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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Marcus Rashford: a prova de que o futebol e a política têm lugar no mesmo campo

Engane-se quem pensa que o mundo do futebol é perfeito. A verdade é que este pode ser um caminho difícil e onde é fácil perder o norte. Por outro lado, é o lugar onde têm origem histórias como a de Marcus Rashford, o mais recente dos capitães da seleção de Inglaterra para o Euro 2020 (começa frente à Croácia, no domingo, 13 de junho)

Rita Meireles

Ryan Pierse - UEFA

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Nem todas as crianças dependem das escolas ou dos governos para conseguir comer. Nem todas as mães se vêem obrigadas a inscrever o filho na academia de um clube de futebol, com alojamento e escola incluídos, um ano mais cedo que o permitido para que ele não passe dificuldades.

Nem todos os jovens agarram uma oportunidade com tanta força que conseguem marcar na estreia em Old Trafford, com apenas 18 anos. E no meio das dificuldades e do sucesso, nem todos os homens optam por dar e não só receber. Mas Marcus Rashford é tudo isso: as dificuldades na infância, a família, a ambição e a solidariedade.

Em março de 2020, vários países do mundo entraram em confinamento para evitar a propagação do vírus da covid-19. Com as escolas fechadas, muitas crianças ficaram sem acesso àquela que, em muitos casos, é a única refeição completa que têm no dia. Conhecendo bem esta realidade, Marcus, em conjunto com a FareShare, uma rede de caridade de combate à pobreza e desperdício alimentar no Reino Unido, recorreu às redes sociais para dar o alerta e pedir que fossem tomadas medidas por parte do Governo.

A campanha intensificou-se em junho do mesmo ano, mês que marca o início das férias escolares. “Este verão deveria ter sido preenchido com orgulho mais uma vez, pais e crianças a agitar bandeiras, mas na realidade o Estádio de Wembley poderia ser preenchido mais de duas vezes com crianças que tiveram que saltar uma refeição durante o confinamento devido ao facto de as suas famílias não terem acesso a alimentos”, lê-se na carta aberta que Marcus escreveu ao parlamento inglês.

O resultado inicial foi uma série de avanços e recuos por parte do Governo. Algo que o jogador não fez, mantendo-se sempre na linha da frente. Foram mais de 21 milhões de refeições distribuídas graças ao dinheiro que ajudou a angariar, além disso fez uma divulgação diária nas redes sociais dos inúmeros negócios do setor da restauração que se juntaram à causa. Finalmente, em novembro do ano passado, a campanha do jogador levou o Governo a anunciar que o programa de ajuda alimentar ficaria garantido durante o período de férias escolares até ao final do ano letivo.

Em todas as frentes

Colin Kaepernick foi o primeiro atleta a ajoelhar-se como forma de protesto contra a violência por parte da polícia a cidadãos afro-americanos. Megan Rapinoe também o fez. Lewis Hamilton. Equipas inteiras de basquetebol e futebol. Milhões de pessoas em todo o mundo.

No último jogo de preparação da seleção inglesa para o Euro 2020, também Marcus Rashford e companhia repetiram o gesto, como já tinha acontecido durante a Premier League. A diferença é que, desta vez, receberam em troca uma onda de assobios por parte dos seus adeptos presentes no estádio. Quando questionado sobre o ocorrido, o jogador não recuou: “é algo que não podemos controlar. Nós acreditamos que é o correto a fazer e por isso vamos continuar a fazê-lo”.

Marcus sabe o que é ter que lidar com situações de racismo.

Recentemente, após a final da Liga Europa entre o Manchester United e o Villarreal, o jogador recorreu às redes sociais para falar sobre as mensagens que estava a receber. “Pelo menos 70 insultos racistas nas minhas redes sociais contados até agora. Para os que estão a tentar fazer-me sentir pior do que já sinto, boa sorte a tentarem”, lê-se, na página do Twitter do jogador.

Marcus Rashford ajoelha-se antes de cada jogo em solidariedade com o movimento Black Lives Matter

Marcus Rashford ajoelha-se antes de cada jogo em solidariedade com o movimento Black Lives Matter

NICK POTTS

Exemplo para os mais novos

“O You Are a Champion foi criado para inspirar o maior número possível de crianças a sonhar alto”, explica Marcus, sobre o lançamento do seu livro para os mais novos, que chegou ao primeiro lugar dos mais vendidos na secção infantil. Simultaneamente, o jogador lançou o seu clube do livro para que as crianças mais desfavorecidas tenham acesso à literatura. Em parceria com a editora Macmillan Children's Books, o internacional inglês fez a doação de 50 mil exemplares para 850 escolas primárias espalhadas pela Escócia e Inglaterra.

Numa conversa com Barack Obama, promovida pela Penguin Books, Marcus revela que foi a noção de que no mundo do desporto as coisas mudam muito rapidamente, o que poderia tornar difícil lidar com questões como a fama, que o levaram a aprender mais através dos livros. “Em vez de ter alguém a dizer-me para fazer isto ou aquilo, os livros permitiram-me fazer as coisas à minha maneira. Desde o momento em que aprendi isso sobre mim, nunca mais parei [de ler]”, explica. Agora o objetivo passa por levar as crianças a sentirem o mesmo.

Aos 23 anos, Marcus Rashford não é apenas um futebolista, o mais recente capitão da seleção inglesa ou um Membro da Ordem do Império Britânico (MBE, na sigla inglesa), título que recebeu da Rainha de Inglaterra.

É um dos poucos que tem a audácia de contrariar a ideia de que os jogadores devem apenas jogar e não se devem associar a questões políticas ou ativismo. E é graças a jogadores como ele que o futebol se torna um desporto melhor.