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Entrevista a Gilberto Silva: “O Brasil parou de jogar futebol brasileiro. Não se vê tantos Ronaldos e Ronaldinhos, ou Robinhos e Neymares”

O ex-futebolista, campeão do mundo em 2002, veio a Lisboa contar a sua história e explicar como será útil no acompanhamento que agora, como agente, dá aos futebolistas. A Tribuna Expresso esteve à conversa com o antigo médio do Arsenal, de 45 anos, que, entre outras coisas, falou do papel das redes sociais: "infelizmente, deram voz a muitas pessoas ignorantes"

Hugo Tavares da Silva

Laurence Griffiths

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Quando viu o pai trabalhar, o pequeno Gilberto, garoto de uma família pobre e sonhadora, decidiu uma coisa: não queria pagar contas a cortar cana-de-açúcar. Antes de saber que queria futebol, já sabia o que não queria. Mais tarde, começou a tentar ser futebolista e fracassou várias vezes — “o pior que me pode acontecer é falhar”, relativizava então. Quando não fracassou teve de tomar decisões difíceis que fizeram aquele desejo dar alguns passos atrás, como quando regressou a casa para estar perto da mãe, gravemente doente.

Antes de dar nas vistas no Atlético Mineiro trabalhou até numa fábrica de caramelos, em Lagoa da Prata, e o homem foi-se fazendo. Foi isto e muito mais, com uma sensibilidade e um tom sublimes, que Gilberto Silva, campeão do mundo em 2002 e membro dos invencíveis do Arsenal, contou na primeira edição do “Global Football Management”, no Estádio da Luz, um evento que abordou “O Futuro da Gestão Humanizada do Futebol”. E explicou, enquanto agente, como é que a sua história poderá ser útil para os futebolistas que agora acompanha.

Estou habituado a vê-lo noutra farda. Está confortável de blazer?
[risos] É um pouco diferente, ? A gente ficou muitos anos botando as chuteiras, os shorts, a camisa e correndo. Mas a gente tem de se adaptar a uma nova etapa da vida.

Pensei que o Gilberto ia dar treinador. Não lhe passou pela cabeça?
Ainda não, ainda não. Eu tenho, pelo menos acredito, mais uma linha de pós-carreira na área de gestão, mas acredito que nalgum momento pode ser que eu experimente ser treinador. Por ora, eu tenho-me capacitado e preparado mais na área de gestão.

Foi futebolista muitos anos, lidou com futebolistas a vida toda, agora é agente e lida com futebolistas jovens provavelmente. As preocupações e as prioridades são as mesmas ou, com a sociedade, o futebolista mudou de certa forma?
Muita coisa mudou, não é?, nos tempos atuais em relação a quando comecei há mais de 20 anos. É um processo normal, as pessoas vão mudando, a própria sociedade vai mudando. Hoje, os conceitos de jogo também são diferentes. Os atletas da atualidade também. Parei de jogar há quase 10 anos, em 2013. O que se praticava talvez há oito, dez anos, mudou em várias coisas para o momento atual. E o atleta também, como percebe o próprio jogo, o futebol, como absorve a pressão interna e externa da torcida, da imprensa. Acho que a relação mudou bastante com a imprensa. Há vários fatores que foram mudando, na minha perceção. No meu caso, para fazer este trabalho de gestão de carreira com os atletas, é de uma certa forma similar a tudo isso, a uma velocidade muito grande, absorver o que é legal e transmitir essa mensagem positiva para eles. E orientá-los, principalmente nos momentos de indecisão, em que há inseguranças, dificuldades, pressão, e ajudá-los a sair desse estado de pressão e romper mesmo a linha da dificuldade.

Hoje já se vai falando mais em saúde mental. Há pouco [no palco] falou em avalanche de pressão, expetativas que o jogador sofre, seja jovem ou experiente, e até em fracassar. O Gilberto falou muito no fracassar e que no início da carreira deixou de ter medo de fracassar. Teve algum momento na sua carreira em que se sentiu afogado?
Tive momentos, na área pessoal, que não foram tão simples de gerir para continuar a jogar futebol. Dentro do futebol, a pressão a gente sabe que é constante e a única coisa que nos ajuda a superar essas pressões que você tem diariamente é indo para o campo, treinar. Se alguma coisa não deu certo hoje, você amanhã volta de novo. Repetir todas as atividades, tentar fazer melhor, para tentar tirar aquela frustração. Óbvio que há momentos em que é mais complicado, não é? Por exemplo, quando você perde uma partida, a equipa joga mal, você tem uma participação individual muito abaixo da sua expetativa, do seu normal, isso é frustrante. E aí você tem a questão emocional de lidar com o fracasso da derrota, com uma partida que você não jogou bem e com as críticas. Absorver tudo isso, tentar pelo menos absorver da melhor forma, para não ter um impacto constante. Para algumas pessoas é mais complicado lidar com a crítica, porque na hora em que volta ao estádio você vai julgado pela sua performance novamente.

Imagino que com as redes sociais seja mais agressivo.
[confirma num gesto com a cabeça]

Global Football Management

Neymar acabou de admitir que o Mundial no Catar poderá ser o último dele. Compreende o desabafo? Que opinião tem de Neymar?
Dá para a gente tentar de alguma forma compreender. O principal, na minha opinião, é não julgar. Não julgar a opinião dele, achar que ele está errado. Se ele está realmente seguro e certo desse depoimento que ele deu, acredito que disse o que está sentindo, há algo que talvez o esteja a sufocar, não só de agora, mas de há muito tempo. Nem sempre é percebido pelas pessoas. Com o Neymar existe uma cobrança gigantesca das pessoas no Brasil, em relação à performance e ao que foi conquistado pela seleção brasileira. É muito pouco valorizado o talento que ele tem, a qualidade que ele tem, como jogador de futebol e até mesmo o lado do ser humano dele. Cara, comete erros, como vários outros cometeram ao longo da história. Uma das coisas que ouvi, uma das minhas perceções, que talvez gerem uma pressão maior, acredito que a seleção precisava de ter mais jogadores protagonistas para dividir essa responsabilidade com ele. Quando hoje se fala na seleção brasileira, a pressão vai para o Neymar o tempo todo. É uma carga gigante para você absorver e lidar com isso. Mas acredito que, mesmo diante de tudo isso, ele consegue administrar várias situações da melhor forma possível, lógico que nem sempre vai ser tudo perfeito. As pessoas de fora têm opiniões diferentes sobre como enxergam o Neymar, sobre como veem o Neymar, como jogador e pessoa, mas ele é que tem de definir. Definir o que quer para ele, tomar todas as decisões com tranquilidade, não deixar que essas questões externas mudem o Neymar interior.

Acha que no Brasil o olham como um dia olharam para Didi, Zico e Ronaldinho ou está muito longe disso?
Acredito que o Neymar atingiu o nível desses grandes jogadores...

Mas as pessoas sentem isso?
Cara... você tocou num ponto interessante, até na questão das redes sociais. As redes sociais, infelizmente, deram voz a muitas pessoas ignorantes. Falo no sentido de não valorizarem o que temos de bom. Acho que o Neymar, nessa geração atual, é algo muito bom que temos dentro do futebol brasileiro e não conseguimos enxergar isso de uma forma real, honesta e aceitar. Você até pode não gostar dele, por alguma coisa que ele fez, um jogo ou às vezes um drible desnecessário, poxa até aí tudo bem, mas você não pode deixar de reconhecer o talento, a qualidade que existe e o que realmente representa para o país. Então, nós, brasileiros, precisamos de reconhecer isso e, mesmo que tenha opinião contrária, e não gostar dele a 100%, reconhecer o talento, a importância dele para o futebol brasileiro é o mínimo.

O Brasil não ganha a Copa desde 2002. Porque não vence há tanto tempo? Claro que há mais equipas a jogar, mas vê alguma explicação?
É uma pergunta interessante e difícil ao mesmo tempo. Cara, ganhar uma Copa do Mundo é muito difícil, não é?, é muito difícil. O Brasil, nos últimos anos, chegou a três finais consecutivas: ganhou 94, depois perdeu a final em 98 e ganhou em 2002. Mas antes de 94 o Brasil ficou quase 30 anos sem vencer uma Copa do Mundo pela dificuldade da competição. Cada ano que passa, vai-se tornando mais difícil, porque os jogadores têm muito mais informações, estão-se preparando muito mais do que antes. Cabe a nós, ao jogador brasileiro, tomar consciência do que precisa de fazer para melhorar a sua performance, o que pode melhorar enquanto ser humano, como pessoa visionária, para representar um país. Quando você joga na seleção brasileira, ou até mesmo num clube, você não está apenas vestindo uma camisa, você representa uma legião de pessoas apaixonadas que realmente torcem por você, sofrem por você. Você tem de fazer isso valer realmente a pena, tem de dar o seu melhor o tempo todo, e isso começa na preparação. Você tem de se preparar bem o tempo todo, já que essa é a profissão que cada um escolheu. Quando você está ali, não é somente um jogador de futebol, você é o representante de uma nação. Essa consciência é fundamental.

Acha que há uma crise de futebolistas talentosos no Brasil? Há pouco disse que fazem falta mais jogadores para dividir a responsabilidade com Neymar, mas será que há uma europeização nos princípios? Na formação estão a asfixiar o talento? Ou teme isso?
Acho que essa asfixia do jogador brasileiro começou há um bom tempo. Lembro-me, antes de sair para a Europa, para jogar no Arsenal, que se começou a trazer algumas ideias europeias para o futebol brasileiro, talvez sem tanto conhecimento de causa, de entender bem o processo europeu a ser implementado no Brasil. Com o passar do tempo, começámos a deixar de jogar futebol brasileiro. O Brasil parou de jogar futebol brasileiro. Você não vê tantos Ronaldos e Ronaldinhos, você não vê tantos Robinhos, tantos Neymar, ? Roberto Carlos, que era um lateral que, poxa, estava atacando o tempo todo. O Cafu. Jogadores com esse talento, sendo protagonistas em todos os clubes onde passaram. Lembro-me que, na década de 90, se você pegasse nos 10 maiores clubes do Brasil, você tinha vários grandes talentos, tinha no mínimo quatro, cinco jogadores talentosos nesses clubes. Com o tempo, isso foi diminuindo, começou a ficar tudo muito igual. Dentro do processo de formação, começou a acontecer a inibição do talento em alguns momentos, na minha opinião. O jogador já não podia mais driblar, ele era corrigido, às vezes de uma forma brusca até pelo treinador. Cara, mas acho que isso é o Brasil, o Brasil foi construído dessa maneira, com muita didática da rua. Como a gente perdeu essa liberdade de meninos do Brasil, perdeu a liberdade de jogar na rua, devido à falta de segurança, vários campos de terra que existiam já não existem mais. Perdemos um pouco isso. Mas você não pode inibir o talento, tem de haver um entendimento muito grande dos treinadores de formação para equilibrar o que, para a idade, esse atleta realmente precisa de fazer. Temos de trazer o talento dele, deixá-lo expressar-se.

Respeitar a natureza do jogador.
Fundamental.

Tim de Waele

O Gilberto segurava o meio-campo em 2002 atrás de feras como Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Eles defendiam ou tinha de dar umas duras?
[risos] Era muito tranquilo, não é? No meu caso, estar com eles ali era um privilégio muito grande, eram meus ídolos acima de tudo. Antes de chegar à seleção brasileira, torcia e vibrava com eles, tinha um prazer. Eu ficava na expetativa aguardando o jogo da seleção brasileira para vê-los jogar. Quando tive a oportunidade de estar com eles, de poder jogar junto com eles, foi algo muito rico para mim. O legal de tudo é aprender com eles, de perto, no dia a dia, entender a qualidade deles como jogadores de futebol e como seres humanos também e de poder, de alguma forma, contribuir. A minha função era realmente ajudá-los a serem melhores do que eram. Eles tinham de ser jogadores de criação, de tentar jogadas. Todas as vezes que eles perdessem [a bola], eu tinha de correr por eles para recuperar a bola e entregar para tentarem novamente. Isso para mim era de muito fácil compreensão, eu sabia o meu papel dentro daquela equipa para ajudá-los e principalmente não atrapalhá-los [gargalhada serena].

Falou muito sobre o fracasso. Imagino que ter Ronaldo por perto, que teve aquelas lesões no joelho, e ver a superação, vê-lo a resolver a final do Mundial, se calhar também ajuda os outros. Como é ver essa gente?
É fantástico, é fantástico você ver a superação. A vida do jogador de futebol, do desportista de um modo geral, é repleta de momentos de superação. Óbvio que tem um momento mais destacado, como no caso do Ronaldo, de superar uma lesão tão séria pouco tempo antes de uma Copa do Mundo e depois tornar-se o melhor jogador da Copa, ser campeão novamente com o Brasil... é indescritível tudo isso. Você só consegue superar essas etapas com pessoas capacitadas, com pessoas profissionais, pessoas humanas do seu lado, sejam os profissionais da área médica, fisioterapia, seja a família e amigos, para auxiliar um pouco e para você poder equilibrar a questão do vazio que fica. Quando você está naquele momento, você é solitário. É um momento de frustração. Por mais que receba apoio, você está solitário naquele momento, fica 24 horas na sua companhia, remoendo as dores, "poxa, será que devia ter feito isto?, "será que não devia?", "o que podia ter feito para evitar?". Mas, cara, já foi, aí tem de trabalhar o emocional, o consciente e subconsciente para avançar, é um dia de cada vez. A recuperação, às vezes, é longa. Eu tive uma lesão na lombar e fiquei seis meses parado também, é um dia de cada vez. Eu não gostava de assistir aos jogos, não gostava de assistir aos treinos, concentrava-me no tratamento.

Deixe-me saltar para Londres. Recentemente contou que não era boa ideia ir para os treinos do Arsenal sem caneleiras, certo?
[risos] Talvez tenha fugido um pouquinho o contexto, a interpretação [na resposta que deu]. Mas, na verdade, há muitos anos que treinava de caneleiras, desde que tive uma fratura de stress, ainda jogava no Atlético [Mineiro]. Quando fui para o Arsenal, nos primeiros dias até fui [sem caneleiras], mas não me sentia confortável. Depois, fui vendo como o pessoal treinava e aí passei a usar mesmo [risos]. Os treinos eram como se fosse jogo, treinávamos como jogávamos realmente. O Arsène [Wenger] cobrava-nos isso, esse empenho, os próprios jogadores treinavam a sério, duro. Não sei como eles faziam, não usavam caneleiras e eu questionava-me. A minha caneleira era muito grande, pegava daqui aqui [mete as mãos entre joelho e fim da canela], foi feita para mim, de fibra de carbono. Cara, esta é a minha ferramenta de trabalho [risos].

Não imagino Bergkamp e Henry nessas aventuras.
Não, não, não. Pela posição deles, não tinham tanto [choque]. Mas o pessoal não aliviava para eles, não [risos]...

Como era Arsène no treino?
Ele observava bastante, mas interagia, cobrava o empenho de cada jogador, quando via que ele talvez pudesse render mais, porque ele conhecia muito bem os atletas. Sempre estava ali cobrando, orientando, o que fosse necessário.

Como o define?
O Arsène é um professor de futebol. Um gentleman do futebol. Uma pessoa extremamente diferenciada na capacidade que tinha de enxergar o jogo, naquilo que acreditava no futebol, de implementar as ideias dele, de fazer com que os jogadores entendessem e fizessem da forma que ele queria, extraindo o melhor do talento individual de cada um em função do grupo, dos resultados. Ele conseguia fazer isso muito bem, tinha uma habilidade muito grande de comunicar, de colocar as ideias para que os jogadores entendessem bem. É um professor.

ADRIAN DENNIS

Era fundamentalista em relação a alguma coisa? Por exemplo, na questão de jogar bem?
Ahhh, isso era o que ele gostava. Ele gostava que a equipa jogasse bem, mas gostava que os jogadores fossem competitivos, extremamente competitivos, porque era um treinador que não gostava de perder. Detestava, e cobrava o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, ele teve uma felicidade muito grande de ter um grupo de grandes vencedores, de pessoas que gostavam de vencer também e que entravam para o jogo e não queriam perder. Foi algo importante nesse período em que estive com ele.

Aquela época dos invencíveis tornou-se numa obsessão no balneário, o não perder, ou foi acontecendo?
Foi acontecendo, mas no início da temporada — tínhamos perdido na anterior para o Manchester [United], depois de perder uma vantagem grande na pontuação —, o treinador deu uma entrevista e disse que achava que a equipa tinha condições de vencer o campeonato sem perder [risos]. Causou um espanto para todo o mundo, essa declaração. Mas o processo aconteceu de forma natural, com a capacidade individual e força de grupo que tínhamos, óbvio com o Arsène, uma das figuras principais, mas o grupo era muito bom, era talentoso, fisicamente muito forte, era uma equipa ágil, tinha vontade de vencer.

Em que seleção brasileira do passado é que gostaria de ter jogado?
Uma seleção que é sempre falada é a seleção de 82, mas entrar naquela equipa ia ser difícil [risos]. Você tinha Sócrates, [Toninho] Cerezo, Falcão, Zico, poxa, não ia ser fácil, não. Gostaria de ter tido a oportunidade, nem que fosse no banco, já estava satisfeito. Esses foram grandes referências para a minha geração. Muita gente fala que foi uma grande geração e que foi uma pena não terem vencido a Copa, realmente é uma pena, para coroar o trabalho. São coisas que vemos acontecer ao longo da história: grandes equipas que não vencem. Mas o legado deles foi muito importante para as gerações posteriores vencerem. Valeu como aprendizagem para nós.

Teve algum herói de infância?
Ah, sim. Eu cresci assistindo ao Toninho Cerezo no Atlético Mineiro. O próprio Zico, que acabou virando um ídolo. O Luizinho, que era defesa do Atlético Mineiro e da seleção brasileira. O meu pai era atleticano, cresci atleticano também, incentivado pelo meu pai. Na brincadeira, eu falava "eu sou o Cerezo", "eu sou o Luisinho", aquela coisa de criança.