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Pepe: “Dormi com a minha mãe até aos meus 18 anos. Fui muito mimado e apesar do que se diz, que sou mauzão e não sei quê, sou amável”

Um português ofereceu-lhe uma sandes no aeroporto de Lisboa para matar a fome, e o defesa nunca mais esqueceu esse dia. Esta também é uma história de amor de um estrangeiro com Portugal. Leia na íntegra a grande entrevista publicada a 15 de janeiro, na Revista E

Pedro Candeias (texto) e Rui Duarte Silva (foto)

RUI DUARTE SILVA

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Está frio no Olival, e Pepe chega vestido a preceito, com camisolas sobrepostas e um colete que o manterá confortável nas quase duas horas de conversa com o Expresso. Não traz nada na manga.

Ainda continua a fazer truques de magia?
[risos] Só para as minhas filhas, faço alguns ainda, com moedas e cartas.

E faz esses truques no balneário?
Não, tenho vergonha, tenho vergonha [gargalhada]. Fica só dentro de casa.

E qual é o truque para, com a idade que tem, que é, digamos, avançada, manter a forma e a competitividade?
Olhe, é a paixão que tenho pelo futebol. Eu, a cada dia que acordo para treinar, tento fazê-lo da melhor maneira possível. Treino de uma forma intensa, o mais aproximado possível com a realidade de um jogo, e penso que essa é a minha vitamina. Obviamente que ter 25 anos não é ter 35 anos — ou, no meu caso, 37 anos. Aos 25 anos temos tanta energia que acabamos por não saber utilizá-la; eu, com os meus 37 anos, consigo utilizar melhor essa energia dentro de campo, o momento certo para dar o salto.

A genética ajuda?
[risos] Sim, verdade, ajuda, mas também há aqui muito trabalho, muito rigor na alimentação, no descanso. Eu dou sempre o máximo. Mas não fui sempre assim, magro; quando tinha três, quatro anos, era como uma botija de gás, sabe? Roliço, meio gordinho. Depois, a partir dos meus sete anos comecei a emagrecer, porque nunca parava quieto, sempre a correr lá no Brasil. Sou o único filho homem da família — tenho três irmãs (duas mais velhas e uma mais nova do que eu) — e então era muito, muito mimado. Tinha tarefas de casa, sim, mas… passava a maior parte do tempo na rua, em apostas de corridas, ver quem chegava mais depressa a algum lado. E as minhas irmãs apoiavam-me muito: “Vai lá que vais ganhar.”

Quão mimado era, então?
Até vir para Portugal, aos 17 anos, dormia com a minha mãe, por isso imagine só o que era [gargalhada].

E o que dizia o seu pai?
Eh pá, eu já era grande [Pepe tem 1,87m] e dormia com os meus pais, portanto, imagino que o meu pai não gostasse muito de me ter ali [gargalhada]. Isto é interessante: no outro dia estava a falar com a minha mãe e ela estava-me a dizer que eu gostava muito de passar a mão pelo cabelo dela, pegar no cabelo, e eu disse-lhe que talvez já soubesse que ia estar muito tempo longe dela.

E porque é que rapa o seu?
A primeira vez que eu rapei a cabeça tinha sete, oito anos. O meu pai era uma pessoa muito rígida e queria um corte baixinho, curto. Uma vez, fui ao barbeiro e pedi para fazer um corte mesmo militar. Cheguei a casa e a minha mãe: “Meu Deus, que foste fazer, o teu pai vai te matar.” Mas chegou o meu pai e disse que aquilo era um “corte de homem”. Só deixei crescer quando nasceram as minhas filhas; a mais velha, tinha a mesma mania que eu tive em pequeno, e agarrava o cabelo da mãe e também passou a agarrar o meu. Mas, quando voltei para o FC Porto, disse-lhes: “Olhem, o pai quer cortar o cabelo.” “Ai é? Vamos rapar?” E então foram elas que me raparam, mas só me raparam daquela vez, tipo ida ao cabeleireiro.

Voltando à sua infância.
Bom, os meus amigos andavam na rua, nas primeiras saídas, as minhas irmãs iam às discotecas e aos barzinhos dali, e eu dizia que não, que ficava em casa, porque queria estar com os meus pais, sobretudo com a minha mãe. Percebe o que quero dizer? Alguma coisa me dizia que ia ficar muito tempo longe dela. Quando saí do Brasil e de casa, estava preparado para viver sozinho, porque os meus pais me orientaram bem — e, por outro lado, deram-me o conforto de saber que, se algo corresse mal, podia voltar para casa que a porta estava sempre aberta. Quando vim para Portugal, abracei isso como se fosse a última oportunidade da minha vida.

Os seus pais queriam que fosse futebolista?
O meu pai não tinha muito tempo para me acompanhar durante a semana; só aos fins de semana. Mas… é engraçado — e esta é a primeira vez que vou falar nisto: jogava num clube do meu bairro, depois, um clube maior da minha cidade, Maceió, que disputava a segunda divisão estadual do Brasileirão, interessou-se por mim e a coisa começou a ficar séria. Portanto, tive de mudar as minhas rotinas da escola, passei a estudar à noite para treinar de manhã, e chegou a uma altura, aos 14, 15 anos, em que vi que o futebol não era honesto, não era compatível com a minha educação. E disse: “Quero deixar o futebol.” E a minha mãe: “Não, não, nem pensar, agora vais até ao fim. Mudar toda a rotina outra vez? Vais ser jogador de futebol. Essas circunstâncias fazem parte da vida, tens de ter força.”

De que forma é que essa desonestidade que fala se manifestava no futebol de adolescentes?
Eu vim de uma classe muito baixa, mas os meus pais educaram-me sempre a respeitar o próximo e a ser sincero. E eu via, muitas vezes, companheiros meus que deviam jogar e não jogavam, porque havia interesses: os filhos dos pais que ajudavam financeiramente o clube eram os que jogavam. Isso para mim não dava. Para mim, o que treina e joga melhor tem de jogar. E a minha mãe disse: “A vida é assim mesmo.”

E já era defesa central?
Jogava a central, trinco e defesa-direito, mas preferia jogar a central [sorriso]. Como as coisas mudam: antigamente, só se olhava para os avançados, para os que marcavam golos e ninguém ligava para o defesa central. Mas eu sempre pensei de forma diferente, ou seja, para atacares bem, tens de defender melhor, porque é aí que tudo começa. Do meu ponto de vista, um central tem de jogar feio quando tem de jogar feio, é verdade. Tenho um treinador [Sérgio Conceição, treinador do FC Porto] que divide o campo em zona vermelha, amarela e verde, e na zona vermelha é para jogar feio, pode ser um chuto para a linha lateral; noutra zona, temos de construir e fazer uma jogada bonita.

Mas foi um avançado que Nelo Vingada, então treinador do Marítimo, e Carlos Pereira, presidente do Marítimo, vieram ver ao Corinthians Alagoano, onde o Pepe jogava.
É engraçado... Eles vieram ver um avançado e um central esquerdo, sim, mas o objetivo era um avançado. Na altura, o presidente do Corinthians Alagoano veio ter comigo e disse: “Olha, vêm cá uns portugueses e queremos vender o avançado. É para ajudar o clube, percebes? Portanto, quando o avançado vier para cima de ti, tu, pá, vê lá não lhe roubes muitas vezes a bola.” E eu disse-lhe: “Sim, sim, claro, não se preocupe.” [sorriso]

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Então, de cada vez que o tal avançado vinha, tau, roubava-lhe a bola e começava a correr por ali acima. Às tantas, prriiii, fim do treino aos 25 minutos. “Pronto, já fui, já vou ouvir”, pensei eu. E então vi o Nelo Vingada, com o presidente do Marítimo, e também o presidente do Corinthians Alagoano, o João Feijó. Eu a pensar que ia levar uma dura e... “Então, miúdo, queres vir para Portugal?”, perguntou o Nelo. E eu: “Quero, já.” E ele: “E os teus pais?” E eu: “Claro, vamos lá falar com eles.” Nunca na vida me passou pela cabeça que aquilo ia realmente acontecer, mas depois o João Feijó abraçou-me: “Olha que vais para Portugal.” Pensei: “Com 20 minutos de treino?” E ficou acertado: eles falaram com os meus pais e ficou decidido que iria para o Marítimo, como contrapeso do Ezequias, o central que também era lateral-esquerdo. Ia para jogar pelos juniores, mas para treinar com o Marítimo B.

Mas não foi assim tão simples.
Na última jogada do último jogo pelo Corinthians Alagoano, na minha despedida do Brasil, contrato assinado com a minha família toda no estádio a ver, eu parti o pé. Pá, orgulho-me, porque dou sempre o máximo: num canto, fui a correr para cortar uma bola e um avançado veio de carrinho e apanhou-me o pé de apoio. Aos 17, 18 anos o meu sonho tinha acabado. Felizmente, o Nelo Vingada, que foi como um segundo pai para mim, ligou-me, tranquilizou-me: “Vais recuperar em Portugal, na Madeira, tudo normal.” Fiquei na dúvida se era operado logo no Brasil ou não, entrei no hospital e a minha mãe entra lá dentro aos gritos: “Não, não, não vai nada ser operado.” [gargalhada] Resultado: não fui operado, vim de gesso para Portugal, estive três, quatro meses engessado, fiz uns jogos pela equipa B, outros pelos juniores, um deles, inclusivamente, contra o FC Porto e apanhei o Hugo Almeida pela frente [risos]; e ainda joguei os últimos quatro jogos pela equipa A. E a determinada altura sou convidado para uns testes no Sporting [em 2002]. Já lá andava o Cris [Cristiano Ronaldo].

Mas é verdade que conheceu os pais de Cristiano Ronaldo antes de o conhecer a ele?
Sim, sim. Conheci primeiro o pai, que trabalhava perto do campo do Marítimo; depois, conheci as irmãs e a mãe, e só mais tarde conheci o Cris, em Lisboa. A família dele dizia-me já várias coisas do Cris e, quando fui para o Sporting, veja lá a coincidência: dividimos praticamente quarto. E a seguir, anos mais tarde, foi o que foi. Eu era mais velho do que ele, mas via o profissionalismo dele: nos treinos bidiários, o Cris ia antes de todos para o ginásio.

Então não é mito.
Qual mito? Eu vi com os meus próprios olhos o que ele fazia, percebe [risos]?

O que aconteceu para não ficar no Sporting?
Acho que até correu bem, não é? Não chegaram a acordo, fiquei mais dois anos no Marítimo e a seguir para o FC Porto.

E como é que isso se processou?
É assim: quando regressei ao Marítimo, já tinha várias ofertas de outros clubes. Um deles era o Lyon, de França, havia clubes da Ucrânia, da Holanda. Eu, honestamente, só queria jogar. Quando o Jorge Mendes [empresário] veio falar comigo, disse-lhe assim: “Não quero assinar contrato contigo, não preciso, tens a minha palavra, confio em ti.” Foi o Jorge quem me falou do FC Porto e eu combinei com ele, mas, entretanto, um representante do Lyon foi a minha casa, no Brasil, para tentar fechar a minha contratação. Liguei ao Jorge Mendes, disse-lhe que estava ali fulano tal do Lyon, com dinheiro vivo na mesa.

Literalmente na mesa?
Sim, em cima da mesa. Já tinham acertado com o Marítimo e tudo, mas eu dera a palavra ao Jorge Mendes e este tranquilizou-me: “Joga num clube grande em Portugal e a seguir vais para a Europa.” Os meus pais não queriam acreditar…

Então?
Eh pá, nós não vivíamos mal, atenção, mas estava um milhão e tal de dólares em cima da mesa.. E com aquele dinheiro eu pagava as dívidas todas dos meus pais e da família. “Como assim, não vais aceitar o Lyon? Tu és maluco? Isto é o nosso futuro”, perguntaram os meus pais. Eu ganhava 80 contos [cerca de €400] no Marítimo na altura, portanto a diferença era grande. Mas eu mandei embora o representante do Lyon, mantive a minha palavra com o Jorge e fui para o FC Porto. Acho que foi a melhor decisão da minha carreira, não é?

E como foi o primeiro ano do FC Porto?
Muito difícil. Eu vinha de um clube mais pequeno, de uma região pequena, uma ilha, e cheguei a um clube que tinha acabado de conquistar uma Champions, com uma exigência brutal, brutal [gargalhada]. Não foi fácil, por outro lado, porque tivemos três treinadores [Luigi Delneri, Víctor Fernández e José Couceiro]. De qualquer forma, creio ter amadurecido bastante durante esse primeiro ano. Havia um respeito enorme pelos mais velhos, como o Jorge [Costa], o Vítor [Baía], o Pedro [Emanuel], o próprio Derlei, todos eles tinham um peso enorme no clube. Eu até tive bastante sorte com o Jorge Costa, por acaso.

Como assim?
O Jorge tinha uma padaria em Lavra [na freguesia de Matosinhos] e, todos os dias, ele fazia questão em que um empregado dele fosse a minha casa levar pão. Isso já mostra quem é o Jorge. E também aprendi muito com ele: sabia que havia alturas em que podia estar com ele e falar com ele. Bom, na verdade, ele não precisava de falar muito, porque a presença dele impunha respeito, só por si. E num ano muito difícil como aquele, o Jorge geriu bem a coisa. E no segundo ano…

No segundo ano teve a sua chance.
Um colega meu teve um infortúnio [Bruno Alves foi castigado após agressão a Nuno Gomes] e eu entrei para o lugar dele. Um novo treinador...

Um novo sistema de jogo.
Exatamente, exatamente.

Jogar em 3x4x3 favoreceu-o?
Eu gostava muito de jogar naquele sistema, porque as equipas sentiam-se sufocadas com a nossa pressão. Todos os jogadores entenderam o que o treinador queria; a tática é importante, mas mais importante é que os jogadores percebam a ideia do treinador. Éramos — bom, somos ainda — muito competitivos no FC Porto, sempre. Há competição e rivalidade, mas não há maldade, damo-nos bem; é difícil haver aqui grupinhos, e posso dizer que é o único clube por onde passei em que isso acontece. Talvez por ser em Portugal, porque nós — sim, nós — portugueses acolhemos muito bem os estrangeiros.

No ano seguinte é treinado por Jesualdo Ferreira, soma o segundo campeonato nacional; depois, Real Madrid.
Ufff... Foi tudo muito rápido, mas na verdade eu podia ter saído antes, para o Deportivo de La Coruña, logo no final do primeiro ano. Só que o presidente Pinto da Costa disse-me assim: “Não, não, não, nem pensar, vais ficar aqui mais no FC Porto.” Mas a imprensa ia escrevendo algumas coisas, o Jorge Mendes ia-me dizendo outras, “um clube de Inglaterra interessado”, etc., percebe? E quanto mais ia jogando, mais clubes iam aparecendo. No terceiro ano, renovei por mais cinco e, no final da época, chegou a proposta do Real Madrid, embora tivesse outras oportunidades. E eu quis mesmo o Real Madrid, apesar de muita gente me dizer que eu era maluco por ir para lá, porque era muito difícil e, sobretudo, porque era um “cemitério de centrais”, e tal. Naquela altura, o Real tinha um vazio por preencher desde o Hierro. E eu queria esse desafio. Ainda tentaram que eu fosse para outro lado, mas eu fui sempre muito direto: “O Real não quer? Não paga ao FC Porto? Então, está feito.”

Por €30 milhões. Sentiu o preço?
€30 milhões e vindo de um campeonato como o português... A imprensa espanhola é bem mais dura do que a portuguesa, isso vos digo [gargalhada]. Foi assim: eu saí do estágio do FC Porto, comprei roupa no aeroporto e, quando cheguei a um T4 em Madrid, tinha um monte de jornalistas à minha espera. O Jorge Mendes avisou-me: “Quando saíres porta fora, tens aí uma data de gente, dá cá a tua mala.” Dei a minha mala ao Jorge, tinha uma mala a tiracolo, abri a porta e a primeira pergunta que me fizeram: “Pepe, Pepe, trazes os €30 milhões nessa bolsa?” Eh pá, não sabia o que responder; senti um empurrãozinho nas costas e siga, siga, “não fales”. Pfff.. “Los 30 millones? Tu que crees?” Sabia lá eu falar espanhol. Portanto, sim, foi duro [gargalhada].

Imagino que o balneário não fosse fácil.
Bem, agora posso contar isto, porque já se passaram muitos anos e somos amigos: aconteceu com o Cannavaro [antigo defesa central italiano, Bola de Ouro em 2006]. Na pré-temporada, eu praticamente não falava, só treinava e observava, porque sou muito observador, aquilo era trabalho e trabalho. Então, íamos no avião para a Áustria e calhou ele sentar-se à minha frente; apanhei-o a ler uma revista e, quando percebi que tinha acabado e que a ia pousar, enchi-me de coragem e disse: “Cannavaro, Cannavaro [falando baixinho], podes dar-me a revista?” E ele olha para trás e responde assim: “Cannavaro? O meu nome é Fabio”, e virou-me as costas. Não soube o que dizer. Passaram-se segundos, minutos talvez, mas aquilo pareceu-me uma eternidade — até que ele me deu a revista.

E desportivamente?
Primeiro jogo: Atlético de Madrid. Eu vinha de um clube taticamente organizado — se a bola sai pelo lateral-esquerdo, há que pressionar assim, se a bola sai pelo lateral-direito, pressiona-se desta forma, coisas assim, básicas — e o que encontrei foi o caos. Ao minuto 30, o jogo partiu-se, um para um lá atrás, eu viro-me para o Fabio e digo: “Fabio! Fabio! Cobertura, cobertura”. E ele: “Não, não, aqui é cada um por si.” E eu: “Aqui é assim? Porra.” Eu olhava e via os laterais lá à frente, o trinco lá à frente, e eu a pensar para mim: “O quê? 50 metros nas minhas costas e eu aqui no um contra um? Calma aí, que vou defender, não saio daqui.” Fui-me deixando ficar lá para trás durante os jogos e, aos poucos, fui conquistando estatuto. Quem jogava no Real Madrid, naquela altura [2007-08, com o treinador Bernd Schuster e jogadores como Van Nistelrooy, Robben, Sneijder, Raúl e Higuaín], tinha de ouvir os adeptos a gritar por golos, porque 2-0 não chegava; tinhas de marcar quatro, cinco, seis golos e só ficavam os centrais e o guarda-redes lá para trás.

Iker Casillas deve ter agradecido.
É, é, mas quando cheguei a Madrid o Iker disse-me o seguinte: “Então, já hablas espanhol?” E eu: “Não, não.” “Mas olha que tens de hablar.” Uns anos mais tarde, quando regressei ao FC Porto e o apanhei cá, também lhe disse: “Então, já sabes português?” E ele: “Ah, um pouquinho, um pouquinho.” E eu: “Isso não chega [gargalhada].”

Os egos eram difíceis de gerir?
Não era um balneário fácil. Lá, todos são jogadores de seleção, com nível alto, de um patamar elevado. E, portanto, são todos importantes, não só apenas aqueles 11 titulares. Mas é uma pressão brutal: se ganhas, a coisa corre bem, ficas na equipa e no clube; se não ganhas, sais, entra outro jogador para o teu lugar e pronto. Se não tens rendimento, tens outros nas tuas costas a quererem o teu lugar, a apertar; tens de estar sempre em alto nível.

Depois, houve um momento em que os portugueses como que ‘invadiram’ o Real: Pepe, Cristiano, Mourinho, Fábio Coentrão, Ricardo Carvalho. Como é que Espanha reagiu?
O Mourinho veio para o Real Madrid para ganhar La Décima [a 10ª Liga dos Campeões], porque era só isso que interessava. O clube só queria a Champions, o campeonato era secundário. O Mourinho trouxe muita esperança, porque tinha conquistado a Liga dos Campeões com o Inter de Milão no Bernabéu, e também muita organização e acabámos por fazer três bons anos com ele: ganhámos uma Liga, uma Taça do Rei, mas não conseguimos conquistar a Champions. Mas a exigência dos espanhóis variava do Coentrão para mim e de mim para o Cristiano: quando ele não marcava três golos — três golos — já era criticado, percebe? O que aconteceu com o Coentrão foi, simplesmente, ter perdido o espaço.

O Pepe criticou Mourinho pelo tratamento que este deu a Iker Casillas.
Está tudo tratado, resolvido, não tenho problema algum com o mister. Admiro-o pelo trabalho que faz, são situações que acontecem.

Não conquistou a Champions com Mourinho, mas saiu de Madrid com três Ligas dos Campeões. Alguma vez imaginou que...
Que eu, um rapaz que dormiu com a mãe até aos 18 anos, podia ganhar três Champions [gargalhada]? Olhe, nunca imaginei, é verdade. Sentia que podia chegar longe, mas conquistar três, nunca me passou pela cabeça. Mas eu também nunca fui muito de pensar para a frente; acredito que, quanto mais projetas, mais esqueces o presente.

Carlo Ancelotti foi o seu treinador preferido no Real Madrid? Foram públicos os elogios que este lhe fez.
Quando o Ancelotti assinou, eu estava de férias e não estava muito bem. Tinha havido aquela confusão com o Mourinho, a imprensa espanhola especulava, essas coisas todas. E então o Ancelotti ligou-me e foi muito honesto: “Olha, Pepe, tenho o Sergio Ramos, tenho o Varane, que é um miúdo com muita qualidade, e tenho-te a ti. Digo-te já que não és a primeira opção.” Eu respondi: “OK, mister, mas quer o quê? Quer que eu me vá embora?” E ele: “Não, não, não, quero que fiques, mas também quero que saibas que não és a minha primeira opção.” Eu disse a seguir: “Aceito. Mas o mister vai dar-me a oportunidade de lutar pelo meu lugar, de igual para igual? Sem preferências?” O Ancelotti respondeu: “Era mesmo isso que eu esperava ouvir.” “Então, se o mister for honesto no futuro como está a ser agora, eu fico e vou lutar por qualquer nesga, buraco que me apareça.” O mister finalizou assim: “Vamos ser campeões.” E fomos. Antes daquele telefonema, eu estava um bocadinho angustiado com o Real Madrid: tinha dado tanto para tudo acabar daquela forma? Mas também me lembrei de uma frase que alguém me disse.

Quem?
Veja só a coincidência do nome: Peppe Santamaria, um antigo central uruguaio [jogou pelo Real Madrid entre 1957 e 1966]. Um dia, disse-me o seguinte: “Pepe, se queres ter futuro no Real Madrid, tu tens de mandar aqui dentro [desenha um quadrado com os dedos no chão], neste espaço. Se tu mandares aqui, as coisas acontecem com naturalidade.” Portanto, eu só tinha de estar pronto quando a ocasião aparecesse com o Ancelotti: fiquei no banco, depois tive minutos e a seguir jogos inteiros, até na Champions, em que chegámos à final... E eu não joguei.

Mas há aí uma história.
Eu tinha sofrido uma lesão em Valladolid e, se bem se lembram, o Diego Costa [na altura, no Atlético de Madrid, adversário do Real Madrid nessa final da Liga dos Campeões, em Lisboa] tinha ido fazer um tratamento qualquer lá fora de Espanha [Diego Costa acabaria substituído por Simeone logo no início da final] e eu não fui. “Pá, não vou, conheço o meu corpo, quando chegar a altura do último treino, logo digo ao meu treinador se estou bem ou não.” Durante 15, 20 dias, não treinei, só fiz tratamentos, tratamentos, e na véspera da final, já em Lisboa, disse ao Ancelotti: “Mister, estou aqui a sentir uma dor ainda.” E ele: “Esperamos mais um pouco, amanhã logo vemos.” No dia seguinte, senti outra vez aquela impressão e percebi que ia ficar fora da final. “Mister, não vai dar não.” “Não queres entrar só para aparecer na foto? Tu mereces, pá.” “Mister, imagine que eu entro, saio lesionado e você tem de queimar uma substituição por causa disso? Eu não preciso de jogar a final para me sentir vencedor da Champions.” O Cris [Cristiano Ronaldo] também lá estava ao lado e o Ancelotti disse isto: “Já ganhámos este jogo!” E o Cris: “Mister...” E o Ancelotti: “Queres apostar comigo? Já ganhámos isto.” Coincidência ou não, ao minuto 92 e tal, o Sergio Ramos vai lá à frente, marca o golito, vamos para prolongamento e ganhámos a Champions.

Acabou por sair do Real Madrid depois de o clube não lhe ter renovado contrato, em 2017, dez anos depois de ter chegado. Não terá sido fácil.
Quando saí, dei uma entrevista em que disse coisas que hoje talvez não dissesse. Mas, pronto, na altura era o que eu sentia e fui genuíno, fui eu próprio. Podiam ter feito as coisas de forma diferente? Podiam, mas também me fizeram o que fizeram a outros jogadores. Não guardo mágoa do Real Madrid, foram dez anos espetaculares, numa cidade onde mantenho amigos. Ainda hoje adoro quando o Real Madrid ganha, da mesma forma que os adeptos me adoravam pela forma com que eu me entregava ao clube. Eles diziam que onde outros punham o pé, o Pepe punha a cabeça. Mas também fui feliz na Turquia, onde me adaptei bem, e é apaixonante a forma como os turcos vivem o futebol. E eu queria voltar a sentir aquele bichinho na minha vida, alguma loucura e aquilo é brutal. E o Besiktas tem uns adeptos incríveis, incríveis.

E por que razão decidiu voltar ao FC Porto? Na sua idade, muitos vão para a China, Estados Unidos, enfim, procurar outro final de carreira.
Olhe que eu podia ter ido para Inglaterra [risos]. Tive clubes que me ofereceram bastante dinheiro, mas surgiu a oportunidade de regressar ao FC Porto — e, com a idade que tinha, ou era naquela altura, ou nunca. Optei por voltar para um clube de que gosto, onde fui bem tratado, falei com o Sérgio Conceição, com o presidente e até com o engenheiro [Luís Gonçalves], até porque ele queria saber como é que estava a minha situação física [risos]. Disse ao mister: “Eu vou para aí para treinar como treina o meu colega de 20 anos, ou para treinar ainda melhor do que ele.” Porque eu, com os meus 37 anos, vou fazer dele, que tem 20, um jogador melhor, mas o contrário também vai acontecer.

No ano em que Pepe vem, o FC Porto perde a liderança e o campeonato. Houve quem fosse da opinião que o seu regresso — que obrigou Eder Militão a ir para defesa-direito — contribuiu para essa quebra.
Essas mesmas pessoas também não falaram quando ganhámos o campeonato no ano seguinte. Quando se fala mal, chama-se muito mais. Mas, sobre esse título perdido, houve coisas que fugiram das nossas mãos? Pode ser que sim. Houve lances duvidosos? Pá, pode ser que tenha havido. A mim, resta-me treinar e dar ao clube aquilo que este nos exige.

Em 2019-20, o FC Porto chegou a ter sete pontos de atraso e acabaram por conquistar o título. Qual foi o clique?
Não houve um jogo em que o mister não tenha dito que não íamos ser campeões. Mas também nos disse que tínhamos de ser nós próprios. Fomos partindo pedra, demos um passo atrás, demos dois em frente, mas acreditámos sempre no que o Sérgio Conceição dizia e na ideia de jogo dele.

Foi uma época estranha, o futebol parou, os jogadores ficaram confinados.
E passámos a fazer reuniões por Zoom, a discutir o que estava bem e o que estava mal. Cada um dizia o que pensava, para o bem e para o mal, e, olhe, digo-lhe que é difícil encontrar um treinador com esta abertura, porque estávamos todos nessas reuniões. E não eram reuniões de uma hora, mas de muitas mais horas, fora o treino, que nunca parou.

Como é que evoluiu como defesa durante estes anos todos?
A tecnologia ajudou. Apesar dos meus 37 anos, sinto que sou um privilegiado, porque apanhei o futebol sem esta tecnologia [de análise, vídeo, estatística] e com esta tecnologia. Agora, há várias formas de defender: podemos baixar as linhas ou defender à frente. Por exemplo, contra as equipas do Guardiola, dificilmente vais ter mais posse de bola, mas a posse de bola não ganha jogos de futebol, não é?

Mas não irrita estar constantemente a vê-los passar à frente, sem lhes tirar a bola? E não é mais gratificante ter a bola no pé?
O meu treinador diz o seguinte: a probabilidade de um jogo acabar empatado é 50-50; se eu não atacar e se tu não atacares, ninguém ganha, um ponto para mim e outro para ti. Agora, se eu não sofrer golos e marcar um golo, ganho três pontos; mas se eu não sofrer golos, estou mais próximo de ganhar. Mas, pá, quando estás a atacar e tens uma reação à perda da bola muito forte, também estás a defender, não é?

No treino, quanto tempo é que Sérgio Conceição vos dá para recuperar a bola?
Ahhh, depende! [gargalhada] É bom falar disto, porque este é um processo coletivo. Quando a primeira fase de pressão é ultrapassada, significa que os nossos avançados ficaram para trás; ficam a faltar os médios e os defesas. Mas, uma vez ultrapassada essa primeira fase de pressão, se tivermos um reagrupamento forte, atrás da linha da bola, ficamos compactos e torna-se tudo muito mais difícil para o adversário. E isto significa o quê? Treino. Treino. Treino. Muito trabalho. Acontece que, cada vez mais, temos menos tempo para treinar, jogamos de três em três dias. O futebol mudou muito desde que o jogo: os jogadores têm mais meios para recuperarem fisicamente, mas isto tornou-se muito mais intenso. Antigamente, bastava ao futebolista ter qualidade para dar certo; agora, a qualidade não chega sem trabalho.

E como é jogar nestes tempos, sem público? É por não haver adeptos nas bancadas que equipas estão a jogar pior?
Concordo, em parte. Mas por outro lado, também são muitos jogos e acredito que as pessoas, lá em casa, às tantas já andem confundidas, ora é para o campeonato, ora é para a Taça de Portugal, ora é para a Taça da Liga, ora é para a Seleção, que vai jogar para o Mundial, para o Europeu, para quê? Então imagine como é para os jogadores que andam para ali a partir pedra, pim, pim, pim, pim. É importante haver futebol, mas também é preciso olhar para o esforço sobrenatural dos jogadores. Muitas vezes só se critica o falhanço, o corte mal feito. Há mais profissões onde se ganha dinheiro, muito ou pouco. Nós temos lesões — aliás, basta olhar para dentro e para o lado e perceber que há mais lesões, porque há mais jogos. Eu acho que isto poderia ser gerido de outra maneira. Muitas vezes, levamos uma porrada, não temos tempo de recuperar e jogamos logo a seguir com muitas dores. Não há um jogador que jogue sem dor, pá. E, no meu caso, que sou defesa, é bastante complicado, porque vamos sempre ao contacto, pelo ar, pelo chão, defesa contra defesa, defesa contra avançado.

Está a tirar o curso de treinador?
Não, admito que não consigo estar a treinar bem e a pensar que à tarde tenho o curso de treinador, porque isso já vai implicar na minha recuperação, na minha alimentação, no meu descanso. Eu estou constantemente a pensar no próximo título, no próximo jogo, no próximo treino. Agora, no futuro, quando deixar de jogar, talvez pense em ser treinador, até porque aprendi e continuo a aprender com grandes treinadores. Sou competitivo demais para pensar em duas coisas.

Quão competitivo?
Muito, não gosto de perder a nada. Sou capaz de ir rever um lance para casa para perceber porque é que falhei ali. Por outro lado, se perco um jogo, vou atrás no tempo para ver se descansei mal, se me alimentei mal ou se analisei mal o adversário.

Essa competitividade traduz-se em agressividade? Depois daquele lance com Casquero [Pepe pontapeou o futebolista durante um jogo entre o Real Madrid e o Getafe, em abril de 2009, que valeu uma suspensão de dez jogos ao português], a sua imagem ficou manchada durante muito tempo. Mudou, entretanto?
Não, fui sempre o mesmo. Na altura, eu pedi desculpa. Até hoje, não consigo entender o que se passou comigo, são flashes, pá! Uma coisa que me deu no momento, não estava preparado para uma picardia, não tinha talvez ainda a maturidade suficiente. Quando voltei da suspensão eu disse que ia ser sempre a mesma pessoa, o mesmo jogador. Aquilo que aconteceu, ficou arrumado para o lado e nunca mais vai acontecer. OK, percebo: olham para mim e veem que eu sou forte no duelo. Eu sou duro, não gosto de perder um lance, preparo-me. Eu não sou invisível e, quando vou à bola, não espero que o adversário se me atravesse; o meu objetivo é cortar a bola, e se ele chocar comigo, já não é problema meu, o futebol tem contacto. O que é que esperam que eu faça? Que ele me finte? Não. No um para um, o adversário encara-me e eu digo: “OK, passa-me que a seguir vou atrás de ti”? Não, eu tenho de atacar a bola. Os meus companheiros de equipa dizem: “Pô, Pepe, tu dás cada bote [pancada]...” Óbvio: eu tiro a bola, o que acontece depois é inevitável, porque há contacto.

E isso não é agressividade?
Não chamo a isso agressividade, é apenas a minha forma de roubar a bola. Lembro-me de um jogo que fiz no Camp Nou, no meu primeiro ano, em que toda a gente me disse que eu tinha feito um jogo brutal, porque estava a marcar o Ronaldinho Gaúcho. Estudei-o muito, era difícil de marcar, e quando saí de lá, o assessor do Real Madrid veio ter comigo e disse-me: “Tu hoje mudaste a tua vida. Toda a gente se vai lembrar disto.” E, de lá para cá, não mudei nada, só a idade.

Nenhum adversário o intimida?
Não. Se eu estiver bem preparado e se o tiver estudado melhor, a probabilidade de a coisa correr bem, é maior. O meu pior adversário? Todos, até no treino. Não se esqueça que apanhei o melhor do mundo [Cristiano Ronaldo] pela frente, e entrei sempre para roubar a bola; ele tinha uma facilidade muito grande em chutar com o pé esquerdo e com o direito, mas antes de ele chutar, eu dava o bote, não ia esperar que ele chutasse [risos].

Quantas horas passa a ver os seus adversários?
Três dias antes do jogo, a equipa começa a analisar o adversário. Eu, particularmente, vejo os vídeos dos avançados, dos extremos e dos médios, e aprofundo muito a questão um dia antes do jogo.

Porque é que decidiu ser português?
Houve um central da equipa sub-21 do Brasil que me ligou a perguntar se eu queria ser brasileiro, mas eu já tinha dado a minha palavra que iria escolher Portugal. Porquê? Porque o país me acolheu muito bem, desde o primeiro dia. Vou contar isto: cheguei a Portugal com apenas €5 na carteira, vindo do Brasil, com 18 anos, sozinho, e tinha de ir para a Madeira. Estava no SEF, à espera que entrasse um fax do Marítimo que dissesse que eu ia para o Funchal para ser jogador e tal. Passaram-se umas horas naquilo e eu tinha apenas €5 e duas opções: comprar um cartão telefónico para ligar à minha mãe ou gastar os dinheiros numa baguete da Pans & Company. O que é que pensei? Vou tranquilizar a minha mãe. Comprei, liguei à minha mãe e acabou-se o dinheiro; olhei para o cartão do embarque (e eu tinha aterrado em Lisboa às 6h30) e o voo para a Madeira era só às 11h. “Tenho de comer”, pensei, e fui perguntar a um rapaz da Pans & Company do aeroporto de Lisboa e perguntei se havia algo para comer. “Há, sim, é só escolher.” “Mas eu não tenho dinheiro.” Ele olhou para mim, foi lá atrás e saiu a seguir com uma bandeja e uma baguete cortada em duas. “Come, come, come, eu dou-te isso.” E isso marcou-me muito. Essa pessoa não tem noção de quem eu era e eu, infelizmente, também já não sei quem ele era. No entanto, aquele gesto ficou-me para o resto da vida. Quando tomei a decisão de jogar pela seleção, foi uma decisão minha, que não comuniquei a ninguém: pais, irmãs, clube, nem ao meu representante [Jorge Mendes]. Aconteceu depois de um jogo em Setúbal: um jornalista chegou-se ao pé de mim e perguntou-me se eu queria jogar por Portugal e eu respondi que sim, que estava disponível. Sou o que sou porque Portugal me deu tudo, e a forma que tive de retribuir tudo o que recebi, foi a fazer aquilo de que mais gosto: jogar futebol pelo país. E ganhei o primeiro título por Portugal, em 2016, e vi muita gente a celebrar [no Europeu].

E o que é ser português? E o que distingue o português do brasileiro?
[silêncio] O brasileiro vive mais a vida, o português acredita muito no trabalho; nós [risos], sim, nós, somos um povo emigrante, que procura melhores condições de vida. Também acho que em Portugal somos muito honestos, percebe? Pá… [silêncio] O português quando gosta, gosta; quando não gosta, não gosta, pelo menos é assim no meu círculo de amizades. O português é capaz de atender um telefonema às três da manhã e vai ter contigo se precisares. Fiz amigos em Portugal que, todos os dias, me mandavam mensagens a desejar boa-sorte, estivesse eu no Real Madrid, na Turquia ou na seleção nacional — e não são amigos do futebol, são pessoas que eu fui conhecendo na cidade do Porto, a ir comprar o pão, a ir ao supermercado, do homem que te vende fruta até ao que vai lá a casa reparar qualquer coisa. Vou-lhe contar algo que me aconteceu. Na minha primeira passagem pelo FC Porto, nos primeiros tempos, eu estava ali em Gaia, num hotel, e andava perdido, sozinho. Veja lá que andava por ali na Serra do Pilar e não conseguia encontrar o caminho para o hotel, não sabia como. Perguntei a um senhor, que tinha um guarda-chuva na mão, se ele me podia ajudar, explicar-me o caminho e mostrei-lhe o cartão do hotel, porque eu nem sabia o nome [risos]. E ele disse isto: “Deixe lá isso, vou lá consigo.” E veio comigo da Serra do Pilar até ao Holiday Inn, na Avenida de República, e era só um trajeto em linha reta. Ele podia facilmente ter-me dito: vá em frente. “Pronto, é aqui, está entregue”, disse ele. Isso demonstra o que é um português.

Casou com uma portuguesa, tem sogros portugueses.
A minha mulher deu-me muita estabilidade e duas filhas lindas. Quero acreditar que os meus sogros gostam de mim [risos]. Não sou mau. As pessoas dizem que eu sou mauzão, mas fora de campo sou uma pessoa muito amável.

É uma pessoa dentro de campo e outra fora dele?
Não sou duas pessoas diferentes. As pessoas têm de perceber uma coisa que é muito simples: eu vou defender o meu trabalho com unhas e dentes. Lá dentro é o meu ganha-pão, é com aquilo que eu pago a comida da minha família. E eu vou dar o meu melhor, o meu máximo, esgotar as minhas forças para defender o meu trabalho. Fora do campo, sou uma pessoa normal.

Foi fácil a integração na Seleção?
Apesar de lá estar o Deco, nunca poderia ser fácil e eu entendo isso. Mas, depois... Eu só não nasci cá, porque de resto...

Há alguma história que tenha ficado por contar do Euro-2016?
Muitas, mas vou contar só uma [risos] que acho que é engraçada. Estávamos em Marcoussis [centro de estágios da seleção durante a competição] e a mesa do lanche ficava montada no corredor. À noite, o Cris e o Quaresma iam sempre fazer água quente e água fria, um contraste [para recuperação], por volta da meia-noite. Numa noite, bateu-me a fome, o que é que eu vou comer, o que é que vou comer, desci as escadas para ir buscar um iogurte, de cuecas, no escuro, e de repente estão os dois à minha frente. “Fogo, mano, o que é isso? Pareces uma caveira!” A partir daí, passaram a chamar-me “caveirinha”, “caveirinha”. Fiquei lixado com aqueles gajos, pá!

Ainda é o melhor central português?
Porquê? Porque disse isso antes? [gargalhada] Olha, para mim, é o Rúben Dias e ele já sabe disso, porque eu já lhe disse, não estou aqui a falar apenas para a imprensa. O Rúben sabe o que penso dele e passei-lhe o conselho que me tinham passado a mim: se tu mandas naquele espaço, que é teu, se fazes daquele espaço a tua casa, se defenderes a tua casa, só lá entra quem tu queres — e tu não vais deixar um estranho entrar na tua casa, certo? Depois, o Rúben é superinteligente, além das qualidades futebolísticas. Lembro-me dele no Mundial da Rússia: nós jantávamos e ele vinha sempre comigo e com o Cris para falar connosco, enquanto dávamos uma volta para fazer a digestão, após a refeição. Ouvia e se tinha dúvidas perguntava e nós respondíamos. Porque, apesar daquilo que as pessoas possam pensar — que não gostamos uns dos outros, que andamos à porrada e tal — os jogadores dão-se uns com os outros. Eu respeitei o Rúben Dias enquanto adversário, e ele fez o mesmo; no campo, éramos rivais, mas fora não queríamos o mal do outro.

Fala regularmente com jogadores do Benfica e do Sporting?
Regularmente, não, mas mandamos mensagens uns aos outros. Quer dizer, somos portugueses, não é? Jogamos na seleção. Mas se o Benfica ganhar ao FC Porto, não vou mandar uma mensagem a dar os parabéns, isso não existe, não cabe na cabeça de ninguém. Aquilo que eu tive com o João Félix, no Dragão [um encosto de cabeças, em 2019-20], depois passou. O futebol também é isso, se não houver picardia, não há nada.