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Jéssica Silva: “Dá-me algum gozo ser negra, futebolista e ter sucesso. Quero mostrar que também podemos”

A futebolista portuguesa está atualmente no Kansas City, nos Estados Unidos, onde têm sido reportadas histórias de coação e abuso sexual. Em entrevista à Tribuna Expresso, Jéssica Silva, de 26 anos, fala sobre a lesão grave que sofreu e ainda reflete sobre profissionalização do futebol feminino em Portugal, o nível da seleção nacional, discriminação e saúde mental. Entre desabafos, garante: "Estou a sentir-me a voltar ao meu nível, acho que há aí um monstrinho a sair ainda"

Hugo Tavares da Silva

José Fernandes

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Vivem-se tempos conturbados na liga norte-americana. Como é que, enquanto futebolista profissional ali, estás a viver a situação?
Tenho de admitir que foi um choque para mim, senti as coisas de uma forma pesada até. Foram dias muito pesados lá. Por um lado, nunca é bom acontecerem estas situações, mas acabou por mostrar uma parte negra que é vivida, se calhar, em muitas modalidades e em muitos desportos. Eu não estava à espera que houvesse na minha modalidade, deixa-me triste. Espero que as coisas mudem.

Falamos de abusos sexuais, verbais e chantagens até. Pelo que disseste, presumo que não tenhas vivido uma situação dessas.
Não, não no futebol. Se calhar há uma banalização do abuso verbal. Às vezes as pessoas, treinadores e tudo o mais, não têm noção do que é esse trato abusivo. É algo antigo, não é?, se calhar podemos estar aqui a misturar coisas. Mas acho que agora, no futebol moderno, o abuso verbal ou a forma de comunicar é diferente. Não posso dizer que vivi isso, mas tenho noção que acontece. Não estou a falar do abuso sexual, mas há formas e formas de comunicar, e agora no futebol moderno há coisas que já não se admitem, acho eu. Até porque somos jogadores, mas também somos pessoas, às vezes não há essa consciência, esquecem-se dessa parte. Está a acontecer lá nos Estados Unidos, mas espero que seja um abre-olhos para qualquer liga do mundo, para qualquer outro desporto, porque isto aconteceu também anteriormente na ginástica.

Falas no futebol moderno, mas isto foi agora.
Exatamente, exatamente, mas a verdade é que as situações reportadas já tinham acontecido no passado, mas acabaram por vir à baila outras situações. Espero é que seja reportado, que as pessoas tenham coragem. Acho que é um ato de bravura, de coragem, admitir e dar voz. Cada jogadora ou cada pessoa que tenha coragem de acabar por reportar uma situação acaba por dar voz a outras que não têm coragem.

Em Portugal, achas que não há histórias ou falta coragem e a proteção adequada para denunciar?
Muito recentemente, já depois do que foi reportado nos Estados Unidos, ouvi falar e também vi uma entrevista de alguém a falar de uma situação. Mas acredito profundamente que aconteça um bocadinho por todo o mundo, o que me deixa triste. Espero que o que aconteceu nos Estados Unidos ajude a reconhecer outros casos noutras ligas e, aqui em Portugal, devemos preocupar-nos mais com a saúde mental e com a proteção das jogadoras, de atletas, de tudo, mas eu tenho de falar do futebol. Às vezes está tão próximo e até custa acreditar que pode realmente existir. Espero que, a nível de federação e associações, sejam criados mecanismos para as jogadoras e qualquer pessoa estarem protegidas após reportar ou mesmo quando há incidentes mais estranhos.

Essa proteção pode ter a ver com a profissionalização, por existirem contratos. Como vês esse processo por cá? Há enormes disparidades salariais e de condições entre as equipas em Portugal, por exemplo.
Acho que estamos a evoluir, mas ainda falta muito para chegarmos a um campeonato completamente profissional. Ainda há clubes que não dão condições às jogadoras, nem vou falar a nível salarial. Há jogadoras que fazem viagens de carro de uma ou duas horas para chegarem ao treino e só podem treinar às nove horas [da noite]. Ou seja, a profissionalização é um processo que ainda vai demorar, mas é importante haver proteção para as jogadoras, é importante os clubes investirem e darem as melhores condições, porque não é possível que haja jogadoras a treinarem em sintéticos quase impraticáveis. Não é justo que uma jogadora não tenha direito a treinar no ‘horário nobre’. Imagina, há jogadoras que só podem jogar às nove porque os rapazes têm o campo até ali. Não é justo. Há muitas jogadoras que trabalham. Em termos salariais, acho que a liga portuguesa ainda está um bocadinho longe de se tornar uma liga profissional. Há outras coisas, há outros passinhos que devem ser dados para podermos ser todas profissionais. Mas tem de haver investimento, quer por parte dos clubes, quer por parte da federação. Passinho a passinho.

E se calhar a seleção acabará por ganhar aí, haverá mais qualidade.
Sim, sim, também, claro que sim. Não podemos desvalorizar o trabalho que tem sido feito a nível de federação e de clubes. A maior parte das jogadoras da seleção, neste momento, estão a jogar em Portugal. Isso quer dizer alguma coisa.

Quando começaste estava mal visto uma rapariga jogar futebol?
Sim, sem dúvida alguma. Eu digo que sou atleta, que sou desportista, e perguntam o que faço: "jogo futebol". "Futebooool?" [inclina a cabeça e torce o nariz]. Ou seja, não está completamente ultrapassado, mas é algo que se vai ultrapassando, passo a passo. Aqui estamos nós, jogadoras, a lutar todos os dias para contrariar esse pensamento, essa discriminação que ainda existe. Mas estamos a trabalhar no bom sentido.

Ouviste coisas feias?
Sim, sim. Claro que sim. Quer dizer, até há pouco tempo. Eu jogava em Portugal e lembro-me de ter ouvido comentários de todo o tipo. Até racistas [vai sorrindo durante a resposta]. Lembro-me de ir jogar ao Norte e era "preta, vai para a tua terra". Quando estava em Braga, num jogo para a Taça, fora, ouvi um comentário racista, olhei para a bancada e abanei a cabeça. Era uma bancada muito próxima. Quando abanei a cabeça, uau, ainda foi pior. Existe [racismo]. Eu sou um bocadinho positiva em relação a isso, sinto que há uma melhoria. Se calhar, as pessoas têm mais medo, estão mais expostas, há televisões, há câmaras. Mesmo assim, algumas não têm vergonha nenhuma e continuam. Acredito que isso seja erradicado se tivermos os melhores mecanismos para punir as pessoas que não pertencem ao futebol. Uma pessoa que tenha qualquer tipo de comentário racista, xenófobo ou homofóbico não é bem-vinda à modalidade.

Contaste isso com um sorriso. Mas afetou-te, certo?
É um sorriso de... é tão triste que ainda existam pessoas capazes, em pleno século 21, de terem atitudes discriminatórias de todas as formas. É triste, revolta-me um bocado. Revolta-me quando acontece a algum colega meu, seja futebol masculino ou feminino, porque podia ser eu. Deixa-me triste. Não é normal que no futebol, num espetáculo desportivo, em que toda a gente se devia divertir e apoiar a equipa, estejamos mais preocupados em ofender e a insultar.

Sendo mulher e negra, sentes mais pressão para ser um exemplo? Sentes uma responsabilidade extra?
Eu não sinto o peso, sinto orgulho. Dá-me algum gozo por ser negra, futebolista e por ter algum sucesso. Quero mostrar que também podemos. É uma responsabilidade, se calhar, que me enche o peito e digo "eu consigo", "nós conseguimos". Sinto até que sou uma causa. Gosto de mostrar que nós, mulheres, e sou negra, conseguimos e podemos lutar pelos nossos sonhos e lutar contra qualquer tipo de discriminação.

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