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João Carlos Teixeira: “Olha, o Jürgen Klopp é um génio assim meio louco, sabes? O sangue deve estar a ferver nas veias dele”

O médio do Feyenoord, de 27 anos, foi formado no Sporting, passou pelo FCP do seu ídolo e ainda soube o que era vestir a camisola dos grandes do Minho. À Tribuna Expresso fala nas maravilhas que é ser número 10 na Holanda e como eram aqueles tempos no Liverpool com Klopp, Gerrard, Coutinho e Suárez

Hugo Tavares da Silva

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Os holandeses são mesmo obcecados pela técnica e em jogar para a frente?
Sim… Nota-se muito que todos querem jogar bem, todos querem praticar um bom futebol, todos querem sair a jogar. Realmente, nota-se que mesmo nas equipas pequenas isso acontece.

A cultura do treino é diferente de outros lugares onde estiveste?
Sendo muito técnico, trabalham também muito a parte física, se calhar mais do que em Portugal ou então de forma diferente. Em Portugal acabamos por correr muito mas metem sempre bola, aqui corres e tens muitas fases do treino a correr sem bola. Fazem-se muitos exercícios físicos sem bola, adequa-se um bocadinho mais a Inglaterra nesse sentido. Em Portugal, os treinadores que apanhei faziam treinos físicos com bola.

E sentias saudades da bola ou…?
No início foi um bocado complicado porque, quando acabei o campeonato em Portugal, eles já tinham acabado a pré-época, já tinham feito o primeiro ou segundo jogo do campeonato. Já levavam oito ou nove jogos de pré-epoca, eu estava com duas semanas de treinos no Vitória. Cheguei aqui e notava-se que estava atrasado em relação a eles. Depois, claro, passado um mês, com dois, três jogos, começas a ganhar ritmo de jogo.

Ficaste surpreendido com essa questão de a Holanda se parecer mais com a Inglaterra nos treinos físicos?
É assim, não fiquei surpreendido, é um país do norte da Europa, estamos ao lado de Inglaterra, à partida havia muita probabilidade de ser parecido com Inglaterra. Mas, sim, sei que aqui dá-se muito valor ao jogo bonito, ao jogador com técnica, ao sair a jogar, procuram muito isso. Nota-se até nas equipas mais pequenas, todos tentam fazer.

Nasceste em 93. O teu treinador já andava a disputar Campeonatos do Mundo em 94, não sei se sabes...
[risos] Não sabia, por acaso não sabia.

Como é Dick Advocaat?
Olha, a primeira conversa que tive com ele notou-se que tem muita experiência no futebol, nota-se que é muito bom a gerir o grupo, o balneário. A forma como fala, a forma como age, é sempre muito positivo. Mas também, ao mesmo tempo, muito honesto e sincero. Não esconde nada de ninguém e não tem problemas de dizer “não vais jogar porque” ou “vais jogar porque”. Isso, num balneário, é sempre positivo, porque a pior coisa que pode acontecer, não só a um jogador como a qualquer pessoa, é que não sejam honestos. Ele tem essa particularidade. Nota-se que tem muita experiência [ri-se, talvez lembrando a história de 94], e no fundo é uma boa pessoa a gerir o grupo, bom com as palavras. Sabe o que os jogadores sentem e o que não sentem.

O que te pede em campo?
Comecei nos dois primeiros jogos mais como número 10. Depois, nos últimos dois, já joguei mais como número 8. Depende do jogo. Tivemos a lesão do nosso número 6 e aí já tive de recuar mais um bocadinho. Mas basicamente é gerir o jogo, defender bem, atacar bem, chegar à área para poder marcar golo. Os princípios básicos de um médio, não é?

Onde é que te sentes melhor?
Gosto mais de jogar a número 10, sinto-me muito mais confortável. É a posição com que me identifico mais, dá-me mais conforto no jogo.

Entretanto fui ver a equipa de Dick Advocaat em 94 e tinha rapazes como Ronald Koeman, Frank de Boer, Rijkaard, Overmars e Bergkamp.
Não tinha uma má equipa… [risos]. Correu-lhe bem o Campeonato do Mundo?

Perdeu nos quartos com o Brasil, que seria campeão do mundo, com Romário e Bebeto.
Pois, 94...

Como é ter Robin van Persie como treinador?
Não é nada mau. Ele não está aqui a tempo inteiro, vem de vez em quando, uma, duas vezes por semana. Ele faz muito treino tático e técnico com os avançados, é uma das funções dele - trabalhar a linha da frente. É sempre positivo. Estamos a falar de um jogador top mundial, que jogou a final do mundial, não sei se jogou a final da Liga dos Campeões, mas jogou no Manchester [United] e no Arsenal. É dos melhores jogadores, se calhar, da história da Holanda e mundialmente, como avançado, também estará lá nos lugares de cima.

É o melhor a bater na baliza nos treinos, ou não?
Ahhhhm, é capaz de ser o melhor, é [gargalhada]. Ele normalmente não mostra muito, explica mais do que faz, mas às vezes entra na peladinha connosco. É sempre engraçado, não é?

Que tipo de treinos são esses? Aquelas diagonais curtas?
É, exatamente. Diagonais, movimentações… tudo muito curto. Estás aqui, o que deves fazer, para ali. Eu ainda não fiz nenhum com ele porque ele normalmente leva os extremos e avançados, mas vendo de fora dá para perceber mais ou menos o que está a fazer e, sim, são essas movimentações curtas. Se a bola vem dali, vais para ali...

Que tal este arranque no Feyenoord?
É assim, não está a ser mau porque estamos em quarto ou quinto a três pontos do primeiro, mas acredito que podíamos estar melhor, tivemos ali dois ou três jogos que as coisas não correram tão bem. Podíamos ter perfeitamente ganho os jogos, mas não o conseguimos fazer. Está a ser positivo, tivemos agora um mau resultado na Liga Europa, mas quinta-feira temos um jogo importante com o CSKA em casa. Mas estou a sentir-me bem, tive agora um problemazinho no músculo, mas já estou de volta, parei uma semana. Já estava integrado, já estava a jogar a titular. Tem sido muito bom para mim. O clube é muito organizado, nota-se que tem tudo muito bem planeado. Eles ajudam muito. Desde o momento em que pisei a Holanda, já estava tudo organizado para arranjar uma casa rápido, para fazer o meu registo na Holanda, para abrir uma conta, percebes? Têm tudo muito organizado, isso dá conforto aos jogadores, principalmente para quem vem de fora e não percebe a língua, embora toda a gente fale inglês e eu também.

Levaste a família?
Sim, sim, a minha esposa e a minha filha.

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Depois de uma época importante no Vitória, escolheste o Feyenoord. O que tinham os pratos da balança quando ponderaste a mudança?
Tenho 27 anos, estive numa fase descendente, mas na época passada correu muito bem. Foi uma fase que tive de aproveitar a oportunidade e a boa visibilidade que tive para dar um salto na minha carreira. Acredito que foi um salto importante, passar para um Feyenoord, liga holandesa, luta pelo título, jogo a Liga Europa. E é o centro da Europa, mais visibilidade, se calhar, se calhar não, mas à partida sim [risos].

É o último clube da carreira de Johan Cruijff. Há vestígios dele espalhados pelo clube?
Há umas fotos à entrada da academia, lá dentro (não é na porta principal). Há uma ou outra fotografia do Cruijff.

Como vês o nível da liga holandesa?
Como te disse, eles tentam jogar, o nível é bom. Mas tem jogadores muitos jovens e com pouca experiência, então muitas vezes cometem muitos erros. É um futebol muito diferente do nosso. Em Portugal é muito tático, as equipas fecham-se mais. Há jogadores mais experientes, temos sempre como agora o Boavista com Javi García e Rami, jogadores com muita experiência. Aqui não há tanto isso, são jovens, com o querer, técnica, envolve mais o jogador jovem, mais atrevido, mais irreverente...

E jogador da casa...
Sim, há muita aposta na formação aqui. É mais por aí, é um jogo muito aberto. É um campeonato com ritmo, muitos golos. Sinto que há muito espaço, as equipas querem jogar mais, cometem-se mais erros, há mais espaço do que aí em Portugal.

Então, a 10 estás nas tuas sete quintas…
Sim, mas fiz uma entrevista aqui e disse isso, que aqui há mais espaço para jogar e não sei quê. A outra equipa, no jogo a seguir, meteu cinco defesas, quatro médios e um avançado. Empatámos o jogo 1-1 [gargalhada].

Nunca mais dás o ouro…
Mesmo! Dei a tática e eles pumba.

Quando eras miúdo gostavas de algum jogador holandês em especial?
Gostava do Gullit. Li livros dele. Também gostava muito do Dennis Bergkamp, também tenho e li o livro dele. Era um jogador que apreciava pela classe que tinha em campo, aquela forma artística que ele tinha a tratar a bola.

Gullit deu nas vistas no Feyenoord, foi campeão com Cruijff [83/84]...
Sim, depois vai para o Milan. Eu gostava muito do Gullit, jogava de rastas, era um jogador diferente, era uma coisa mais open mind. O Bergkamp era pelo jogador que era, não havia muito nem houve idêntico a ele no futebol.

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E o teu ídolo mesmo, quem é?
É o Deco. E também tinha um fraquinho pelo Totti.

Foste para o Porto por causa de Deco?
Não, mas cresci durante aquele 2003, 2004, tinha 10 anos. Cresci a ver o Porto a ganhar a UEFA e a Liga dos Campeões. Tinha aquela equipa que tinha, cresci com isso. Campeões nacionais, com Mourinho e tal, foi nessa fase que via o Deco. E ele fazias as maravilhas que fazia, sempre foi uma referência.

Começaste no Clube Desportivo Lago. De que te lembras desses tempos?
Olha, do pelado e da chuva, são as primeiras coisas que me lembro. Clube de aldeia. Quando estava frio, nós a treinar no pelado, a bola batia e saltava… Mas recordo com boas lembranças, gostei muito de ter jogado lá, foi muito bom.

Jogaste depois muitos anos no Sporting. Como é que um jovem digere ou aceita que fez o percurso todo e não se estreou pela equipa principal?
Na altura não foi muito complicado porque eu era júnior. Na altura era o Domingos, o treinador. Cheguei a ir a jogos da Liga Europa. Fomos jogar com a Lazio, em Roma, depois tivemos um jogo em casa, com o Basileia, acredito, e também estive no banco nesse jogo. Nessa altura ainda não tínhamos chegado a janeiro e depois é quando saio para Inglaterra. Era júnior, tinha a ambição de me estrear mas, claro, estava à espera do meu momento, por isso não foi propriamente uma desilusão. Foram anos muito bons da minha vida.

Antes, nos juniores, esmagaram na NextGen o Liverpool que tinha um rapaz chamado Sterling. Foi aí que os convenceste, certo?
Sim, sim. Na altura não existia futebol internacional e nesse ano, a primeira vez que houve futebol internacional, fizeram a NextGen. O Sá Pinto era o nosso treinador na altura. Tínhamos uma equipa muito boa. Fomos a Anfield ganhar 3-0 e em casa ganhámos 5-1. Sim, foi aí de certeza que os convenci, porque não sei até que ponto me veriam se não fosse essa competição.

Esse tipo de competição, agora a Youth League, é boa para o jovem? É uma grande montra ou pode ser demasiada pressão?
Acho que nessa idade era super positivo. Estávamos habituados ao campeonato português, jogavas de semana a semana e de repente tens uma competição a meio da semana, em que tens de viajar de avião, com 18 anos, para ir jogá-la. Sentes-te quase um jogador profissional porque vais jogar a Liga dos Campeões ou a Liga Europa, tudo muito bem organizado. Acho que não havia pressão, aliás pelo contrário, era super positivo e motivador jogarmos a NextGen. E era divertido. Jogámos com o Wolfsburg no estádio deles, jogámos em Alvalade também -- na altura os juniores já não jogavam em Alvalade. Depois fomos à Noruega, fomos a Anfield. Com 17, 18 anos não íamos imaginar jogar em Anfield provavelmente. Não havia pressão nenhuma.

Dessa geração do Sporting quem é que sabias que daria certo? E quem é que te surpreendeu por não ter dado tão certo?
O João Mário era claro que ia ser jogador de futebol desde o primeiro momento que o vi na academia, porque tinha todo o perfil de quem ia ser um grande jogador de futebol. O João Mário não seria nenhuma surpresa. Quem achei que da minha geração podia ter sido um grande jogador e que tem um grande potencial é o Mateus Fonseca, que agora está no Real Massamá. Acreditava que ele podia ter chegado mais longe do que onde chegou...

Estão juntos e depois os vossos destinos mudam todos, um no Sporting, outro no Feyenoord e outro no Real Massamá. Às vezes pode ser cruel…
Sim, sim. É estranho, mas o futebol por vezes é feito de injustiças, de oportunidade. A forma como escolhemos os caminhos ou não, por sorte ou falta dela, e acabámos separados uns dos outros.

PAUL ELLIS

Dizias há pouco que jogar em Anfield com 17, 18 anos era incrível… mas depois jogaste lá com a camisola do Liverpool. Como é que foi?
Jogar em Anfield é sempre… [risos]... é engraçada a sensação de entrarmos no estádio e estão todos a cantar “you’ll never walk alone”. Mesmo estando na bancada é arrepiante, mas lá dentro é uma sensação muito diferente. O estádio a vibrar, qualquer lance e ouves o barulho “vvvvvvvv”, é ensurdecedor. Mas o “you’ll never walk alone” é das melhores coisas que já vi no futebol.

Quem é que te impressionava mais nos treinos e jogos?
Tinhas o Coutinho, que era uma coisa fora do normal. Pela técnica, por aquele toque brasileiro, sabes? O samba. Muito rápido. Depois tinhas o Gerrard, que era quase como se tivesse olhos nas costas, era impossível tirar-lhe a bola porque estava sempre muito bem posicionado, sabia sempre onde estava toda a gente. Era muito difícil tirar-lhe a bola e pressioná-lo. E depois tinhas o Suárez, que a finalizar era uma coisa absurda. Era quase como a bola viesse era como a bola ia lá para dentro [risos]. Era uma coisa absurda. Depois havia o Sturridge, que era muito bom.

E no balneário, como era Gerrard?
O Gerrard era muito tranquilo, sabes… Não grita, não está no treino a gritar com os outros porque fizeste bem ou mal, é muito tranquilo. Tenta sempre ajudar. É o capitão. Não sei qual é a definição no dicionário mas, para mim, aquilo era a descrição de capitão. Uma pessoa que ajuda, que está ali para o grupo, que orienta toda a gente, que faz a comunicação entre treinador e grupo.

Andrew Powell

Apanhaste a transição do Liverpool, hoje é o que é. Como é que explicarias às pessoas quem é Jürgen Klopp?
[Ouve-se suspiro] Olha, o Jürgen… é… é um génio assim meio louco, sabes? No sentido em que sente aquilo, o sangue deve estar a ferver nas veias dele, porque ele está sempre muito vivo, dentro do jogo. Sente aquilo, uma vibração no corpo dele que é uma coisa... É um apaixonado. E depois consegue, além disso, ter um bom relacionamento [com os jogadores]. Ele faz uma coisa que não é fácil: não tem diferenças [de tratamento] entre quem joga e não joga, trata-os exatamente igual. Tanto abraça o melhor marcador da equipa como abraça o gajo que não jogou um jogo, e fala com ele, e puxa por ele, sabes? Tem isso de bom. E depois taticamente é uma coisa absurda também [risos]. A intensidade que põe no jogo e nos jogadores, o que lhes passa, é uma coisa absurda. Vê-se pelo Liverpool, eles voam.

O que mais aprendeste com ele?
Principalmente foi isso, a forma tática como agiliza o jogo, como quer, a intensidade que põe em tudo o que faz. Isso é a maior coisa que me vem à cabeça. Depois, nos momentos de descontração, sabe ser uma pessoa super expansiva, gosta de festa, gosta de estar num ambiente diferente que não seja só futebol.

Falava-se muito no papel do adjunto na altura. Como era a dinâmica da equipa técnica?
Tinha o [Željko] Buvač, o bósnio. Na altura ele não falava inglês, mas percebi que jogou com o Klopp no Mainz alguns anos ou alguma coisa assim. Ele não dava o treino mas quando era para dar tática e tudo o mais era ele que fazia, o Klopp traduzia o que ele estava a dizer e depois explicavam o que tínhamos de fazer. Notava-se que trabalhavam em equipa.

Eles queriam implementar o gegenpressing. Lembras-te como foi?
Desde o dia 1 que falava em intensidade, a forma intensa como queria jogar, a intensidade que queria pôr no jogo. A partir daí, nos treinos, ele posicionava a equipa e dizia “vamos pressionar assim, é para ali, tu vais ali”. Passava-te toda a informação e tu, no campo, sabias perfeitamente o que tinhas de fazer.

Estás no terceiro país da tua carreira. Como tens visto que é tratada a saúde mental dos futebolistas por onde tens passado?
Eu acho que tive sorte de jogar em clubes em que sempre fui muito bem tratado, tanto em Inglaterra como em Portugal e agora na Holanda. Nota-se que as pessoas que trabalham no clube se preocupam com o jogador, com o bem-estar, se estás bem, se estás mal. Ao mesmo tempo acho que isso é muito trabalho do treinador, porque o treinador consegue ver se o jogador está bem ou mal. Para já, tenho tido sorte de ter pessoas que me trataram bem e se importaram comigo.

Em que aspectos é que a pandemia te afetou?
Tivemos de parar o campeonato. O mundo está um bocadinho a meio gás. E, claro, não é positivo… tenho uma filha de dois anos e meio, é um bocadinho assustador de certa forma. É mais por aí, não se pode sair de casa. Aqui os restaurantes também estão fechados, é só take-away. Vivo uma vida mais caseira e, ao mesmo tempo, em espaços abertos. Aqui há muitos parques, usufruo mais disso do que de ir beber um café ao centro da cidade.

Vai ser estranho daqui a 20 anos explicares à tua filha estes tempos, não?
Ela se calhar não se vai lembrar, é muito pequenina, mas espero contar-lhe que passou muito rápido [risos].

Definiste objetivos para esta época?
Sim, o objetivo é fazer o máximo de jogos que conseguir. O ano passado fiz 30, espero este ano passar esse número. Melhorar os meus números individuais também e, se possível, conseguir algum título interno.