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Euro 2020 - descrição

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A Grécia teve um Maradona e não o deixaram jogar no Euro 1980: "Nenhum grego chegou perto dele"

Vasilis Hatzipanagis era como o bailarino russo Nureyev: "Dizíamos que ele dançava com a bola", conta, à Tribuna Expresso, Vasilis Sambrakos, um jornalista grego que escreveu sobre o milagre da seleção grega em 2004. Esta é a história de Βασίλης Χατζηπαναγής (este é o quarto de uma série de textos sobre histórias dos Campeonatos da Europa)

Hugo Tavares da Silva

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Enquanto para uns o Olimpo é um rumor distante, outros levam-no dentro das botas ou no coração. Ou em ambos. Quando os pais de Vasilis Hatzipanagis fugiram da guerra civil grega, decidiram deixar para trás a querida terra e mudaram-se para a União Soviética, com o estatuto de refugiados. O filho, que seria o mago dos magos helénicos, nasceu em 1954 em Tashkent, atualmente no Uzbequistão. Cedo se percebeu que o rapazinho grego que nunca estivera na Grécia tinha um dom: encantava as bolas de futebol e derretia o cinismo dos homens.

Quando jogava com os amigos e deixava tudo virado do avesso, começou a despertar a atenção de alguns clubes. O pai, avesso ao poder, rejeitou a transferência do filho para o Dínamo Moscovo, por ser a equipa da polícia. Acabou por assinar pelo Pakhtakor Tashkent, um clube criado por trabalhadores de algodão. Assim talvez estivesse mais perto do povo, da poeira que tapa o chão, da verdade que cada um leva na alma. Mas a guerra civil, que sempre assombrou a sua vida, começou a revelar as suas dimensões problemáticas: para ser futebolista profissional teria de ser soviético. Hatzipanagis era grego. Essa questão seria resolvida e, já soviético, estreou-se na liga com 17 anos.

Em 1975, quando a Grécia já respirava outros ares e promessas que faziam justiça ao passado longínquo, decidiu regressar à terra dos pais e assinou pelo Iraklis, de Tessalónica, que o recebeu com o estádio cheio, como se faz com as estrelas. Viajando até ao YouTube, porque em lado nenhum estão jogos completos deste génio com a camisola 10, o queixo quase muda de código postal. Melena selvagem, canhota que deve ter um palácio no Monte Olimpo, velocidade, coragem para encher as veias de cinco exércitos e dribles que parecem inventados por incorrigíveis que levam o amor debaixo da pele.

Noutro vídeo, um elemento da claque do Iraklis, jovem na altura, admitiu que não queria que os jogos acabassem, nunca. Parecia Diego Armando Maradona. E, sim, também é assim que é conhecido: o Maradona grego. Poderia haver melhor elogio?

“Ele era a versão grega de Diego Maradona”, confirma à Tribuna Expresso Vasilis Sambrakos, um jornalista grego que escreveu sobre o milagre da seleção grega em 2004. “Era muito bom com os dois pés, muito inteligente, capaz de driblar em espaços reduzidos, sempre a furar a defesa, era um jogador incrível. Veio da União Soviética, os pais eram gregos, mas ele nasceu lá.”

Hatzipanagis teve outro problema, mais uma nuvem dos tempos da guerra civil: não podia jogar pela seleção helénica porque participara em jogos com as seleções jovens da União Soviética. Por isso que falhou o Campeonato da Europa de 1980, em que a Grécia terminou na última posição do Grupo 1, com Alemanha (0-0), Checoslováquia (1-3) e Holanda (0-1) - os germânicos venceriam o torneio contra a belíssima Bélgica. Foi a primeira vez dos gregos em torneios importantes e só voltariam a Europeus em 2004, espantando o mundo com uma vitória na final contra Portugal, em Lisboa.

“Foi triste para os gregos [Hatzipanagis não jogar pela seleção]. Ele era um jogador incrível. Podemos dizer que desde então nenhum grego chegou perto dele. Ele tinha muita qualidade, muita qualidade. Só jogou umas vezes pela seleção, mas foram um ou dois jogos. Creio que terminou a carreira em 1990, eu tinha 15, 16 anos, lembro-me dele”, conta Sambrakos, ao revelar que, na altura, o génio jogava e era como as estrelas de hoje, uma loucura. Os estádios enchiam para o povo o lamber com os olhos.

“Toda a gente gostava de o ver jogar. Acho que a alcunha dele era Nureyev, era um grande bailarino russo. Dizíamos que ele dançava com a bola.” A estreia de Hatzipanagis com a camisola nacional aconteceu a 6 de maio de 1976, numa vitória por 1-0 contra a Polónia. Depois disso, a FIFA fechou-lhe a porta da levitação internacional.

Por desinteresse, problemas burocráticos e principalmente pela natureza ditatorial do contrato que assinou com o Iraklis, nunca saiu daquele humilde clube para um gigante, e foi-se ficando por ali, deixando cada vez mais redonda a bolinha e corada a relva. Houve então rumores de que Estugarda, Lazio, Arsenal e Futebol Clube do Porto estiveram interessados no seu ofício. Na Grécia, onde jogou entre as temporadas 75/76 e 90/91, acabaria por conquistar apenas um terceiro lugar e uma Taça dos Balcãs.

Embora o povo grego seja divino no esquecimento, garante Sambrakos, o Maradona grego teve direito a uma desforra emocional. Em 2003, por ocasião dos 50 anos da UEFA, cada federação filiada escolheu o melhor futebolista, era a galeria de ‘Golden Players’ da UEFA, onde desfilavam nomes como Cruijff, Puskás, Bobby Moore, Di Stéfano, Masopust e Eusébio.

A federação grega escolheu Vasilis Hatzipanagis.

Mas melhor do que isso, quem sabe, aconteceu antes, em 1999, quando arrumou na lembrança a segunda internacionalização. Com 45 anos, o Nureyev dos palcos esverdeados foi convocado para um Grécia-Gana, em que jogou 20 minutos e fez o passe para o golo, uma película assim mesmo à D10S. E assim, com o Olimpo inteiro nas botas, se despediu do seu povo.

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