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Entrevista a Marcos Senna. “Como era jogar com Xavi e Iniesta? Você dava a bola nos ‘cara’ e não erravam nunca. Era alto nível da bola”

O começo da Espanha que dominou o futebol mundial teve Marcos Senna como âncora do meio-campo. No Euro 2008, o médio nascido no Brasil "aproveitou a grande oportunidade" de jogar pela la roja e, ao lado de vários dos melhores jogadores da sua geração, foi peça fundamental de uma das mais fascinantes equipas da história recente. Em entrevista à Tribuna Expresso, Senna comenta o crescimento do Villarreal, clube ao qual continua ligado, recorda um golo marcado a Rui Nereu num duelo contra o Benfica e fala dos jogadores naturalizados nas seleções, como foi o seu caso ou o de Matheus Nunes e Otávio: "Acho que demos um passo em frente em relação à abertura à multiculturalidade"

Pedro Barata

EMPICS Sport - EMPICS/Getty

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O aspecto físico de Marcos Senna assemelha-se muito ao que o jogador tinha quando era o patrão do meio-campo do Villarreal. Entre 2002 e 2013, o paulista fez 358 partidas pelo submarino amarelo, testemunhando de perto a sua transformação num dos principais clubes de Espanha, ao mesmo tempo que aceitou o convite de Aragonés para jogar pela seleção do país que o acolheu. Sentado nas bancadas do Estádio da Luz, onde participou no "Global Football Management 2021", Senna falou com a Tribuna Expresso sobre uma carreira recheada.

Desde que se retirou, o que tem Marcos Senna andado a fazer?
Deixei de jogar futebol há seis anos e estou ligado ao Villarreal desde que terminei a carreira. Sou o diretor de relações institucionais. Estou muito feliz. Foi o clube pelo qual disputei mais jogos e onde escrevi mais história na minha carreira. Não poderia estar melhor noutro lugar que não o Villarreal.

O Marcos chegou, como jogador, ao Villarreal em 2002. Desde aí, o clube tem crescido imenso, sendo presença habitual nos primeiros lugares da La Liga e nas competições europeias, tendo mesmo ganhado a última edição da Liga Europa. Qual o segredo?
O Villarreal é uma família, nós no clube pensamos dessa maneira. É um clube com os pés no chão, com uma formação de grande qualidade e que sabe perfeitamente o que quer. É um clube de projetos. Acredito que a história nos devia um título como este da Liga Europa, que vencemos em maio. E acredito que não vai parar por aqui. É um clube muito sério, de pés no chão, com a economia totalmente equilibrada. Fazer parte deste clube é, para mim, um grande privilégio.

Senna contra Xavi, num Barcelona - Villarreal em 2007/08

Senna contra Xavi, num Barcelona - Villarreal em 2007/08

Etsuo Hara/Getty

O Villarreal é de uma cidade espanhola com 50 mil habitantes que, até à viragem do século, pouca história tinha na elite. Acha que o crescimento do Villarreal pode servir de exemplo para outros conjuntos de dimensão similar?
Sem fazer loucuras, qualquer clube pode chegar a este nível e estar bem no futebol. O Villarreal, mesmo tendo a economia completamente equilibrada, tenta sempre não fazer grandes investimentos fora da linha definida pelo clube, fora das suas possibilidades. Eu acredito que a maioria dos clubes, mesmo tendo condições de fazer algumas contratações, deve olhar até onde pode chegar. Nós sabemos que não somos um time como o Barcelona ou o Real Madrid, nem sequer como o Benfica ou o FC Porto. Eu acho que um dos grandes segredos do Villarreal é saber qual é o seu lugar. O clube está numa cidade de 50 mil habitantes e, mesmo assim, mantém-se na alta roda do futebol europeu e mundial. Trabalha muito bem, tem escalões de formação muito bons e isso é o que sustém o clube.

Uma das novas joias dessa formação é o Yéremi Pino, que recentemente estreou-se pela seleção espanhola.
O Yéremi Pino é um menino que a gente vem lapidando, mas vão surgir aí mais, como surgiram outros no passado. O Villarreal é um clube diferente nisso. O presidente e o vice-presidente, começando desde os infantis até à equipa principal, acompanham todos os jogos de perto e isso leva a que os jogadores sintam uma grande motivação, porque sabem que o dono está a acompanhar e o clube está atento. O Villarreal tem uma metodologia bem vincada, desde os mais pequenos até aos seniores, e isso levou a que o clube, na cantera, seja uma potência em Espanha. Devido ao trabalho do dia a dia e à metodologia do clube, vai ser difícil o Villarreal cair do lugar em que está, lutando pelos primeiros postos da La Liga e sendo presença constante nas competições europeias.

Está sentado numa cadeira do Estádio da Luz. Lembra-se de marcar um golo quase do meio-campo nesse estádio?
Tenho muito boas lembranças deste estádio. Foi o meu primeiro golo na Champions e logo contra uma equipa contra o Benfica. Guardo esse golo na memória e até hoje os torcedores do Villarreal recordam-me esse momento. Foi marcante e inesquecível para mim.

Senna festejando o golo marcado ao Benfica, na Luz, a 2 de novembro de 2005

Senna festejando o golo marcado ao Benfica, na Luz, a 2 de novembro de 2005

NICOLAS ASFOURI/Getty

Essa participação na Liga dos Campeões foi histórica para o clube, conseguindo, na estreia, chegar às meias-finais.
Foi o nosso primeiro ano na Champions e a equipa entrou para desfrutar da competição e acabou a chegar às meias-finais, a um passo de estar na final contra o Barcelona. Mas caímos contra uma grande equipa [o Arsenal de Wenger], dando uma grande imagem na melhor competição de clubes do mundo.

É impossível falar daquele Villarreal sem mencionar o Riquelme. Como era tê-lo à frente?
Quem é o Riquelme? Não o conheço? [risos]. Totalmente. Quando eu recebia a bola, olhava logo para ele, porque sabia que ele era capaz de fazer a diferença, fosse com um passe ou com um remate. Foi um jogador fundamental no nosso Villarreal, sem ele não funcionávamos da mesma maneira. Temos de reconhecer que, para chegar àquela meia-final da Champions, ele era uma base fundamental para nós.

Nessa altura, quando era uma das figuras do Villarreal que brilhava na Liga dos Campeões, surge a oportunidade de jogar pela seleção espanhola, com a qual acaba por estar no Mundial 2006 e Euro 2008. Como surgiu essa chance?
Eu nunca pensei jogar por uma seleção que não fosse a do meu país de origem, o Brasil, mas aconteceu tudo muito rápido devido à temporada que fiz na Liga dos Campeões, coincidindo isso, também, com um momento menos bom de alguns jogadores da minha posição na seleção, o que levou a ser necessário um jogador com as minhas características. Foi-me feito um convite e eu aceitei no momento, porque via uma grande oportunidade de jogar uma Copa do Mundo com uma grande seleção como a espanhola, com um país ao qual estava totalmente adaptado. Não pensei duas vezes em relação a aceitar aquele convite, que jamais teria passado pela minha cabeça.

Com Aragonés, o treinador que o levou à seleção espanhola

Com Aragonés, o treinador que o levou à seleção espanhola

PIERRE-PHILIPPE MARCOU/Getty

Aqui em Portugal, vivemos agora um caso de um jogador, o Matheus Nunes, que nasceu no Brasil e escolheu representar a seleção portuguesa. Este tipo de escolha é algo de muito pessoal?
Falando no meu caso, eu via que jogar por Espanha era a única oportunidade que eu tinha de jogar um Mundial. Tive de analisar o momento. Claro que o meu sonho de pequeno era chegar a profissional e daí chegar à seleção do Brasil e jogar as competições, mas, no meu caso, naquele momento eu acabei por entender que a seleção espanhola era uma grande seleção e uma grande oportunidade para mim. É algo muito particular de cada um. Eu acho que, se alguém escolher atuar por outra seleção, quem sou eu para opinar? Eu joguei por outra seleção e, para quem estiver na dúvida, mas achar que é uma boa opção, digo para não pensar duas vezes, porque será feliz, será bem recebido, certamente estará bem adaptado ao país e à cultura. No meu caso foi assim, acho que é um bom escaparate para jogar um Mundial ou até mesmo um Europeu.

E acha que a presença de jogadores nascidos noutros países nas seleções nacionais pode ser também uma boa mensagem de diversidade e abertura cultura?
Acho que demos um passo em frente em relação à abertura à multiculturalidade. No passado, não se viam muitos jogadores alinhando por outras seleções que não a do país de origem e eu acredito que se trata de uma grande oportunidade para conhecer a cultura do outro, para poder crescer como pessoa e isso é fundamental. É muito bom ter a oportunidade de viver outra cultura, de outro país.

Quando estava a jogar com Espanha o Euro 2008, sentiu que estava ali a nascer uma grande equipa, que marcaria o futebol mundial nos anos seguintes?
Nós vínhamos do Mundial 2006, no qual caímos contra a França, e os torcedores estavam sem confiança no treinador e nos jogadores. Foi inesquecível e marcante ganhar um título para a Espanha 44 anos depois, e sobretudo fazê-lo da forma como nós ganhámos. O treinador, Luís Aragonés, na época teve muita personalidade, havia muita pressão colocada nele, desde logo por ter deixado o Raúl de fora. O time sabia o que queria o técnico e, quando o treinador e os jogadores seguem a mesma linha, a possibilidade de chegar a uma final ou ganhar é muito grande. Nós tínhamos um excelente grupo, com uma ótima conexão. Não havia ciúmes nem as tensões entre Barcelona e Madrid, das quais sempre se falava na seleção espanhola. Pessoalmente, no meu tempo, eu vivi lá uma grande amizade entre os jogadores, com todos a lutarem por um só objetivo. Foi maravilhoso, desfrutei bastante daquele Europeu. Inesquecível.

Como foi partilhar o meio-campo com o Xavi e o Iniesta?
Uma maravilha. É a nata do futebol, o topo. Você dava a bola nos 'cara' e os 'cara' não errava nunca. Era alto nível da bola, outro nível. Um jogador habitua-se a dar a bola a um companheiro, depois ele perde-a, depois volta-se a recuperar… E aí, de repente, estás numa seleção assim. Não era só Xavi e Iniesta, havia Villa, Silva, Torres, estava rodeado de grandes craques.

Senna a marcar um penálti no desempate contra a Itália, nos quartos-de-final do Euro 2008

Senna a marcar um penálti no desempate contra a Itália, nos quartos-de-final do Euro 2008

JOE KLAMAR/Getty

Quando estava a crescer no Brasil, havia aquelas seleções dos anos 80, como a de 1982, que encantavam. Quando jogava nessa seleção espanhola sentia-se a jogar o futebol brasileiro que tinha visto em criança?
Totalmente. Fomos batizados de “tiki-taka”, um termo que eu já tinha ouvido no Brasil sobre essas antigas seleções. Naquele momento, viu-se um futebol semelhante ao brasileiro, pelas características dos futebolistas e maneira de jogar. Então, eu senti-me totalmente em casa, não só porque eles me receberam muito bem, mas também porque me sentia muito ligado à forma de jogar deles, sentia-me muito identificado porque era algo muito brasileiro.

O que é preciso ter para jogar como médio-centro nesse tipo de futebol de toque?
O futebol evoluiu muito, não só naquele tipo de esquema, e aquela posição também. Antigamente, só se pedia que quem jogasse ali destruísse e entregasse simples, e hoje em dia também tens de construir. Para jogar ao mais alto nível tens de ser completo, tendo capacidade para construir e destruir.

MLADEN ANTONOV/Getty

O Marcos esteve no Mundial 2006 e está agora ligado a um clube como dirigente. O que lhe parece a proposta do Mundial a cada dois anos?
Eu adoro ver futebol. Vai alterar um pouco a lógica dos quatro anos, mas quem gosta de futebol ama ver jogos todos os dias. Então, com um Mundial a cada dois anos, não será preciso esperar tanto para ver os grandes jogadores na melhor competição de seleções. Para mim está tudo certo.

E a Superliga?
Eu acho que no futebol as coisas têm de ser ganhas no campo. Não estou de acordo com isso de montar uma liga só com os maiores clubes. Por exemplo, o Villarreal ganhou a Liga Europa jogando contra um todo-poderoso Manchester United. Em relação à Superliga, se existisse teria de ser igual às demais competições. Você conseguiu ter uma boa classificação no campeonato? Então pode jogar. Não conseguiu? Não joga. Eu acho que o melhor é deixar do jeito que está, podendo nós continuar a desfrutar da Champions, da Liga Europa e demais competições.

Quality Sport Images/Getty

Tem noção que foi, talvez, o único jogador a relegar o Xabi Alonso para o banco [durante o Euro 2008]?
[Risos] O Xabi Alonso já tinha tido a oportunidade dele, antes da minha chegada à seleção. O Luis Aragonés tinha dúvidas sobre aquela posição, mas eu acabei convencendo-o e sendo titular. A vida do treinador é isso: ter boas ferramentas na mão e saber escolher na hora certa. Felizmente eu, naquele momento, fui o escolhido. Dei o meu máximo e saiu tudo bem.

Hoje em dia, qual o médio-centro que gosta mais de ver?
Falar de um só jogador seria injusto da minha parte. Eu gosto muito dos jogadores que constroem desde trás, como o Kroos, o Busquets ou o nosso Casemiro. São esse o tipo de jogadores de que gosto, que circulam bem a bola e são inteligentes. Antigamente chamava-se meia, mas hoje em dia virou um volante-meia, digamos assim, que sabe construir e organizar o time.