Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Entrevistas Tribuna

Retirou-se aos 29 anos e não foi por causa da covid. Caetano é um empreendedor: “Tenho sete espaços de fitness, vou abrir clubes de padel”

Entrou, jogou 15 minutos e marcou no jogo da despedida, tal como fizera o pai com a mesma idade, e entregou à mãe a última camisola que vestiu. Rui Caetano, mais conhecido só pelo apelido, retirou-se aos 29 anos, nem uma década após perder a final do Mundial de sub-20 com Portugal. É novo, é cedo, mas é também a mesma razão pela qual nunca jogou sequer longe do norte do país: "Comecei a abraçar os negócios desde muito novo, não podia nem quis sair daqui. O futebol foi a melhor licenciatura que podia ter tirado"

Diogo Pombo

AFP

Partilhar

Parece que foi ontem, a mente distorce as noções temporais mas, no grande quadro das coisas, nove anos e cinco meses são um pestanejar e quando fechámos os olhos, Caetano estava na Colômbia, a correr atrás de brasileiros no prolongamento da final do Mundial de sub-20, em 2011. Quando os voltámos a abrir continuava a correr, mas na Póvoa de Varzim.

Acabara de marcar um golo, está em pleno andamento devido à celebração e a despir a camisola, mas esfreguem-se os olhos porque ele continua igual, é porque "estava com aquele feeling de que ia fazer golo" e tinha outra igual vestida por baixo. O Varzim que não ganhava há 14 jogos ganhou ao Penafiel e Caetano ganhou o que pretendia - dizer adeus como o pai, Agostinho.

O mais novo, pequeno e louro dos Caetanos retirou-se no domingo, com inusitados 29 anos para o fazer no abrir e fechar de olhos que foi a sua carreira.

É o primeiro adeus da sua geração, está na flor da idade civil e estava mais do que na idade de "jogar ainda mais uns quatro ou cinco anos", mas não, ele quis sair quando quis e agora quer dedicar-se aos negócios da família e ao seu (empresa de fitness, ginásios e clubes de padel), vontade que também nunca o fez querer ir jogar para o estrangeiro, ou sequer para longe do norte de Portugal.

Como foi acordar hoje de manhã e não ir treinar?
[Ri-se] Por incrível que pareça, e já comentei com algumas pessoas, é uma sensação estranha e esquisita. É um sentimento um pouco nostálgico. Tenho a consciência de que foi a melhor decisão que tomei, fui abençoado na minha despedida, acho que não podia escolher melhor e parece que foi tudo programado. Estou extremamente feliz, mas, como é óbvio, um pouco nostálgico.

Tens 29 anos e esta idade não é muito normal para um futebolista terminar. O que te levou a isto?
A minha família, mais precisamente o meu pai, que depois do futebol tem construído um grupo de empresas que tem vindo num grande crescimento, estão cada vez mais fortes e ele quer sentir que tem continuidade, que estou ali ao lado dele e saí do futebol para abraçar a 100% as empresas. Eu, sozinho, já me tinha lançado no mundo dos negócios. Tenho sete espaços de fitness e estou agora a abrir dois clubes de padel. Já tinha seguido o meu caminho, mas com o futebol não dava para trabalhar também junto do meu pai. O que eu tinha construído já era muito coisa e tomei a decisão de abraçar os negócios mais fortes da família, que é a parte imobiliária, e ir trabalhar com ele para o acompanhar enquanto é novo, que é um desejo que ele tinha. É verdade que se calhar podia jogar futebol mais quatro ou cinco anos, mas o facto de, o ano passado, ter estado muito tempo parado...

Por causa da situação com o Paços de Ferreira.
Sim, depois fui para o Varzim em janeiro, em março o campeonato parou por causa da covid, em setembro voltei, em outubro estive um mês em casa porque era eu com a covid. Ou seja, tudo isto também teve influência.

Fartaste-te do futebol?
Não, sempre tive um prazer muito grande em jogar e no treino, sempre que ia treinar conseguia esquecer tudo, aquela 1h30 para mim era fantástica; o que sinto que vou ter mais saudades é de ter a bola no pé. Do balneário também, como é óbvio, mas o que vou sentir mais falta é de ter a bola no pé. Mas o importante é dizer que foi por causa da família e para abraçar os negócios, Isto da covid não é o motivo principal, nem 5% é. Ajudou, claro, mas não é relevante.

Isso quer dizer que vais ter saudades de jogar futebol, mas não do futebol propriamente dito?
Não tenho absolutamente nada a apontar à indústria do futebol, bem pelo contrário. Estou super satisfeito com tudo aquilo que me aconteceu, até a forma como terminei, fui abençoado pelos deuses do futebol. Não tenho absolutamente nada a apontar ao futebol, nem a ninguém. Estou mesmo extremamente grato à indústria do futebol, o futebol foi, sem dúvida, a melhor licenciatura que podia ter tirado. Aprendi a ser líder, o que é ser um grupo, o que é o trabalho de equipa, a trabalhar com pressão e muita coisa que nenhuma licenciatura me ensinaria. Foi a melhor que podia ter tirado para abraçar agora este desafio.

Alguém próximo de ti teve aquela reação de estranhar e questionar o porquê de estares a parar tão novo? Porque no futebol está enraizado que um jogador deve esticar a carreira ao máximo.
Claro, é verdade. Sinto que podia jogar mais anos, mas quis sair pelo meu pé, não quis ser empurrado ou enganar ninguém. Quis sair a sentir-me bem e com a sensação de que estava em forma, gostei de sair na maneira como saí. Podia continuar, é verdade, mas acho que foi o momento e o timing certos.

Nunca jogaste no estrangeiro. Porquê?
Com 23 anos, eu já tinha mais de 100 jogos na I Liga. Tinha jogado pelo Paços de Ferreira na Liga dos Campeões e na Liga Europa, fui finalista de um Campeonato do Mundo e tinha uma final da Taça da Liga. Tinha um currículo incrível para um jovem de 23 anos e, depois, desci de divisão com o Gil Vicente [2014/15]. E o jogador português, a partir dos 24 ou 25 anos, ainda por cima eu, que já tinha mostrado muita coisa, perdi um bocado de espaço com essa descida. Tinha propostas muito boas do estrangeiro e de clubes da I Liga em Portugal, mas, como comecei a abraçar os negócios desde muito novo, não podia sair daqui. Nem nunca quis. A minha carreira poderia ter tido outro rumo se, depois do Gil Vicente, tivesse ido jogar para o sul do país ou para o estrangeiro. Preferi ficar por aqui, numa II Liga, para jogar perto de casa e pronto, por isso é que isso também prejudicou um pouco a minha carreira, o facto de nunca ter querido emigrar nem jogar longe de casa.

E apareceste muito novo. Jogaste a final do Mundial de sub-20 nem há 10 anos.
É verdade, mesmo com 18 anos, quando era júnior do FC Porto, fiz uma época brilhante e treinava muitas vezes com a equipa principal. Apareci muito novo, sempre fui internacional e com 19 anos estreei-me na I Liga contra o Sporting, na primeira jornada, fiz um jogo fantástico e ganhámos 1-0 em casa. Apareci muito novo, acabei muito novo e acabei com a idade com que o pai [Agostinho Caetano, ex-internacional português] acabou, também tinha 29 anos. Agora tenho mais não sei quantos anos para a minha nova carreira.

Acabas com alguma coisa encravada?
Ter sido vice-campeão do mundo foi excelente, mas ser campeão seria completamente diferente. O maior erro que posso ter cometido na carreira foi o querer sair de Paços de Ferreira [2013/14]. Era um miúdo acarinhado e saí para um clube onde fiz épocas fantásticas, mas o maior erro que posso apontar é ter pedido para sair após três ou quatro anos no Paços, porque achava que já estava há muito tempo no clube e queria dar um rumo diferente. Mas acredito que se tivesse ficado lá as coisas poderiam ter sido diferentes.

Icon Sport

Porque deste a tua última camisola à tua mãe, quando marcaste o golo pelo Varzim contra o Penafiel?
São aquelas coisas que não dá para explicar. A minha mãe sempre me acompanhou, desde os meus 6 anos, quando comecei a jogar nas escolinhas do Paredes, foi ver jogos às 9h da manhã com -3.º, e sempre foi ver todos os meus jogos. Quando fui à Rússia jogar para a Liga dos Campeões ela também lá estava. Esteve no melhor e no pior, sempre esteve presente e estava com aquele feeling de que ia fazer golo, então pedi ao técnico de equipamentos do Varzim para me dar duas camisolas para eu jogar. Joguei com as duas, fiz o golo, tirei uma e dei-lhe, como agradecimento por sempre me ter apoiado. Até na minha retirada me apoiou, esteve sempre presente e não podia ter sido mais feliz. Foi um momento único, parece que foi desenhado, uma história de cinema e vai ficar marcado para sempre na minha vida. Foi muito giro e a minha mãe estava extremamente feliz e orgulhosa.

Acho que és o primeiro da tua geração a retirares-te. Queres um dia regressar ao futebol?
Treinador tenho a certeza que não quero ser; agora, quando era novo acompanhei muito o meu pai, que foi presidente de um clube. Agora não, retirei-me para criar valor nas empresas e esse é o meu grande objetivo, primeiro vou fazer as empresas crescer e daqui por uns anos gostava de ser presidente de um clube. E acho que vou ser. Antes vou gerir uma empresa na qual terei que dar resultados, num clube é parecido, os sócios do clube têm de estar satisfeitos, temos de fazer muitas pessoas felizes e é dos cargos mais difíceis de se ter. É-se alvo de muita crítica, mas acho que vou estar completamente preparado para isso. Não sei se vou ser, mas gostaria, porque na infância acompanhei o meu pai a sê-lo e a minha vida tem sido um pouco semelhante à dele - também acabei aos 29 anos e com um golo na despedida. Coincidências da vida. Por isso, talvez um dia destes seja presidente de um clube.

Vais continuar a jogar à bola com os amigos?
Claro, o futebol é a minha paixão, vou jogar sempre, todos os dias faço isto e até quando estou de férias a bola tem de estar sempre a saltar. Vou continuar a jogar e a viver o futebol e a continuar a ser feliz com a bola no pé. Agora num momento diferente, porque desde que me conheço que toda a minha vida e da minha família foi futebol - o meu avô foi dirigente, o meu pai foi jogador e depois presidente, eu fui jogador. Não sei agora como será a minha família sem o futebol, vai ser curioso. Mas com os amigos e a família a bola vai estar sempre a saltar.

Vês muito futebol?
Gosto muito de acompanhar jogadores portugueses lá fora, sou fã incondicional do [José] Mourinho e sigo todas as equipas por onde ele passa. E, como é óbvio, do Cristiano Ronaldo também. Depois, tenho alguns treinadores que me ajudaram muito e ficaram na memória, como é o caso do Rui Vitória e do Paulo Fonseca, que estão lá fora. O Paulo Fonseca é mais fácil porque está na AS Roma, é uma pessoa muito especial para mim, vou acompanhando sempre porque adoro futebol. E vou continuar a fazê-lo.