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Caetano e o Paços europeu: "Que desfrutem e não sintam a pressão que eu sentia, porque tinha muita ansiedade e acabava por não aproveitar"

Os castores defrontam esta quinta-feira (19h30, Sport TV1) a poderosa equipa inglesa do Tottenham no play-off da Liga Conferência Europa. Em 2013, o Paços de Ferreira discutiu com o Zenit o acesso à Liga dos Campeões e a Tribuna Expresso falou com Caetano, que fazia parte daquela equipa, que recorda: “O que nós fizemos foi algo como o Leicester ser campeão”

Pedro Barata

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Em 2012/13, Paços de Ferreira, a capital do móvel, foi a capital de uma espécie de conto de fadas futebolístico. O conjunto liderado por Paulo Fonseca, na temporada de estreia do técnico na I Liga, conseguiu terminar o campeonato num estrondoso 3.º lugar, feito inédito para os castores que permitiu um acesso a outro feito inédito: a disputa das eliminatórias de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões.

Na campanha seguinte, em 2013/14, já privado de Paulo Fonseca — Costinha assumiu o comando técnico — e de vários titulares, o Paços chegou a agosto sabendo que a fase de grupos da Champions estava a duas partidas de distância. Quis o sorteio que, nesse play-off, o adversário fosse o Zenit de Hulk, Danny, Arshavin ou Witsel. E a equipa portuguesa foi eliminada, perdendo por 4-1 na primeira mão (no Estádio do Dragão, casa emprestada) e 4-2 na segunda. Seguiu-se uma aventura na fase de grupos a Liga Europa, competição cujas eliminatórias o Paços já havia disputado em 2007/08 e 2009/10.

Quase oito anos depois da histórica eliminatória frente ao milionário Zenit, os castores voltam a desafiar um poderoso conjunto europeu. O Tottenham de Nuno Espírito Santo é o adversário do Paços noutro play-off, desta feita de acesso à Liga Conferência Europa. E, para lançar nova noite que ficará na memória do clube, a Tribuna Expresso falou com Caetano, antigo jogador que realizou 89 partidas pelo emblema da capital do móvel e fazia parte do plantel naquele 2013 cheio de histórias para contar.

Olá Caetano, como estão a ser os primeiros meses depois da retirada?
Estou bem, ocupado com os vários negócios que tenho. O problema dos jogadores quando deixam a carreira é não ter nada para fazer, mas eu já estava preparado, tenho muita coisa para fazer, por isso estou bem. É agora é uma maravilha, porque posso estar de férias em agosto. É o bom de deixar a carreira.

O seu Paços tem esta quinta-feira um jogo histórico...
Curiosamente, nestes dias vi num jornal a foto daquele lance entre mim e o Coloccini, porque acho que foi a primeira vez que o Paços jogou contra um clube inglês, na altura o Newcastle, num amigável. E eu devo ter sido o único jogador do Paços a marcar a um clube inglês, porque fui eu que fiz o golo nesse jogo. Deve ter sido por isso que o Coloccini estava nervoso comigo. [risos]

O Caetano retirou-se há pouco tempo. Nos dias anteriores a este tipo de jogos bate aquela saudade?
Eu vou ser sincero: do pré-jogo não tenho saudade nenhuma, porque eu vivia o futebol muito intensamente. Mas do jogo, a partir do momento em que o árbitro apita, sinto muita saudade, sobretudo de jogar estes encontros grandes. Do que sinto saudade é do treino e do jogo, mas do pré-jogo não sinto falta, são muitas horas mortas, muito tempo à espera do começo, muita ansiedade... Disso não sinto falta.

Começando pela época que vos levou à Europa. Como foram as celebrações daquele 3.º lugar em 2012/13?
Eu acho que é um feito único um clube como o Paços, com os orçamentos que costuma ter, terminar em 3.º lugar da Liga portuguesa, competindo contra equipas com muitos mais recursos, como o Sporting ou o Sporting de Braga. Mas eu acho que na altura nós nem nos apercebemos bem do que estávamos a atingir. Festejámos muito, as celebrações em Paços de Ferreira com os adeptos foram muito bonitas, mas acho que no momento nem tínhamos bem noção do que estávamos a conseguir.

Só agora, quase 10 anos depois, é que têm essa noção do feito que foi?
Sim, claramente. Por exemplo, no meu caso, jogar a Liga dos Campeões foi um momento único na minha carreira, ainda por cima fazer uma assistência no jogo da Rússia para o golo do Carlão... São momentos irrepetíveis.

A época após o 3.º lugar acabou por ficar condicionada pelas saídas do Paulo Fonseca e de muitos jogadores importantes para vocês...
Sim, o ano seguinte ao 3.º lugar foi difícil devido a essas saídas. Foi um ano histórico, por termos jogado Liga dos Campeões e Liga Europa, mas ficámos em penúltimo e só não descemos porque vencemos o play-off contra o Desportivo das Aves. Portanto, fomos da Champions para quase descer de divisão. Tínhamos um plantel muito bom, mas nos primeiros sete jogos sofremos sete derrotas e isso complica muito. Foram sete derrotas em partidas contra Zenit, Fiorentina, Benfica, Braga ou FC Porto, mas foram sete derrotas a começar e isso condiciona logo a época. Foi uma temporada má.

Tal como há oito anos, o treinador que garantiu a qualificação saiu. Antes o Paulo, agora o Pepa. Há aqui um paralelismo?
Não sei. O Paulo tinha uma ideia muito própria, nós ficámos em 3.º lugar de maneira merecida, a jogar muito bom futebol. Eu acredito que não vá acontecer algo semelhante ao que sucedeu em 2013/14 connosco, desde logo porque gosto muito do Paços. Vai depender muito do início de época, mas penso que o plantel não foi assim tão alterado. No nosso caso saiu mesmo muita gente e isso é sempre complicado, porque tens de jogar com uma equipa nova. O Paços agora está bem, eu vi o encontro da primeira jornada e gostei muito. Este jogo com o Boavista não correu tão bem, mas acredito que o Paços vá fazer uma época muito boa.

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Voltando a 2013. Quando se deu o sorteio e viram que vos tinha calhado o Zenit de Hulk, Danny, Arshavin ou Witsel, qual foi a vossa reação?
Estávamos ansiosos para ver quem iria sair. Esse Zenit era muito poderoso e encarámos o jogo com muita expetativa. Só que tivemos uma infelicidade grande, que foi ter jogado no Estádio do Dragão, se fosse em Paços de Ferreira seria bem diferente...

O Paços agora jogará em casa, isso será uma diferença grande face a 2013?
Claro que sim. Jogar em casa é completamente diferente, os jogadores estão habituados a jogar naquele campo, naquele relvado, com os seus adeptos. Acredito que o Paços, em casa, tem todas as possibilidades de fazer um bom resultado e lutar por passar a eliminatória.

O que é que as pessoas em Paços, que nunca tinham visto o seu clube disputar uma eliminatória daquelas, vos diziam nos dias anteriores ao jogo?
Foi um feito histórico, mas eu acho que ninguém, nem os adeptos, tinham bem a noção do que se estava ali a passar. O que fizemos foi algo como o Leicester ser campeão. Foi único. Ainda hoje as pessoas se recordam de nós. Eu gostava que o Paços voltasse à Liga dos Campeões, porque fiquei com o clube no coração, mas será difícil que se repita.

Durante os 180 minutos da eliminatória contra o Zenit vocês sentiram muita diferença de nível, ou viam-se capazes de competir contra eles?
Nós sentimo-nos capazes de passar, apesar de do outro lado estar uma equipa recheada de estrelas. Há uma frase do Rui Vitória de que eu gosto muito, que diz que 80% dos jogadores são muito parecidos, 10% são craques e fazem a diferença e 10% são fracos. E quando eu falo nestes 80% refiro-me a jogadores de Primeira, Segunda, Terceira divisão. A diferença está na mentalidade, no trabalho, na crença, porque hoje em dia cada vez mais está a desaparecer o jogador talentoso. Eu nunca senti essa diferença de talento de uma equipa para a outra. Mas claro que havia jogadores no Zenit que estavam nos 10% de craques. O Danny, por exemplo, era um jogador que fazia muito a diferença e isso pesou.

Vocês conseguiram um feito histórico, quase impensável. Mas terem perdido a eliminatória por 8-3 gerou algum tipo de frustração?
Foi um misto de sensações. Claro que quando acaba o jogo ficámos frustrados por perder, mas foi muito bom poder jogar aquele jogo e ter chegado até ali. Foi o primeiro jogo que fizemos com uma equipa totalmente nova, cheia de alterações face à época anterior. Acredito que se tivéssemos atuado com a equipa que garantiu o 3.º lugar tudo teria sido diferente.

O Paços não joga um duelo contra uma equipa estrangeira desta dimensão desde a vossa equipa em 2013. Tem algum conselho a dar para os jogadores que entrarão em campo?
O único conselho que posso dar é que desfrutem do jogo, que aproveitem. É algo que para alguns até poderá significar uma subida de patamar na carreira e estar em muitos mais momentos destes, mas tenho a certeza que para a maioria será um feito único. Então que aproveitem, que desfrutem, que não sintam a pressão que eu sentia, porque eu tinha muita ansiedade e acabava por não aproveitar ao máximo. Que aproveitem e desfrutem do jogo porque são momentos únicos no futebol.