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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Gavotti, o bombardeiro que fez história no primeiro Itália – Turquia

Ainda antes do futebol, um confronto entre a Itália e a Turquia ficou para a história da aviação de guerra. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

Rui Gustavo

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A velha foto a preto e branco mostra um tipo magro de ar duro com uns olhos brilhantes e uma barba negra e cerrada. Tem pinta de “regista”, um médio centro com classe mas capaz de defender com eficácia. Pensando bem, há qualquer coisa de Pirlo neste Giulio Gavotti que apesar do nome bastante futebolístico nunca jogou à bola (pelo menos oficialmente) mas teve um papel fundamental num dos primeiros confrontos entre Itália e Turquia, os dois países que vão dar o primeiro pontapé na bola no Euro 2020.

O tenente aviador Gavotti tinha 29 anos quando foi enviado para a Líbia para combater na guerra Italo-turca que rebentou em 1911 depois de uma recém-unificada Itália ter declarado guerra ao já decadente império Otomano com o falso pretexto de proteger os italianos que viviam na Líbia dos extremistas muçulmanos.

Na verdade, das potências europeias, a Itália era das que tinha menos colónias e o verdadeiro objetivo era apenas cravar uma lança em África. O império Otomano não estava em condições de resistir e era o alvo perfeito. A guerra não duraria muito e precedeu o desastre coletivo que varreu a Europa entre 1914 e 1918 e que não pouparia nenhum destes dois contendores.

Mas em 1911, a força aérea era uma invenção recente (os irmãos Wright tinham feito o primeiro voo tripulado há apenas oito anos) e servia essencialmente para missões de reconhecimento. Mas Gavotti foi escolhido pelo comando italiano para protagonizar uma missão inédita: bombardear posições turcas pelo ar. “Fiquei muito contente por ter sido escolhido”, diria a Gavotti sénior numa das cartas que escreveu ao pai e que foram divulgadas pela BBC.

Um bombardeiro ou um caça eram um delírio totalmente impensável naquela época e segundo Gavotti relatou ao pai no dia da missão carregou o avião com quatro bombas de um quilo e meio cada uma. Duas guardou numa pasta de cabedal que levou no frágil monoplano e duas escondeu no blusão de aviador.

No dia da missão, a 1 de novembro de 1911, voou até ao oásis de Ain Zana e sobrevoou um acampamento de atónitos turcos e tribos líbias que se tinham juntado aos otomanos para resistir ao invasor europeu. Tirou a primeira bomba do casaco e lançou-a para o acampamento. “Tive o cuidado de evitar a asa e vi a explosão no solo. Acho que correu muito bem”. As outras duas bombas lançadas explodiram longe do alvo e Gavotti teve de fugir com a quarta bomba antes de a poder lançar.

A missão não terá provocado qualquer baixa entre o inimigo mas ficou para a história como o primeiro ataque a partir de um avião da história militar. Já tinha havido lançamentos de bombas de balões, mas foram proibidos pela Convenção de Haia, no final do século XIX.

Nas décadas seguintes, seguiram-se outros, mais famosos, como o que destruiu Hiroxima ou que inspirou Picasso para pintar a obra-prima Guernica.

A guerra terminaria em dezembro de 1912 com a vitória da Itália. Gavotti sobreviveu. Bem como um jovem general turco que organizou a resistência de guerrilha no terreno e quase deu a volta às forças mais poderosas de Itália. Chamava-se Mustafa Kemal e foi o fundador da República da Turquia. O piloto italiano sobreviveu igualmente à primeira guerra mundial e morreu de velho em 1939, em Roma.

Terá visto Itália a ganhar os mundiais de 34 e 38 mas já não viu o primeiro Itália - Turquia da história de futebol que terminou com a vitória dos transalpinos por 6-0. Um tal de Orlando meteu quatro bombas na baliza dos turcos. E também dessa vez só o orgulho ficou ferido.