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Fábio Martins: “Há equipas que ganham, mas depois espremes e pronto, ok, ganharam, mas qual jogador se mostrou? Tens de tentar jogar bem”

Foi um dos destaques do surpreendente Famalicão e estava nomeado para a equipa ideal da Liga NOS, mas acabou por ser emprestado ao Al-Shabab, da Arábia Saudita, onde o futebol é vertical, de transições e há menos espaço, garante Fábio Martins, talvez o jogador português que mais interage com adeptos no Twitter. Porque um jogador "pode ter a sua opinião, desde que com pés e cabeça", tal e qual conversou com a Tribuna Expresso sobre o jogo e futebol. Assegura que está feliz, que foi receber o que nunca lhe pagariam em Portugal e a quem diz que foi "acabar a carreira" chamou de "falsos moralistas", porque "qualquer pessoa que ganhasse 500€ ou 600€ e aparecesse alguém a dar 1.000€, 1.500€, 2.000€, trocaria também e a vida é mesmo assim"

Diogo Pombo

Fábio Martins jogou a época passada no Famalicão, por empréstimo do Sporting de Braga, que voltou a emprestá-lo esta temporada ao Al-Shabab, treinado por Pedro Caixinha

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Como correu o primeiro jogo?
Foi mais ou menos. A primeira parte boa, a segunda já foi um bocado estranha, mas tenho que me habituar, os jogos aqui são muito físicos, muita correria, muita transição, sabes? Muito pouco pensado o jogo. Não são maus tecnicamente, mas não percebem muito bem o jogo. Mas pronto, é uma questão de hábito.

Eras um dos nomeados para a equipa do ano da Liga e foste para a Arábia Saudita. Porquê?
Já falei disto várias vezes. Chega a uma altura da minha carreira, e depois do ano que fiz, em que comecei a pensar que Portugal estava a ficar curto, ou seja, ou vou para um clube grande, para um FC Porto, um Benfica ou um Sporting e, tendo contrato com o Braga, é difícil, porque para chegarem a acordo o Braga vai pedir um balúrdio por mim, ou então tentava arranjar uma solução que me agradasse, também, do ponto de vista financeiro. Porque essa parte também é importante. Estou com 27 anos e cada vez mais penso e pensava nessa parte. É importante para estabilizar a minha vida. Depois da época que fiz pus isso na cabeça. Em Portugal, como é lógico, não ganharia isto em nenhum clube, a não ser que fosse um FC Porto ou um Benfica; mas se saísse do Braga também não me iam pagar este salário. Então pronto, foi por isso que vim, claro que também "empurrado" pela ajuda do mister [Pedro] Caixinha, que me ligou e convenceu e me ajudou a tomar a decisão. Mas foi, em grande parte, pela questão financeira e não o escondo.

Que é a parte que muitas pessoas se esquecem quando discutem as transferências e as escolhas dos jogadores.
As pessoas são um pouco falsas moralistas. Senti que houve várias críticas a dizerem que fui acabar a carreira e tal. Não teve nada a ver com isso. Senti que me deveria sentir mais valorizado e valorizado, também, do ponto de vista financeiro. Senti que não devia mais nada a Portugal, que já tinha mostrado e provado o meu valor. E então tentei ir para um sítio em que conseguisse juntar a parte desportiva e financeira. As pessoas falam, mas isso é normal. Mas qualquer pessoa que ganhasse 500 ou 600 euros e aparecesse alguém a dar 1.000, 1.500, 2.000 euros ou o que seja, trocaria também e a vida é mesmo assim. Sou profissional de futebol, vivo disto, do que ganho no futebol, portanto tenho de pensar na minha vida e as pessoas têm de compreender. E mesmo que não compreendam, é indiferente, porque a vida é minha.

Tiveste noção que, indo para o Médio Oriente, poderias sair um bocado do radar?
Sinceramente, não pensei muito nisso, mas sim, senti que a ideia era essa. Hoje em dia, consegues ver os jogos de todo o lado e eles aqui até têm uma aplicação, que se chama GSA Live, em que transmitem os jogos todos, consegui pôr a família toda a ver e a qualidade de transmissão é muito boa. Quanto ao resto, foi como te disse: já tinha provado e demonstrado o que tinha a provar em Portugal e a ideia era ter uma experiência nova e ter a parte financeira estabilizada. Nem pensei muito mais, também falaram da seleção, mas não pensei nisso. O objetivo era sentir-me feliz. Vim para cá e estou feliz. Adaptei-me bem, sinto-me bem aqui, portanto, não pensei em mais nada.

Gostas de treinar à noite?
É diferente. Mexeu e custou um bocadinho durante as primeiras semanas. Treino à noite ou ao final da tarde, tipo às 18h30, depois do treino jantamos sempre no clube e vou para casa. Aproveitas pouco as manhãs, porque ainda falas com a família e vais-te deitar às 2h ou às 3h e acordas quase à hora do almoço do dia seguinte. É muito esta rotina. A minha mulher chega no domingo e, com companhia, vai começar a ser diferente. Mas tem sido quase sempre assim. Temos de lidar e perceber a maneira de viver deles. Segundo me disseram, não podem treinar de manhã porque têm uma reza às 5h, então acordam e deitam-se outra vez. Preferem treinar à tarde, nós temos que entender e adaptar-nos. Não me faz diferença treinar à tarde, é só uma questão de mudar os hábitos.

É mais complicado para um treinador, que tem de planear os treinos e os ciclos?
Acho que, se calhar, até faz sentido estares a treinar à hora em que jogas. Habituas-te já à temperatura e tal. Na Europa treinas de manhã e vais jogar à noite, que não tem nada a ver. Por aí, acho que até é melhor aqui. Quanto ao descanso é igual, treinas e jogas à noite, não tens grandes diferenças e há sempre 24 horas entre cada treino. Não é por aí.

Há bocado falavas no estilo muito vertical, de transições. Tu gostas de ter a bola, pausar o jogo, impor o ritmo. Não é um contraste?
Sim, sim, senti muito nos primeiros treinos. É muita correria, muito duelo, muito choque e muita agressividade. Vou ser sincero: não conhecia mesmo o campeonato, via de longe a longe, um jogo, um Al-Nassr contra um Al-Hilal que passa em Portugal de vez em quando, mas pensei que ia ser uma coisa mais tranquila. Que não ia ser tão agressivo, que ia ser mais de bola, não é? Que ia ter espaço. Mas é o contrário, há muito menos espaço do que em Portugal, os treinos são muito mais agressivos e tive alguma dificuldade. Tive que me habituar. Passadas duas semanas habituas-te e é o que é. Mas os primeiros tempos foram complicados. Eu, que gosto de ter bola, de pegar, parar, olhar e ver o jogo, aqui é sempre rápido e a um ou dois toques. Se deres três toques já estás a levar com a pressão e porrada.

Há muitas faltas por causa disso, em jogo?
Olha, uma coisa que senti neste primeiro jogo é que estava sempre parado por causa do VAR. Foi incrível e muito por isso. Há muito contacto e eles vão ver. Eu tive um lance em que cheguei tarde e pisei o adversário. Por haver tanto contacto, o jogo está muito tempo parado, mas pronto.

E como é jogar com o Éver Banega? Queixa-se do mesmo?
Nos primeiros dias ele disse-me precisamente isso. Que ia sentir essas diferenças, não ia ter muito espaço para pensar e jogar, porque estamos habituados a ter bola e aqui é diferente. Como é lógico, jogar com ele é bom. A experiência dele, com os títulos que tem, é sempre bom ter uma pessoa dessas ao lado, que nos ajuda a crescer.

É o melhor com quem já jogaste?
Sim, sem dúvida. Além do jogador, é a presença que é. Tu olhas e parece que está ali um símbolo do futebol. É respeitado. E a qualidade que tem é indiscutível. Os títulos que tem, as Ligas Europas que ganhou no Sevilha, claro que é um símbolo para o futebol.

O Pedro Caixinha dá-vos algum destaque pela experiência que trazem do futebol europeu?
Acho que a diferença que se nota é, sobretudo, tática. Conseguimos perceber muito mais o jogo do que eles. Nisso ainda são um bocadinho atrasados. Acho que é nisso que os tentamos ajudar, algum lance em que seja necessária uma mudança de marcação, ou quando é preciso pressionar assim em vez de assim, é nisso. Agora, o mister não faz distinção de jogadores, dá as palestras e não distingue ninguém.

Fábio Martins nos tempos de Sporting de Braga, em 2017/18.

Fábio Martins nos tempos de Sporting de Braga, em 2017/18.

Michael Campanella/Getty

Não sei se é por teres ido para a Arábia Saudita, mas tens andado mais calmo no Twitter, onde sempre falaste muito com as pessoas, o que não é nada comum ver num jogador.
Não é de todo normal. Mas sim, sinto-me bem, gosto de ter esse contacto com o público e com as pessoas que gostam de mim e me acompanham. Sei que não é normal, porque muitas vezes os jogadores são impedidos de o fazer. Temos de perceber os dois lados: o jogador, que às vezes sente que precisa e pode falar mais com os adeptos; mas também o clube, que muitas vezes intervém e não deixa, porque talvez é algo que não consegue gerir. Se estás em casa, a escrever o que quiseres, o clube não consegue gerir nem controlar. Então, acho que tem de ser uma coisa bem pensada. Havendo um diretor de comunicação que confie num jogador, que saiba que não vai dizer nada de mal... Não é ser politicamente correto, não acredito nisso. Acredito que podes ter a tua opinião, mas tem que ter pés e cabeça, tens de saber falar com as pessoas também. Havendo esse respeito e cuidado com o que podes, ou não, dizer, acho que este tipo de ligação com as pessoas nas redes sociais faz todo o sentido.

Já levaste na cabeça por dizeres alguma coisa ou tocares em certo tema?
Sim, sim, e mesmo o ano passado, escrevia algumas coisas e depois, principalmente o diretor de comunicação, o Pedro [Sá], vinha falar comigo e dizia "atenção, cuidado com a maneira como falas, fica tranquilo, fica agora uns dias sem escrever nada'". Percebes? É normal, as pessoas trabalham para o clube e tentam que não haja confusão ou alarido à nossa volta. No fundo, nós somos pagos para treinar e jogar, não é para estarmos a fazer comentários nas redes sociais, percebo isso. Mas é algo que gosto, que me sinto bem a fazer e que vou continuar a fazer. É de mim.

No Twitter, sobretudo, levas com o bom e o mau, porque há muitos índios que só veem clubite à frente.
Não é só no Twitter, no Instagram e no Facebook é igual. Hoje em dia, atrás de uma página pode estar qualquer pessoa, a fazer um comentário qualquer e tens de saber lidar com o bom e com o mau. Já houve tempos em que me chateava mais, mas agora é tranquilo; se dizem algo que não goste, ou que me ofenda, bloqueio a pessoa e pronto. Cada um segue a sua vida [ri-se].

Mas houve vezes em que até respondeste a alguém que fosse lá só para te picar.
Às vezes é engraçado, mas também há coisas que não merecem resposta, simplesmente apagas e acabou. Agora, se for algo de brincadeira ou uma picardiazinha, tranquilo, respondo e amigos na mesma, é a minha maneira de ver as coisas. Levo tudo muito na desportiva.

Era algo que discutias com outros jogadores no balneário?
Por acaso não, de vez em quando metiam-se comigo, diziam que gostava do Twitter e tal, mas não mais do que isso, não havia discussão. Lá está, é a minha maneira de ser, gosto de viver e de ter esse contacto com as pessoas que gostam de mim, não é mais do que isso.

No caso de jogadores de topo, que estão nos maiores clubes, há muitos casos em que notas que a presença nas redes sociais é gerida por uma empresa ou agência. Isso contribui para um afastamento dos adeptos?
Se calhar, mas esse afastamento também parte muitas vezes do clube, que não deixa ou que barra, e até do jogador, porque tem medo de dizer algo que seja mal interpretado. Cheguei a sentir isso: escrevia alguma coisa no Twitter e, passados cinco minutos, estava em todas as páginas dos jornais. E, às vezes, com títulos que não faziam sentido e não diziam rigorosamente nada do que estava a dizer. Um título pode mudar completamente o contexto de tudo o que disse. Por isso, acredito que haja muita gente que prefira não comentar para não arranjar esse tipo de confusões. Esse tipo de afastamento é mais por aí.

Passas muito tempo a ver futebol?
Já passei mais. Se calhar até passo mais tempo nas redes sociais e gosto muito do Twitter por causa disso, consegues ter as notícias na tua mão em segundos, sai alguma coisa e está logo lá. Sigo as páginas que me agradam mais e consigo ter as coisas rápido, é fácil, é interativo e tens o que queres com muita facilidade. Futebol, já vi mais do que vejo agora. Claro que ainda vejo os jogos de Champions ou um bom jogo português, ou inglês, mas fora isso, já não vejo nem gosto tanto de ver se uma partida entre duas equipas do baixo da tabela. Prefiro estar a fazer outra coisa, sinceramente, ver uma série ou jogar o meu FIFA na Playstation.

Costumas ler crónicas ou análises táticas de jogos?
Muita gente me faz essa pergunta. É assim, eu gosto de ver, acho interessante perceber, ou seja, o jogo acaba e tu tens noção do que fizeste. Sabes se tiveste bem ou mal. Mas gosto sempre de ter uma ideia do que as pessoas de fora acharam ou viram o teu jogo. Mas, antes de ver jornais, gosto sempre de falar com as pessoas mais próximas, que normalmente veem os meus jogos - o meu pai, o meu empresário, a minha mulher - para perceber o feedback. E depois sim, as notícias dos jornais e das redes sociais, sem valorizar demasiado, porque é a opinião de cada um e não devemos levar demasiado à letra. Mas gosto de ver, sim.

Ligas muito a estatísticas? Hoje em dia, qualquer clube mede muitos parâmetros e tem alguém para tratar dos dados.
Hoje em dia, com os coletes GPS que usamos e tal, conseguimos ter acesso a tudo e mais alguma coisa. Dou valor q.b., não valorizo também demasiado.

E és muito autocrítico?
Sim, quando acaba o jogo e sinto que não estive ao meu nível, tento perceber e rever o jogo para perceber o que fiz de errado, o que podia ter feito melhor. E fico muito na azia quando um jogo não me corre tão bem, fico mesmo chateado, faz parte, é a nossa profissão, nem todos os jogos vão sair bem, também há dias maus e temos de compreender isso.

Isso afeta-te muito a confiança para o treino e o jogo seguinte?
Já fui mais assim, quando um jogo não corria tão bem se calhar perdia um pouco de confiança. Agora não. Acho que uma das coisas importantes para um futebolista é teres confiança nas tuas capacidades, saberes o que és capaz de fazer e, lá está, dias maus toda a gente vai ter. É continuar a acreditar no que consegues fazer e o próximo jogo vai ser melhor.

O extremo terminou a época passada com 12 golos marcados

O extremo terminou a época passada com 12 golos marcados

Carlos Rodrigues/Getty

Qual é a situação de jogo em que mais gostas de receber a bola?
Prefiro jogar ali na esquerda, mas, por exemplo, aqui estou a ser utilizado como extremo, mas um extremo que joga mais por zonas interiores, entre a linha defensiva e a linha média dos adversários, sinto-me bem das duas maneiras. Mas o que gosto mais é de receber a bola de frente encarar os defesas, aquela última linha de quatro. Acho que é a maneira como me sinto melhor e que sou mais forte. Porque seguro bem a bola, tenho um bom drible, consigo tirar adversários do caminho, também consigo ler bem o jogo e colocar o último passe, remato bem. Então, a situação em que me sinto melhor é a receber de frente para encarar.

Se, nessa situação, recebes um passe e reparas que tens dois adversários em cima de ti. Qual é a primeira coisa em que pensas?
Tento, se calhar, passar a um colega que esteja melhor posicionado ou sem tanta marcação. Isso é uma decisão em que se calhar tens milésimos de segundo para fazer. Se calhar, num jogo em que estejas com mais confiança, vais para cima dos dois, acontece.

Perguntei porque, se tens dois jogadores a fechar-te o espaço, significa que haverá alguém livre na tua equipa, seja perto ou longe.
Exatamente, por isso disse que tentava primeiro encontrar um colega que estivesse em melhor posição, ou sem marcação. Depende muito da confiança e da maneira como estás a ver o jogo, daquele milésimo de segundo em que recebes e, se calhar, consegues olhar e perceber se está alguém sozinho ou se tens de te desenrascar de outra maneira.

És um extremo, mas a época passada chegaste a fazer alguns jogos em que jogaste ao meio, mais de costas para a baliza. Sentes-te confortável ali?
É assim, na maneira como jogávamos o ano passado, e esta época também sinto isso, mas em vez de haver um 10, é como se jogássemos com dois, porque os dois extremos vão para dentro, não recebia muitas vezes a bola de costas. O objetivo é tentar receber já virado para a frente, já perfilado para receber, para encarar, tentar jogar a partir daí ou fazer o último passe. E sinto-me bem. Já no Famalicão fiz uns jogos lá, acho que a maior parte até foi contra as equipas grandes, contra o Sporting e o FC Porto. E é engraçado, porque deveria ser ao contrário, mas não: quando jogas contra um grande em Portugal e aqui deve ser a mesma coisa, as pessoas de fora pensam que vamos ter menos espaço por ser uma equipa mais difícil, mas é precisamente o contrário. As equipas grandes não gostam de não ter bola, não estão habituadas a isso, então não te pressionam tanto e há mais espaço para jogares e decidires. Então nesses jogos é jogar ali por dentro, porque recebes e estás quase sempre sozinho, viras-te e decides. Lembro-me que, num desses jogos, joguei a 10 contra o Sporting, recebi e isolei o Diogo [Gonçalves], que fez golo. Um jogador que tenha uma boa leitura, que receba virado para a frente e depois consiga decidir bem, é um bom jogador para jogar nessa posição.

Quem joga ali terá de ter mais noção do que se passa à volta dele, tem de virar a cabeça e olhar muito por cima do ombro. Mas, normalmente, um extremo não é extremo também por gostar de jogar com mais espaço?
É muito diferente. Por dentro, vêm adversários de todos os lados, recebes e vem alguém da frente, de trás e dos lados. A extremo, se estiveres com as costas para a linha sabes que virão adversários da esquerda, da direita ou de frente, estás a ver tudo. É mais fácil desse ponto de vista, porque recebes a bola e estás a ver o jogo. No meio, não. Mas é uma questão de hábito, principalmente nos treinos. É como dizes: olhar por cima do ombro e ver se tenho alguém. E pensar mais rápido, por dentro não tens tanto tempo para decidir, tem de ser tudo feito mais rapidamente.

Sinceramente, quando o Famalicão ganhou seis dos primeiros sete jogos da época passada, não começaram a falar na Europa?
Nunca senti isso. A mensagem interna era a mensagem que passámos cá para fora. Sabendo que as coisas começaram muito bem, também sabíamos que não ia ser sempre assim. Todas as equipas, em todos os anos, têm altos e baixos, é normal teres uma fase positiva ou negativa, isso faz parte. Felizmente, conseguimos entrar no campeonato com uma série muito positiva, ficámos, acho, que as primeiras sete jornadas em primeiro lugar, mas nunca senti no balneário que os ânimos se exaltassem. Sabíamos o que queríamos, o objetivo primordial era garantir a manutenção o mais rápido possível e, a partir daí, garantir outras coisas. Mas, para isso, tínhamos de garantir a manutenção - quanto mais rápido a garantíssemos, mais rápido iríamos conseguir pensar em outras coisas. Sempre foi por aí. A partir do momento em que a garantimos, aí sim começámos a pensar na Europa. Fizemo-lo muito cedo, mas, infelizmente, não conseguimos a Europa por minutos [um golo no derradeiro jogo]. Mas isso não apaga a imagem e o percurso que fizemos, que foi excelente.

O Famalicão queria controlar os jogos, pressionava alto, saía rasteiro de trás e jogava assim em todos os campos. Sentias que as pessoas e os adeptos de outros clubes gostavam de ver os jogos do Famalicão?
Sim, sentia muito, e se calhar por isso é que perdíamos vantagens ou jogos, depois de estarmos a ganhar 2-0, porque queríamos sempre jogar bem. E como éramos uma equipa muito jovem, em certos momentos do jogo não sabíamos gerir nem ler bem o que o jogo estava a pedir. Lembro-me de umas quatro ou cinco vezes em que estávamos a ganhar pelo menos 2-0 e perdemos vantagens que não se podem perder. Também faz parte do crescimento de uma equipa, mas, após a época que fizemos, tivemos vários jogadores a saltarem de nível - o Pedro [Gonçalves] foi para o Sporting, o Diogo Gonçalves voltou para o Benfica e há tempos foi elogiado pelo Jesus, o Toni [Martínez] saltou para o FC Porto. E eu, teoricamente não saltando para um patamar competitivo maior, vim ganhar muito mais dinheiro do que estava a ganhar. E acho que a ideia é essa: quando uma equipa está bem e faz uma boa caminhada, toda a gente se valoriza. Para fazeres uma boa caminhada também é importante jogares bem, não é só ganhar. Há equipas que ganham, mas depois espremes e pronto, ok, ganharam, mas o que jogaram? Quem foi o jogador que se mostrou? Tens de tentar ganhar e jogar bem para toda a gente se valorizar e foi isso que conseguimos a época passada.

Essa forma de jogar ajuda um jogador a adaptar-se caso dê um salto para um grande? Porque a intenção de controlar com bola, assumir e de passar muito tempo com ela e de pressionar alto também estão lá.
Claro que ajuda. E lá está, por isso é que o FC Porto, o Benfica e o Sporting foram buscar jogadores a Famalicão, porque sentiram que eram capazes de fazer nesses clubes o que faziam lá. É lógico que ajuda muito um jogador ter um jogo com bola, é com ela que te valorizas, ninguém se valoriza sem bola. É normal.

Fábio Martins, então no Desportivo de Chaves, contra Maxi Pereira, em 2016/17.

Fábio Martins, então no Desportivo de Chaves, contra Maxi Pereira, em 2016/17.

MIGUEL RIOPA/Getty

O teu pai, o Niromar, foi jogador. Um miúdo que entre no futebol e cresça tendo um pai que foi profissional sente mais peso?
Hmmm, não, de todo. Quando era miúdo, o que sentia muitas vezes, por exemplo, era estar no shopping ou a andar na rua com o meu pai, aparecia alguém que o conhecia e sentia essa picardia das pessoas: "Ah, tens que ser melhor do que o teu pai, o teu era um bom jogador". Essas coisinhas sentia, mas nunca senti nem a pressão do lado dele, nem uma pressão extra por ele ter sido jogador. Acho que foi um percurso normal, acredito que, felizmente, nasci com esse bichinho, com os genes, com o dom, e depois foi tudo mais fácil. Quando tinha 6 anos claro que ele teve essa iniciativa de me levar às captações na Constituição, no FC Porto, mas foi a única coisa que fez. Se lhe dissesse que não queria ir, ou se fosse e não quisesse ir mais, tenho a certeza que compreenderia. É o meu caso: o meu filho tem 4 anos, já está no Dragon Force e se ele gostar e quiser seguir esse percurso, vou apoiá-lo; se não quiser, não vale a pena estar a forçar, não faz sentido e acabam por não sair valorizados com isso.

O teu pai ia ver os teus jogos todos?
Sim, eles sempre me acompanharam, o meu pai até ia aos treinos sempre que podia, na Constituição, depois passei para o Olival e, como é fechado, deixou de poder ver. Mas, muitas vezes, ficava lá à porta à minha espera, ia lá levar-me e buscar-me. Nos jogos, podendo, o meu pai e a minha mãe iam sempre, fosse onde fosse.

Também apanhaste aqueles pais na bancada que refilam com os árbitros e treinadores e dão ordens aos filhos?
[Ri-se] Havia, havia, são aquelas pessoas que não conseguem conter os ânimos e tentam dar aquele palpite, achando que estão a ajudar na bancada, a dar a tática, mas só prejudicam. Existe um treinador para isso e, muitas vezes, até confundem os miúdos, porque o treinador diz uma coisa e os pais estão na bancada a dizer outra, e fica complicado. Nunca senti isso. No meu caso, sempre que entro em campo - e ainda tenho esse hábito -, tento sempre perceber onde estão os meus pais e a minha mulher. E estou habituado a ouvir um assobio do meu pai desde miúdo, sei qual é o assobio dele, quando assobia sei exatamente onde ele está e consigo encontrá-lo. A minha mãe era mais pelos gritos do "Vai Fábio! Vai Fábio!" e conseguia ouvi-la muitas vezes quando era miúdo. Agora já não, por causa do barulho nos estádios, mas o assobio do meu pai é inconfundível, ainda hoje sei logo onde ele está.

Até certa idade, um miúdo da formação está ali para se divertir e não necessariamente para ganhar, para ter minutos e para pensar em pontos. Mas há pais que metem pressão nos filhos.
Vou-te dizer. Sempre tive o sonho de querer ser jogador, de chegar a profissional, mas acho que nunca tive a noção do que era ser um futebolista profissional até, se calhar, aos meus 16, 17 anos. Não sabia o que era. Jogava futebol, gostava de jogar futebol, sabia que tinha qualidade para chegar lá, sabia também que não basta só qualidade, mas só a partir dessa idade é começas a ter noção do que é ser profissional. E pronto, acho que é nesse patamar que percebes mesmo o que vai ser, ou não, a tua vida dali para a frente.

Viste muitos companheiros teus a ficarem pelo caminho?
Sim, muita gente que tinha muita qualidade na formação e, por algum motivo, não chega lá. Sentia muitas vezes, por exemplo, que num escalão havia alguém que dava um salto maior aos 13 anos, porque crescia mais e ficava mais forte, mais rápido, e eu era mais magrinho e fininho, mas essa pessoa já tinha crescido tudo e, dois anos depois, era eu a dar um pulo e ultrapassá-lo. Tens muito isso na formação. Também há casos de jogadores que eram uns craques na formação, chegam a profissionais e, depois, por um ou outro motivo, não conseguem. Faz parte.

Na formação do FC Porto apanhaste o Pepijn Lijnders, que hoje é adjunto do Jürgen Klopp no Liverpool. Que memórias tens dele?
Epá, era incrível. Tinha uma excelente relação com ele. Era próximo, principalmente, dos jogadores mais dotados tecnicamente, que tinham aquela coisinha. Na minha altura, ele não tinha nenhuma equipa, era mais um treinador só para performance individual. À terça ou à quarta-feira tínhamos um treino específico com ele. Por exemplo, num dia da semana ele metia os extremos só a cruzar ou a driblar, ou os avançados só a finalizar de cabeça ou em volley. Era uma coisa mesmo muito específica para a tua posição, algo que ele sentisse que tu necessitasses. Eu adorava os treinos dele, para mim era o melhor treino da semana, porque como gosto de bola e sou dotado tecnicamente, era dessas coisas que gostava, de evoluir essa parte.

Dava todos os treinos em inglês?
Ele arranhava o português, conseguias perceber o que ele queria.

Mas toda a gente gostava desse tipo de treino? Porque são individualizados e o normal, acho eu, é que os jogadores gostem é de jogar.
É assim, havia uma altura em que o FC Porto tinha um projeto interno chamado PJE, que era Potenciais Jogadores de Elite, acho eu. Numa semana chamavam uns, noutra semana chamavam outros, ou então tinham um núcleo duro de cinco sub-16, cinco sub-15 ou 10 sub-17, por exemplo, que a estrutura achava que podiam ser os próximos jogadores a chegar à equipa A. Então juntava-se essa malta toda num treino e era assim. De vez em quando mudava, ia alguém novo, mas a malta gostava, sim.

Na pré-época de 2013/14, o português esteve à experiência no Coventry, de Inglaterra

Na pré-época de 2013/14, o português esteve à experiência no Coventry, de Inglaterra

Martin Rickett - EMPICS

Vi aqui numas fotos que chegaste a ir fazer testes no Coventry City, de Inglaterra.
Foi exatamente quando saí da equipa B do FC Porto. Estava ali numa fase meio indefinida, não tinha nada, não apareceu assim grande coisa, então surgiu essa oportunidade através dos meus empresários da altura, que me propuseram isso e então resolvi aceitar. Acho que o clube estava na League One ou League Two, não me lembro bem, mas financeiramente já era uma coisa agradável para a altura. Estive lá uma semana e tal, quase duas semanas.

Como foi a experiência?
Foi a primeira experiência fora, sofri um bocadinho, foram só duas semanas, mas senti saudades da família, até porque estava lá sozinho e era uma experiência completamente diferente. Mas gostei da maneira de trabalhar, do complexo de treinos que era muito engraçado. Fiz dois ou três jogos amigáveis, até me correram bem, só que depois, pronto, o clube estava numa fase não muito boa financeiramente, estava com alguns problemas burocráticos e de secretaria também, relacionados com inscrição de jogadores. Depois cheguei cá a Portugal e acabei por ir para o Desportivo das Aves [2013/14, II Liga].

Quem são os melhores jogadores a jogar em Portugal?
É assim, com quem joguei, tenho de falar do Pedro Gonçalves, para mim é um craque e está a mostrá-lo agora no Sporting. Está a aparecer aos poucos e vai demonstrar a qualidade que tem, sem dúvida. É daqueles miúdos que é irreverente na vida pessoal e no campo, tem aquela coisa de não olhar a caras, está-se nas tintas, tanto vai para cima de um gajo do Benfica, como vai para cima de um gajo do Ribeirão, que foi a equipa que me veio agora à cabeça. Vai, é igual, fala e resmunga, parece um jogador de rua, tem essa coisa. E gosto muito também do [Rúben] Lameiras, que o ano passado não teve tantas oportunidades, começou a época a jogar, mas depois o Diogo Gonçalves também apareceu muito bem e ele deixou de ter tantas oportunidades. Para mim, é dos mais dotados tecnicamente com quem já joguei, tem mesmo muita qualidade, faz coisas que nunca vi, é incrível.

E no campeonato?
Adoro o Corona, de vez em quando ainda troco umas mensagens com ele no Instagram, é excelente, é mesmo cinco estrelas. E também gosto muito do Taarabt. Acho que é um jogador que muitos adeptos do Benfica não gostam, sinto isso nas redes sociais, porque parece ser aquele jogador displicente, que perde muitas bolas que parecem fáceis, mas é o tipo de jogador que adoro. É aquele médio que pega, carrega e arrasta a equipa com ele, conduz, dribla... Gosto muito.

Quais eram os defesas que não gostavas de defrontar?
Olha, para te dizer os contra quem tive mais dificuldade. Sem bola, passava muito mal com o Maxi Pereira e, o ano passado, também passei mal com o Mbemba, que jogou a lateral e é rápido, agressivo e chato, chato, chato. Com bola, lembro-me do Nélson Semedo, que ainda apanhei no Benfica, porque tens de andar atrás dele e é complicado. O Ricardo Pereira, também. É muito complicado para um extremo ter um lateral desses do teu lado porque também te tens de preocupar em ir atrás, porque são muito poucas as equipas que se podem dar ao luxo de ter extremos que não defendam. Então tens de ir atrás e é complicado quando tens um gajo desses, rápido e que tenha boa capacidade com bola.

Que tipo de lateral gostas de ter atrás de ti, a jogar contigo?
Principalmente, que seja inteligente. Ou seja, que saiba o momento de te passar, que te passe a bola e perceba que há momentos em que não pode passar logo, porque estás pressionado, e tens que ter um apoio por trás, para jogar. Mas gosto de um lateral que também saiba jogar, que goste de ter bola e de combinar, porque sou esse jogador, gosto desse jogo curto, de tabelas e de toques curtos. Gosto de estar envolvido numa equipa em que os companheiros à volta também gostem de jogar, porque é muito mais fácil quando tens jogadores que percebam o teu jogo.