano espero que faça um grande campeonato. É um treinador jovem, é um treinador de futuro aí no futebol europeu.

Vai ver o clássico? O que espera do jogo?
Olha, temos jogo aqui no domingo, é provável que esteja a viajar. Se houver Internet, sou capaz de ver.

Depois de dois anos no FC Porto e três anos e meio em Lisboa, o Edmilson torce por quem?
Como sempre disse, e digo a você também, temos de respeitar os clubes por onde passámos. Joguei nos dois, então não posso torcer por um clube em particular. Vou torcer pelo melhor, que vença quem jogou melhor. OK?

É melhor não mencionar então que a fotografia do WhatsApp é no Porto...
Ahhh, mas eu meto também do Sporting, do Salgueiros, do Nacional da Madeira, meto dos clubes onde passei. Por acaso agora está no Porto [risos].

Gosta de algum jogador em especial de alguma das equipas?
É bastante difícil. O coletivo das duas é bastante bom, temos de enaltecer o coletivo das duas equipas.