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André Geraldes: “Sou nascido e criado na Amadora. Lembro-me da festa que foi na Amadora naquele dia da conquista da Taça de Portugal”

Depois de ter festejado a subida do Farense à I Liga, André Geraldes trocou Faro pela Amadora, num regresso à cidade onde cresceu, e ao clube onde o pai jogou, com um objetivo simples: voltar a pôr o Estrela, agora no Campeonato de Portugal, "na I Liga, a fazer aquilo que me lembro que o Estrela fazia quando era mais novo: a bater o pé aos grandes", explica em entrevista à Tribuna Expresso

Mariana Cabral e José Fernandes

André Geraldes, que já esteve no Farense e no Sporting, é o presidente da SAD do Estrela

José Fernandes

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Depois de ter sido diretor desportivo do Sporting e administrador da SAD do Farense, André Geraldes voltou ao "clube da terra" para cumprir dois sonhos: ser presidente de uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD) e relançar o antigo Estrela da Amadora, agora novo Club Football Estrela, depois da fusão, em julho, com o Club Sintra Football.

A junção com o ex-clube sintrense e a criação de uma SAD, efetivada em julho com 92% dos votos dos sócios a favor, permitiu ao Estrela ascender ao Campeonato de Portugal e a André Geraldes tornar-se presidente da SAD que tem Francisco Lopo como investidor maioritário.

Para já, a época não podia correr melhor ao Estrela, que soma cinco vitórias em seis jogos na série G do Campeonato de Portugal, e que joga esta quinta-feira a 3ª eliminatória da Taça de Portugal, curiosamente frente ao Farense, ex-equipa de André Geraldes e, também, a equipa perante a qual o Estrela ganhou a única Taça de Portugal do seu palmarés, em 1990.

O objetivo do novo Estrela, segundo André Geraldes - que foi recentemente ilibado do caso Cashball -, é claro: "O que sonho para o Estrela é voltar a vê-lo nos palcos da I Liga."

Qual a sua primeira memória sobre o Estrela da Amadora?
A minha primeira memória é vir aqui ao estádio ver o Estrela com o meu pai, porque nós somos aqui da Amadora. Sou nascido e criado na Amadora. Desde muito pequenino, cinco ou seis anos, sempre andei aqui perto, a viver o Estrela, como quase todos os habitantes da Amadora. É um histórico, um clube de I Divisão que batia o pé aos grandes, aqui neste estádio. A memória que tenho é a de um clube pujante, que contava muito para o futebol português e que tem uma massa associativa muito aguerrida e muito fiel.

Hoje isso ainda se mantêm, mesmo depois do término e do renascimento do clube?
O Estrela infelizmente esteve desaparecido durante uns anos, sem a visibilidade que é necessário ter para um clube desta dimensão. É óbvio que houve um conjunto de pessoas que tentaram sempre não deixar o Estrela falecer, mas esta revitalização vem trazer de novo ao futebol português e à Amadora aquilo que as pessoas sempre quiseram, que é ter um Estrela competitivo, organizado, estruturado e profissional. Foi isso que tentámos fazer aqui. Quando nos foi dada, em Assembleia Geral, a confiança dos associados do clube, com 92% dos votos favoráveis para a constituição desta Sociedade Anónima Desportiva, o nosso objetivo era sempre manter a identidade do Estrela da Amadora, revitalizar o Estrela da Amadora, com o fim de atingir aquilo que o Estrela já foi no passado. Queremos trazer de volta a vida e a força que o Estrela tinha no passado, em muito pouco tempo, através desta fusão com o Sintra, que possibilitou o Estrela poder ser revitalizado e inserir-se já no Campeonato de Portugal, portanto a um passo de uma liga profissional. Isso permite que o Estrela tenha essa visibilidade e mesmo numa altura de pandemia sentimos esse apoio, as pessoas voltaram a juntar-se ao Estrela e a viver a força deste clube. Tentámos transformar o estádio e penso que o conseguimos: pusemos um relvado novo, apostámos muito nas nossas parcerias, mesmo numa altura complicada, houve muitas empresas que acabaram por apoiar muito este projeto. Reabilitámos muitas áreas do estádio que já estavam muito devolutas, para preparar o estádio para aquilo que é um objetivo prioritário para nós, que é voltar a pôr o Estrela nos maiores palcos do futebol português. Hoje em dia podemos dizer que se recebermos aqui o Real Madrid eles vão jogar sem problema nenhum, porque têm todas as condições para tal, tanto ao nível das instalações como ao nível do próprio relvado.

Disseram-me que o pai do André jogou no Estrela.
É verdade, sim. Jogou em todos os escalões jovens, até aos juniores no Estrela. Depois teve possibilidade de ser transferido para um grande aqui vizinho de Lisboa, o Sporting, mas na altura o meu avô não permitiu que isso acontecesse. Pode ter-se perdido aí uma bela carreira de futebolista.

E o André?
Eu não, não tinha muito jeito para isso. Tinha outro tipo de ambições desde novo, sempre escolhi o caminho da gestão. Joguei futebol mas nunca a nível de campeonato nacional como o meu pai.

José Fernandes

Lembra-se da Taça de Portugal que o Estrela conquistou frente ao Farense?
Sim. Era muito pequeno, só tinha uns cinco anos, mas lembro-me de umas luzes da festa que foi naquele dia na Amadora. A possibilidade que estas pessoas tiveram de comemorar um título deu para sentir que era um clube com uma força diferente. Com todo o respeito por alguns clubes ligados a outras zonas geográficas do país, este é especial, provavelmente os 170 mil habitantes ajudam. São pessoas muito ligadas ao futebol, que vivem muito o clube e o nosso objetivo é que eles sejam cada vez mais do Estrela e só do Estrela, deixando as segundas paixões de lado.

Depois de sair do Farense, aceita o convite do Estrela por essa ligação mais emotiva, familiar até?
Por um conjunto de razões. Quando fizemos o projeto do Farense, eram quatro anos para subir à I Liga e em duas temporadas conseguimos concretizar esse objetivo. Depois houve um conjunto de situações internas que nos fez chegar à conclusão que não havia condições para continuar, nomeadamente pela ambição que se queria para o Farense, porque algumas ideias de alguns elementos internos eram diferentes da minha. Portanto achámos por bem parar por ali o processo, embora tenha ficado até hoje com uma excelente relação com o presidente do Farense. Depois apareceram vários projetos. Este, obviamente, tem um sabor especial por ser o clube da minha terra, por ter o privilégio de poder participar na reconstrução. Para mim, profissionalmente, também acaba por ser um passo em frente, na medida em que a função que me foi entregue pelos investidores é de facto fazer a presidência da SAD e isso também era uma ambição pessoal. Acabo também por ter uma participação, do ponto de vista económico, dentro da mesma, portanto, o projeto, no seu todo, pesando as várias opções que tinha na balança, acabou por ser aquele que profissional e emocionalmente - costumo dizer que também preciso de me envolver emocionalmente nos projetos - acabava por reunir mais condições.

André Geraldes foi administrador da SAD do Farense em 2018/19 e em 2019/20

André Geraldes foi administrador da SAD do Farense em 2018/19 e em 2019/20

Gualter Fatia

Sabe o que aconteceu, por exemplo, no Belenenses e no Beira-Mar aquando da entrada de investidores nas SADs. Que garantias há que o Estrela não ficará abandonado novamente?
O que acontece muitas vezes com os investimentos das Sociedade Anónimas em Portugal é que as pessoas não conhecem os investidores, porque são investidores que não têm nenhum tipo de relação emocional com os clubes, que não são de cá, muitas vezes. Nisto das SADs, costumo dizer o seguinte: não sou defensor da perda da maioria das SADs, por exemplo nos clubes grandes em Portugal - Sporting, Benfica, FC Porto -, acho que a maioria da SAD deve estar sempre na mão dos sócios e dos clube. Mas nestes clubes mais pequenos, a única forma de se revitalizarem, muitas vezes, é efetivamente existindo um investimento externo, se não nunca vão reaparecer e renascer. Portanto há sempre um risco a correr, pelos sócios, ao aprovarem este tipo de projetos, mas é um risco que deve ser medido. No caso do Estrela, estamos a falar de investidores portugueses, a maioria do capital da SAD é de um investidor português [Francisco Lopo]. Não quer dizer que não estejamos abertos a parcerias com investidores internacionais, desde que a maioria se mantenha em capital nacional. Hoje em dia, é óbvio que olhamos para o futebol, cada vez mais, como uma indústria e isto tem de ser gerido como uma indústria, com a perspetiva de que todos os projetos em que consigamos entrar - eu pelo menos penso assim - não sejam projetos de seis meses ou um ano ou dois anos, sejam projetos a longo prazo. E mesmo que um dia não estejamos cá, sejam projetos que consigam ser autosustentáveis para estes clubes, que são históricos, não caírem. O segredo está no modelo de gestão, na forma como se consegue exigir de nós próprios e da nossa equipa, para fazer com que os projetos sejam cada vez mais autossustentáveis. Assim podem sempre continuar e não acabar. Agora, é muito difícil estes clubes que não os três grandes terem capacidade para fazer uma coisa destas sem investimento privado.

Qual o investimento feito nas várias remodelações, no relvado, no ginásio, nas instalações do José Gomes?
Não vou obviamente falar do investimento que é feito numa Sociedade Anónima Desportiva, o investimento é privado e, portanto, o que posso dizer é que está investido muito dinheiro e muito trabalho das pessoas, não só dos profissionais que estão dentro do Estrela mas também da comunidade, que de alguma forma se uniu em torno deste projeto para requalificar a casa do Estrela, que é a maior identidade deste clube, que é o estádio José Gomes.

De onde vem o retorno posterior?
O retorno será sempre pensar, como em qualquer empresa... Quem investe, investe com o pensamento de que um dia terá um retorno, seja pela venda dos ativos, seja pela possibilidade de ascender a uma liga diferente. Tudo tem de ter um começo. No Campeonato de Portugal, como sabemos, as receitas são muito diminutas.

E com a pandemia pior ainda.
Sim. Portanto, o objetivo passa por fazer um trabalho que leve o Estrela a outro tipo de divisões, tendo receitas também através da gestão dos seus ativos, a venda de jogadores, salvaguardando sempre a parte desportiva, porque o Estrela tem de ser competitivo em todos os campos e em todos os jogos que possa disputar.

Faz muita diferença subir para a II Liga ou para a nova III Liga?
Faz. Primeiro acho que a futura III Liga acaba por ser uma criação muito importante para o futebol português, na medida em que, até agora, as equipas que estavam no terceiro escalão nacional tinham uma dificuldade enorme em subir a uma II Liga. São 96 clubes para duas vagas. A criação da III Liga permite que as equipas tenham um percurso mais normal, ou seja, há um campeonato normalíssimo, de todos contra todos, e quem for o mais regular, nos dois primeiros lugares, pode ascender à II Liga. Não digo que a tarefa seja mais facilitada, mas permite que seja algo mais normal para os clubes que se organizem melhor, porque o que acontece até agora não é muito normal, é um modelo completamente anómalo e contraproducente para aquilo que é a verdade desportiva, porque não é normal uma equipa ganhar os jogos todos da fase regular e no último minuto do último jogo, porque o fiscal de linha assinalou mal um fora de jogo, perder todo o trabalho de uma época. A III Liga vem colmatar isso. A criação da III Liga faz diferença, obviamente, tal como há diferença do ponto de vista financeiro em entrar numa II Liga ou numa III Liga. Mas é preciso ter algum equilíbrio e saber que os projetos demoram o seu tempo a solidificarem-se e este não é diferente. Mesmo assim, penso que já fizemos muito em pouco tempo e estamos a caminhar para que possamos voltar aos maiores palcos do futebol português.

José Fernandes

Acredita que vão conseguir comprar o estádio José Gomes?
Acho que não há outra solução. Só é possível o Estrela continuar no José Gomes. O Plano Diretório Municipal não permite a construção de nenhum tipo de habitação aqui. Acho que para a cidade da Amadora, para a população da Amadora, para o desporto da Amadora, para o maior símbolo da Amadora, não faz sentido que não exista um entendimento entre os compradores, neste caso a nossa SAD, e os vendedores, que são os credores. Só faz sentido o Estrela continuar aqui e tenho a certeza que a boa vontade e a sensibilidade das pessoas vai fazer com que percebam que esta é a melhor e eu diria a única solução possível para que todos possam cumprir os seus objetivos. Por um lado, os antigos funcionários ressarcidos de uma parte substancial daquilo que foram as suas dívidas anteriores e o Estrela a ter a possibilidade de continuar o seu trajeto na sua casa de sempre.

Disse que no Farense tinha um período temporal de quatro anos para subir até à I Liga. Aqui também?
Não, não delimitámos prazos. Só falámos que é importante fazer isto de domingo a domingo. Não assumimos a candidatura à subida. Não temos uma declaração de um dirigente, treinador ou jogador a dizer que somos candidatos a subir ao que quer que seja. Somos candidatos a ganhar todos os jogos em que o Estrela jogue. Depois há três resultados possíveis. Agora, há taxativamente, e não vale a pena fugir disto, um objetivo, que é voltar a pôr o Estrela no lugar que é dele.

Se trocarmos Estrela por Sporting, onde também esteve, o discurso parece encaixar bem.
Bom, nós no Sporting ganhámos um campeonato nacional em 2015/16 e por uma série de circunstâncias não nos deixaram ganhar. Talvez um dia a história venha a explicar por que razão é que isso aconteceu. Mas na minha opinião fomos campeões nacionais em 2015/16.

Mas não foram, foi o Benfica.
Vamos ver o que é que o futuro nos diz sobre isso.

Falou com Jorge Jesus sobre o Estrela?
Falamos várias vezes, somos amigos, portanto falamos sobre variadíssimos temas. É uma pessoa que também está muito contente com o reaparecimento do Estrela. Sempre se assumiu um amadorense e um estrelista. Está com o nosso projeto, disse-me em privado que tem assistido sempre que possível aos jogos do Estrela - não estou a cometer nenhuma inconfidência porque ele não me pediu segredo. Também é importante para nós o apoio destas figuras do futebol português, e muitas delas passaram por aqui, porque o Estrela produziu muitos jogadores e muitos treinadores, não só para Portugal mas para o mundo. Se pensarmos um bocadinho: o atual treinador do Benfica passou por aqui, o atual selecionador nacional passou por aqui. É um motivo de orgulho e é importante que eles estejam connosco e se sintam também parte integrante deste, vá lá, reaparecimento do Estrela.

Se correr tudo como idealiza, o que espera para o futuro do Estrela?
Ter um Estrela competitivo, a jogar na I Liga, a fazer aquilo que me lembro que o Estrela fazia quando eu era mais novo, como dissemos no início da nossa conversa, a bater o pé aos grandes. Isso é muito importante para a cidade e para esta gente, para estas 170 mil pessoas, mas também para o futebol português. Assim como é importante que os históricos do futebol português possam reaparecer e eu vim de um projeto muito semelhante, de um clube que bateu no fundo, como foi o caso do Farense. Fez o seu percurso e está outra vez, e bem, na I Liga. O que sonho para o Estrela é voltar a vê-lo nos palcos da I Liga.

Este assunto não tem a ver com o Estrela, uma vez que na altura ainda estava no Sporting, mas recentemente foi ilibado do caso Cashball, por falta de provas. Era o que esperava?
Não tenho medo de falar sobre nada, gosto de responder a todas as questões. Durmo de consciência tranquila. Pessoalmente, nunca foi algo que me tirasse o sono. Sabia que mais tarde ou mais cedo a justiça iria falar por ela própria. Já tive oportunidade de dizer que quando formos notificados do ponto de vista formal, porque já percebemos com os indícios da Polícia Judiciária o que está em cima da mesa, mas quando formos notificados talvez tenha uma posição mais pública sobre o assunto. Nunca contra entidades ou instituições, jamais, porque as pessoas não representam as instituições, mas obviamente há pessoas que vão ter de responder, do ponto de vista individual, por aquilo que me fizeram.