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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

1992, o Europeu de todas as mudanças políticas

Uma Alemanha reunificada, uma Jugoslávia a ferro e fogo - e banida - e uma União Soviética em processo de desmembramento e com uma equipa de transição: o Euro 92 foi a cara das alterações geopolíticas na Europa no fim da década de 80/início da década de 90. Mas no fim ganhou a Dinamarca, um convidado de última hora. Este é o terceiro de uma série de textos sobre histórias dos Campeonatos da Europa

Lídia Paralta Gomes

Uma imagem para a história: a primeira seleção alemã reunificada e a primeira e única competição da Comunidade de Estados Independentes

Neal Simpson - EMPICS/Getty

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9 de novembro de 1989. O Muro de Berlim caía, marco simbólico do definhar do bloco de Leste e do início de uma série de transformações políticas e geográficas que mudariam o puzzle do território europeu.

Em pouco mais de dois anos, a Alemanha seria reunificada, arrancava o desmembramento e as guerras civis na Jugoslávia e a União Soviética deixaria de existir - e o Euro 1992 seria uma montra de todas estas mudanças.

A começar pela Alemanha, pela primeira vez a surgir numa grande competição como uma única equipa, depois do processo de reunificação da República Federal da Alemanha e República Democrática da Alemanha. Ou, de forma mais prosaica, Alemanha Ocidental e Alemanha de Leste.

A nova seleção alemã acolheria o palmarés da antiga RFA, campeã europeia em 1972 e 1980, com a esmagadora maioria dos jogadores convocados para o Europeu da Suécia a transitarem da equipa da Alemanha Ocidental. Excessão para Matthias Sammer, Thomas Doll e Andreas Thom, que haviam sido internacionais pela Alemanha de Leste.

Matthias Sammer foi um dos antigos jogadores da Alemanha de Leste a jogar pela Alemanha no Euro 92

Matthias Sammer foi um dos antigos jogadores da Alemanha de Leste a jogar pela Alemanha no Euro 92

Neal Simpson - EMPICS/Getty

A Alemanha cairia na final, de forma surpreendente, frente a uma Dinamarca que nem sequer estava entre as equipas apuradas para o Europeu de 1992. E a sua presença está mais uma vez relacionada com política.

Porque 10 dias antes do arranque da competição, a UEFA seguiu os passos e recomendações das Nações Unidas, que haviam aplicado duras sanções à Jugoslávia devido ao eclodir da guerra nos Balcãs. Assim, expulsou a seleção do Euro, numa altura em que os jogadores já se encontravam na Suécia. Reza a lenda que os dinamarqueses, que tinham ficado em 2.º no grupo de qualificação ganho pela Jugoslávia, já estavam de férias quando receberam chamadas telefónicas a chamá-los para a competição.

A composição do grupo de atletas que teriam ido a jogo pela Jugoslávia já mostrava bem o nível de tensão que se vivia na região. As estrelas de origem croata Prosinecki, Boban, Jarni e Suker, todos eles campeões mundiais sub-20 em 1987, recusaram vestir a camisola da Jugoslávia, numa altura em que a Croácia já tinha declarado a independência e estava em luta armada com os sérvios. Srecko Katanec, de origem eslovena e jogador da então fortíssima Sampdória, foi outro que boicotou o evento, tal como vários jogadores bósnios de religião muçulmana.

Os convocados dos plavi eram essencialmente jogadores de origem sérvia, montenegrina, da Macedónia e um par de eslovenos, apesar de nessa altura a Eslovénia já ser um país independente e inclusivamente admitido na ONU.

A “last dance” soviética

O fim da União Soviética, assinado formalmente em dezembro de 1991, colocava outra questão em cima da mesa para o Euro 92: se a seleção da URSS que tinha conseguido a qualificação já não existia, quem iria ocupar essa vaga?

A solução passou pela formação de uma seleção da Comunidade de Estados Independentes (CEI), organização constituída por nove antigas repúblicas soviéticas, e que faria a transição até ao aparecimento das novas seleções nacionais

Sergei Yuran, na altura jogador do Benfica, a representar a seleção da CEI. Seria depois internacional pela Rússia

Sergei Yuran, na altura jogador do Benfica, a representar a seleção da CEI. Seria depois internacional pela Rússia

Simon Bruty/Getty

Foi, portanto, uma espécie de last dance para um grupo de jogadores que até aí tinham sido companheiros e a partir de 1992 seriam adversários. Na equipa estavam, por exemplo, Kakhaber Tskhadadze, que seria depois internacional pela Geórgia, Oleksiy Mykhaylychenko, que transitaria para a seleção da Ucrânia, Sergei Aleinikov, mais tarde jogador da Bielorrússia, com o grosso dos jogadores a tornarem-se no futuro internacionais pela Rússia, inclusivamente Sergei Yuran, na altura jogador do Benfica, mesmo que nascido na Ucrânia, tal como o selecionador Anatoliy Byshovets, natural de Kiev e que em 2003 teve uma curta passagem pelo banco do Marítimo.

Talvez pelo ambiente de canto do cisne, de final anunciado, a seleção da CEI esteve longe de viver à altura das expectativas criadas pelas anteriores participações da União Soviética no Euro - campeã em 1960, finalista em 1964, 1972 e 1988. Num grupo com Alemanha, Holanda e Escócia, a equipa da CEI ainda conseguiu empatar com a duas primeiras, grandes favoritas à vitória final, mas na última jornada tombou por 3-0 contra a Escócia, terminando assim em último lugar no grupo 2.

Foi também sob bandeira unificada que várias antigas repúblicas soviéticas participaram nos Jogos Olímpicos de Barcelona, poucos meses depois do Euro.

Mudanças não foram só políticas

A geo-política e suas idiossincrasias não foram o único ponto de novidade no Euro 92, que foi a primeira grande competição em que as camisolas dos jogadores tiveram números à frente e nomes na parte de trás.

Em termos de regras, o Euro 92 foi o último torneio com apenas 8 equipas (Inglaterra 96 já teve 16) e com uma vitória a contar apenas dois pontos.

A introdução de novas regras de passe para o guarda-redes foi também realidade pouco depois do fim do Europeu de 92.