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Bebé, o campeão que não é profissional para ajudar a mãe: “Disse-me: ‘Não sei ler nem escrever, peço é que possas gerir o restaurante”

O guarda-redes que conquistou o Campeonato do Mundo de futsal com Portugal, já depois de vencer o Europeu, era o único não profissional na seleção nacional porque, todos os dias, vai fazer as compras ao mercado e servir às mesas "do sonho" da mãe: ter um restaurante. Bebé ajudou a concretizá-lo e, em entrevista à Tribuna Expresso, conta como "não tem tempo para [se] coçar", mas a mulher diz-lhe que nunca leva queixas para casa. Porque ele não vê obstáculos e prefere concentrar-se nas soluções, daí o selecionador nacional, Jorge Braz, o ter como exemplo de vida

Diogo Pombo

TIAGO MIRANDA

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Estamos sentados a uma das mesas a que Bebé serve, a diário, no restaurante que tem com a mãe em Lisboa, no mercado municipal do bairro do Rego. Somos várias vezes interrompidos por votos de parabéns. O guarda-redes que conquistou o Mundial com Portugal, depois de já ter vencido o Europeu, era o único não profissional da seleção e a razão está no facto de ser uma cara tão conhecida na zona. “Não tenho tempo para me coçar”, admite. Mas gosta e sorri, porque está a realizar o sonho da mãe.

Campeão do mundo de futsal, já depois de conquistar o Europeu, o guarda-redes está com 38 voltas ao sol dadas e garante, repetidamente, que nunca se divertiu ou desfrutou tanto a jogar e os mais novos que calharam com ele no quarto, durante as semanas de estágio da seleção no Mundial, ouviram-no a explicá-lo. Bebé relativiza, já não leva o erro demasiado a sério e grato está à vida que o tirou do futebol quando o empurraram para as balizas, mas que o levou a fazer carreira de proteger as que há no futsal.

O teu primeiro nome é Euclides. Os teus pais gostavam da Grécia Antiga?
[Ri-se] O meu pai, sim. É por ter sido o pai da Geometria que me deu o nome de Euclides. A minha mãe não era muito a favor porque não é um nome assim tão comum, mas lá acabou por ficar.

Os teus irmãos também têm nomes com estas inspirações
Não, porque sou filho único de pai e de mãe. Os meus irmãos, principalmente, os que cresceram comigo cá em Portugal, chamam-se Paulino, Sandra e Paula. Têm nomes normais e o da minha mãe é Maria Isabel, um nome normal. Eu fui o único que teve um mais fora do comum.

Euclides quer dizer "Boa Glória".
Não, mas justifica-se neste caso. Mas não sabia, estás a dar-me uma novidade.

Era o mais novo lá em casa?
De sete irmãos. Éramos oito, infelizmente faleceu uma. Não sofria nada, era muito protegido pela minha mãe [ri-se]. Levava muito na cabeça, mas sabia-o, às vezes até fazia algumas traquinices já com isso em mente, sabia que se eles viessem para cima de mim, falava com a minha mãe e ela dizia-lhes sempre para estarem quietos.

São muitas bocas para alimentar. Como foi a infância?
Foi tranquila, graças a Deus nunca passámos fome, nem por necessidades. A minha mãe é imigrante, veio de Cabo Verde e criou quatro filhos sozinha. Trabalhava de manhã à noite. Lembro-me perfeitamente que entrava ao trabalho às 20h e chegava a casa às 11h, muitas vezes tinha três trabalhos para fazer durante o dia. Nesse sentido, foi uma infância um bocado longe da minha mãe, sempre presente mas longe durante o dia. Sem o meu pai, que foi um pai ausente, mas não me posso queixar porque tive uma infância feliz a viver num bairro social, nós sempre juntos. Na medida do possível, foi feliz.

E na escola? Boas notas?
Não, não, só queria jogar à bola. Estudei aqui na escola do bairro do Rego, a antiga escola n.º 44, com a maioria do pessoa do bairro e só queríamos jogar à bola. Mudei-me para cá com 5, 6 anos.

Ouvi dizer que organizavam a vossa própria taça Coca-cola.
Nós fazíamos! Juntávamos duas equipas do pessoal do bairro, a dinheiro, compravam-se quatro ou cinco garrafas de Coca-cola e a equipa que ganhasse levava tudo. Às vezes conto essas histórias ao meu filho. Toda a gente gostava de Coca-cola e como não tínhamos dinheiro para comprar uma taça ou qualquer coisa, aquilo era um troféu. No fim, quando ganhávamos, sacudíamos as garrafas tipo champanhe. Era fantástico. Muitas vezes jogava com os mais velhos e, como era o mais novo, mandavam-me para a baliza. O José António, pai do Rodrigo Fernandes, antigo jogador do Sporting que agora foi para o FC Porto, é da geração acima de mim e, muitas vezes, ia para a equipa dele. Obrigava-me a ir à baliza e quando eu não queria dava-me carolos. Era muito engraçado. Epá, eram tempos bons, tempos de bairro, em que não tínhamos muitas condições, mas preocupações zero e, então, éramos felizes.

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