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“Não tenho nada contra Pichardo, mas contra algumas pessoas do Benfica. Os políticos corromperam aquilo que é ser português”

O campeão olímpico, do mundo e europeu do triplo salto, que já representou o FC Porto, Benfica e Sporting assinou com o FC Barcelona, assume os seus objetivos para os JO de Tóquio, reserva alguma mágoa pela forma como saiu da Luz e depois de Alvalade e agradece a Bruno Nogueira pelo Como é que o Bicho Mexe”

Alexandra Simões de Abreu

Luís Barra

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Ainda não conseguiu a qualificação para os JO. Está preocupado?
Nem um pouco. Fiquei a meros dois ou três centímetros da qualificação, o ano passado antes de aparecer o covid-19, e nunca me preocupei porque sei que valho isso e muito mais. Não é um tema que me tire o sono. As minhas aspirações são medalhas, são saltos gigantes. Não tenho excesso de confiança devo dizer, mas não estou preocupado com esse pequeno grande pormenor que é fazer os mínimos. Eu trabalho para a excelência, trabalho para saltar longe e dar o melhor de mim e tenho de fazê-lo sem angústia e sem pressão.

O que responde a quem diz que, à beira dos 37 anos, está velho para chegar ao pódio?
Não temos de etiquetar as pessoas pelo número de anos que elas têm. Não há nada mais triste do que estar limitado por aquilo que os outros pensam de nós, seja pelo que for. Eu não me sinto diferente de quando tinha 25 anos, aliás, tinha mais lesões do que tenho na atualidade. De uma forma científica, é verdade que com os anos as fibras rápidas transformam-se em fibras lentas e blá, blá, blá. Mas o ser humano só acredita até que alguém o faça e aí mudamos muitas mentes e desbloqueamos portas. O meu trabalho consiste em, de uma forma moral e científica, provar que é possível fazer muito com 36, 37 e até 40 anos. E sou muito duro na análise a mim mesmo. Pergunto-me muitas vezes, será que ainda sou capaz? Será que ainda consigo fazer igual? E a verdade é que eu vejo-me e digo "uau". Portanto, eu não tenho de deixar-me influenciar por aquilo que é a formatação da sociedade mas por aquilo que sinto e faço. Se eu posso demonstrar que o posso fazer, porque é que hei-de fixar-me e criar essa angústia do número de anos que tenho e limitar-me porque a sociedade assim o acha que devo fazer? Recuso-me a fazê-lo.

Se há muitos que não acreditam, outros continuam a esperar mais de si. Isso não o pressiona?
Não. Deixa-me feliz. Porque as pessoas que estão comigo, as pessoas que me apoiam são pessoas que acreditam também nelas próprias. Temos de aceitar a nossa condição, mas não é por aceitarmos que somos mais velhos que somos mais limitados do que éramos, podemos é fazer as coisas de uma forma diferente. Aliás, o diferente muitas vezes acaba por ser melhor.

Está há quatro anos na equipa do Ivan Pedroso. Mudou muita coisa no seu treino e hábitos de vida?
Mudei muito e, acima de tudo, aprendi muito. Aprendi, por exemplo, que em Portugal eu preocupava-me com o que comia, mas comia mal. Aprimorei esse pequeno detalhe. Aprendi que trabalhava bem porque fui campeão olímpico em Portugal a treinar com um treinador português. Treinava bem e sonhava de uma forma muitíssimo alta para aquilo que nós tínhamos. Aprendi que existe outro universo paralelo de coisas que podemos fazer ainda para nos tornarmos melhor e não perdermos tempo. Vejo-me numa posição de sortudo porque consigo ver esses dois universos distintos, aquilo que eu fazia e aquilo que eu faço. Conhecendo o melhor dos dois mundos tenho de conciliar o que tinha antes de excelente com o que tenho agora, a experiência, a disponibilidade física, o conhecimento, para tentar refazer coisas magníficas que já fiz ou até melhorar se possível. Não tenho qualquer medo. Acho que o medo nos limita e leva a errar ainda mais. Tenho total confiança e fé de que só assim, sem qualquer tipo de receios, conseguiremos atingir a nossa perfeição.

Que diferenças maiores notou na liderança de Ivan Pedroso?
O Pedroso é um tecnicista, leva as coisas à perfeição, trabalha muito a questão do movimento e da perfeição física. Também trabalha de alguma forma a questão psicológica, mas essa eu guardo-a mais para mim porque sempre gostei de desenvolvê-la. E, partilhando com ele e com alguns colegas de grupo, nós trabalhamos muito a questão de reverter as coisas a nosso favor quando há as maiores adversidades. Só esta mudança de chip e de forma de estar e de troca de energias, muda completamente tudo, muda uma estrutura por completo, para melhor.

A não renovação do contrato com o Sporting foi um balde de água fria?
O período de ter um clube em Portugal encerrou no início de novembro. Passado mês e meio após entrarmos em quarentena eu já sabia que isto iria acontecer, já o previa. Deixa-me triste porque acreditei num projeto que acho que fazia sentido para o Sporting, não só para o presente, mas para o futuro. Mas cabia à nova direção decidir e decidiu não renovar comigo. Depois de tudo o que sofri no meu passado já nada me surpreende. Já sofri horrores, já sofri bullying, sofri bullying na internet, já sofri de tudo um pouco na vida. O primeiro impacto sem dúvida foi estranho, mas depois aceitei bem. Não posso fazer nada, é a nova estratégia da nova direção, tenho de respeitar. Provavelmente há outras questões no meio, também a crise do covid-19 veio limitar ainda mais o Sporting, o que é compreensível. Mas eu prefiro falar das coisas positivas.

E que foram?
Eu adorei representar o Sporting, fui muito bem tratado no clube e na minha saída recebi mensagens incríveis dos verdadeiros sportinguistas, que me encheram o coração. O meu trabalho foi feito da melhor forma, eu não podia ter feito melhor e tive o grande prazer de concretizar o sonho de um grande homem ligado ao Desporto, o Moniz Pereira. Ele ambicionava muito que eu fizesse parte do Sporting. Lamento que não o tenha visto em vida, mas eu sei que ele sabe que eu representei o grande clube do coração dele. E tenho pena de não ser olímpico, quiçá medalhado, pelo Sporting. Ganhei muitas medalhas representando o Sporting, por isso acho que fiz o meu trabalho de forma exemplar. Mais do que isso, gostei do carinho e da satisfação que os sportinguistas tinham por eu fazer parte do clube. Daqui para a frente continuarei com os meus projetos e a buscar os meus sonhos, com ou sem clube. Tenho uma equipa, uma agência extraordinárias que trabalham atrás de mim e fazem tudo para que eu represente valores muito fortes. Eu faço também a minha parte, faço o meu trabalho na pista e fora dela. Sinceramente fiquei triste com esta saída do Sporting, mas também fiquei de alguma forma aliviado porque a partir de agora posso focar-me em não sofrer as represálias que existem em Portugal, de representar o Sporting, o FCP, o Benfica, que foram três clubes grandes que representei. Sinto-me livre, sinto que posso fazer aquilo que quiser. Estou triste por ter saído do Sporting e sei que muitos sportinguistas ficaram tristes, mas também sei que eles estão satisfeitos porque sabem que não era o meu clube de coração, e que o fiz como se fosse o meu clube do coração. Não conseguirei nunca falar mal do Sporting, poderei falar mal de algumas pessoas, mas a minha experiência no Sporting foi espectacular. Eu dobrava a competição, não sou especialista em salto em comprimento e pelo Sporting eu dobrei ene vezes, fiz comprimento e triplo salto com o máximo de entrega possível, mesmo sem ter preparado da melhor forma o salto em comprimento.

De que forma é que a pandemia alterou a sua preparação? Prejudicou mais do que beneficiou, ou pelo contrário?
Temos de ver os momentos maus como algo positivo. Normalmente quando me lesiono só eu é que paro. Mas com a covid-19 foi o mundo que parou. Eu estava bem de saúde, não podia estar triste, tinha de estar alegre e ver as coisas de uma forma positiva. E foi o que eu fiz. Vi que o mundo precisava de um tempo para si, as pessoas precisavam de um tempo. Desfrutei ao máximo da quarentena. Houve dias difíceis, não vou dizer que foi um mar de rosas, mas foi muito bom. Eu precisava de um descanso, da pressão diária de treinar, de fazer melhor, da repetição. Por isso agora sinto-me bem. Antes treinava, terminava o treino e achava que era algo já garantido; hoje, em dezembro de 2020, eu termino o treino e tento ter os meus segundos de tranquilidade e conectar-me com Deus ou com os Cosmos e dizer: "obrigado por terminar mais um treino bem de saúde, feliz, sem qualquer tipo de problema e com ambição de continuar a buscar os meus sonhos". Fez-me valorizar muito mais pequenas coisas que achava garantidas. Olho para o covid-19 desta forma.

Os seus adversários também ganharam tempo na preparação deles. Isso inquieta-o?
Não me preocupa minimamente. Não penso nisso. Penso que tenho tempo para mim, que tenho tempo para melhorar. Existe a perfeição de cada um e cada um é responsável por atingi-la no tempo que tiver. Eu só penso em atingir a minha perfeição, seja a nível físico ou mental e preparar-me para, no dia D, estar na minha perfeição e fazer as coisas de forma exímia. Eles tiveram mais tempo para melhorar aquilo que já faziam bem, mas eu sei que muitos acabam por estragar, porque não têm a capacidade de encarar as coisas de forma tão positiva. Não perco tempo a pensar nos outros. Para mim foi extremamente bom.

Fala-se na possibilidade de haver JO praticamente sem público. Seria mais triste e penalizador?
Sem dúvida. Os Jogos Olímpicos são tudo o que envolve público, atletas, multicultural e desporto no seu mais alto nível. Vou ser muito sincero, eu já ganhei o que tinha para ganhar, estou em paz com os cosmos. Eu vivi tudo na sua plenitude. Mas gostava de ganhar outra vez, não vou mentir. Por mim, por toda a paixão que tenho por este desporto e por esta disciplina, por aquilo que são os meus sonhos pessoais, por aquilo que são as barreiras que a sociedade impõe-nos e para poder quebrar barreiras e mostrar que realmente podemos fazer coisas seja lá com que idade for. Se antes treinava dependendo da motivação externa, eu hoje treino pensando já nesse detalhe, em que poderá acontecer eu estar num estádio gigante, que foi feito para milhares de pessoas, e que não estará nem sequer 10% ocupado por questões de segurança. Eu treino hoje em silêncio absoluto. Mas, por dentro, levo comigo uma nação, sonhos, ambição e muita garra. E é assim que me foco para cada salto e treino todos os dias para o dia D. Por isso eu já estou a antecipar qualquer tipo de panorama que possa acontecer. Se houver público é tudo mais fácil, se não houver público já estarei preparado para essa adversidade.

Quem vão ser os seus maiores adversários no Japão?
O nosso maior adversário sempre somos nós próprios. Esta é aquela resposta cliché. Posso estar enganado, e se calhar vou estar, não tenho uma bola de cristal para ver o futuro, mas acho que o principal adversário de todos é um dos atletas que mais admiro, que tem todas as vertentes nele, e que é um grande amigo meu com quem costumo falar muitas vezes, o Christian Taylor. Ele é o melhor atleta do triplo salto da atualidade. Física e psicologicamente é uma rocha. É um atleta extremamente difícil de bater, mas é um atleta super humilde e super apaixonado por aquilo que faz. Mais do que ganhar a prova que é o que ele quer, e ele tem muito mais isso na mão dele do que eu tenho, eu tenho a esperança de que se eu fizer tudo aquilo que me compete fazer... Na verdade, naquele dia, quando todos acordarem para aquela prova tivemos todos o mesmo tempo, o tempo que fará será igual para todos e começará tudo do zero. Quem mostrar o que vale é quem ficará com a medalha.

Já foi campeão olímpico, mundial, europeu. Agora salta atrás do quê? De bater o recorde do mundo ou alcançar novamente uma medalha olímpica?
Eu quero alcançar uma medalha olímpica. Porque é algo único. É algo que marca a nossa vida. Já o fiz, com a medalha mais alta do pódio, gostaria de o fazer outra vez. Fosse com que medalha fosse ficaria super feliz. E mesmo que não ganhe uma medalha já me sinto abençoado por tudo o que consegui conquistar, graças a uma país, a uma estrutura, a pessoas, à minha vontade, graças aos cosmos. Por ter 37 anos daqui a poucos meses o mundo já me põe de parte e eu de alguma forma gosto dessa paz.

Estava cansado da exigência dos clubes e das pessoas?
O que estou a dizer é que de algum forma estou a reunir as condições perfeitas para poder no sossego e em paz buscar o meu eu perfeito, dentro da pista. Não tenho exigências com clubes, não tenho exigências com nada, eu tenho de fazer por mim. E só é excelente quem as faz por si próprio. E eu sinto que tudo se reúne para que eu possa ser bem sucedido neste ano tão importante da minha carreira.

Olhando para o seu historial de medalhas e títulos considera-se o melhor atleta português de sempre?
Não penso nisso. Eu não trabalho para ser o melhor desportista de todos os tempos em Portugal. Porque há muitas questões que estão por detrás disso, como a questão comercial ou o marketing. O Cristiano Ronaldo é um desportista espetacular e nos momentos de maior pressão demonstrou que está lá sempre. Eu também o fiz várias vezes, contra tudo e contra todos, sem uma décima parte daquilo que ele ganha para poder melhorar a minha condição física no meu dia a dia. Ficar no ginásio, ser o último a sair e fazer o trabalho que mais ninguém faz. Essa é a história da minha vida. Inclusive isto: se as pistas estiverem fechadas, como muita gente sabe, eu vou para a Quinta das Conchas e faço o meu trabalho alegre, volto às minhas raízes de treinar na rua, sem qualquer tipo de problema. Não tenho um ginásio xpto, que tem um tapete de alta velocidade, não tenho nada disso. Por isso não trabalho com o intuito de algum dia me darem esse título. Mas para mim a melhor atleta e desportista de todos os tempos é sem dúvida a Fernanda Ribeiro. Foi uma atleta que rasgou a pista de um lado ao outro. Quebrou barreiras, representou uma nação, bateu recordes do mundo, levou o nome de Portugal ene vezes. E se hoje tenho esta paixão pelo desporto e pelo atletismo é graças a ela, não é graças a Cristiano Ronaldo, não é graças ao Figo, ou a mais ninguém, é a ela. Se o povo e as instituições quiserem olhar para mim e dizer que sou realmente o melhor atleta de todos os tempos, isso irá encher-me o coração de forma única, serei agradecido e vou chorar baba e ranho por esse título. Mas esse título é relativo, porque são momentos diferentes, são histórias diferentes, são metas diferentes, são realidades diferentes. O que eu quero, é saber que representei uma nação da melhor forma possível e que dei muitas alegrias a todos os portugueses. E quando for velhinho e já não conseguir andar como deve ser, se as pessoas olharem e disserem: “Este é o Nelson Évora que nos deu tantas alegrias” ou "chorei, só chorei assim quando fui pai ou mãe" para mim isso é o melhor que há. Mais do que as medalhas que possa ter em casa guardadas, é saber que pude influenciar de forma positiva milhares de pessoas. Isto é muito mais rico.

Tendo em conta tudo o que tem feito fora do atletismo, já pensa no futuro pós pistas?
Acho que temos de ser versáteis e ter a capacidade de sair da nossa zona de conforto e fazer coisas diferentes. Eu faço dobragens, faço moda, e a mensagem é mesmo essa: temos de ser como um camaleão e ter a capacidade de nos reinventarmos, a humildade de sair da nossa zona de conforto e sabemos que somos horríveis fazendo algo de novo, mas que se tivermos o estímulo e a ambição certa podemo-nos reinventar e tornarmo-nos excelentes.

Tem uma meta para deixar as pistas?
Tenho, mas não vou partilhar já. Farei de tudo para que seja uma saída espetacular, digna, e espero que as pessoas possam também dignificar a minha saída porque sempre quis sair pela porta da frente por tudo o que dei ao desporto nacional, ao povo português. É o mínimo que acho que posso ter. Aqui na minha bolha vou tentar fazer o melhor que posso, vou tentar dar aquilo que é a nossa essência, dos portugueses, somos um país pequeno e ninguém acredita no que podemos fazer e seria um sonho mais uma vez tornado realidade, no Japão, que é um país especial, fazer ouvir o nosso hino, seja para 10 mil ou milhões, isso seria para mim espectacular. Irei chorar baba e ranho se isso acontecer porque foi e é um longo caminho, de muito sacrifício em busca dos meus sonhos.

Do que foi mais difícil abdicar?
De momentos com a família. Eu tenho muitas horas dentro da pista e muitos menos horas com a família e o tempo não volta atrás. As pessoas envelhecem, as pessoas acabam por seguir as suas vidas, acabam por falecer, e já não se recupera muita coisa. Esse é o maior sacrifício pessoal.

Como surgiu no "Como é que o Bicho Mexe" criado pelo Bruno Nogueira no Instagram durante o confinamento?
Na realidade, aquilo foi espontâneo. No que toca à minha participação teve a ver um pouco com o carinho e a brincadeira que o povo português tem comigo, de alguns memes que foram criados e andaram nas redes sociais, que mostravam as minhas partes genitais com um chourição em vez de algo normal [risos]. Ele tem todo o mérito de guiar o programa como guiou, mas também mostrou o carinho que as pessoas têm por mim, de saberem que eu alinho nas brincadeiras e não levo as coisas a mal, sempre com o máximo respeito. A minha participação no programa foi aleatória. Havia dias em que eu estava extremamente cansado e nem sequer via o programa, e outros em que estava desejoso de brincar com todos, entrava em linha e nem sequer era chamado e havia outras noites em que nem sequer esperava entrar e entrava. Foi um fenómeno espectacular e tenho de agradecer ao Bruno e aos portugueses que acompanharam o programa e que gostaram de conhecer a minha vertente de brincalhão. As pessoas que me conhecem sabem que sou extremamente gozão com tudo e todos. Em família, gozei com uma situação que foi das mais dramáticas da minha vida. Quando tive de transferir o meu pai de um hospital público para um privado, porque no público tinham posto o meu pai a dormir num corredor... Eu gozei com a forma como veio uma menina muito bonita com uns peitos gigantes, um batom super vermelho para me apresentar a fatura. Achei aquilo hilariante. Em família gozei com isto, e se estou a partilhar é para terem noção de como brinco com tudo. Acho até que tenho uma grande veia no campo da comédia não esteja explorada.

Na altura em que Pedro Pichardo veio para cá e adquiriu a nacionalidade portuguesa foi muito crítico...
O que eu quis dizer foi que há milhares de pessoas que vivem anos e anos em Portugal que descontam em Portugal e não lhes é dada uma oportunidade de terem a nacionalidade. Eu passei por um processo extremamente longo, e assim como eu muitos outros passaram, que nem sequer conseguiram ter a nacionalidade porque entretanto desistiram. Não tenho absolutamente nada contra o Pichardo. Ele fez muito bem em ter saído de Cuba porque é um sistema em que as pessoas não têm liberdade, e uma pessoa com o talento dele tem todo o direito de poder mudar de nacionalidade e fazer a vida seja onde for. Só não estive de acordo foi como as coisas foram feitas a favor de um clube. Um clube que me maltratou numa fase final e que para tentar substituir-me fez o que fez. Então podemos perguntar: "ele representa Portugal por uma questão clubística ou representa Portugal porque realmente sabe o que é a cultura portuguesa?" Acho que isso não se compra. E os políticos que lhe deram esse direito... são eles que corrompem aquilo que é ser português. Eu tive de lutar anos e anos para obter a nacionalidade e, no entanto, cheguei a Portugal com sete anos e só a consegui aos 18 anos. O último documento que dei para obter a minha nacionalidade eu tinha 17 anos, 364 dias de idade. Lembro-me que a senhora pediu o meu registo criminal da Costa do Marfim. Eu saí de lá com seis anos. Por isso, eu disse, bolas, eu tive de passar por tanto, e há tanta gente que passa por tantos horrores para ter uma nacionalidade e ele chega... Foi nesse sentido, não tenho absolutamente nada contra ele ou contra o Benfica, tenho contra algumas pessoas que estão no Benfica.

Tem esperança que possamos voltar à normalidade já em 2021?
Que tenhamos de volta 30% daquilo que tínhamos antes e já é uma vitória. Eu tenho a esperança que 30% será já 100% em 2021. As pessoas têm de perceber que não há que ter medo de tomar a vacina, mas também é importante que os cientistas tenham mais tempo para melhorá-la. Os cientistas precisam de tempo. Não podemos pôr tudo em cima dos cientistas, das pessoas que estão a trabalhar nos hospitais porque esta é uma questão nova e estamos todos no mesmo barco, temos de ter tolerância. Temos de aprender com esta experiência. As pessoas que insistem em não aprender, são pessoas que persistem em ser adolescentes mimados que acham que tudo é garantido e nada é garantido. Por isso, quero deixar uma mensagem a todos os portugueses para que cumpram as regras de segurança, porque temos todos a liberdade para fazermos o que quisermos mas a nossa liberdade termina quando infringimos o espaço e a liberdade dos outros.