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“Se as jogadoras saírem de casa serão mortas. Há a hipótese de os talibãs lhes baterem à porta e amanhã já não estarem entre nós”

Shabnam Mobarez tem 26 anos, é a capitã da seleção de futebol feminino do Afeganistão e está nos EUA, mas todos os dias fala com jogadoras que estão no país, a viverem escondidas, fora das suas casas e a "não poderem confiar em ninguém". À Tribuna Expresso, conta que nem a federação de futebol do país as tem ajudado: "Até os membros e o staff simplesmente desapareceram, era suposto protegerem-nas e não está lá ninguém. Agora temos todas estas mulheres desamparadas, deixadas à sua sorte"

Diogo Pombo

D.R.

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De New Jersey a Cabul há meio mundo por atravessar, em linguagem terrestre é uma imensidão de quilómetros, são outras latitudes e distintos modos de viver, divergências que Shabnam Mobarez conhece. Fala da costa este dos EUA, a manhã acabou de despertar e a afegã, de 26 anos, sabe que está segura. É uma sapiência engrandecida quase pelo efeito da oposição.

Shabnam é capitã da seleção de futebol feminino do Afeganistão. A maioria das jogadoras da equipa vivem no estrangeiro, mas muitas mais futebolistas afegãs estão no próprio país. É com elas que tem falado todos os dias, especialmente desde que os talibãs retomaram, aos poucos, o controlo no Afeganistão que perderam em 2001, aquando da invasão dos EUA que originou a presença militar que os americanos estão, aos poucos, a retirar em definitivo até 31 de agosto.

De há 20 anos até domingo, dia em que o controlo da capital Cabul foi tomado pelos talibãs, as mulheres no Afeganistão estavam "a dar passos de bebé" para "fazerem do futebol uma grande modalidade" e "trazerem esperança e alegria às pessoas". Duas décadas de evolução na direção oposta à repressão, tendo o futebol como veículo, fizeram da modalidade, em meros dias, "uma causa de escuridão e pesadelos", lamentou Shabnam Mobarez, em breve conversa com a Tribuna Expresso.

Ruíram as fundações que começaram a ser erguidas em 2007, quando se formou a seleção de futebol feminino que, no ano seguinte, fez o primeiro jogo contra uma equipa composta por militares da missão da NATO no Afeganistão. Eram caras conhecidas: as bravas afegãs treinavam então nas instalações da organização por motivos de segurança, devido às constantes ameaças de morte que as jogadoras recebiam.

Em 2010, chegou a estreia em partidas oficiais, no Bangladesh, para onde a seleção viajou de modo a competir num torneio organizado pela Federação de Futebol do Sul da Ásia. Perderam por 13-0 contra o Nepal, depois seriam derrotadas (3-0) pelo Paquistão, mas empatariam (2-2) o derradeiro encontro contra as Maldivas. Shabnam Mobarez não estava nesses primórdios.

A afegã, de 26 anos, apenas se estreou pelo Afeganistão em 2014, acompanhando desde então os "passos de bebé" que foram sendo dados. Hoje é a capitã da seleção, mas já vivia longe do país — primeiro para a Dinamarca, ainda criança e com a família, agora nos EUA, Shabnam emigrou devido aos conflitos armados e assiste à distância, através de telefonemas chorosos com jogadoras ou mensagens em pânico via WhatsApp, à desolação que sepultou uma evolução de duas décadas com menos de uma semana de investida talibã.

Esta é a breve conversa com Shabnam Mobarez.

O que se está a passar com jogadoras de futebol no Afeganistão?
Obviamente, é terrível ver as minhas amigas e companheiras de equipa a passarem por isto. Lutaram para empoderarem as mulheres no Afeganistão, tentámos usar o futebol como uma ferramenta para dar uma nova voz às mulheres e fazê-las lutar pelos seus direitos, mas, agora, parece que o futebol é algo que as pode colocar em perigo e, potencialmente, matá-las. O que é desolador.

Tem estado em contacto com elas?
Falo com elas regularmente por WhatsApp e dou o meu melhor para não as deixar ir abaixo. Quando era capitã da seleção, costumava dizer às jogadoras que tudo ia ficar bem, que íamos ultrapassar tudo juntas. Agora, quando falo com elas, choram ao telefone e temem pelas suas vidas. Não lhes posso dizer que vai ficar tudo bem, porque não tenho quaisquer certezas sobre o que vai acontecer amanhã, ou daqui a uma semana.

Estando à distância, como é possível ajudá-las neste momento?
É absolutamente horrível, estou sempre a pensar o que posso fazer para trazer um pouco de alegria aos seus dias, mas é impossível. Quando falo com elas, quero dar-lhes alguma positividade e não consigo, a situação é tão sombria, horrível e devastadora que nada do que possas dizer as pode ajudar. Estando tão longe, também não consigo fazer grande coisa, dou o meu melhor para chegar a pessoas que talvez as possam ajudar no Afeganistão, mas não há muita coisa que possamos fazer neste momento.

A Federação de Futebol do Afeganistão está a prestar-lhes algum tipo de apoio?
Tenho falado com algumas jogadores e todas estão escondidas, mas não nas suas casas. Parece que os talibãs já sabiam as suas moradas, não sei como. Estão escondidas em casa de familiares ou amigos, sem revelarem a sua identidade. Até os membros e o staff da Federação de Futebol do Afeganistão simplesmente desapareceram, era suposto protegerem-nas e não está lá ninguém. Parece que as pessoas que tinham dinheiro foram embora e agora temos todas estas mulheres desamparadas, deixadas à sua sorte.

Então, que opções restam?
Adorava poder ajudá-las mais, mas a situação é tão tensa que, neste momento, se saírem de casa serão mortas. Por agora, o melhor a fazer é esperar que a situação se acalme. Há a hipótese de os talibã lhes baterem à porta e amanhã elas já não estarem entre nós. É por isso que é muito difícil saber o que será a melhor coisa para elas fazerem. Queres que saiam de casa e tentem escapar do país? Isso é um risco muito elevado, mas também não sabemos se os talibãs vão descobrir a morada onde as jogadoras estão. Tudo é muito incerto e para nós, que vemos de fora, é desolador ver e saber isto tudo e não podermos fazer nada. Estávamos a dar passos de bebé para fazermos do futebol uma grande modalidade para mulheres e meninas no Afeganistão, estava a trazer esperança e alegria às pessoas, mas agora só causa escuridão e pesadelos.