Euro 2016

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Na gaveta

"Pelé, number 10. Maradona, 10. Futre, 10. Not fucking 16"

Começa aqui o primeiro de muitos textos sobre histórias de outros tempos e de outros euros. Vamos chamar-lhes "Na Gaveta", porque é de lá que eles veem

Adriano Nobre

Sócio, sai da frente

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Hoje o assunto nem tem discussão. Ronaldo é o 7, claro. E Moutinho é o 8, Patrício o 1, Pepe o 3, Quaresma o 20, Nani o 17. Na seleção como nos clubes, os números são deles. Ou porque gostam ou porque querem ou porque sim. Mais do que uma questão de hábito, é uma questão de estatuto. Por exemplo, o 7 que agora é indiscutível de Ronaldo já foi indiscutível de Figo. Por isso, quando ambos coabitaram no Euro2004 e no Mundial2006, o então jovem Ronaldo, que já era 7 no Manchester foi 17 na seleção. Estatutos.

Em matéria de "propriedade de números", a definição de estatuto ficou bem patente no livro do treinador inglês Harry Redknapp. Quando o West Ham contratou Paulo Futre, o ex-internacional português só percebeu a menos de uma hora do início do seu jogo de estreia, no terreno do Arsenal, que lhe tinha sido atribuída a camisola com o número 16. Com o equipamento na mão, abordou o treinador. "Futre number 10, not 16. Eusébio 10, Maradona 10, Pelé 10, Futre 10. Not fucking 16." Apanhado de surpresa a minutos do início do jogo, Redknapp contra-argumentou. Que não podia ser, que já havia um 10 atribuído a John Moncur. Futre não cedeu. "Number 10. Futre 10. Milan, Atlético Madrid, FC Porto, Benfica, Sporting, Futre 10", insistiu.

Futre não pôde ser "ten" no jogo de estreia, mas foi-o no resto da época: pagou do seu bolso uma 'indemnização' ao clube pelas camisolas com o seu nome e número 16 que já tinham sido impressas para vender aos adeptos e negociou com Moncur a troca pelo seu número 10, num acordo que incluiu o direito a duas semanas de férias na mansão do português no Algarve. "Futre 10".

A negociação de números entre colegas de balneário é uma situação normal. Mas há também casos em que se torna simplesmente impossível abordar o assunto. Nomeadamente quando as pessoas mal se falam. E no que é que isso dá? No dialeto de Futre dá "Lima Pereira 10, Chalana 4, Gomes 6, Jordão 3, Nené 2..."

Foi nesses propósitos que a seleção portuguesa se apresentou na sua estreia num Campeonato Europeu. Em França, em 1984, o balneário português estava literalmente dividido entre duas fações: os jogadores do FC Porto (9) e os do Benfica (8), que dominavam a convocatória de 20 jogadores. A rivalidade entre os dois grupos era de tal ordem que ficaram para a história episódios (ou mitos?) como as refeições em mesas separadas. Ora num ambiente destes, a definição de números só poderia ser feita com o mais racional dos argumentos: sorteio. Daí termos feito magia em França com um ponta de lança com o número 3, um criativo com o 4 ou um defesa-central com o 10.

Mais democrático foi o critério adotado pelo selecionador António Oliveira na segunda aparição portuguesa num Campeonato da Europa. Em 1996, no Europeu de Inglaterra, foi tudo a leilão. Os jogadores tiveram de licitar pelos seus números e a receita final (5 mil contos, ou seja cerca de 25 mil euros) reverteu para a família do adepto do Sporting que morrera na final da Taça de Portugal desse ano, atingido por um very-light.

As notícias da época dão conta de que o valor mais alto neste leilão foi pago por Rui Costa, que terá dado 500 contos (cerca de 2.500 euros) para assegurar o número 10. Já outras das estrelas dessa geração de ouro, como Luís Figo e Paulo Sousa, terão sido mais contidos, tendo em conta que perderam os 'seus' números 7 e 6 para Vítor Paneira e Tavares, respetivamente. Por isso Figo acabou por estrear-se numa fase final de Europeu de seleções A com o número 20 e Paulo Sousa com o 19. A primeira aparição de ambos numa fase final com os seus números tradicionais ocorreria quatro anos depois, no Euro2000, na sequência de novo leilão, que desta vez rendeu 6 mil contos (30 mil euros) e cuja receita foi distribuída por três instituições de solidariedade.