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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

As pantufas de Pedri não chegaram

Espanha assinou uma grande primeira parte e criou inúmeras oportunidades para marcar, mas o golo nunca chegou. Isak foi o jogador mais venenoso da Suécia, que contou com o filho de Henrik Larsson no banco

Hugo Tavares da Silva

Fran Santiago - UEFA

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A certa altura do desperdício espanhol e do sofrimento sueco, o telefone em cima da mesa recebe esta mensagem: “Alguém manipulou em laboratório uma semente a partir dos genes do Xavi e do Iniesta, inseminou artificialmente o Pedri com ela e agora vamos todos ver no que vai dar”. Isto é altamente improvável, mas é um grandíssimo elogio. O miúdo, o mais jovem da história da Espanha em Europeus (18 anos, 201 dias), é um tratado e parece que residiu em Barcelona desde que choramingou pela primeira vez. Joga de pantufas, e tão bem. Mas os companheiros não acompanharam e a Espanha empatou a zero na jornada inaugural. A Suécia, que contou com o filho de Henrik Larsson no banco, defendeu tanto, tanto, sofreu e abdicou de jogar, por isso estará satisfeita com o pontinho.

Os espanhóis, que perderam o contributo da mente brilhante que habita na cabeça de Busquets por testar positivo à covid-19, fizeram uma belíssima primeira parte, abafando o rival de uma forma que fazia lembrar a Espanha de outros tempos. A bola também não se queixava e tudo parecia encaminhado para uma vitória tranquila, com paciência e os desequilíbrios preciosos dos laterais, Alba e Marcos Llorente. O 4-3-3 de Luis Enrique impunha-se ao 4-4-2 dos nórdicos, incansáveis, sacrificando os talentos de Alexander Isak e Emil Forsberg, rapazes bons de bola.

O desatino e o desespero espanhol foram inaugurados aos 16 minutos, com um cabeceamento de Dani Olmo, que, habituem-se, resultou numa grande defesa de Robin Olsen. A bolinha de Koke tinha olhos. Depois foi precisamente o médio do Atlético Madrid a tentar o golo, algo que aconteceu novamente pouco depois. Aos 25’, os espanhóis estavam a ser espanhóis, mordendo a baliza adversária: 81% de posse de bola. Recuperavam o berlinde tão rápido que homens como Isak e Forsberg, a quilómetros da baliza de Unai Simón, desesperavam. E eram inúteis, já que nunca recebiam em condições de fazer mossa. Pior: iam dando cabo do cabedal, esgotando o tanque para tempos de relaxamento alheio. Aymeric Laporte e Pau Torres foram dando conta do recado.

Perto do intervalo, foi a vez de Álvaro Morata dar razão aos que se queixavam da presença no banco de Gerard Moreno, o avançado finalizador do Villarreal. Morata, oportuno e isolado por fortuna, falhou na cara de Olsen. O toque na bola denotava algo estranho, raro em espanhol, algo que depois coincidiu com a linguagem corporal do ainda avançado da Juventus. Ian Wright, pouco solidário com o companheiro de ofício, pedia-lhe que pelo menos acertasse na baliza.

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Isak seria então o protagonista por alguns minutos. Primeiro, ainda antes dos 45’, meteu uma bola no ferro. A seguir, já na segunda parte, inventou uma jogada que enganou alguns espanhóis, lembrando o treinador que podiam ser mais valentes. A Suécia, de facto, parece ter esticado um pouco mais a equipa na segunda parte, a pressão estava mais adiantada. A posse da Espanha estava menos fluída, menos fresca, mas Pedri ia descobrindo sempre por onde ir, e, quem sabe inspirado pelo espírito de campanha autárquica aqui na vizinhança, ia inaugurando rotundas para os rivais cheirarem a bola, em vão. Sempre. Mago.

A verdade é que a Espanha estaria sempre a bater à porta, perto do golo, e este nunca chegaria. Morata voltou a falhar só com a baliza à frente. Parecia triste, a bola saía desanimada dos seus pés. Estaria Luis Enrique a pensar em Iago Aspas, que não foi chamado? Vamos especulando, claro. Gerard Moreno, sim, estava pronto para entrar, quando Marcus Berg quase fez mudar o zero no marcador. O contra-ataque foi bom, começado nos bons pés de Olsson, Isaak inventou uns dribles e saiu de uma cabine telefónica, enviando a bola para o segundo poste, onde estava o avançado do Goteborg. Nada, a não ser mãos no rosto.

Thiago e Sarabia entraram por Morata e Rodri, pouco influente. Do outro lado saiu o único futebolista capaz de ameaçar a baliza de Simón, Isak, mas talvez aquela primeira parte tenha esgotado as baterias do jovem da Real Sociedad, de 21 anos.

Com Thiago, e a sua fiel sola, a bola começou a girar mais rápido de uma lado para o outro. Pedri começou mais do que nunca a fazer de Messi e a descobrir o capitão Alba, que ia fazendo grandes movimentos pelo corredor do costume. O cruzamento esteve defeituoso esta noite.

Oyarzabal e Moreno lá para dentro, substituíndo os desinspirados Dani Olmo e Ferrán Torres, mas a Espanha iam piorando a versão da primeira parte. Era o tudo ou nada… O patrão da revista Panenka, Aitor Lagunas, lembrara no Twitter, antes do arranque do jogo, que Gerard Moreno só não fez mais golos durante a época do que a seguinte rapaziada: Lewandowski, Messi, Cristiano, André Silva, Haaland, Mbappé e Lukaku. Nada mau, eh.

A Suécia recuperara há algum tempo o autocarro britânico, com dois andares, Marcus Danielson e Victor Lindelöf iam defendo como podiam, acompanhados pelo monstro na baliza. E foi isso que sentiu Moreno, já aos 90’, quando o seu tímido cabezazo foi defendido por Olsen. A bola que merecia o céu saiu da canhota de Sarabia, o último homem a estar perto do golo quando já quase nada havia a fazer, a não ser lamentar o desacerto das botas e ideias.

A Espanha desilude, apesar de ter demonstrado grandes momentos e uma bela equipa, capaz de recuperar a bola num abrir e fechar de olhos e ainda por cima jogar e criar. Mas, já se sabe, o golo é que decide, é quem fala o que há para ser falado. E desta vez não houve nenhum, por isso, empatando, ganhou a Suécia.

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