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João Sousa: “É natural ter altos e baixos na motivação. A única pessoa que conheço a quem isso não acontece é o Ronaldo. Por isso é tão bom”

Fechou 2020 na 90.ª posição do ranking, a pior classificação nos últimos sete anos, mas, já a arrancar a pré-época, disse não fazer ideia do lugar em que estava. João Sousa passou, de longe, pela pior temporada da carreira, limitado por uma lesão que lhe retirou a confiança, fê-lo duvidar e obrigou-o a tentar mudar a forma de jogar. Não se adaptou, por saber "que com essa limitação não conseguia jogar nem ter um nível bom", e chegou a uma altura em que "estava bastante desanimado"

Diogo Pombo

Steven Paston - PA Images

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Como está a lesão no antebraço?
Ontem [18 de novembro] comecei a pré-temporada em Guimarães para perceber como estava a lesão. Tive a oportunidade de ter 15 dias de férias, portanto deu tempo para recuperar bem. Para já, não tenho quaisquer vestígios da lesão e estamos contentes por isso, porque isto era uma coisa que nunca tinha tido e, depois de outra lesão grave que tinha no pé, estávamos um pouco apreensivos. Mas, felizmente, não é nada grave e não tenho dores nenhumas. Agora é ir pouco a pouco e não me exceder muito no trabalho para ir voltando à normalidade.

Durante as férias não te mexeste então?
Zero. As férias são mesmo para isso, desligar um bocadinho fisica e mentalmente. Este ano tem sido atribulado e diferente para todo o mundo e para nós, no ténis, tem sido realmente difícil com as muitas condições impostas pela organização e isso se calhar desgasta mais a nível mental. Fui aos Açores, onde só tinha ido muito jovem, para competir, e tinha muita curiosidade para conhecer melhor. Foi uma experiência fantástica, ainda por cima não estava lá muita gente, o que foi ótimo para poder estar mais à vontade. Tinha lá amigos e também aproveitei para os rever.

Por causa dessa lesão no antebraço, chegaste a jogar com dor?
Neste caso não cheguei a esse limite. Felizmente, como também estávamos no final da época, começou-me a doer e sabia mais ou menos que era uma inflamação no antebraço, que não era uma coisa grave. Posso é falar da minha experiência com o pé, que foi uma lesão que se arrastou durante um ano e meio, da qual não estou a 100%, mas já estou muito melhor e acredito que dentro de pouco tempo estarei a 100%.

Mas limitou-te bastante esta época que passou?
Sim, tentei lidar com a dor a nível psicológico e passei por uma fase em que era consciente de que não estava a 100%. Tentei dar o meu melhor no princípio do ano, mas percebi que ia ser difícil poder jogar ao nível que queria e vencer encontros. Depois, passei por uma fase em que me disseram que tinha de aprender a jogar com a lesão e adaptar o meu jogo da melhor maneira para poder começar a ganhar jogos de forma diferente. Portanto, tentei adaptar um bocadinho, tentei jogar pontos mais rápidos, bater mais forte na bola para não ter que me mexer tanto. E a verdade é que a base do meu jogo, durante muitíssimos anos, foi mexer-me bem e correr muito. Foi difícil tentar, de certa maneira, adaptar-me, o qual não consegui fazer porque sou muito fiel ao meu estilo de jogo.

Depois veio a covid.
Foi uma época em que realmente estava com pouco confiança por causa do meu pé. Fizemos um trabalho também para tentar minimizar a dor, o que foi bom, porque quando voltei tinha alguma dor, mas menos do que aquela que sentia quando começou a pandemia e o circuito foi interrompido. Mas, infelizmente, a minha confiança não estava em alta. Acabei por não ganhar e era consciente que me continuava a doer. Depois de Roland Garros, optámos por ter uma intervenção de injeção e, para já, estou contente que tenha resultado. O torneio que joguei após a injeção foi em Antuérpia, onde venci o único encontro este ano no circuito ATP. Fiquei muito contente, já me sentia a mexer muito bem e que era competitivo outra vez. Mentalmente, senti-me bem e já tinha saudades de o sentir para poder ser fiel ao meu estilo de jogo. Sou consciente do meu nível e o que estava a jogar no último ano não é nem metade do que poderia, e consigo jogar. Sou consciente de que, jogando a esse nível, não ia ganhar encontros.

Porque, jogando com dor, qualquer atleta tem um teto e talvez tenha sido a primeira vez na carreira que tiveste o corpo a impor-te um limite.
Falo por mim, mas qualquer um tem de saber lidar com a dor. Todos a temos, seja pequena ou grande, eu sempre consegui adaptar-me bastante a essas dores, mas esta não era uma dor qualquer. Era uma dor que me impossibilitava de fazer uma coisa que sempre fiz, ao qual sempre fui fiel e que sempre me fez jogar bem ténis: o mexer-me bem. Por muito consciente que fosse dessa dor e, na minha cabeça, tentasse dizer "não, continua, não tens dor", o Fred [Marques], o meu treinador, dizia-me que eu não me mexia como dantes. A dor limitava-me muito, mas somos atletas, o que queremos é competir e vencer.

E forçaste.
Exatamente, atirava-me e siga, não faz mal. Mas a verdade é que só mais tarde percebi que não dava e era uma situação que não podia continuar. Se continuasse assim, ou acabava a minha carreira ou ia descer. Já estou há muito tempo no circuito, há sete anos que estou no top-100 e sou consciente do que posso, ou não posso fazer. O estar em 300.º ou 400.º do mundo seria difícil de lidar para mim. Com dor seria ainda pior. Mas, felizmente, agora estou bem.

Mas isto, no court, chegou ao ponto de, antes de fazeres um movimento ou uma pancada, teres aquele rasgo mental de "se faço isto, vai-me doer"?
Sempre. Sempre que me faziam um amorty, ou seja, me metiam uma bola curta, na minha cabeça dizia "ui, já não vou correr porque me vai doer muito". Ou seja, tinha um handicap muito grande cada vez que jogavam uma bola curta. Ou mudanças de direção. Cada vez que me faziam um contrapé... [Sopra] E depois, inconscientemente, protegia-me. Para mim ir rápido, mas o meu corpo dizia-me "olha, não faças isto, porque isto dói". Tentei adaptar-me, mas sabia que com essa limitação não conseguia jogar nem ter um nível bom. Foi mais por aí.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

Em Roland Garros chegaste a dizer que estavas "desanimado animicamente". Perdeste a felicidade ou o prazer em jogar ténis?
Hum, sim, se calhar um bocadinho. Houve ali uma altura em que estava bastante desanimado com toda a situação. É normal, ninguém gosta de perder. Ter tantas derrotas e depois com a covid, isso desmoraliza e desmotiva. E em Roland Garros foi, se calhar, o pico da minha deceção com toda a situação que estava a acontecer e daí alguns comentários que fiz durante e depois do jogo. Senti-me um bocadinho inútil e frustrado. Não estava feliz a jogar. Não era aquilo que queria e queríamos. Daí a decisão de procurarmos outra alternativa, com outro doutor, para ver se conseguíamos ter outro resultado. Felizmente, tem sido assim e espero continuar assim.

Fizeste terapia ou tiveste a ajuda de um psicólogo ou mental coach?
É assim, confio muito na equipa que tenho, nomeadamente no Frederico, que a nível mental sabe lidar muito bem comigo e me motiva muitíssimo para conseguir os nossos objetivos. Porque eu e a minha equipa somos um. E quando todos andamos motivados é sempre muito mais fácil. É verdade que houve uma altura em que estava muito desmotivado e o Frederico sempre foi a pessoa que esteve ao meu lado, a motivar-me. Também trabalhamos com uma pessoa, que já tem uma certa idade e esteve ligada ao ténis durante muitos anos, trabalhou com grandes jogadores e procuramos alguma ajuda nesse sentido. Sobre o que estava a acontecer e o que poderíamos fazer para tentarmos sair dessa situação. Foi uma ajuda e toda a ajuda é sempre bem-vinda, acabámos por tirar conclusões positivas.

Quem é essa pessoa?
Não posso dizer [ri-se]. Mas não é portuguesa.

Não só no ténis, mas no desporto em geral, achas que um atleta admitir que está infeliz, sem vontade ou está a ir-se abaixo mentalmente ainda é um assunto tabu?
Acredito que seja natural ter alguns altos e baixos na motivação naquilo que fazemos. É normal, somos humanos. A única pessoa que conheço capaz de não fazer isso é, se calhar, o Cristiano Ronaldo, e por isso é que é tão bom. E mesmo ele acredito que já tenha tido momentos nos quais esteve desmotivado. Mas pronto, faz parte da carreira de qualquer jogador ter esses altos e baixos em termos de querer e estar sempre a puxar, por isso é que é importante termos pessoas ao nosso lado, a puxarem por nós, a quererem mais quando nós não queremos tanto. Acho que é natural ter esses momentos e acho muito esquisito se um jogador disser que nunca teve. E sim, acaba por ser um bocadinho tabu pois, muitas vezes, fica mal dizê-lo porque somos uns privilegiados. Há poucas pessoas que têm a oportunidade de fazerem aquilo que gostam e fazerem-no bem, mas somos humanos. Perante a sociedade talvez fique um bocadinho mal dizer, "ah e tal, está desmotivado e está a jogar um Grand Slam". Ok, sim, se formos olhar bem para a situação, realmente, que palerma. Mas quando já estás há cinco, seis, sete, oito ou tantos anos a jogar, tens altos e baixos e acaba por ser natural isso acontecer. Por aí, acredito que seja um tabu para os atletas não dizerem esse tipo de coisas.

Não o sendo, ainda é encarado como estar a dar uma parte fraca?
Sim, exatamente. Mas é mais uma opinião exterior que pode ser negativa em relação aquilo que possamos dizer, do que propriamente o nosso sentimento. Acho que é por aí.

O ténis é muito individual, passas horas e horas sozinho no court. Com o tempo, um tenista vai aprendendo a lidar sozinho com tudo o que sente?
Tal como, se calhar, o golfe, o ténis é um desporto muito solitário e essa parte mental acaba por ser bastante complexa em todos os desportos individuais. Passamos por muitas emoções, da frustração à alegria, portanto tentamos geri-las nem tão alegremente, nem de forma tão frustrada. Tentamos lidar com elas da melhor maneira, há pessoas mais emotivas, como eu, e às vezes temos dificuldade em lidar com a frustração, mais do que com a alegria. Mas pronto, temos a nossa equipa e, felizmente, tenho uma que me diz as coisas tais como elas são, sejam positivas ou negativas, o que é importante. E tento manter-me equilibrado, são muitas horas sozinho, tomadas de decisão em milésimas de segundo e acabar por ser um desporto bastante completo nesse sentido.

Ainda por cima, o ténis ainda vos obriga a serem muito contidos e sóbrios: não podem barafustar.
Existe um código de conduta, digamos assim. Temos de seguir algumas regras, se bem que todos somos humanos e os árbitros percebem muitas vezes que é preciso os jogadores retirarem para fora alguma frustração. Mas sim, estamos um bocadinho com as pernas atadas no poder dizer aquilo que, se calhar, muitas vezes queremos. É a tradição do ténis e nós só temos de tentar seguir as regras e respeitá-las. Nos últimos anos tenho aprendido a lidar com isso. Sendo emotivo, custa-me sempre um bocadinho mais, mas tenho-me portado bem.

Como foram os meses em casa, parado, sem competição por causa da pandemia?
Por um lado foram ótimos. Já não estava em casa durante tanto tempo há 15 anos, desde que fui para Barcelona. Em Guimarães, a ver os meus pais e os amigos, passaria umas cinco ou seis semanas ao ano, e este tempo foi bom para fazer coisas diferentes às quais não estava habituado, como ir jantar mais vezes com amigos, em grupos pequenos. E com a família, obviamente.

Voltaste a treinar com o teu pai.
Também [risos], onde há um lado com e um lado mau. Pude reviver algumas situações que, em miúdo, vivia mais, o que é ótimo.

Ao longo deste ano, foste ligando muito ao ranking?
Muito sinceramente, não sei em que posição estou neste momento. O ranking passou-me completamente ao lado. Tinha coisas mais importantes na cabeça para tentar lidar. Sabia que o ranking ia ser secundário por este ser um ano totalmente atípico e beneficiou-me, sem dúvida, terem mudado o sistema. Não liguei muito ao ranking, apesar de nós, tenistas, termos de ligar. Sei mais ou menos onde estou, mas não sei qual é a posição exata [ri-se].

Estejas alegre ou frustrado, o ranking serve para dar mais peso à fase pela qual estiveres a passar?
Acaba por ser o espelho do que fazemos durante o ano. São 52 semanas, 18 torneios pontuáveis, pontuam os melhores e o ranking permite-nos jogar os melhores. É o nível que, naquele momento, estamos a apresentar. Se o ranking fosse real, perante este ano, neste momento poderia estar a 500.º ou a 600.º de nível. Mas podemos dizer que tive a sorte de o ranking ter mudado um bocadinho, permitiu manter-me onde quero e acho que, perante o nível que tenho, me posso apresentar melhor. Não tenho nada a demonstrar a ninguém.

Desligaste do ténis durante as férias?
É difícil para nós, que somos tão competitivos. Estive de férias, mas sempre com um olho nos torneios que estavam a decorrer. Não pude ir a um deles. Gosto sempre de acompanhar.

E vês ou analisas jogos com amigos?
[Solta uma gargalhada] Não, isso é complicado. Conhecemo-nos muito bem e, se vamos analisar, seria para criticar e isso não é construtivo. Não sou muito de analisar com os amigos. Quer dizer, o meu treinador é meu amigo, por aí posso fazê-lo, mas com outros amigos tento abstrair-me um bocadinho do ténis. Acabamos por falar mais de futebol.

Tim Clayton - Corbis

Qual é o plano para a primeira metade da próxima época?
Neste momento, ainda não temos um circuito ou um calendário definido, é difícil prever alguma coisa. Temos até ao final do ano para fazermos a pré-temporada, a qual o ano passado não consegui fazer por causa da lesão no pé. O objetivo neste momento é ganhar forma, recarregar energias e estar preparado para 2021. Neste momento não posso adiantar muito, porque nem calendário temos. Sabemos que vai começar na Austrália, ainda não sabemos como. Fala-se da hipótese de Melbourne e de se realizarem dois ou três torneios no mesmo sítio, a verdade é que com as restrições da covid é complicado para os torneios organizarem alguma coisa. As restrições do governo australiano não nos permitem ir para lá antes de 1 de janeiro.

Terão de estar 14 dias de quarentena, a treinar no hotel?
Sim, provavelmente teremos que a fazer, mais os testes covid e só depois do segundo resultado negativo poderíamos utilizar as instalações do clube [de ténis]. Mas seria clube-hotel-hotel-clube, é uma bolha e pronto, acabar por ser uma bocadinho como uma prisão, mas ou isso ou não jogamos ténis [ri-se]. A maioria de nós acho que prefere isso.

Estás com 31 anos. Se estivéssemos a falar há duas décadas, já estarias perto da reforma.
Mas para já não. Agora que estou bem me sinto bem, ainda tenho alguns anos aí para dar alguma guerra. Obviamente que tenho alguns projetos fora do ténis, têm vindo a crescer nos últimos anos, nomeadamente um hotel que quero abrir em Guimarães e está quase pronto. Estou sempre focado no ténis, mas estes projetos vão crescendo e tenho outras ambições.

Imaginas-te a jogar até aos 39, como o Federer?
Não, rotundamente não. Isso é qualquer coisa de extraordinário, acho que ninguém pensaria que ele iria manter a forma tão boa, durante tantos anos. É incrível como isso foi possível e ele está, com esta idade, no topo do ranking mundial. É impressionante, só ele mesmo.

Mas de onde achas que isso pode vir? O combustível vem só de ele adorar ténis e, simplesmente, não ser capaz de largar isto?
Hum, pois, acredito que seja isso ou não sabe o que fazer da vida, também pode ser uma opção. Mas acredito que sim, que o Federer adore jogar ténis e sentir o carinho do público, isso pode ser o que o motiva, mais os recordes. Essas três componentes acho que fazem com que se mantenha no circuito e esteja a dar o que está a dar ao ténis. Para nós é ótimo que continue a jogar.

Já conheceste algum jogador que tenha prolongado a carreira por não saber o que há-de fazer fora do ténis?
Sim, acredito que haja muitos a quem acontece isso. Tantos anos a fazer a mesma coisa, depois quando se pára faz uma análise e até há jogadores que voltam. Já existiram casos desses, o que sabem fazer é jogar ténis e pouco mais. O que acho um bocadinho triste. Felizmente, tive uma boa educação e bons estudos, tentei sempre conpaginar as duas vertentes e espero saber o que fazer depois do ténis. Mas acredito que haja casos em que isso possa acontecer.

Tendo o exemplo do Frederico Marques, serias capaz de dar logo o salto para treinador?
Não, nunca pensei muito nisso. Ser treinador de ténis é mais difícil do que as pessoas pensam e, neste momento, não me vejo a sê-lo, muito sinceramente.

* entrevista originalmente publicada a 4 de dezembro, na edição impressa do Expresso.