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Bárbara Timo: “Tenho aversão a que me tratem com pena. Espero que a minha próxima medalha não seja a da atleta que venceu a depressão”

A judoca que, em 2018, trocou o Brasil por Portugal em busca do sonho olímpico após ver os Jogos do Rio de Janeiro na bancada, conquistou a medalha de ouro no Grand Slam de Paris, primeiro torneio internacional pós-Tóquio. Tudo aconteceu na mesma semana em que revelou ter passado por uma depressão devido "a picos de stress", perdido peso e que ia voltar à categoria (- 63kg) na qual não competia há 10 anos. Em entrevista à Tribuna Expresso, explica que tudo o que não quer é ficar com o rótulo de "coitadinha", porque, seja um atleta ou qualquer pessoa, "podemos viver com isto, podemos tomar medicação e podemos ter sucesso"

Diogo Pombo

Ana Baião

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Conversa feita, fotografias tiradas e estamos a regressar aos carros, estacionados com o Estádio da Luz nas barbas, quando Bárbara Timo enumera as entrevistas que teve e ainda terá. "Pronto, é a minha semana de fama", desabafa, com um riso a pontuar o final da frase de quem sabe que a atenção é natural, sabendo também da sua ciclicidade alinhada, quase sempre, com os Jogos Olímpicos.

Os últimos foram este verão, em Tóquio, onde a judoca foi eliminada à segunda ronda do torneio de -70 kg, categoria na qual foi vice-campeã mundial na mesma capital do Japão, em 2019. Neste outono com tiques veraneantes, Bárbara Timo foi ganhar a medalha de ouro no Grand Slam de Paris, onde daqui por três anos serão os próximos Jogos. E ela não quer pensar em sinais, tão pouco pressagiar o que seja.

Prefere usufruir da alegria depois do vazio momentâneo que sentiu com a depressão que, apenas uma semana antes do torneio parisiense, confessou ter ultrapassado. Fê-lo via Instagram, sem o planear, enchendo-se de coragem e de um "porquê mentir" quando lhe perguntaram pela razão de estar a querer perder peso para baixar de categoria, para os -63 kg.

Demorou a fazê-lo porque a última coisa que pretendia era que a tratassem com pena, como a coitadinha, ou muito menos que a rotulem como 'aquela judoca que superou uma depressão' cada vez que ganhar, perder ou aparecer. "Não, isto é uma fase que eu tive, consegui ter o ato de falar para dar coragem aos outros e vamos seguir em frente. Isto pode ser uma coisa boa, então que seja mesmo", diz, entre as explicações, os contos da sua vida e as histórias que Bárbara Timo nos detalhou, após a vitória em Paris.

Já te consideras famosa? Até a Telma Monteiro pede para tirar fotografias contigo.
Finalmente, chegou o momento, normalmente sou eu [ri-se] que sempre peço uma foto com ela, ou para ela publicar alguma coisa comigo. Estou a brincar. Mas, de todos os títulos e surpreendentemente, porque já fui vice-campeã do mundo, acho que esse é o que mais me deu reconhecimento. Não sei se é por ser [uma medalha de] ouro, mas pode ser também a trajetória que fazemos depois de um ciclo em que o judo português foi tão vitorioso, é normal que os portugueses conheçam mais os atletas, o Jorge Fonseca, a Telma que já é um ícone. Acho que estamos a ficar mais reconhecidos e isso é consequência de todas as medalhas que o judo tem conquistado.

Já os conhecias antes de vires para Portugal?
Sim, éramos amigos assim de seleções, de competição, víamo-nos nas festas ou conversávamos nos treinos, mas ficámos mais próximos aqui em Portugal.

Vieste para cá em 2018. Falaste com eles antes de vires?
Entrei em contacto, principalmente, com a Telma. Partiu de nós — eu e a Rochelle Nunes, já somos uma família — e ela, enfim, abriu as portas para a gente e o contacto com o clube. Fomos recebidos muito bem desde o início.

Veem-se muitos casos de atletas que vêm competir para e por Portugal devido a não terem condições nos países onde nasceram, ou por fugiram de situações de conflito. No teu caso, foste tu a procurar essa mudança por, assumidamente, quereres estar nos Jogos Olímpicos.
Sim, sim. A minha história, realmente, é curiosa e não sei muito explicar o porquê de eu fazer as coisas. No momento, é o que me faz bem, o que sinto que é certo para mim, como a decisão agora de mudar de peso ou a decisão de ter vindo para Portugal. Não tenho uma receita para falar. Senti que era o melhor para mim e que teria melhores oportunidades para crescer como atleta e, principalmente, como pessoa. Sempre foi um sonho morar fora e, juntando tudo, não tinha como recusar. Agora, quando olho para trás, se calhar penso que tive mesmo muita coragem. Não é fácil trocar de país quando já se tem uma estrutura. Lá no Brasil tinha o meu clube, a seleção, toda uma base familiar. A dúvida pairou comigo até entrar mesmo na seleção portuguesa e ser bronze em Paris, que foi a minha primeira medalha por Portugal, em 2019.

Conhecias Portugal antes de vir? Tinhas cá amigos ou família?
Vim em 2015 para uma competição, o Open de Odivelas, fiquei em 5.º lugar. Depois vim de férias em 2018, que foi mais ou menos na época em que estava a avaliar se era uma possibilidade. E vim mais duas vezes antes de me instalar de vez [risos].

O que te fez decidir mesmo vir?
Acho que foi o Benfica e a certeza de que o Benfica nos iria receber muito bem, dar-nos estrutura, estou a incluir outra vez a Rochelle [gargalhada]. Foi realmente uma decisão em conjunto. Mas sim, como disse, foi a estrutura do Benfica, porque já tinha uma no Brasil e não conseguiria vir para cá do zero, precisava de ter uma base e foi o clube que me deu a solidez de poder vir e recomeçar, mas sem ser do -1. Tinha de ter uma situação tranquila para o meu nível e as condições que quero para os objetivos que quero, acho que foi isso, principalmente. Depois, o apoio da Federação Portuguesa de Judo e do presidente, além de uma carta do presidente do Comité Olímpico de Portugal, que foi especial e surgiu antes de ter sido portuguesa. Quando vi que ia ser bem recebida e ter uma estrutura, foi a decisão de vez, do bate o martelo.

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