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Moretto e aquele penálti de Ronaldinho contra o Benfica: “Três dias antes, ele tinha marcado outro. Sabia que não ia bater no mesmo lado”

Deixou as luvas com 35 anos, hoje é agente de jogadores e vive há sete meses em Portugal. Marcelo Moretto estava na baliza do Benfica em 2006, em Camp Nou, quando logo aos cinco minutos da segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões teve de lidar com um penálti, ainda por cima batido por Ronaldinho Gaúcho. A Tribuna Expresso apanhou-o no dia em que o clube regressa ao estádio de um Barcelona diferente do que o brasileiro apanhou naquele tempo, quando tinha "uma constelação de craques"

Diogo Pombo

Stuart Franklin/Getty

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Hoje há Barça-Benfica. O que lhe vem logo à cabeça do jogo de 2006, em Camp Nou?
Lembro que foi um jogo depois de a gente conseguir um resultado importante em casa, um empate [0-0] no primeiro jogo. E, no segundo, disputámos até ao final taco-a-taco com o Barcelona, numa partida onde também peguei um penálti, então ficou fresca na memória.

Era aí que queria chegar. O penálti foi logo aos cinco minutos.
Exato, no começo da partida, e consegui efetuar a defesa.

Quem bateu o penálti, o Ronaldinho, era o melhor jogador do mundo na altura. Isso mudou alguma coisa?
Não, nem por isso. Na hora, a gente dá tudo e está focado no jogo. Estava preparado e bem psicologicamente, então tive a felicidade de conseguir fazer uma grande partida.

Tinha estudado ou visto vídeos dele a marcar penáltis?
No jogo antes, acho que a três dias do jogo, ele tinha feito um penálti fora de casa, contra uma equipa que não me recordo lá do campeonato espanhol, então quando saiu o penálti, sabia que ele não ia bater para o mesmo lado. Então esperei o máximo, consegui sair junto da bola e fazer a defesa.

Chegou a falar com ele sobre isso?
Nunca tive essa oportunidade.

Quem treinava o Benfica nessa altura era o Ronald Koeman, que esteve até há umas semanas no Barcelona. Como era ele com os guarda-redes?
Não interferia muito. O maior contacto que tive com ele foi quando cheguei ao Benfica, conversámos bastante quando ele passou a titularidade para mim. Mas, depois, ficava mais a cargo do treinador de guarda-redes.

Como era ele a trabalhar no campo, em treino?
Era um treinador bastante ativo, até nos jogos. Observava muito os jogadores, já na altura tinha uma experiência muito grande e por isso chegou onde chegou, fez uma carreira brilhante ao longo dos anos.

Moretto fez 29 jogos pelo Benfica, entre as três épocas que representou o clube

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John Walton - EMPICS

O Benfica tem hoje o Vlachodimos na baliza e, do outro lado, há o Ter Stegen no Barça. Dois estilos de guarda-redes muito distintos, também devido ao que lhes é pedido quando a equipa tem a bola.
Exatamente, são bastante diferentes. Na minha opinião, o Ter Stegen está entre os três melhores guarda-redes do mundo. Jogando com os pés, não vejo outro. Acho que o que mais se aproxima é o Ederson, mas é um jogador de quem gosto muito. Já o 'Vladi' tem feito uma grande temporada no Benfica, tanto na sua seleção como no clube, como se viu na fase de grupos [da Liga dos Campeões]. Tem estado muito bem, não há nada a apontar.

O que acha da importância que hoje se dá ao jogo de pés e à participação dos guarda-redes na forma como as equipas saem de trás, da própria área?
Hoje diria mesmo que é fundamental. Já se pede aos guarda-redes que a primeira coisa seja jogarem com os pés, porque é aí que começa a construção de jogo da equipa. Se tiver um bom jogo com os pés, o guarda-redes vai evoluir bastante e afetar o adversário.

Comparando com eliminatória de 2006, acha que hoje existe um desequilíbrio semelhante entre Barcelona e Benfica, em termos de qualidade?
Não, não, não, aquela equipa do Barcelona era uma constelação de craques. Tinha o Deco, o Eto'o, o Ronaldinho, o Giuly, o Larsson, o Xavi, o Iniesta, não se compara à equipa atual. Hoje acredito que haja um 50-50 de chances, naquela altura a gente entrou, pá, vamos tentar a nossa sorte com o Barcelona, que era muito superior não só a nós, como a todas as equipas da Europa. Por isso é que foram campeões.

Como analisa o 3-0 desta primeira volta, no Estádio da Luz?
O Benfica apanhou uma equipa que não tinha confiança e desorganizada, sobretudo defensivamente. Agora, com a chegada do Xavi, acredito que o Benfica vai ter de estar no seu melhor para sair de lá com um resultado positivo.

Sendo o Xavi quem é, tentará que o Barça seja aquela equipa que tem sempre a bola, o que se torna chato para os adversários que têm de correr atrás dela.
Isso aí, durante grande parte da partida o Barcelona vai estar com a bola nos pés, então os jogadores do Benfica vão ter de estar muito concentrados para não cometerem erros, que poderão ser fatais num jogo como este.

O Moretto retirou-se em 2017. O que tem andado a fazer?
Agora estou a viver em Portugal, hoje trabalho como agente de jogadores e resolvi mudar-me. Já estou há sete meses aqui. Trabalho com o mercado e, graças a Deus, a gente tem feito um trabalho bacana até aqui.

Não quis ser treinador de guarda-redes ou dirigente desportivo?
Ah, não pá, parei a minha carreira com 35 anos e já estava farto, não aguentava mais as viagens, os hotéis e tudo isso. Sendo treinador, iria ser a mesma coisa só que pior ainda, porque teria maior responsabilidade e teria que lidar com mais pessoas. E levaria mais futebol para casa.