Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

O dia em que todos ficámos pequeninos

O Dinamarca - Finlândia foi uma espécie de fim da inocência. Ao segundo dia de Europeu percebemos que isto não é só feito de tardes inteiras a ver futebol, a torcer pelo nosso país, a amar o jogo pelo jogo. Também são corações que param, também são homens obrigados a proteger um amigo, de lágrimas nos olhos, desespero na cara. Tudo parece ter acabado bem, Eriksen respira e fala, terá sido ele até que pediu aos colegas para voltar ao campo e lutar, mas no final a Dinamarca caiu frente à Finlândia, 1-0 no único remate que o estreantes fizeram no mais longo dos jogos

Lídia Paralta Gomes

O exército de companheiros que manteve a decência quando a decência faltou a quem filmava o Dinamarca - Finlândia. Não mereciam a derrota

FRIEDEMANN VOGEL/Getty

Partilhar

Porque é que um coração resolve parar aos 43 minutos de um jogo de futebol eu não sei. E não é parar figurativamente, quantas vezes não dizemos que o coração falha um batimento quando aquela bola quase entra, quando o guarda-redes da nossa equipa defende outra bola impossível. Isto é outra coisa, é um coração que pára, mecanicamente pára, literalmente pára, à frente de toda a gente, a queda em direto em direção ao chão e depois apenas o silêncio e a incerteza.

Ao segundo dia do Europeu todos ficámos pequeninos naquela hora, hora e meia em que não sabíamos se tínhamos perdido o futebolista, pior, se tínhamos perdido o futebolista e o homem, pelo meio perderam-se outras coisas, perdeu-se a vergonha quando alguém numa cabine de realização decidiu que milhões de pessoas deveriam ver um rapaz de 29 anos, até aqui saudável, a ser reanimado, longos minutos, as mãos no peito num movimento constante, o desespero da família.

Mas este dia em que Christian Eriksen nos lembrou a todos que somos minúsculos, sejamos atléticos ou não, estando nós na solidão da nossa casa ou num estádio em direto para todo o planeta, também nos mostrou a humanidade, a cabeça fria de quem mais motivos teria para desesperar, a fibra daqueles homens de vermelho, como aquele que estava no chão, eles companheiros que se uniram à sua volta, lágrimas nos olhos, desespero na cara, se uniram de braços dados para tapar aquilo que, terão pressentido, alguém sentado numa cadeira decidiu que era material para consumo de todos, nem a lutar pela vida uma pessoa tem direito ao anonimato, ao sossego, somos mesmo pequeninos pá, tenhamos a conta recheada de dinheiro ou vivendo de esmola.

Jogadores da Finlândia aplaudem os colegas dinamarqueses no regresso ao relvado

Jogadores da Finlândia aplaudem os colegas dinamarqueses no regresso ao relvado

WOLFGANG RATTAY/Getty

Também ganhámos na humanidade quando aqueles homens de vermelho voltaram a entrar em campo, longos minutos depois, já conscientes que o companheiro estava acordado, que tinha fintado o que nos pareceu (pelo menos a mim) inevitável, outra morte em direto, já carregamos que cheguem no nosso imaginário. Voltaram ao campo alguns de olhos empapados de tanto chorar, de caras inertes, vazias, dizem que foi o próprio Eriksen que lhes pediu para voltarem, agora eu pergunto-me como tiveram forças para o fazer, eu que estava aqui sentada no sofá incrédula a centenas e centenas de quilómetros de distância estou aqui que parece que me passou um camião por cima, imagino eles, que estavam ali tão perto.

E a humanidade dos adversários, que ao verem os dinamarqueses a entrar de novo em campo aplaudiram os colegas, não vamos chama-los de adversários num momento destes porque naquela altura eles eram 21 homens a pedir que o 22.º se levantasse, e só isso. A humanidade dos adeptos finlandeses, que naqueles arrastados minutos em que não havia pior sensação do que a sensação de nada de saber (e às vezes no news não é good news) começaram a gritar “Christian!”, pedindo aos dinamarqueses para responder com “Eriksen!” e assim a sensação de nada se saber ficou um bocadinho menos insuportável.

E a coragem, também houve coragem dos grandes líderes, de Simon Kjaer, o capitão de equipa, o primeiro a acercar-se de Erikson e a colocá-lo em posição de segurança, aquela que pode salvar vidas, depois a correr para amparar a companheira do médio do Inter, desesperada a entrar relvado dentro, outra imagem que escusávamos de ter visto. Ou Kasper Schmeichel, que não é capitão mas podia, a abraçar um a um os seus companheiros antes do retomar da partida, de cara forte, a receber no seu gigante peito todos eles, com especial atenção e demora para Mathias Jensen, o homem que teve a dura tarefa de entrar em jogo para substituir alguém que estava numa cama de hospital - e quando surgiu a indicação gráfica no televisor, “Mathias Jensen” com uma setinha verde para cima e “Christian Eriksen” com uma setinha vermelha para baixo, foi aí que esta que vos escreve se desmanchou inapelavelmente.

Lars Ronbog/Getty

E o jogo? Bem, o que é que isso interessa? Interessará de certo, mas há imagens tão fortes que nos deixam quase anestesiados. Mas houve um jogo sim e um jogo em que a Dinamarca, antes e depois do grande susto, foi sempre superior, rondou sempre a área da Finlândia mas deparou-se com uma equipa bem organizada, foi isso que trouxe estes nórdicos ao seu primeiro Europeu, a sua organização defensiva férrea, à qual a Dinamarca juntou uma pobre criatividade na hora de finalizar.

E quando assim é podem acontecer coisas como esta: a Dinamarca fazer 22 remates ao longo do jogo e a Finlândia ganhou com um golo no único chuto que mandou à baliza. Foi aos 60 minutos, num voo de Pohjanpalo que acabou com um cabeceamento picado e uma bola a sair forte e cheia de efeito. Talvez Schmeichel pudesse ter feito mais, mas apontar dedos é coisa que pouco interessa neste 12 de junho de 2021.

Daí até final a Dinamarca foi desesperadamente à procura da vitória que certamente quereria oferecer a Eriksen, e seria mais isso do que outra coisa que lhes estava na cabeça, não as contas da qualificação para os oitavos de final que podem de repente ficar mais apertadas ou o orgulho de evitar uma derrota no seu estádio, no Parken de Copenhaga. Aos 73’, Hojbjerg poderia tê-lo feito, numa grande penalidade, mas o remate saiu-lhe frouxo, e mais uma vez não vou apontar dedos porque ainda agora, a escrever estas linhas, eu não sei onde é que aqueles rapazes foram buscar forças para entrar em campo. Uma derrota parece uma coisa mixuruca quando uma vida parece ter sido resgatada, mas os rapazes mereciam um consolo.

Mas aconteça o que acontecer, eles são uns heróis, daqui até final, neste Euro que logo ao segundo dia nos tirou a inocência da alegria das tardes inteiras de início de verão a ver jogos e jogos seguidos e nos esfregou na cara a nossa fragilidade. Já não bastava as bancadas meio vazias nos estádios por causa da maldita pandemia e ainda temos de levar com mais este estalo de realidade, o aviso que um coração que pode parar, literalmente parar, que uma vida pode ir-se num estalar de dedos, até no tapete verde que mais nos faz sonhar.