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Jokanovic e a arte de bater penáltis: “Não gosto dessas coisas dos panenkas, para mim é brincar com o trabalho dos colegas”

Tal como João Pedro, do Tondela, fez este domingo, Predrag Jokanovic também assinou um hat-trick com três penáltis num União da Madeira-Salgueiros, em 1994. Em conversa com a Tribuna Expresso, o treinador contou o que aconteceu nessa tarde, explicou como batia os penáltis, mencionou Zahovic, Alex Bunbury, Madureira e Vladan e ainda deixou uma palavra para o futebolista que acabou de o imitar tantos anos depois

Hugo Tavares da Silva

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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Depois dos três golos de penálti de João Pedro, no Tondela-Marítimo, os arquivos cheiinhos de pó foram retirados da prateleira imaginária e chegou-se à conclusão que tal não acontecia, na I Liga, desde o longínquo fevereiro de 1994. O afinado futebolista, com a camisola do União da Madeira, foi Predrag Jokanovic e o sacrificado foi o Salgueiros, com Sá Pinto na frente, que acabou na rua. A Tribuna Expresso pegou no telefone e, ao longo de quase 15 minutos, tentou acompanhar a pedalada deste sérvio, apaixonado pela Madeira, que pensa rápido e que fala ainda mais rápido.

Estou sim, Predrag? Tudo bem?
Olá, olá. Tudo, tudo. Estou aqui nesta maravilha, 26 graus, sem nenhuma nuvem, sol. Isto é um espetáculo.

Onde?
Na Madeira! Cheguei para ficar um ano e fiquei 28, amigo.

O que se faz por aí? Não há futebol?
Não. Depois de 40 anos, um gajo tem de descansar um pouco, não é?

O telefone não tem tocado?
Na, naaa. Portugal está muito bem servido de treinadores. Antigamente era [assim], agora os portugueses é que mandam no mundo. É verdade, não estou a inventar nada. Vê só, estão em todo o lado, com todo o mérito. Mourinho começou e agora vê, han!

Estou a ligar-lhe por causa dos penáltis do rapaz do Tondela.
Não vi, mas sei que marcou. Eu não fazia ideia que desde aquele tempo que mais ninguém tinha marcado [três penáltis num jogo]. No final [de contas], foi ontem.

Lembra-se desse União-Salgueiros?
Lembro, lembro, lembro, amigo. Tenho uma história para tu veres: o primeiro penálti, no início, marquei logo. Depois, o Sá Pinto empata. No minuto 70 e qualquer coisa, houve um penálti sobre mim. Eu disse ao Lepi "bate tu", mas ele disse "Joka, bateste o primeiro, bate caraças!". Eu pensei "que se lixe, 'tá bem". Bati [e golo]. No terceiro penálti, eu agarrei a bola e não a dava a ninguém, e ele: "Agora não perguntas, sacana!?" [gargalhada]. Já estava 2-1, bati dois, agora vai [ser mais do mesmo]. Nos três, enganei o Madureira, ainda me lembro, era o guarda-redes. Foi sempre para o lado contrário.

Então, bateu diferente.
Sempre diferente. Primeiro, foi esquerda; depois, direita; depois, foi esquerda. Acreditas que ele foi sempre para o lado contrário?

A confiança não abana, não muda quando se decide marcar para outro lado?
O terceiro foi mais fácil, [estava] 2-1, último minuto, mesmo que falhes... não é? O segundo foi mais difícil, sabes porquê? Normalmente, diziam que quem sofre o penálti não deve bater. Eu não me vou comparar com o Ronaldo, mas jogadores com boa, boa mentalidade e boa técnica normalmente não falham. Quem falha mais vezes são os que inventam. Ali, precisas de estar mentalmente preparado e de pensar que 90 e tal por cento o penálti pode dar golo. Certo? Não vou dizer que é fácil, já vi o Messi falhar, já vi muita gente falhar. Por isso, estou a dar os parabéns ao miúdo [do Tondela]. Eu vou ver hoje os penáltis nas calmas [a conversa decorreu segunda-feira à tarde].

O Predrag estava a comentar jogadores que falham...
Olha, olha! O meu filho, está aqui ao lado, diz que falou com o jogador que marcou os penáltis, no Instagram. O que é que ele disse? [pergunta ao filho] Vou ver a conversa deles...

...
O meu filho mandou-lhe os parabéns por igualar o recorde do pai. E ele? [pergunta ao filho novamente] O outro agradeceu. Eu nem sabia, está a dizer-me agora.

O Predrag estava a comentar que há jogadores que falham...
Acontece! Mas, amigo, vou dizer-te uma coisa: como treinador, também digo aos jogadores que é impossível um gajo falhar na baliza. O guarda-redes até pode defender, mas aqueles que falham na baliza, desculpa o termo, estão cagados. Então, quer dizer, falha na baliza... fecha os olhos e pumba onde é que ela vai? Não é? Tens hipóteses de marcar se for à baliza, se não for não marcas, caramba. Tem de se acertar na baliza.

Em 1999, Martin Palermo falhou três num jogo.
Eu falei com o Zahovic agora e ele estava a gozar comigo. Ele disse: "Aquele recorde ninguém vai bater, o gajo falhou os três!". Sabes porque ninguém falha? Nenhum treinador é louco para deixar um jogador falhar três [gargalhada].

Bielsa já tinha sido expulso.
Ele era bom jogador, eu lembro-me, era craque, agora falhar três num jogo? Bateu os recordes todos, aquele ninguém bate.

Ele diz que ninguém queria assumir.
Ninguém queria assumir, é verdade, eu lembro-me do jogo. Ninguém queria!

Sempre bateu penáltis na carreira?
Bati, bati! Eu bati 13 ou 14 penáltis no Marítimo e no União. Falhei só um, com o Leça, ainda me lembro. O guarda-redes defendeu, aquele Vladan, o irmão do Stojkovic que jogou no Sporting. Ele defendeu, mas, na recarga, a bola vinha para mim, podia ter marcado de recarga, mas o brasileiro, o sacana do Edmilson, fez um carrinho. Sabes como são os brasileiros, querem é mamar golos. Meteu-se à minha frente e foi golo na mesma. Uma vez marquei contra o Boavista, quando foi campeão, no último minuto. O Boavista até ficou chateado. Marquei ao William, bom guarda-redes, maluco, mas bom. Eu marcava penáltis, mas às vezes dividíamos. Lembras-te do Alex, o canadiano do Marítimo?

Bunbury.
Alex Bunbury. Ele roubou-me alguns penáltis, o sacana. Chegou, ponta de lança, queria marcar golos.

Têm sempre fome.
Exatamente, têm fome! Mas ele marcava bem, eu era jogador para ganhar, não me interessava marcar golos. Quer dizer, sou trinco e central, interessa-me marcar golos? Deixa os outros marcar, desde que a gente ganhe, 'tá bom.

Alguém lhe ensinou a bater penáltis?
Não, não. Só o Jesus é que parece que sabe ensinar jogadores a bater penáltis. Ele mete-se em cada uma. Como é que se ensina um jogador...? Ele ensinou o Bas Dost a bater penáltis? Mas o que é isto? Eu dou-me bem com ele, mas ele tem moral demais. Mas é verdade, como é que se ensina alguém a bater penáltis? Aquilo nasce contigo, vem de miúdo. Por exemplo, na Sérvia, olha o que me aconteceu: bati penálti no último minuto e marquei golo, mas o árbitro mandou repetir. Estava 1-1, era o penálti da vitória. O árbitro diz que parei, sabes, fiz aquela paradinha. Repeti, falhei, guarda-redes defendeu e ficou 1-1. Eu tinha 18 anos, pá. Fiquei fod*** 'pa caraças. Repetes o penálti e depois falhas... Agora é mais fácil bater penáltis, os guarda-redes têm de estar com um pé na linha. Como é que ele chega à bola? Se bates com força, ele nunca chega, certo ou errado? Não têm hipótese. Eu não gosto destas coisas dos panenkas e essas coisas, para mim é brincar com o trabalho dos colegas. Tem de ser sério, tem de ser sério.

Como é que costumava bater?
Eu esperava um pouco pelo guarda-redes. Se ele não se mexia antes, então tinha de dar com força para não chegar. Se se mexia antes, eu metia no outro lado. Foi como eu estava a dizer: [o Madureira] foi três vezes para o lado contrário.

Lembra-se desse campeonato de 1993/94?
Ficámos em 10º lugar, na I Liga. Nesse ano, eu assinei um pré-contrato com o Sporting, eu e o Marco Aurélio. O União disse que não podiam ser os dois, que ia um num ano e outro no outro ano. Eles precisavam de mais um central. Mas no ano seguinte, eu parti a perna contra o Porto. Fiquei 10 meses parado e aquele contrato foi abaixo, e eu fui para o Marítimo. Tive sorte de, depois daquela lesão grave, ainda conseguir jogar.

...
Mas, amigo, não é fácil [bater penáltis]. Dá-lhe os parabéns [ao João Pedro], já que estás a escrever. Não é fácil. E também podes dizer: ele não bateu recorde, só igualou [risos].

É preciso coragem para bater três penáltis num jogo?
Depende. Primeiro, o treinador tem de decidir quem bate. Depois, há jogadores que querem bater e chega o treinador e "não, este é que bate". Mas coragem, não. Estás a ver Ronaldo, Bruno Fernandes, mesmo falhando, "dá-me outra vez, vou eu". Aquilo é confiança. O Ronaldo falha um penálti, no jogo a seguir há um penálti, quem é que agarra a bola? É o Ronaldo e pimba, ele bate mesmo com força. Escolhe o lado e acabou, não há brincadeiras com ele.

Pronto, Predrag, não lhe roubo mais tempo.
Naaada. Sexta-feira também vou para Lisboa, vou comentar o jogo... para ver se a gente ganha a Portugal [gargalhada].