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Òscar Hernández, os olhos que descobriram Take Kubo: "É muito mais difícil encontrar jogadores que solucionem problemas do que com bom pé"

Futebol japonês, Barcelona, formação, talento, Riqui Puig, Guardiola, jogo de posição e a academia do amigo Mascherano na Argentina. A Tribuna Expresso esteve à conversa com o adjunto do Albirex Niigata, da segunda divisão nipónica, a nove horas de distância

Hugo Tavares da Silva

D.R.

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Como estás?
Muito bem, aqui em casa, chegámos hoje de viagem [a conversa foi quinta-feira]...

Cansado?
Estou cansado, esta temporada está a ser muito dura. Isto de jogar fim de semana, quarta-feira, fim de semana, quarta-feira, fim de semana, tem sido uma matança para os jogadores, e também a nós nos massacrou bastante psicologicamente.

A temporada é muito comprida aí.
São 42 jogos, ,, . Fazem séries de cinco jogos: fim de semana, quarta-feira, fim de semana, quarta-feira, fim de semana, e depois uma semana normal. Levámos tudo bastante bem até que, por ser uma temporada tão dura, ficámos sem seis jogadores titulares, todos com lesões graves, dos quais três deles operados. Claro, do onze titular perder seis jogadores, isso passou-nos fatura e notou-se nos resultados, no cansaço dos jogadores também.

Mudaram a organização do clube quando chegaram, aproximando-o de alguma maneira ao modelo europeu ou até ao Barça? Mexeram na formação?
Bom, neste primeiro ano mais que nada centrámo-nos no nosso trabalho: a equipa principal. No primeiro ano tens de te situar, colocar, conhecer um pouco a cultura e a idiossincrasia do clube, os adeptos, dirigentes. Centrámo-nos no trabalho e no dia a dia, em consolidar bem o grupo, ter um bom ambiente entre jogadores e a partir daí tentar introduzir o estilo que nos ensinaram a vida toda, o estilo que conhecemos: o jogo de posição. Foi o nosso principal trabalho este ano, que não é fácil, a verdade é que não é fácil. É trabalhoso e neste momento já conseguimos que se vejam imagens desse estilo aqui no Japão, no Albirex Niigata.

Vou perguntar-te sobre isso mais à frente. Como se joga no Japão? Falo tecnicamente mas também de ideias.
Olha, surpreendeu-nos muitíssimo. É um futebol muito rápido. O jogador japonês, tecnicamente, tem umas virtudes excelentes. Estão muito bem preparados. Individualmente são muito bons jogadores, dominam os dois pés; fisicamente também estão muito preparados porque estão habituados a trabalhar muitíssimo e não param. Durante 90 minutos não param. É um futebol que nos surpreendeu muito, há muito pouca pausa, pressões muito altas durante todo o jogo. Foi uma agradável surpresa o trabalho que se realiza aqui. É verdade que no conceito futebolístico as equipas são bastantes similares todas elas, normalmente no 4-4-2 em princípio ou 4-2-3-1, é o futebol que mais se pratica. Na sua ampla maioria são equipas defensivas, mas realmente aplicam uma pressão alta muito importante. São muito competitivos sobretudo e vê-se pela liga, no? Qualquer jogo é super complicado, e é indiferente que se jogue contra o último ou o primeiro, pois vão colocar dificuldades máximas. Isso foi um dos aspetos que mais nos surpreendeu e que mais nos custou contrariar. Não tivemos nenhum jogo tranquilo durante a época, todos os jogos são complicados seja contra quem for. Realmente, a cultura que há leva-os ao máximo esforço em todos os momentos, o que faz com que todas as equipas sejam difíceis de bater.

És o adjunto de Albert Puig. Porque te convidou? Como começou a vossa história?
Já nos conhecíamos do Barça, era o meu chefe. Em 2007 entrei no Fútbol Club Barcelona e em 2010 entrei no futebol de formação. Quando o Albert foi nomeado o coordenador do futebol de base do Barça é quando subo da 'FCBEscola' [escolas de futebol externas] para o futebol de formação. Conhecemo-nos desde aquela altura. E a minha vinculação com o Japão está relacionada com Takefusa Kubo. Fui a pessoa que o vi pela primeira vez aqui no Japão. As pessoas dizem que o descobri, eu não o descobri porque os jogadores descobrem-se por eles. Não há nenhum descobridor que descubra alguém, nós somos aqueles que os vemos, que lhes oferecemos a oportunidade de se poderem formar em determinados clubes. Ele estava aqui no Japão, eu vi-o, informei o Barça e depois de dois ou três anos, nos quais fui dando seguimento, fiz finca-pé para que fosse contratado e ele acabou por ser contratado pelo FC Barcelona. Foi o primeiro japonês contratado pelo Barcelona. Eu fazia viagens esporádicas no máximo de um mês. Vim ao Japão umas 14 vezes. Depois disso, o Albert estava em Nova Iorque e eu em Barcelona, ele contactou-me e perguntou-me, em abril de 2019, se havia possibilidades de vir para o Japão. Foi quando começámos a mexer os contactos que tínhamos ambos e acabou por surgir a oportunidade. No mês de agosto, em 2019, vim ao Japão para umas conferências e tive uma primeira reunião com o presidente do clube onde acabámos, aproveitou para me conhecer e acelerou tudo um pouco. O Albert já tinha estado em contacto com este presidente. Disseram que o nosso perfil encaixava perfeitamente e que a nossa filosofia de jogo era a que queriam para o clube. O presidente viajou até Nova Iorque e fecharam o acordo.

D.R.

Quais são as tuas tarefas como adjunto? O que te pede Albert?
Bueno, a minha tarefa como segundo é coordenar todo o staff desportivo. Estou com o terceiro treinador, com o analista, com o preparador físico, com toda a gente que se encarga da logística, estou na altura de preparar o treino e na análise de vídeo. Coordeno um pouco todos, para além de que preparo todas as sessões de treino e, mais especificamente dentro do treino, a parte da estratégia. Sou um pouco o coordenador de tudo, como segundo treinador, e quem filtra o mais importante. Tomo notas de tudo o que envolve a área desportiva dentro do clube e sou quem está mais em contacto com o Albert e filtro o mais importante para ele. Aquilo que eu posso solucionar por mim faço-o. A minha função principal é coordenar a equipa técnica da equipa principal e ser a pessoa de confiança do Albert nos jogos, nos treinos e em tudo o que seja relativo à equipa principal, assim como as contratações para a próxima temporada.

Falavas de filtrar as coisas. É como uma arte do adjunto, não é? Fazer chegar isto e não fazer chegar aquilo para que fique tranquilo...
Sim, sim, falámos muito disso. Tal como nos jogos, o adjunto tem de os ver de outra perspectiva. Tem de ser muito mais frio, muito mais analítico, tem de dar soluções ao treinador porque o treinador quase que o está a viver o jogo como o jogador, as pulsações dele são muitas ou mais altas, tens de ser mais frio. No dia a dia também há que saber o que lhe fazer chegar porque realmente é urgente e há que tomar uma decisão naquilo que podemos solucionar nós, eu mesmo, com um jogador, com um elemento da equipa técnica. Há que saber em todo o momento como ser e atuar. E porquê. O treinador já tem muitas coisas para pensar no dia a dia, com jornalistas, dirigentes, para além dos jogadores e de nós mesmos. Há que fazer esse filtro para ele se sentir mais livre.

Estiveste no Fútbol Club Barcelona entre 2007 e 2017. Como chegaste lá?
Cheguei da FCBEscola, entrei no clube na era Laporta, realmente a melhor época, sinceramente. Foi também a que mais desfrutei no clube. Entro quando estou a tirar os cursos de treinador, pois uma pessoa escolheu-me, na altura era o coordenador de uma das etapas do FC Barcelona, que agora é o responsável pelo futebol de formação da equipa de Los Angeles, onde joga [Carlos] Vela. Depois ligaram-me e contrataram-me como treinador para a escola do Barcelona. Estive um ano como treinador e no ano a seguir fizeram-me coordenador. No quarto ano chamaram-me para subir ao futebol de formação [do clube mesmo]. Depois, em 2017, decidi ir-me embora voluntariamente.

O que é o melhor e o pior de estar dentro de uma academia como La Masia?
O melhor... é tudo. Ao fim ao cabo, estar num clube como o Barça dá-te muita aprendizagem, experiências, oportunidades. Dá-te o conhecer, como me deu a mim, um estilo e um modelo de jogo realmente impressionantes, impactantes, ainda mais na época em que eu pude vivê-lo. Deu-me muitíssimo, sobretudo experiências, poder conhecer um monte de países, poder conhecer um monte de culturas. Ao fim ao cabo se chegámos onde chegámos é em parte por ter estado naquele clube. O pior... não saberia o que dizer. Bom, como em todos os sítios, há coisas boas e coisas más, há momentos melhores e outros piores. E passei-os, como todos os que estiveram ou estão dentro do clube. Há boas épocas e más épocas. Acabei por sair com um sabor agridoce porque fui embora voluntariamente, pois pensava que não partilhava já muitas decisões que aconteciam à minha volta. Ao não partilhar as mesmas, uma pessoa tem de ser honesta consigo e, se não estás de acordo com certas coisas, o melhor é ires-te embora. Foi isso que decidi, considerava que as coisas não se realizavam da maneira mais coerente. Na altura sentes-te muito triste, deixas o clube da tua vida, ao fim ao cabo sou do Barça, sou sócio do Barça e ter de deixar o clube que gostas cai mal.

Que mudou? Em que deixaste de acreditar?
Não é uma única coisa, são diferentes aspectos que se dão, decisões, bom... é um cúmulo de circunstâncias que fazem com que tomes decisões. Não me arrependo de nada, pelo contrário, era uma maneira de pensar que no Barça podes sentir-te estagnado. Sou uma pessoa que tenho a necessidade de ter novas experiências e de aprender, de poder crescer. A decisão acabou por ser a correta, estou muito contente por a ter tomado. Dizem que há males que vêm por bem, para mim foi bom sair.

D.R.

Como deve ser um treinador de futebol formativo?
Como a palavra diz, para começar, formativo. Teve muita repercussão o resultado dentro de uma cantera como o Barcelona e isso às vezes fez com que se perdesse a referência, fez com que se perdesse a direção que deveria ter um treinador de futebol de formação, que é formar. O que um treinador de futebol de formação deve ter, em primeiro lugar, é saber que à frente dele tem pessoas. A partir daqui deve tentar treiná-los assentando no crescimento deles. Não pelo crescimento pessoal enquanto treinador, mas sim dessas pessoas por quem se é responsável. Isso é fundamental. Creio que isso ultimamente se perdeu muito, as pessoas pensam mais nelas do que na formação dos miúdos que têm em mãos. Isso é o principal. Depois, ter os conhecimentos suficientes da maneira de trabalhar do clube para que cresçam e queimem etapas assentes naquele estilo que foi um êxito, que fez crescer muitos jogadores e que lhes permitiu chegar à equipa principal. Tudo isto se perdeu um pouco, não é porque o digo, remetemo-nos aos factos. Pode ver-se que ultimamente não foram muitos os jogadores que chegaram à primeira equipa e que tiveram oportunidades, e isto aconteceu porque a gestão não foi correcta em todos os âmbitos.

Quando entrevistei Albert Puig [AQUI] ele disse que uns dos piores erros dos treinadores de futebol de formação é não permtir que o menino ou o jogador falhe ou fracasse. Que te parece?
Estou totalmente de acordo. Realmente, uma pessoa para crescer tem de se equivocar. Tem de se equivocar muito, muuuito. Tem de ter fracassos, êxitos. Mas o fracasso faz-te crescer muitíssimo mais do que o êxito e faz-te aprender muito, faz-te valorizar as coisas de um ponto de vista que no princípio não vias. É básico. Sou também do pensamento que o fracasso deve existir, de que o resultado não é o mais imprescindível dentro de uma etapa formativa. São os acertos, os erros, os êxitos, os fracassos, todo esse acumular de experiências fazem-te crescer e formar. Por isso, estou de acordo com Albert Puig. O resultado é a consequência de um trabalho, não é o mais importante, é uma consequência. O importante é formar dentro de uns valores e nesses valores entram coisas boas e más.

E duvidar também faz falta, não? Estar no Barcelona e ganhar tantas vezes talvez não os leve a duvidar tanto, a perguntar. Falhar, duvidar, pode ser importante para o percurso...
Sim, sim, sim, evidentemente. O jogo não é matemática, a dúvida sempre existirá e deve existir. Deve haver competição. Lembro-me quando íamos aos torneios, nos primeiros anos, e realmente lembro-me de que se perdia muito poucas vezes. Depois começámos a ter mais derrotas nos torneios e era quando aprendias, em que te davas conta de que para ser melhor e continuar a crescer tinhas que te esforçar porque houve uma equipa que esteve melhor que tu. Isso fazia crescer, fazia tomar outras decisões que quando sais vitorioso evidentemente não o fazes tanto. Quando ganhas relaxas mais. Para crescer tens de ter muitas experiências e de todo o tipo.

Imagino que seja muito difícil trabalhar a tolerância à frustação ou à derrota quando se ganha tanto.
Sim, mas é porque estamos a dar demasiado valor a ganhar. Que sentido tem ganhar um torneio na Alemanha com miúdos de 14 anos? Não tem de ser esse o fim, não tem de ser esse o objetivo, ganhar. Se como formadores damos demasiada relevância a essa vitória, então a frustração será mais difícil. Porque damos demasiada relevância a essa vitória? Porque hoje em dia, com as redes sociais, com as televisões, com os jornais, etc, podemos ver como era o onze da La Masia, dá-se demasiada importância a um torneio de miúdos ganho em tal sítio. Então, parecendo que não, faz com que esses meninos estejam na boca de muita gente, já os viu muita gente, é um problema. Depois, quando há uma derrota, a frustração afeta-os mais porque também estão na boca de toda a gente ou chega a todos os lados. É aí que se deve saber medir bem o que é importante e o que não é importante. Creio que as vitórias e derrotas no futebol formativo não são importantes em meninos de 12, de 11, de oito... Acontece que infelizmente, ultimamente, tornou-se muito mediático tudo isto, há torneios de miúdos de oito anos na televisão. Eu acredito que não deveria ser assim. Devíamos deixar jogar as crianças de oito anos e ir aos torneios, que desfrutem os pais, filhos e treinadores, mas que não se mediatize tudo como aconteceu, pois a frustração é maior de que deveria ser.

Às vezes veem-se treinadores a interromper treinos de miúdos de 10 anos para dizer-lhes o que deveriam fazer. Estamos a matar a criatividade? Há demasiada informação e pressa?
Sim, completamente. É como dizes, há que saber porque se pára. Uma coisa é para corrigir um conceito individual de um jogador, que me parece importante e bom dentro da formação, outra coisa é parar para dizer-lhes o que fazer. São dois conceitos muito diferentes. Ao fim ao cabo, o futebol é dos jogadores e dos meninos também. Eu, como formador, o que tenho de fazer é que o menino compreenda o que está a fazer e porque o está a fazer, e não que faça o que eu quero que ele faça. Essa é a diferença. E isso de querer que façam o que eu quero que façam é por resultadismo. Estão a dar mais importância ao resultado do que à formação do menino. Então, se páro para que aquele menino perceba o jogo, parece-me que o formador está a fazer bem em parar; se páro para que ele faço o que eu quero, pois assim conseguimos um resultado puro e duro, então, sim, estamos a equivocar-nos. Há que saber realmente a percentagem de formadores que param o jogo por um motivo e os que o param pelo outro. Temos de saber o tipo de correção que se está a realizar nesse momento porque as correções não são todas iguais.

Há pouco falavas em Kubo. Que se procura num jovem? O que é o talento no futebol juvenil?
O talento não se treina, o talento leva-se intrinsecamente dentro de cada um. Eu sou dos que pensam que podemos melhorar os jogadores com o treino, em certas atitudes, em certos conceitos, mas o talento por si não é treinável. Melhoram-se as capacidades, mas o talento leva-se intrinsecamente. O jogador talentoso é diferente dos restantes, e isso todos podemos ver ou detetar com uma mínima experiência no futebol. O talento, para mim, é aquele jogador que compreende o jogo em todos os momentos, que o compreende tanto para jogar ele como para fazer jogar o resto dos colegas. Isso é talento. O talento é conduzir, chutar e driblar? No. Isso são aspetos individuais de um jogador, uns têm-nos melhores e outros piores. Mas o talento, por si, é aquele jogador que compreende o jogo, que compreende o que está a fazer e porque o está a fazer.

Ou seja, mais do que ter um bom pé, o talento é solucionar problemas?
Sim, para mim sim. Evidentemente que para acabar de solucionar o problema tens de ter um bom pé. Se não tens um bom pé, por muito que tentes solucionar o problema, não o consegues fazer. Falo-te na minha experiência que estou a ter aqui no Japão: uma alta percentagem de jogadores que defrontámos tem bom pé, mas a compreensão do jogo é outra história, é outra coisa completamente diferente. Para mim é muito mais difícil encontrar jogadores que solucionem problemas do que jogadores com um bom pé. É muito mais difícil, por isso são muito mais procurados os jogadores que compreendem o jogo. Por isso, o talento sigo mais na linha da compreensão do jogo do que do bom pé.

Treinaste Riqui Puig?
Não. Estive lá no futebol de formação quando ele estava e pude vê-lo infinitas vezes, mas não o treinei.

Como era ele?
Posso avaliar como jogador, como miúdo não lidei muito com ele, pois não o cheguei a treinar. Mas, pelo que podia ouvir, destacava-se muitíssimo, era um jogador que interpretava muito bem o jogo, que tinha muita habilidade com a bola nos pés. Era um daqueles para ter em conta e que se sabia que podia chegar longe, mas também é verdade que se duvidava dele por causa do físico, como muitas vezes aconteceu no Barça e que infelizmente continua a acontecer. Duvida-se mais pelo físico do que pelo talento. Por exemplo, o Riqui Puig é desses jogadores que realmente compreende o jogo. É um jogador talentoso, como falámos há pouco, mas por desgraça havia dúvidas, como se continua a ter com alguns jogadores que estão nas categorias inferiores do Barça, que têm muito talento e que compreendem muito bem o jogo, mas que por culpa do seu físico há dúvidas.

Por isso me lembrei dele. Já tinha acontecido com Xavi, que quem sabe é o melhor médio da história...
Acaba mesmo agora de ser selecionado na equipa da Bola de Ouro [11 ideal da France Football], curioso.

Como explicas não haver espaço para Riqui neste Barça, é por isso?
Bom, não podemos opinar. O que aprendi neste ano, no Albirex Niigata, e também com o salto para o futebol profissional, é que muitas vezes falamos sem saber. Opinar podemos opinar todos, no? Mas a verdade é que realmente só sabe quem está lá dentro, os que estão implicados, jogador, treinadores, companheiros. O porquê não o saberemos, digamos o que dissermos vamos equivocar-nos. Não sabemos, é um tema interno, do clube, do balneário. Só posso opinar do que vi no campo e do que vi quando era treinador do futebol juvenil do Barça. É um jogador que compreende muito bem o jogo e que tem umas capacidades muito boas. A partir daqui, não posso saber se treina bem, se treina mal...

O que queria saber era se futebolisticamente, tendo bom pé e talento, é jogador para ter mais minutos?
Evidentemente, evidentemente. Um jogador com talento que compreende o jogo e que tem bom pé seguramente que podia ter mais minutos. Mas, claro, uma equipa tem 23, 24 jogadores. Para o treinador quem está a jogar tem talento, é alguém que ele aprecia e ele decide metê-lo. Se calhar eu meteria [o Riqui a jogar], se calhar o Albert meteria, depois podias ir tu e não o metias. É tudo muito relativo, muito relativo.

Chegaste ao Barça quando Guardiola chegou à equipa B. Não está mal esse timing, hein?
Sim, está bastante bem [risos], sim.

JOSEP LAGO

De que te lembras desses tempos?
Tive a sorte de o escutar algumas vezes quando conversou connosco, com os treinadores do futebol de formação. A verdade é que foi a pessoa com quem mais aprendi, sinceramente. Pude ver muito as suas equipas, os treinos. É um treinador diferente, é completamente diferente. É daquelas pessoas de quem podes sacar um rendimento próprio, de quem podes sacar uma aprendizagem, ele oferecia muito. Bom, não faz falta dizer que desfrutámos muitíssimo com as suas equipas. Continuo a desfrutar muito com o Manchester City, independentemente do resultado que tenha porque é sempre um treinador inovador, é um treinador que encontra soluções, é um treinador que, se tens algum tipo de dúvida dentro do teu jogo, vês os jogos dele e vais descobrir como atuar no caso de enfrentares o mesmo problema. Foram os melhores anos que podíamos ter vivido dentro do clube.

Que mais aprendeste com ele ao ver os treinos? Alguma ideia, algo específico?
Tenho sorte, claro, de o Albert [Puig] ter estado com o Domènec Torrent no New York City. O Dome foi o adjunto de Guardiola em toda a sua vida. Então, claro, com o Albert pude ver este ano 80 ou 85% o que trabalhavam Dome e Guardiola, pois isto foi piramidal: Guardiola, Dome, Albert e agora tenho a sorte de estar com ele. Pude ver o que se fez no Manchester City e no New York City, e o que é o jogo de posição na sua pura essência e para que serve cada jogo de posição, quais são as correções mais eficazes para depois poder transferi-las para a competição. Ver o que foi a transferência do rondo [meinho] e do jogo de posição para a competição. Tudo isso me ofereceu [Pep], já tinha uma ideia de quando estive no Barça e de quando via os jogos do Guardiola, mas este ano com o Albert foi quando coloquei a peça final, porque o vivi ao vivo, pude trabalhá-lo, pude corrigi-lo, evidentemente para mim foi um ano espectacular em termos de aprendizagem.

Outro dia celebravas no Twitter as muitas vitórias de Pep com o jogo de posição, a que chamaste de "estilo êxitoso". O que é o jogo de posição e para que serve?
O jogo de posição, ao fim ao cabo, é muito simples. O jogo de posição é aquele que, mediante a posição, mediante a posse e uma pressão efetiva, permite progredir no jogo. Como? Criando e aproveitando os espaços livres que se geram mediante a atração de rivais e levando a bola para esses espaços que foram criados e que queremos aproveitar. Sempre a partir de uma posição. O jogador tem de estar sempre na posição? Não. O jogador pode abandonar uma posição porque, como disse, geram-se e aproveitam-se os espaços. Mas essa posição que foi deixada órfã deve ser ocupada por outro jogador. É disso que se trata. A partir daqui ir gerando superioridades atrás da linha de pressão rival e, mediante estas superioridades, vamos progredindo no jogo. É nisso que se baseia o jogo de posição em poucas palavras. A partir daqui têm de se ir corrigindo um monte de conceitos individuais e coletivos. Jogar de frente, os triângulos, não virar-se, posicionamento do corpo, superioridades, o terceiro homem... São muitos conceitos que através do jogo de posição se vão trabalhando durante o dia a dia. É o mesmo jogo de posição e jogo posicional? Não, é muito diferente, não tem nada que ver uma coisa com a outra. O jogo posicional, no fundo, é sacar o máximo rendimento de um jogador na sua posição, mas não há intercâmbio de posições nem mobilidade, simplesmente partindo de uma posição procuras sacar o máximo rendimento do jogador, as virtudes de cada um. O jogo de posição é o contrário, no? É muita mobilidade, sempre tendo as posições ocupadas. Trabalhamos os 365 dias do ano, o jogo de posição. Em todos os treinos há um jogo de posição, dependendo da semana, o dia, há um jogo de posição num espaço mais reduzido ou num espaço maior, mas pratica-se sempre. Há treinadores que praticam um jogo posicional e que utilizam, de vez em quando, o jogo de posição como um recurso para conseguir um objetivo, mas não é a tarefa principal dos seus treinos. O que pratica o jogo de posição em si é essa a tarefa principal em todos os treinos durante toda a época.

Numa conversa com Albert Capellas [AQUI], ele já me falava nos três Ps: posição, posse e pressing. Ele dizia que fazer o pressing correndo para a frente é muito importante...
Sim, sim, é importantíssimo. Ao fim ao cabo era o que dizia o Guardiola: trata-se de recuperar a bola o quanto antes.

Os tais cinco segundos...
Sim, era a regra dos cinco segundos, em que tens de recuperar o mais rápido possível. Para que seja levado à sua máxima expressão, esse jogo de posição permite-te recuperar [a bola] o mais rápido possível no momento da perda, antes desses cinco segundos, em que não permites que o rival saia do seu meio-campo. Posse de bola, tenho-a, perco-a, recupero-a num instante e quase, quase mantenho a linha de centrais ou linha defensiva no semi-círculo. Esta é a essência e levado ao expoente máximo, à realidade absoluta do jogo de posição, que pudemos ver com Guardiola em muitos momentos no Fútbol Club Barcelona. E é verdade, são os três Ps: posição, posse e a pressão para a frente, sí, sí.

Até mentalmente é muito forte, não? Quando a outra equipa recupera a bola e vê 10 bestas a correr para a frente... Mostra que querem muito e que vão com tudo. É a sensação que dá.
Sim. Mas o que acontece é que isto também requer um grande trabalho e grande sacrifício para fazer que o jogador tenha convicção, para acreditar que o pode fazer, pois é arriscado também. Ir para a frente e tentar roubar o quanto antes, mediante uma pressão pós-perda [de bola] ou numa saída de bola da equipa rival com o guarda-redes, os espaços que se costumam deixar, se o rival estiver muito bem posicionado, são importantes, pois se superam a primeira linha de pressão a partir daqui partes de uma inferioridade que é difícil contrariar. São conceitos que se têm de aplicar muito bem, no que é o treino e depois levados à competição. Um erro pode penalizar muito, quando praticas este tipo de jogo. É um jogo muito ofensivo, é um jogo em que a bola é o principal protagonista para o jogador que o pratica, porque o quer ter em todos os momentos, mas também é muito arriscado e há que manter um equilíbrio defensivo. Há equipas que praticam um jogo mais defensivo e que não realizam uma pressão alta, estão mais fechados atrás, isso é muito mais cómodo. É muito mais difícil aplicar este tipo de jogo do que um trabalho defensivo de ficar atrás, mas com isso não estou a dizer que é fácil defender, eh!, mas renuncias à bola e a bola é, no fundo, aquilo que monopoliza todo o jogo.

E necessitas dos 10 [jogadores de campo], certo?
Sí, sí, sí, sí, sí, sí! Precisas dos 10 jogadores e em todo o momento as relações, as distâncias dos jogadores que fazem a pressão têm de ser idôneas, mais a coordenação que tem de haver na hora de reduzir os espaços para poder recuperar a bola. As ajudas que se têm de fazer em todos os momentos também têm de ser muito eficazes, é complicado. Basta que um jogador se equivoque para que a equipa rival supera a tua linha e quando superam a tua linha podem encontrar superioridades e espaços por todos os lados.

Introduziram o jogo de posição no Albirex. Quais foram os primeiros desafios, o que diziam os jogadores, havia medo de jogar assim? O que sentiste?
Neste tema das pressões altas, por exemplo, foi complicado porque era uma equipa em que a sua filosofia e estilo eram completamente diferentes. Estavam habituados a estar fechados atrás e a sair em contra-ataque. Então, claro, quando mudas por completo as suas atitudes e maneiras de fazer as coisas... foi complicado. Ainda hoje não é fácil, de todo, adquirirem e interiorizarem a 100% o conceito. Custa muito tentar que defendam altos [equipa subida], ou tentar que a defesa suba o quanto antes depois de um passe [dos outros] para trás. Têm tendência para se irem afundando [recuar] na própria área. E custa, e custa porque evidentemente é um tipo de jogo que não praticaram sempre, por isso se fala tanto que o Barça nunca deveria perder o seu estilo, pois eram miúdos que desde pequenitos aplicam esse tipo de jogo, estão habituados a uma pressão muito alta, a serem profundos, a dar amplitude, a não ter medo com a bola. Esse tipo de jogo, se o tens desde muito jovem e cresces com ele, quando chegas a uma equipa principal é muito fácil, é algo que sabes jogar, é o que te ensinaram. Por isso se diz tanto "que pena que o Barça perca esse estilo", porque depois para o voltar a recuperar... buff... é muito, muito complicado. É muito complicado. O copiar-colar [copy paste] não existe, é mentira. Tentas aplicar o jogo de posição, tentas trabalhá-lo, mas será diferente em todos os lugares que vás. Uns vão interiorizar mais facilmente a recuperação pós-perda, outros vão interiorizar mais facilmente a posse, o ser protagonista com a bola, o ter a bola, outros vão interiorizar muito mais facilmente o tema da posição. Dependendo da cultura, o jogo de posição vai ser diferente. Aqui, pois, teve os seus prós e contras: interiorizaram muito rapidamente que ter a bola era importante, e sentiam-se muito bem, e gostam, dizem eles, mas continuam a ter dúvidas em pressões, em posições, mas, bom, é o primeiro ano e realmente o jogo de posição é um estilo que não se consegue da noite para o dia. Depois de uma temporada assimilaram muitos conceitos, mas há muito trabalho pela frente.

D.R.

Falavas da mudança de estilos no Barça. Viveste um pouco isso com Luis Enrique na equipa principal, diz-se muito que os médios perderam importância com o tridente [Messi, Suárez e Neymar]. Sentes que foi aí que começou a mudar?
É como te dizia: o jogo de posição tem muitas variantes. Cada treinador pode entendê-lo de maneira diferente. Gostei muito do futebol do Guardiola, mas o de Luis Enrique também tinha coisas muito boas e eu também gostava. Porque se tem menos posse deixa de ser jogo de posição? Não, nada. Ao fim ao cabo, a posse de bola é um recurso para chegar à baliza rival. Se eu posso chegar à baliza rival com menos posse possível, mas dentro do meu posicionamento e conceitos coletivos e básicos do jogo de posição, porque não o vou fazer? Isto era o que fazia o Luis Enrique, tentava que a transição fosse o mais rápida possível, mas a pressão pós-perda continuava a ser a mesma, e o posicionamento e intercâmbio de posições assentes na criação e aproveitamento de espaços continuavam a ser os mesmos. A posse de bola era um bocadinho mais vertical, mas continuava a ser jogo de posição. Entonces, pode haver muitas matizes dentro do jogo de posição. Eu gosto e gostava do futebol que pratica o Luis Enrique, um treinador com o mesmo estilo mas com uma matiz diferente.

É um pouco o que se vê no City de Guardiola...
Sim, é que ser vertical não significa que não seja jogo de posição. Dentro do jogo de posição não há uma regra que diga: antes de marcar golo, deves ter uma posse de dois minutos, senão não é jogo de posição. Não, o jogo de posição é o que falávamos, os três Ps: posse, posição e pressão. A posse pode ser mais ou menos vertical, rápida, como lhe queiramos chamar.

Que treinador mais te encanta hoje?
Reconheço que Pep Guardiola, vendo os seus jogos, treinos e ouvindo-o a falar, é o treinador que mais soluções oferece à minha maneira de entender o futebol. No fundo, entendo o futebol como ele o entende.

E quem é que te ensinou mais de futebol na tua vida?
Aprendes com toda a gente, mas tive professores que me lembro quando estava a estudar. Por exemplo, lembro-me de Sergi Domenech, um treinador que esteve no Barça muitos anos. Dava-nos então Técnica, impactou-me muito como explicava. Sempre disse que foi das pessoas que aprendi muito sobre técnica, explicava muito, era muito coerente. Senso comum. Aplicava senso comum no momento de transmitir os conceitos, o que me impressionou. Depois tive a oportunidade de ter muitas experiências e conversas com jogadores e treinadores e pude assistir a treinos. Em todos os lugares que vais aprendes algo. Depois de deixar o Barça, estive em charlas de metodologia a nível internacional, com isso também tive a oportunidade de ver treinos diferentes, de equipas italianas, belgas. Estive também em equipas inglesas da Premier League a ver treinos. De todos, seja o teu estilo ou não, aprendes. E aprendes coisas que, se páras para pensar, são muito transferíveis à tua maneira de pensar ou ao próprio estilo que tem cada um. No fundo, aprende-se de toda a gente. Referentes, referentes, não tenho, tenho a equipa do Guardiola que impressionou todo o mundo. Mas para quem é que a equipa do Guardiola não é uma referência? Se gostas de futebol, tens de gostar daquela equipa.

Estás a ajudar Javier Mascherano a criar a academia dele na Argentina. Como aconteceu isso? São amigos?
Temos uma relação há um tempo, uma muito boa relação. Vem tudo através de Walter Tamer, o representante dele que também está muito implicado na academia. Foi a pessoa que nos apresentou. Tivemos muitas conversas de futebol, compartimos muito futebol e pediram-me se podia colaborar um pouco com a academia dele. Evidentemente disse que sim, porque no fundo o Javi também tem o mesmo pensamento futebolístico que eu tenho. Quando duas pessoas se entendem na mesma maneira de pensar, então têm a possibilidade de partilhar, nós tivemos muitas conversas de futebol, de como melhorar o jogador, de como fazer com que compreenda o jogo. O que te dizia, partilhar experiências. Nasceu uma relação sã e a partir daí colaboro com ele e falamos bastante, de verdade.

Ele quer replicar um pouco o que é o Barça ou tem outras ideias?
Voltamos ao mesmo: não é replicar, copiar-colar não existe. Ele é um amante do jogo de posição, ele é um amante do sentir-se protagonista com a bola, do ter a bola, é a maneira que se sente seguro, o que aprendeu, o que lhe impactou muito no estilo Barça. Mas há matizes e dentro dessas matizes há que aprofundar, falámos que isto estava bem, isto é perfeito, isto é bom para que o jogador entenda o jogo e possa oferecer mais. Há matizes mas evidentemente a ideia assemelha-se em 95%, os outros 5% são as matizes dele. Mais que nada, para o jogador se sentir mais cómodo, para que possa ter mais oportunidades e dar-lhe mais soluções. Se não fosse assim, diríamos que não havia mais nada para fazer, que está tudo inventado, mas não. Há que tentar facilitar que cada jogador, dentro da formação, tenha mais oportunidades e mais soluções.