Euro 2016

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A Albânia está no Euro. A sério?

O que nos liga a este país é um tal de Abazi e uma derrota que despediu um seleccionador. Chegar ao Europeu é o resultado de um trabalho de prospeção

Rui Gustavo

Foto Reuters

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A Albânia num Europeu? Como é que é possível? No final dos anos 80 o melhor jogador deles, o Abazi, chegou a jogar no Benfica. Nunca passou do banco, mas era sempre titular da seleção que levava abadas de todas as equipas minimamente decentes da Europa. Ficavam normalmente em último nos grupos de qualificação (sim, é verdade que conseguiram importantes vitórias contra potências como San Marino ou Lichenstein) e num dos jogos de estratégia do ZX Spectrum – Football Manager, ou algo do género - o maior desafio era conseguir uma vitória que fosse com a Albânia.

E de repente estão na fase final de um Europeu. Terá sido mesmo de repente? Se calhar já ninguém se lembra muito bem, mas num dia negro de setembro de 2014 a Albânia venceu Portugal num jogo disputado no Estádio de Aveiro que acabou com a carreira de Paulo Bento como selecionador. Depois empataram duas vezes com a Dinamarca, ganharam à Servia (3-0 num jogo polémico marcado por manifestações nacionalistas e pancada entre os jogadores) e conseguiram uma qualificação merecida à frente dos dinamarqueses de Schmeichel e da Sérvia de Matic. Isto aconteceu mesmo. Não foi no Football manager.

A história começou a mudar em 2011 com a contratação de Gianni de Biasi, um treinador italiano de segundo ou terceiro plano que foi despedido sem glória da maioria dos clubes que conseguiu treinar na série A. De Biasi fez que Carlos Queiroz chegou a tentar na seleção portuguesa: uma prospeção por toda a Europa à procura de jogadores selecionáveis. Encontrou mais de cem filhos de albaneses nascidos nos países para onde os pais tinham emigrado e descobriu alguns craques: Mergim Mavraj, internacional pelas seleções jovens alemãs e agora patrão da defesa; Taulant Xhaka, nascido na Suíça e o craque da equipa, que vai defrontar o irmão, Granit Xhasa, um dos selecionados pela Suíça. Ou Djimsiti, natural de Zurique, internacional em todos os escalões sub 20 da Suíça até aceitar o convite de Di Biasi. Nunca tinha ido à Albânia, até se estrear pela principal seleção do país. E assim se transformou uma seleção sofrível numa equipa, no mínimo, competitiva.

Este ovo de Colombo tem servido a várias equipas nos dois sentidos. A Alemanha ou a França têm vários jogadores de origem estrangeira há muitos anos e até Portugal tem dois filhos de emigrantes na seleção: Raphael Guerreiro e Anthony Lopes.

No próximo sábado, a Albânia vai estrear-se contra a Suíça e quatro dias depois joga contra o grande favorito do grupo, a França, organizador do torneio. Ninguém espera nada deles. Como sempre. Portanto não há nada a perder.

Numa entrevista a um jornal italiano, Gianni de Biasi disse que estava casado com uma albanesa, a seleção, por quem estava apaixonado há mais de três anos. A entrevista foi mal traduzida do italiano e o governo de Tirana decidiu atribuir-lhe a nacionalidade albanesa, uma vez que era casado com uma natural do pais. Depois da confusão esclarecida, de Biasi, que é casado com uma italiana há mais de vinte anos, recebeu à mesma a nacionalidade albanesa e um novo nome: Gani Abazi.