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“Em Portugal, despedem-se 15 treinadores a 10 jornadas do fim. Aqui no Independiente é diferente: há uma filosofia nas escolhas”

Depois de mais de década e meia na formação do Benfica, onde trabalhou com jogadores como Rúben Dias, Bernardo Silva, Renato Sanches ou João Félix, Renato Paiva aceitou o desafio de viajar para o Equador e treinar o Independiente del Valle, um dos mais interessantes projetos da América do Sul, que chamou a atenção ao vencer a Taça Sul-Americana em 2019. Nesta primeira parte da conversa com a Tribuna Expresso, o treinador de 51 anos conta como chegou ao Equador, as condições que encontrou no Independiente e fala dessa eliminatória com o Grémio que gerou ecos em todo o continente

Lídia Paralta Gomes

Liamara Polli - Pool/Getty Images

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O Renato chegou à América do Sul e fez logo com que o Renato Gaúcho [treinador do Grémio] fosse despedido. É o que podemos chamar de impacto imediato.
Não era isso que eu queria! Só lhe queria ganhar o jogo e passar a eliminatória. Mas a nossa vida é um bocadinho assim, acho que já era o acumular de alguns resultados menos bons. Enquanto estive no Brasil fui acompanhando a comunicação social e estava um investimento milionário dependente da passagem do Grémio para a fase de grupo da Libertadores, iam contratar o Douglas Costa, o Rafinha. Era assumido que o objetivo era ganhar a Libertadores este ano, por isso foi um baque dos grandes. Mas nós dentro de campo fomos inegavelmente melhores nos dois jogos. Em Porto Alegre tivemos 30 minutos difíceis, mas eu sentia que quando tínhamos bola estávamos com capacidade para chegar à área do Grémio e fomos ameaçando. Isso deu-me uma tranquilidade em que eu acreditei que mesmo que sofrêssemos um golo - como acabou por acontecer - nós íamos marcar ali. E fazendo golo íamos complicar a eliminatória ao Grémio.

E é uma passagem inequívoca, com duas vitórias.
Duas vitórias, duas 'remontadas' como dizem os espanhóis, porque em ambos os jogos estivemos a perder e isso demonstra uma personalidade, um querer, uma ambição fortíssimos de uma equipa que tinha quatro ou cinco miúdos muito jovens, alguns a fazer estreia. No primeiro jogo, em Assunção, sofremos golo muito cedo e a partir daí tomámos conta do jogo e foi praticamente jogo de sentido único com uma ou outra transição do Grémio. Mas o que mais me impressionou foi a 2.ª mão, em casa do Grémio. Eu avisei-os que íamos sofrer, que íamos ser pressionados, mas também lhes disse que era uma questão de inteligência e que se por acaso sofrêssemos primeiro o jogo estaria longe de estar fechado. E eles mostraram personalidade, frieza. Deixou-me muito orgulhoso, não só os números, 4-2 no total das duas mãos, mas acima de tudo os ecos no Brasil, na Colômbia, no Uruguai. No Equador então... Do que as pessoas falaram foi da qualidade de jogo, não foi o ter sido, mas sim como foi. O como.

Há uma série de incidências nesta eliminatória, como o facto de não poderem jogar em casa por causa dos protocolos quando era o Grémio que tinha casos de covid-19, mas depois a 2.ª mão tiveram de jogar no Brasil. Isso tornou a vitória ainda mais saborosa?
Em todas as conferências de imprensa a palavra que eu mais utilizei foi "injustiça". Foi uma situação no mínimo caricata. Nem jogadores, nem treinadores, nem diretores do Independiente del Valle tinham um caso que fosse de covid-19, com uma vida super regrada, com os cuidados todos, a fazer testes de três em três dias, com restrições. E de repente, quando estás a fazer tudo bem, tens de sair do teu país e deslocar-te milhares de quilómetros. Perdemos o fator altitude, que para nós é importante. Para manter esse fator ainda pensei que pusessem o jogo em La Paz, na Bolívia, mas não, puseram em Assunção, no Paraguai, que está a hora e meia de avião de Porto Alegre. Para nós seis horas de voo. Para o jogo da 2.ª mão não voltámos ao Equador, montámos o quartel-general em Assunção. Afastámo-nos de casa, fizemos viagens, exposemo-nos, jogámos contra uma equipa que estava infetada com covid-19. Eu compreendo que o jogo não se possa efetuar no Equador, para não criar um foco de contágio - a saúde primeiro que tudo - só não percebo o porquê da 2.ª mão se jogar precisamente onde está o foco de contágio. Eu esperava que os dois jogos fossem em Assunção, com cada equipa fechada no seu hotel, a evitar aeroportos. Eu acho que era o normal, mas não foi isso que aconteceu e foi o prato da balança a querer desiquilibrar-se. São 220 milhões de habitantes no Brasil e 16 milhões no Equador, é o peso do futebol brasileiro. Não deixa de ser uma tremenda injustiça, nunca jogámos em casa.

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