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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

O que se faz em direto, com um microfone à frente e acontece o que aconteceu a Eriksen? "Vamos para o ar numa corda sem arnês"

Durante quase uma hora, entre o momento em que Christian Eriksen caiu inanimado e a retoma do Dinamarca-Finlândia, o jornalista André Silva foi o responsável pela narração do jogo, na "Sport TV". Quando a emissão (cuja responsabilidade é da UEFA) mostra "imagens que iam para o ar e que não deveriam ter ido", repetidamente, e as redes sociais estão "cheias de médicos de bancada", alguém tem de dar palavras ao que toda a gente está a ver

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Lars Ronbog/Getty

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Privados de ver a bola no estádio e obrigados a vê-la ao longe, vemo-la através das oculares das câmaras e do que sai da boca de quem está a assistir a exatamente o mesmo que nós. Ver futebol há muito que não é propriedade de um só sentido e quase todos já atirámos o nosso pedaço de laracha para o ar sobre o que estamos a ouvir, mas muito poucos sabemos o que é ter de falar para acrescentar, obrigados ao falatório imediato e falando sobre o que toda a gente vê que está a acontecer.

A vida não é tangível nem palpável, mas há toneladas e toneladas dela num coração que pára e o de Christian Eriksen parou no Dinarmarca-Finlândia, nunca é suposto o motor que nos mantém em circulação parar em alguém tão novo, tão atlético e tão cedo, muito menos durante um jogo de futebol. E, de repente, em vez de acrescentar sobre uns tipos a correrem atrás de uma bola por um hectare fora, temos de falar, a partir daí é só isso, abrir a boca e falar acerca do que nada há para se dizer.

O "choque brutal" e o "impacto enorme" de André Silva não divergirão muito da bofetada sentida por quem estivesse também a ver o que ele via. André é jornalista e estava a narrar o jogo para a "Sport TV", mas antes de tudo isso é "um ser humano" e pela sua cabeça de português surgiu "o momento que vivemos com o Miklos Féher", em 2004. A sua voz "ficou logo embargada" e tentou "de todas as formas que isso não passasse para o telespetador".

E se passasse, pergunto, que mal virá nesse momento ao mundo que seja pior que uma vida acabar a meio do que deveria ser apenas um jogo a ser jogado, mal não é haver embargo e sensibilidade na voz, mal há em muitas coisas, como "as redes sociais cheias de médicos de bancada a dizer que o Christian Eriksen tinha tido isto e aquilo" e André Silva a ter que "pensar bem em cada palavra que ia dizer embora em frações de segundo".

Martin Rose - UEFA

Uma coisa é dizer a quem não viu, como este que escreve não estava a ver e agora o questiona sobre regras não escritas da televisão, como o não haver silêncio em diretos, mas e se a ausência de palavras valer "mais do que qualquer [uma] que possas dizer"? André Silva focou-se em seguir uma regra própria, que partilha com Luís Catarino, que o acompanhava em estúdio, no comentário: "dizer apenas o que é factual e não entrar em especulações".

André teve a "preocupação" de ir deitando o olho "às contas de Twitter do Euro 2020, da UEFA e da Federação Dinamarquesa de Futebol", cada uma foi escrevendo as únicas informações válidas durante aquela cerca de hora que passou entre o corpo caído de Eriksen, a tragédia anunciada que nos apequenou a todos e a confirmação possível de que tudo estava bem - ou menos mal, porque bom não é acordar num hospital sem recordação alguma.

Durante essa hora, André Silva teve de falar por cima da transmissão que chegava igual a todos os estúdios de televisão no mundo, a responsabilidade não dele, mas da UEFA, responsável pelo sinal e pela realização de um senhor dinamarquês que mostrou, repetidamente, o momento em que o coração falhou a Eriksen e a partir do qual esse senhor nos fez assistir ao que já não tem nada a ver com futebol.

Os planos da cara do jogador, da urgência dos paramédicos em perseguir uma vida em fuga e dos trabalhos de reanimação para a apanhar não entram no "era necessário mostrar a angústia", como esse realizador já tentou justificar. "Houve imagens que foram para o ar e não podiam ter ido", reconhece André Silva, sabedor de que um realizar "vê o que acontece" sempre "primeiro do que nós" e "não pode tomar a decisão de meter aquele plano o ar".

O plano apertado "do jogador inanimado, em que percebemos que está inconsciente".

Basta citar André Silva, "esse foi só o primeiro erro, porque, pouco depois, mostra uma imagem também em plano apertado do jogador a ser reanimado", e citá-lo mais uma vez, "não é tempo de crucificar o realizador que errou" e sim "tempo de manifestar solidariedade, só quem vive por dentro tem noção da exigência daquele trabalho e do quão difícil é realizar um jogo de futebol". E ninguém contradirá André.

Lars Ronbog/Getty

Mas em todo o trabalho há o que existe em cada pessoa e a empatia, a humanidade e a decência deveriam ser tão humanas quanto o erro, ninguém tem imunidade contra errar e tão pouco deveria ter às três qualidades que, mais usadas, livrariam a tragédia de ser espetáculo, de ser algo que é torneável pela perceção de quem dirige uma transmissão e, no dia seguinte, diz que "não havia problema em filmar a emoção envolvente".

De novo, há que citar André Silva: "o momento é importante em termos de interesse público, mas, com um plano geral, aquilo iria perceber-se na mesma e a imagem não seria tão chocante como foi".

O jornalista da "Sport TV" já narrou muitos jogos e irá narrar vários mais, "não posso dizer que é como trabalhar na corda bamba", diz, como um retrocesso à evidência do direto e das circunstâncias do tempo real. Diz também que a UEFA os "habituou a grandes realizações e a regras muito rígidas para os realizadores que estão no terreno", o que dá "segurança" quando André e outros seus semelhantes vão para o ar.

Mas vão sempre, sempre na mesma condição - "numa corda sem arnês a segurar-nos". Toda a gente viu o mesmo que André Silva estava a ver e a queda de um homem não tem nada a ver com saber o que dizer sobre futebol. Tem tudo a ver com ser humano perante as vezes em que a vida mostra o quão tocável é qualquer um, a qualquer hora, pela tragédia humana.