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Kevin Antunes, o português que já trabalhou com Thierry Henry e recomendou Ryan Gauld para a MLS: “Até o Zé Manel do café pensa que é scout”

Tem 33 anos e começou por ser empresário, mas é scout desde 2016 e trabalha no Vancouver Whitecaps, clube que, no verão, comprou um dos melhores jogadores da época passada na liga portuguesa. Foi Kevin Antunes quem recomendou a contratação de Ryan Gauld, agora a brilhar na MLS. Em entrevista à Tribuna Expresso, o luso-canadiano elogia o campeonato norte-americano "pela forma como está estruturado", para ter "um crescimento vagaroso, mas estável e sustentado". E onde chegou a coincidir com o "muito exigente" Thierry Henry no Montréal Impact, o clube da cidade onde vive

Diogo Pombo

D.R.

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Como é que o Ryan Gauld foi parar ao Canadá e ao Vancouver Whitecaps?
Não estive envolvido no processo de negociação, mas referi o jogador, já segui o jogador há muitos anos, mas recomendei-o quando cheguei ao clube e foi um processo que demorou. Como é sabido, havia muito interesse no Ryan Gauld e, depois, mérito para o staff que o conseguiu convencer do projeto e estamos muito contentes que ele tenha escolhido o Whitecaps. Claro que um jogador destes, quando é muito solicitado, o trabalho que tem de ser feito não para convencer, mas para que ele fique a entender que o melhor projeto é este, às vezes custa. Muitas vezes não tem nada a ver com finanças, é uma questão do projeto e da cidade. Portanto, mérito para o restante staff do clube que trabalhou nisso

Foste tu que o recomendaste diretamente?
Não gosto muito de recolher louros com estas coisas, porque é um trabalho do departamento de scouting. Claro que eu, sendo português, conhecendo bem o mercado, o jogador e acompanhando-o há vários anos, desde que chegou a Portugal, conhecia-o muito bem e fiz uma recomendação muito forte, mas não passa só por mim. O resto do departamento tem de aprovar também, mas sim, a recomendação inicial, podemos dizer que veio de mim.

Já o seguias há quanto tempo?
Desde que chegou ao Sporting. Era bastante diferente nessa altura, prometia muito, mas os jogadores têm percursos diferentes. Prometia, teve ali uns anos que talvez esteve a madurar, e há jogadores que chegam a um nível superior em diferentes idades. O Ryan está a chegar nos últimos anos, mas o talento sempre esteve lá, toda a gente sabe.

Que características destacarias mais nele?
Neste momento, o Ryan tem muitas das coisas que a gente procurava no nosso médio-ofensivo. Primeiramente, é um rapaz muito inteligente que se adapta muito bem e isso já dava para ver — veio da Escócia para Portugal e adaptou-se muito bem. Agora, está a fazer o mesmo na América do Norte. Ao que tudo indica, é muito aberto de espírito, sempre pronto a aprender, então logo aí os índices psicológicos são bons. Depois, em termos de talento, é um jogador com um toque de bola diferenciado, com visão de jogo, com uma boa parada e um bom jogo entre linhas. Tem muitas das características que um médio-ofensivo de alta qualidade tem de ter.

A primeira parte da tua resposta só mencionou coisas que não se veem em campo. Muitas vezes, os adeptos dizem que um jogador é craque, só que não rende e não percebem porquê. As razões, muitas vezes, podem estar aí?
Muito mais do que as pessoas imaginam. Não vou arriscar a pôr percentagens para o sucesso, mas o contexto e a adaptação, claramente, têm uma muito grande influência no rendimento do jogador. A parte psicológica, de adaptação e de ele se sentir bem fazem com que o jogador renda melhor. Há mais fatores, mas esses são importantes.

Como scout, como é que tentas avaliar isso?
Cada caso é um caso. O Ryan Gauld, como tinha um certo mediatismo que já vínhamos a conhecer na imprensa e porque já estava em Portugal há alguns anos, falando com algumas pessoas, vendo o comportamento dele e lendo entrevistas, tudo isso é uma aglomeração de coisas que dá para termos uma boa imagem do jogador. Mas se tu me dizes, pá, fulano tal da segunda divisão do Peru, que tem 17 anos... Aí não vamos ter a mesma informação. Mas, mesmo nesse caso, teríamos de ir tentar buscar o máximo de informação possível, só que, sendo tão jovem, ainda não teria dado tempo para provar atributos psicológicos e comportamentais. Mesmo que queiramos saber, é difícil porque o jogador é muito novo.

Quando já tens um jogador em observação avançada, chegas a um ponto em que, se quiseres ver e saber como reage a uma situação adversa no futebol — estar a ser assobiado, com a equipa a perder e a jogar, por exemplo —, tens mesmo de o ir ver ao vivo?
Claro. Nesta fase da pandemia, confesso que não conseguimos ir ver o Ryan Gauld, mas, antes do covid, já o tinha visto em Portugal, no Sporting B e no Farense. À Escócia nunca consegui. Claro que, por mais que a gente queira, nunca conseguimos ter o 100% do que a gente quer. É quase impossível.

Há sempre uma certa dose de aposta no escuro?
Não diria que é no escuro, porque fazemos sempre o nosso trabalho para que não seja, mas há sempre alguma percentagem de erro, sempre. Podemos dizer o que quisermos, mas qualquer jogador pode ter essa variabilidade. Olha o Messi. Neste momento não está a render, mas claro que vai render, porque é um jogador estratosférico, mas há sempre alguma variável de adaptação ou de alguma coisa que a gente não controla, não consegue medir. Se calhar é melhor nem escreveres este exemplo, porque as pessoas ainda bem enxovalham [ri-se], mas era só para mostrar como, até com os melhores, há sempre uma margem de erro.

Como é que tentas reduzi-la?
Falando ainda do Ryan Gauld, que é um bom exemplo, é um jogador que já conhecia há muitos anos. Durante a pandemia ele até jogou muito bem, mas já o seguíamos e já tínhamos muita informação sobre ele. Em tempos normais, vamos ver o maior número de jogos possível ao vivo.

Já te aconteceu o contrário: um jogador talentoso, muito bom tecnicamente e que tinha tudo para render, mas quando chegou ao clube, tudo o resto fez com que não rendesse?
Por enquanto, ainda não me aconteceu assim nenhum caso muito flagrante. Estou no Whitecaps há um ano e estive dois anos no Montréal Impact, e muito sinceramente, não contratámos nenhum jogador em que possa dizer: "Este gajo vinha aqui com um talento do caraças, mas esta atitude dele não o deixou explodir ou render". Tive a sorte de não ter acontecido.

No Vancouver Whitecaps, há um certo perfil de jogador que a equipa técnica vos peça para seguirem em cada setor e posição?
No último mercado estávamos claramente à procura de um criador, de um médio ofensivo que conseguisse ligar o jogo e levar a equipa para a frente, foi o que procurávamos e conseguimos com o Ryan Gauld. Mas sim, temos perfis traçados para cada posição e para estarmos prontos para a eventualidade da saída de algum jogador. Estamos sempre prontos para atacar o mercado.

Estamos em outubro. Já têm jogadores identificados como alvos a atacar no verão do ano que vem?
Aí não, porque o nosso mercado forte é em janeiro, agora estamos a três quartos da época, que acaba lá para novembro. No inverno é o nosso mercado e, nos próximos meses, vamos estabelecer quem são as prioridades, mas já desde o mercado anterior que estamos a preparar o próximo. Um bom departamento de scouting já tem de estar preparado, pelo menos, com uma janela de antecedência.

Ryan Gauld foi contratado pelos Whicaps no verão. Nos primeiros nove jogos, marcou quatro golos e fez duas assistências

Ryan Gauld foi contratado pelos Whicaps no verão. Nos primeiros nove jogos, marcou quatro golos e fez duas assistências

Lyndsay Radnedge/ISI Photos

Como é que entraste no scouting?
Ui, isto vai demorar [risos]. Eu comecei como empresário, já há 13 anos. Aliás, antes disso, fui jornalista amador só para entrar no jogo. Sabia que queria entrar no futebol e surgiu a oportunidade para escrever aqui para um jornal local da comunidade portuguesa. Comecei por aí, a estabelecer contactos, mas sabia que queria trabalhar no futebol. Fui falando com pessoas, consegui representar um ou dois jogadores, tirei a licença da FIFA e não sei, não sei que mais, e lá fui forçando. Durei uns sete ou oito anos como empresário, fiz muito bons contactos, mas achei que o mundo dos agentes e dos intermediários não era o meu mundo. Não era a minha pessoa, nem o trabalho que mais gostava. Sim, queria estar no futebol, mas não naquela área. Mas tive a oportunidade de conhecer o Carlos Carvalho, que é empresário do Stephen Eustáquio, e convidou-me para trabalhar para com ele justamente na altura em que estava a pensar deixar esse mundo. Aí, tive a abertura para trabalhar mais no scouting e no visionamento de jogadores, de recomendação de futebolistas para ele, e fiz um bocado essa parte. Agradeço-lhe imenso até hoje. Deu-me essa oportunidade de fazer uma transição, de dois ou três anos, em que fui aprendendo, fazendo estágios, tirando cursos, viajando muito para ver jogos. E consegui fazer essa transição, porque não é fácil um dia seres agente e, no outro, seres scout. Até hoje, em que já não sou empresário há quase sete anos, ainda acham que sou agente. Mas foi engraçado ter essa oportunidade. Comecei a estagiar, tive a hipótese de trabalhar no Fortuna Sittard, dos Países Baixos, com o Cláudio Braga, e daí surgiu o convite para tralhar no clube da minha cidade, onde moro, em Montréal.

Onde trabalhaste com outro luso-canadiano, o Marc dos Santos?
Não, quando entrei era o Rémi Garde, antigo treinador do West Ham e do Lyon. Estava lá no meu início, entrou outro treinador com quem ganhámos a Taça do Canadá e depois é que entrou o Thierry Henry. Há quase um ano, comecei a trabalhar com o Whitecaps e aí é que está o Marc dos Santos, que também já treinou o Montréal. Por enquanto, as coisas estão a correr bem, temos contratado bem, o departamento de scouting tem funcionado bem e acho que o clube está contente com o nosso trabalho.

Amanhã eu metia na cabeça que queria ser scout. Basta uma pessoa gostar muito de futebol e ver muitos jogos para começar?
É assim, até o Zé Manel do café pensa que é scout, isso é uma coisa que temos de reter. Depois, como é que a gente se diferencia e como é que uma pessoa, realmente, é scout? Nesses pequenos pormenores. Tens de perceber do jogo, mas isso toda a gente acha que percebe. Então, indo aos cursos e estando no meio de pessoas... Porque, quando vais a jogos com o rótulo de scout, consegues conheces outras pessoas que estão no mesmo ramo, aí vais pegando em coisas e aprendendo, como em tudo na vida. Vais apanhando as palavras-chave, às vezes utilizas os termos certos para veres coisas nos jogadores e descrevê-las, enquanto que o teu vizinho talvez as veja, mas não as consegue identificar. O meu irmão, por exemplo, percebe de futebol e sei que ele percebe, mas, neste momento, se tivesse que trabalhar para o clube, não conseguiria porque não tem a bagagem de saber explicar o jogador, saber escrever um relatório, saber o que há de dizer sobre um jogador se lhe perguntarem por ele numa reunião, tudo isso são coisas que fazem um scout. Depois, claro, há bons, maus e médios scouts. Há pessoas que têm naturalmente uma aptidão para poderem analisar. Depois, há duas coisas que até se veem bem no Football Manager: há a avaliação do Judging Player Ability [Julgar a Capacidade do Jogador] e o Judging Player Potencial [o potencial]. Há scouts que conseguem ver os dois, outros só um dos dois e, depois, há quem não veja nem um, nem outro. Há várias vertentes, várias maneiras, o scouting é um trabalho muito fixe porque, normalmente, quem está nisto faz o que mais gosta de fazer na vida, que é ver futebol, mas não é só isso. É entender que não é só ver futebol — tens de saber ver, analisar, interpretar e transcrever. Ok, alguns diretores-desportivos já chegaram a um patamar tão elevado que já não precisam de estar a redigir e quem o faz são os scouts, mas, até chegares lá, tens de saber explicar e escrever.

Até porque, muitas vezes, nem vais ver um jogo, mas sim ver como o jogador x reage a certas situações que acontecem no jogo.
Exatamente. Há o ver futebol e há o fazer scouting. Às vezes, sento-me no sofá só para ver o jogo e curtir.

Consegues carregar nesse botão e desligar?
Completamente. É assim, quando vejo um pormenor espetacular no jogador é normal que me salte à vista. O que quero dizer é que, por vezes, ponho um jogo a dar e sei que estou ali para procurar x ou y, e só vejo isso. Se estás a ver 22 jogadores ao mesmo tempo, não consegues analisar um jogador bem. É o chip que colocas.

Achas que é necessário ter, pelo menos, o nível I de treinador para ser scout?
É uma pergunta muito boa. Eu não tenho, mas confesso que deveria ter. Não é que sinta falta, mas quero aprender sempre mais. Mesmo tendo treinado a nível amador e algumas noções de treino, só tens a ganhar se tiveres as licenças de treino mais altas, vais ter mais conhecimento sobre o treino. É a tal coisa, a informação nunca é pouca. Se acho fundamental? Não. Mas se há a possibilidade de o fazer, é sempre bom.

A partir do momento em que decides começar a seguir um jogador, quanto tempo, em média, demoras até estares confortável para o recomendares?
Isto vai parecer um bocado cliché, mas cada caso é um caso. Há certos jogadores que tu vês cinco ou sete jogos e dizes logo, "este não engana, não há maneira", mas claro que tens os tais fatores em que tens de fazer o teu trabalho de casa, para recolher o máximo de informação possível sobre o caráter, a pessoa. Depois, há outros em que achas que parece ter qualquer coisa, mas não te convence completamente, então ponho na minha lista e vou seguindo. Há tantos, tantos jogadores que é impossível seguires todos ao pormenor. Há os que tu vês e descartas, nunca completamente, mas irás sempre vê-lo outra vez, se calhar até sem querer. Por exemplo, estou a ver o Stephen Eustáquio, mas acabo sempre por ver também um ou outro jogador da equipa dele. Há aqueles em que descartas, mas nunca perdes de vista, depois tens os que estão ali no meio e vais acompanhando, porque sabes que ele marcou outro golo ou fez outra assistência — "este rapaz, afinal, tenho de o ver outra vez". Há jogadores que só depois de dois ou três anos é que ficas convencido. Mas, às vezes, por mais que queiras ver muitos jogos de um jogador, também não queres que outra equipa o contrate antes de ti.

E sendo o Whitecaps o clube que é, também não pode concorrer com um clube que roce a Liga dos Campeões na Europa.
Sim, por isso também tem de haver aquele fator do when do we pull the trigger, quando é que a gente aperta o gatilho. Não há uma forma nem uma ciência exata. O scouting é muitos fatores aleatórios, muitos fatores que, todos juntos, dão uma decisão. Porque é um trabalho que é feito para se tomar uma decisão.

Há certos mercados ou campeonatos em que te peçam para estares mais atento?
Hum, nós temos um departamento relativamente pequeno, então não dá para dizer que tu só fazes isto ou aquilo. Mas a gente gosta muito do mercado sul-americano, além da Concacaf, por isso, são as Américas. Claro que tentamos cobrir o mais possível na Europa, mas até já contratámos um jogador sul-coreano, que agora até foi para a Rússia. Estamos atentos a tudo, mas, respondendo à pergunta, estamos mais atento às Américas e à Europa.

Kevin Antunes, o primeiro à esquerda, numa reunião com Thierry Henry, no Montréal Impact

Kevin Antunes, o primeiro à esquerda, numa reunião com Thierry Henry, no Montréal Impact

D.R.

E como foi a experiência com o Thierry Henry?
Não vou mentir, não trabalhei com ele no dia a dia, mas claro que tínhamos as nossas reuniões de scouting. É uma pessoa muito exigente, claro que já viveu no topo do futebol de mundial e não era de esperar menos. O que posso dizer é que é uma pessoa muito exigente.

Pelo jogador que era, as equipas onde jogou e as coisas que vai dizendo a comentar na televisão, nota-se que ficou com algumas costelas de futebol atacante, a querer protagonismo com bola. Isso notava-se no tipo de jogadores que pedia ou que gostava?
Nunca entrámos nesse tipo de detalhe com ele. As reuniões eram mais ele a dizer o que queria e nós, basicamente, a dizermos o que estava disponível. Não entrávamos assim tanto no detalhe, porque passava dele para o diretor-desportivo, que era a pessoa com quem trabalhávamos mais. Não havia tanto aquelas conversas abertas com ele sobre o perfil dos jogadores e essas coisas todas. As reuniões não eram diárias e, por isso, também não tive tanto esse feeling de tática com ele. Mas era uma pessoa exigente, que escutava o que tínhamos para dizer. Ele sabia quem eu era, falávamos, "olá, bom dia e boa tarde", nas reuniões tínhamos trocas sobre os jogadores, mas não passava muito disso.

Os departamentos de scouting onde já trabalhaste foram muito abalados por eventuais trocas de treinador e equipas técnicas? Mexeu com a vossa forma de trabalhar?
Cada clube trabalha de forma diferente e, nos contextos em que estive inserido, depende muito da maneira de trabalhar do próprio clube da importância que dão ao departamento de scouting. No Whitecaps, mudámos recentemente de treinador e, para nós, o trabalho não mudou. O último foi embora e agora está um interino, um técnico da casa, mas até agora não mudou e acho que não vai mudar.

Quer dizer que há um projeto definido, independentemente de quem seja o treinador?
Sim, está definido e o departamento de scouting está completamente alinhado no que temos de fazer. O nosso projeto desportivo está traçado, o nosso diretor de recrutamento tem ideias muito claras, o diretor-desportivo também, e acho que o nosso trabalho não vai mudar.

Agora, a pergunta da praxe: como comparas a MLS ao futebol europeu?
Isto é um tópico que não tem resposta, para ser sincero. Cada campeonato é um campeonato, vamos sempre continuar a ter o debate sobre quais são as ligas mais fortes, ainda agora há este sobre se Portugal é big five ou não, se é a quinta melhor liga ou se ainda é a francesa, mas são coisas tão relativas. Se fores pela comparação entre as equipas, já se sabe que a França, realmente, é suposto estar no quinto lugar, mas quem está é Portugal. Isto é muito subjetivo. O que posso dizer é que a forma como a MLS, a liga em si, está estruturada, é para um crescimento vagaroso, mas estável e sustentado. Os clubes têm rigor financeiro, uns fazem melhores orçamentos que outros, mas todos estão dentro de uns parâmetros muito apertados, que não os deixam fugir. Ainda agora, o Miami [clube gerido por David Beckham] tentou fugir um pouco e foi logo sancionado. Então, logo aí, quase todos os clubes têm os mesmos argumentos financeiros para chegarem ao topo. Em Portugal, tens três ou quatro clubes muito fortes.

Nos EUA, a base é igual para todos?
E isso faz com que a liga não consiga crescer de uma vez, mas que seja um processo muito sustentado, que demora. Todos os anos os orçamentos crescem e a qualidade de jogo aumenta. Vês vedetas mundiais com cada vez menos idade a virem para cá. Aqueles jogadores argentinos ou colombianos, os craques que faziam o trampolim em Portugal para irem depois para grandes clubes, agora vêm para aqui. Muitos jogadores de qualidade, com 18, 19 ou 20 anos, em vez de irem para o Benfica, o FC Porto ou o Sporting, primeiro já começam a vir para a MLS. A qualidade de vida é boa, a parte financeira também, e a terceira componente está a chegar — a qualidade de jogo já não é tão fraca como era. Claro que se estiveres habituado a ver a Liga dos Campeões ou a Premier League, ainda vais dizer que é fraco, mas, na realidade, já não é tão assim. Quando comecei a trabalhar na liga, há 13 ou 14 anos, vias muitos relvados sintéticos, muitos campos de futebol americano, vias com cada uma, e dizias que isto era fraco, a imagem que vias era outra coisa diferente, não era bem futebol. Hoje em dia, são 27 equipas e quase todas têm estádios específicos para o futebol, com condições de trabalho excecionais, campos de treino excecionais e adeptos a encherem o estádio. O jogador também gosta muito de vir porque não tem aquela pressão maluca dos adeptos, nem as ameaças.

Por o futebol ainda ter a expressão que tem nos EUA, se calhar quando saem à rua ainda poucas pessoas os reconhecem.
Agora já começa a mudar um bocadinho, as pessoas já gostam e seguem tanto os clubes, que os jogadores já começam a ser reconhecidos. Mas essa parte é muito verdade, têm uma vida completamente diferente da que teriam num clube grande em Portugal ou em Itália, com aquela pressão de se perderes dois ou três jogos seguidos, nem sais à rua por teres medo do que os adeptos vão dizer. Isto aqui não existe. Há qualidade de vida, qualidade financeira e, agora, está a chegar a qualidade do futebol. Esse paradigma que existia está a mudar. Não vamos dizer que é tudo perfeito, porque não é. Uma cultura de futebol demora décadas e décadas a ser instaurada.

O Mundial de 2026, que será nos EUA, no Canadá e no México, pode ajudar?
Talvez, mas há coisas que estão a ser muito bem feitas para lá do campo, e lá dentro também. O treinador do RB Leipzig, o Jesse Marsch, treinava o clube da minha cidade há nove anos e agora está na Liga dos Campeões. Isto está a mudar e os norte-americanos são um povo que tem muito orgulho no que faz, tudo aquilo a que se propõem fazer, normalmente fazem-no bem. É o que está a acontecer. Não podíamos esperar que a MLS, em 10 anos, fosse uma liga de top mundial. Já passámos os 25 anos [de existência] e acho que nos próximos 10, ou 15, vai dar outro salto ainda maior. Eventualmente, vai ser das melhores ligas do mundo.

O produto de futebol que a MLS vende tem coisas que não se veem na Europa. Por exemplo, existe um salary cap e os ordenados dos jogadores são públicos.
Para quem segue atentamente os campeonatos europeus, há diferenças. É necessário ter uma mente muito aberta para se poder evoluir e, vendo os dois lados, por exemplo, o futebol português tem muito a aprender com os métodos administrativos e de funcionamento dos clubes norte-americanos, e estes teriam muito a aprender com os métodos técnico-táticos, de futebol em si, do futebol português. Tinham tudo a ganhar em aprenderem um com o outro e quem se acha superior, de um lado ou do outro, está errado para mim. Todos sabemos o que se consegue com tão poucos meios no futebol português, é de louvar; e o que os americanos fazem na parte corporativa, de promover o espetáculo, simplesmente não há melhor no mundo. Pegar de uma coisa de um lado, de outra coisa do outro, e tentar um projeto em Portugal com métodos norte-americanos de gerir o clube, dava uma mistura incrível.

Consegues dar um exemplo?
Não sou nenhum expert em métodos de gestão de franquias, que é o que os clubes são aqui, mas acho que uma das maiores diferenças é que na América do Norte tratam o jogo como um espetáculo. É isso que faz a diferença. E não só: também tratam o clube como uma empresa. Acho que essas são as principais coisas que lhes dão sucesso em tudo o que é extrafutebol. Quando um clube tem sucesso nas bancadas, no marketing, na comunidade [onde está inserido], em que as pessoas gostam, vão atrás e gastam dinheiro no clube, que consomem o clube, claro que isso vai ter repercussões no futebol. Vai dar um ambiente positivo, prestígio e argumentos financeiros ao clube. É tudo um efeito dominó, é contagiante. Os clube grandes em Portugal já estão a perceber um pouco isso, mas não se faz tudo num dia. O Famalicão também já está a ter certas ideias, já tive o prazer de assistir a uma palestra do Miguel Ribeiro [presidente da SAD], que nos falou abertamente sobre como as coisas são feitas desde que entraram no clube. Acho que uma vez até ofereceram pizza aos adeptos que estavam na bancada e, nas redes sociais, até vejo coisas que fazem com miúdos pela cidade. Há tempos, coisas destas não se viam.