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“A muitos portugueses faz confusão que Pinto da Costa seja apanhado em escutas a oferecer serviços de prostituição a um árbitro”

O presidente do Sporting é um cavalheiro afável no trato, discreto no gesto, humilde nos feitos, mas depois é o resto que sobressai. E o resto é a explicação de uma vitória em nome próprio. Uma conversa sobre tudo, e sobre futebol também

Maria João Avillez (jornalista e escritora) e Tiago Miranda (fotografias)

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Depois de atravessar corredores, parques de automóveis, elevadores, salas, fui dar com ele no seu gabinete do estádio, sentado numa cadeira, inclinado para o chão, a apertar — sem pressa — os atacadores dos ténis. Sorriso, jeans brancos, polo verde. “Onde se quer sentar?”, perguntou-me Frederico Varandas. Mas nem as boas maneiras, nem o olhar claro, nem a afabilidade iludem: é um osso duro de roer. Tão duro que foi ele que roeu sozinho os males do seu clube. Nenhum deles o desviou do seu rumo quando os encarou de frente, nem o deplorável estado de saúde do clube o afetou. Pelo contrário, o então médico do Sporting Clube de Portugal (SCP) percebeu que talvez fosse capaz de os combater — os combates que já travara certificavam-lhe essa garantia e forneciam-lhe fôlego e convicção para a empreitada. Avançou. Contava consigo, sabendo que a travessia era perigosa, sabendo que seria incompreendido e sabendo melhor ainda que ficaria isolado (“Eu sei que isolado aguento”). Fora assim nos seus estudos, a seguir na Academia Militar e depois, debaixo de fogo, no Afeganistão, em batalhas de vida e morte contra os talibãs. Por outras palavras, confia-se nele. Foi o que fiz, quando logo a seguir à vitória do Sporting no campeonato de futebol, em maio deste ano, ele me disse, sem nunca me ter visto ou falado comigo antes, que “esperasse, que a entrevista pedida haveria de vir”. Passaram-se semanas, mas um dia o telemóvel deu-me razão: era a entrevista.

Miguel Braga, diretor de comunicação do clube que me havia acompanhado naquele estranho périplo para chegar ao gabinete do presidente, deixa-nos aos dois frente a um gravador. E a mim com uma imensa curio­sidade: como é que Frederico Nuno Faro Varandas fora capaz daquele volte-face? Mas fora. A improbabilidade daquilo a que se propusera, a solidão que conheceu, os ataques de que foi alvo tiveram recompensa lauta: nunca o Sporting ganhou tantos títulos em tantas modalidades, no país ou fora dele, como este ano. E mesmo dando barato que a pandemia, vetando o acesso aos estádios, pode ter ajudado o solitário combate deste homem, está-se diante de um caso de corajosa determinação.