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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"Cara ou coroa?". Giacinto Facchetti escolheu coroa e a Itália passou à final do Euro 1968

Antes dos golos de ouro ou do desempate através de grandes penalidades, uma meia-final de um Euro foi decidida por moeda ao ar. Aconteceu em 1968, em Itália, e o capitão da equipa da casa, que sempre teve sorte ao jogo, escolheu a face certa. A União Soviética ficou pelo caminho, a Itália foi à final e Facchetti levantou o troféu dias depois. Este é o segundo de uma série de textos sobre histórias dos Campeonatos da Europa

Lídia Paralta Gomes

Keystone/Hulton Archive/Getty Images

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O que decidimos hoje com moeda ao ar? Quem lava a loiça daquele jantar de amigos. Quem vai comprar a próxima rodada de cervejas. Quem leva o carro naquele dia. Coisas comezinhas, do dia a dia, com as quais ninguém se vai chatear.

Mas tempos houve em que uma moeda ao ar decidiu, imaginem, quem iria jogar uma final de um campeonato da Europa. Uma escolha ao acaso, com 50% de hipóteses para cada lado de acertar, foi a diferença entre a história e o esquecimento e logo no futebol, a mais importante das coisas menos importantes do mundo, mas que também já foi terreno de experimentação, antes dos atuais compêndios de regras e mais regras, alíneas intermináveis, coisas chatas mas que tornam tudo um bocadinho mais justo para aqueles 22 homens em campo.

Mas recuemos então até a esse dia 5 de junho de 1968, dia de meia-final do Euro 1968 entre Itália e União Soviética. Os primeiros jogavam em casa, num estádio de San Paolo de Nápoles cheio de tiffosi italianos, tão loucos quanto não esquecidos da escandalosa participação da equipa no Mundial de 1966, onde caiu logo na fase de grupos, com uma última derrota humilhante frente à Coreia do Norte - que nos quartos de final daria água pela barba a Portugal, como todos nós sabemos.

A União Soviética partia com algum favoritismo, mas faltava-lhe Igor Chislenko na frente e Murtaz Khurtsilava lá atrás. A Itália suspirava por Luigi Riva, lesionado, e o pequeno mago Gianni Rivera, hoje eurodeputado, sairia lesionado ainda na 1.ª parte, depois de um lance com Valentin Afonin, deixando a equipa a jogar com 10 - por esses dias, substituições era algo ainda por ser inventado.

Mas o azar transalpino terminaria aí.

Num jogo disputado sob intenso mau tempo, pouco usual no sul de Itália, ao fim dos 90 minutos o nulo permanecia, apesar de algumas oportunidades de parte a parte. Nos 30 minutos extra, o resultado não mexeu. A realização de um jogo extra para tentar deslindar um vencedor não era novidade (o desempate através de grandes penalidades era matéria ainda futurista), mas o árbitro alemão Kurt Tschenscher tinha outra solução em mente. Nada mais, nada menos que uma arbitrária moeda ao ar.

O que se seguiu foi contado na primeira pessoa pelo saudoso Giacinto Facchetti, capitão da seleção italiana e glória do Inter, onde passou toda a carreira. “Eu e o capitão russo descemos até aos balneários, acompanhados por dois dirigentes, um de cada equipa. O árbitro pegou numa moeda velha e eu escolhi ‘coroa’. Foi a escolha certa”, explicou, em declarações citadas no site da UEFA.

Facchetti, um gigante lateral-esquerdo de 1,91m, elegante, um dos melhores de sempre na sua posição, desatou a correr escadas acima. Quando voltou a ver o verde do relvado, os seus braços no ar denunciaram o resultado daquele inusitado desempate. Setenta mil pessoas nem precisaram de uma palavra, de um anúncio: a alegria de Facchetti trazia a boa nova, a Itália estava na final.

Se para o público acabava o suspense, o palpite acertado do capitão não seria surpresa para os colegas de equipa, dado o jeito de Facchetti para outros jogos. “Ah, nós tínhamos a certeza que íamos ganhar", disse o mítico Sandro Mazzola, numa entrevista à revista "Libero". E porquê? "Porque o nosso capitão, o Facco, tinha uma sorte infinita nos jogos de cartas que fazíamos juntos. Quando levantou os braços para festejar, o estádio veio abaixo, mas nós já sabíamos que estávamos na final”, explicou.

Uma final já com dois jogos

Não era a primeira vez que um importante jogo dessa época se definia com uma moeda ao ar. Tinha acontecido algo semelhante numa eliminatória da antiga Taça dos Campeões Europeus, em 1965. Na altura, a sorte calhou ao Liverpool, que eliminou assim o Colónia e seguiu para as meias-finais, onde encontraria o Inter, capitaneado por, adivinharam, Giacinto Facchetti. O Inter passou à final e seria campeão europeu de clubes nessa temporada.

Mas, curiosamente, na decisão do Euro 1968 optou-se novamente por um novo jogo depois do nulo na final entre Itália e Jugoslávia. A 8 de junho, as duas equipas encontraram-se no Olímpico de Roma e o jogo terminou 1-1. Talvez por perceberem a arbitrariedade que seria decidir um campeão europeu através do movimento em direção à terra de uma simples moeda, houve repetição da final, dois dias depois, no mesmo local.

Facchetti como capitão de Itália, numa foto de 1973, antes de um jogo com a Suíça

Facchetti como capitão de Itália, numa foto de 1973, antes de um jogo com a Suíça

Peter Robinson - EMPICS

E aí superiorizou-se a equipa da casa, com golos do regressado Luigi Riva e de Pietro Anastasi. Giacinto Facchetti, o homem dos bons palpites, levantou a taça, na primeira e única vez que a Itália se sagrou campeã da Europa.

O desempate através de grandes penalidades seria introduzido dois anos depois. Aconteceu pela primeira vez nas meias-finais da Watney Cup, competição inglesa de vida curta, mas que inscreveu o seu lugar na história à conta deste facto. Tudo se passou num jogo entre o Manchester United e o Hull City e George Best foi o primeiro jogador a marcar - Denis Law, por outro lado, foi o primeiro a falhar.

Quanto a Facchetti, não consta que a sua sorte ao jogo se tivesse traduzido em azar ao amor. Morreu cedo, vítima de um cancro no pâncreas, com apenas 64 anos, ao lado de Giovanna, a mulher de toda uma vida, e dos quatro filhos de ambos. O número 3 do Inter foi retirado pouco depois.