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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

No meio de uma guerra entre selecionador e presidente da federação, a Macedónia do Norte qualificou-se pela primeira vez para um Europeu

Igor Angelovski é o homem que levou a Macedónia do Norte do lugar 166 do ranking da FIFA à estreia numa grande competição. Mas antes dos playoffs de apuramento para o Euro 2020, o líder da federação quis despedi-lo. Valeu-lhe o apoio dos adeptos, da estrela da companhia Goran Pandev e dos restantes jogadores, com quem criou uma verdadeira família

Lídia Paralta Gomes

Igor Angelovski, 45 anos, foi o técnico autor da proeza de levar a Macedónia do Norte ao Euro 2020. Em março bateu a Alemanha. Mas os homens fortes do futebol do país não gostam assim tanto dele

Denis Doyle - UEFA/Getty

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Em outubro de 2015, Portugal festejava o apuramento para um Europeu que, ainda não sabia, mais iria ganhar. Sentimentos muito diferentes pairavam na pequena nação da Macedónia - e então ainda chamada de Macedónia, só em fevereiro de 2019 passou a ser Macedónia do Norte, depois de um conflito com a Grécia. A não presença numa grande competição não era novidade, longe disso, para as gentes daquele pedaço de terra antes pertencente ao conjunto de nações que era a Jugoslávia.

Mas não daquela maneira.

A Macedónia ficara em último no seu grupo de qualificação para o Euro 2016, atrás do Luxemburgo, com quatro míseros pontos. Uma qualificação já feita sem Goran Pandev, a grande estrela da nação pós-independência, que se retirara dos compromissos internacionais em 2013. Nos meses que se seguiram, a Macedónia foi por ali abaixo no ranking da FIFA, chegando a um impensável 166.º lugar em 2017 e dizemos impensável porque, algures em 2008, aquela seleção dos Balcãs chegou a pontificar num muito honroso 46.º posto da lista.

Mas nessa altura já Igor Angelovski estava a fazer o seu trabalho de bastidores. Com a partida do nosso bem conhecido Ljubinko Drulovic para o Partizan, a federação macedónia chamou um jovem treinador, então com 39 anos, para liderar as tropas. Angelovski chegou a selecionador depois de levar o Rabotnicki, clube da capital Skopje, à dobradinha em 2013/14 - no ano seguinte perdeu o campeonato, mas voltou a ganhar a taça - e a primeira decisão foi tentar convencer Pandev a voltar à seleção.

“Quis passar o meu primeiro dia como selecionador da Macedónia com o Goran Pandev e viajei até Itália com a intenção de falar com ele e convencê-lo a voltar. Contei-lhe do meu plano e que precisava dele como líder da seleção”, disse Angelovski numa entrevista à “The Athletic”. Pandev, campeão europeu no Inter de Mourinho, com passado na Lazio, Nápoles e agora a jogar no Génova, aceitou regressar.

Goran Pandev é a grande referência, o homem que voltou à seleção depois de uma conversa com Angelovski

Goran Pandev é a grande referência, o homem que voltou à seleção depois de uma conversa com Angelovski

Soccrates Images

Com ele, na qualificação para o Mundial de 2018, a Macedónia voltou a ficar longe do apuramento, mas algo tinha mudado. Em outubro de 2016, esteve a ganhar à Itália por 2-1 até aos 75’. Os italianos só garantiram a vitória nos descontos. Meses depois, foi a Espanha que teve de sofrer para vencer os macedónios em Skopje - 2-1 foi o resultado final. E na penúltima jornada, no Estádio Olímpico de Turim, a Macedónia conseguiu mesmo travar os italianos (1-1) - ficaram em 5.º lugar no grupo, mas apenas a dois pontos do 3.º.

O sucesso não tardaria, mesmo que com uma série de curvas: na qualificação para o Euro 2020, a equipa terminaria em 3.º no Grupo G, mas a vitória na Liga D da Liga das Nações deu um lugar à Macedónia nos play-offs de apuramento para a prova, adiados durante seis meses devido à pandemia da covid-19.

Em outubro de 2020, a antiga república jugoslava da Macedónia, agora já Macedónia do Norte, encontrava o seu lugar na história.

Em eliminatórias a uma mão, a Macedónia do Norte começou por bater a nação vizinha do Kosovo por 2-1. No jogo decisivo, frente à Geórgia (e na Geórgia), Pandev, o filho pródigo regressado pela mão de Angelovski, marcaria o golo que levaria o país ao Euro, pela primeira vez, pouco mais de três anos depois daquele risível 166.º lugar no ranking da FIFA.

Houve alegria, festa, emoção. União? Not so fast.

UMA ESPÉCIE DE GUERRA CIVIL

Angelovski tornou-se uma espécie de elemento agregador num balneário não poucas vezes acometido de tensões étnicas entre macedónios e jogadores de origem albanesa. “Expliquei-lhes que não preciso de nacionalismos e que fui criado para julgar as pessoas apenas pelo seu lado humano, não étnico, religioso ou por terem uma cor diferente”, disse também à “The Athletic”, onde o treinador é descrito pelo jornalista local Filip Mishov como o homem que construiu “uma química inquebrável entre a equipa, fazendo deles uma grande família”.

Mas se o técnico é adorado pelos jogadores, o mesmo já não se pode dizer das altas esferas do futebol da Macedónia do Norte.

Já depois de conquistada a presença no Euro 2020, foi pela boca de Goran Pandev que o país soube que o presidente da federação, Muamed Sejdini, pretendia despedir o treinador antes dos play-offs de apuramento - a relação entre líder da federação e selecionador nunca foi pacífica

A Macedónia do Norte garantiu a qualificação frente à Geórgia

A Macedónia do Norte garantiu a qualificação frente à Geórgia

VANO SHLAMOV/Getty

“O presidente e outras pessoas queriam perturbar o clima da seleção nacional, mas não conseguiram. Sejdini falou comigo quando acabou a fase de grupos de qualificação e disse-me: ‘Goran, quero conversar contigo, quero trocar de treinador’. Disse-lhe que ele é que era o presidente, mas que não era hora de fazer aquilo”, disse Pandev, numa entrevista ao canal local "TV24".

O capitão sublinhou que a ideia não foi para a frente porque Angelovski tinha o apoio dos jogadores e do público e acusou ainda Sejdini e outros membros da federação de “não terem ficado felizes” com a qualificação macedónia para o Euro, conseguida a meio de uma guerra civil, com federação para um lado e jogadores e selecionador para outro.

“Eles fingiam estar felizes, mas pela cara deles percebia-se que não estavam”, atirou ainda o jogador.

No final de 2020, a renovação de contrato com o técnico arrastou-se e chegou-se a falar novamente de saída, mas, em janeiro, a federação anunciou que Angelovski tinha assinado um novo vínculo. Mas apenas por seis meses, até ao final do Euro.

Ainda assim, a assinatura de Angelovski naquele pedaço de papel que lhe permite pelo menos terminar em glória um trabalho que começou em 2015, não significou paz com a federação. Em abril, Pandev e outro dos veteranos da equipa, o avançado Ilija Nesterovski (que não estará no Euro devido a lesão), denunciaram mais uma vez Muamed Sejdini. Tudo devido ao hino de apoio à seleção.

De acordo com as explicações dos dois jogadores num programa de televisão do país, Sejdini quis cortar umas das estrofes do hino em que havia uma referência a Igor Angelovski. Algo que lhes foi revelado quando a equipa se preparava para gravar o vídeo para a canção.

“Chegámos ao estúdio e lá explicaram ao selecionador que a Federação tinha solicitado a remoção da parte em que há uma referência a Angelovski. Ficámos espantados, não sabíamos de tal situação. Então filmámos um vídeo com ele e outro sem ele”, disse Nesterovski. A canção acabaria por ser lançada com as referências ao treinador intactas.

Indiferente a tudo isto parece estar Angelovski. Em finais de março, em jogo para a fase de qualificação para o Mundial 2022, levou a Macedónia àquela que será, muito provavelmente, a maior vitória da curta história da seleção balcânica: um triunfo por 2-1 frente à Alemanha, na Alemanha. E para o Euro 2020, com uma seleção onde, para lá de Pandev, conta com Alioski do Leeds, Enis Bardhi, referência no Levante, e o jovem talentoso Elif Elmas, do Nápoles, não há impossíveis - já disse que o objetivo é passar a fase de grupos.

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    Euro 2020

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