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O Europeu de “Chalanix” e de... Anabela

Chalana “cavou” o penálti que levou Portugal ao seu primeiro Europeu de futebol. Em França, o extremo do Benfica de bigode farto e curvo virou “Chalanix”, tornou-­se um ídolo à dimensão de Platini e acabou contratado pelo Bordéus

Paulo Luís de Castro

O Pequeno Genial

Foto Richard Davis

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O brilharete do Mundial de 66 já tinha passado à história e Portugal teimava em não marcar presença na fase final de um Europeu de futebol. Havia jogadores de qualidade (Bento, Chalana, Jordão, Carlos Manuel, Diamantino, Fernando Gomes, Jaime Pacheco, António Sousam, entre tantos outros), embora à época muito marcados pela guerra Benfica-FC Porto que já despontava, e um treinador (Fernando Cabrita) que tentava segurar as pontas e gerir os equilíbrios, coadjuvado por três adjuntos (António Oliveira/Toni, José Augusto e António Morais).

Para conseguir um lugar em França, Portugal precisava de derrotar a URSS de Dasayev, Chivadze, Demianenko e Blokhin. Corria o domingo de 13 de novembro de 1983 e nem o temporal medonho que se abateu sobre Lisboa impediu uma das maiores enchentes da antiga Luz, com todo um estádio a puxar pela equipa. O obstáculo era de monta e talvez por isso só conseguiu ser desmontado com a arte e manha de Chalana, que quase a findar a primeira parte, numa das suas habituais arrancadas pelo lado esquerdo, sofreu uma falta nítida pouco antes de entrar na grande-área adversária, acabou a rebolar para o interior da mesma e levou ao engano o árbitro francês Georges Konrath. Jordão encarregou-se de marcar e abrir a porta de França aos Patrícios (nome da mascote criada para a fase final, em homenagem aos milhares de emigrantes), para desespero dos soviéticos, que acusaram a UEFA de preferir ter Portugal como finalista precisamente devido ao grande apoio da colónia lusa.

Começou a desenhar-se nessa tarde chuvosa a fama internacional de Chalana, cuja baixa estatura e bigode farto e curvo fizeram as delícias dos franceses, que logo o alcunharam de “Chalanix” pela semelhança com a figura da BD Astérix. O benfiquista também ajudou, claro, tornando-se um dos melhores nos três jogos da fase de grupos – empates com a Alemanha (0-0) e Espanha (1-1) e vitória sobre a Roménia (1-0) – e sobretudo no jogo de Marselha, das meias-finais, que acabaria por ditar a eliminação de Portugal do torneio diante equipa anfitriã. Rui Jordão ainda nos fez sonhar com dois golos e só no último minuto do prolongamento os “bleus” conseguiram desempatar – por Platini, quem havia de ser?, autor de nove golos em todo o torneio.

A publicidade em torno de Chalana também foi fomentada em parte pela presença em França da ex-mulher do futebolista, Anabela, que viajou decidida, sempre que fosse possível, a não largar o seu mais que tudo. Torneio de futebol à parte, Anabela foi, sem dúvidas, a figura do Euro 1984. Valerá a pena recordar que os tempos eram outros: a convivência de jogadores e nós, jornalistas, era quase livre, sem grandes obstáculos, e até nas viagens não havia grandes divisões. Mulher com um espírito algo rebelde, Anabela contrastava com o estilo mais recatado e até tímido de Chalana. Discutia tudo e mais alguma coisa sem segredos: táticas, substituições, contratos e prémios de jogo. Durante o campeonato assinou uma crónica no trissemanário “A Bola” e a sua figura chegou ser destacada por váriosmedia internacionais, inclusivé com estrevistas exclusivas. Os papéis não estavam trocados mas quase, e talvez por isso se brincasse e Chalana fosse aqui e acolá referenciado como “o marido de Anabela”.

Se a fama já existia, os grandes quatro jogos televisionados que o benfiquista rubricou em Estrasburgo, Marselha (por duas vezes) e Nantes valeram-lhe uma transferência milionária (19 milhões de francos, 220 mil contos na época, que, diz-se, ajudaram o presidente do clube Fernando Martins a fechar o terceiro anel do antigo estádio) para o Bordéus, onde infelizmente Chalana nunca conseguiu alcançar o nível que o celebrizou. As lesões perseguiram-no e uma certa inadaptação à condição de trabalhador no estrangeiro apressaram o seu regresso.

Uma nota final para os emigrantes, os verdadeiros patrícios que tanto ajudaram a seleção a traçar o seu caminho. O apoio nas bancadas foi imenso e os jogadores gostaram desse abraço, que podia sentir-se todos os dias durante a permanência em terras gaulesas. Sem as amarras de hoje, quando os craques iam tomar um café nas redondezas do hotel lá estavam eles, os patrícios, para dois dedos de conversa e umas palmadas nas costas; às chegadas e saídas dos estádios, multidões expressavam o seu amor imenso pelos representantes da nação. Voltando a realizar-se 32 anos depois um Europeu em França, adivinham-se romarias idênticas dentro dos condicionalismos de segurança impostos pela atualidade. Mas a aventura francesa dos Patrícios ficará na memória de todos quantos puderam vivê-la de perto.