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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Luís Enrique, o treinador que “não quer ser simpático” e foge do “circo” em volta do futebol

Espanha começa a sua participação no Europeu frente à Suécia (20h, TVI), em Sevilha, e com mais dúvidas do que certezas. No centro do turbilhão está Luis Enrique, o último homem a pôr o Barcelona a jogar um futebol galático, mas que quer desligar definitivamente a equipa da pesada herança do tiki-taka. Sem as estrelas do passado, terá de ser o coletivo a fazer a diferença. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

João Pedro Barros

Luis Enrique observa os seus jogadores em mais uma sessão de treno na Cidade do Futebol de Las Rozas, em Madrid, a dois dias da estreia no Europeu, frente à Suécia

PABLO GARCIA HANDOUT

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Casillas, Xavi, Piqué, Puyol e mesmo Sérgio Ramos já não moram aqui. Quando olhamos para a grande Espanha que dominou o futebol de seleções entre 2008 e 2012 (dois títulos europeus e o Mundial de 2010), resta uma grande referência dentro do campo: Busquets, pivô do meio-campo do Barcelona. O outro grande farol está no banco de suplentes: mesmo aqueles que não gostam de Luis Enrique têm de concordar que dificilmente La Roja vai chegar ao êxito se o treinador não conseguir impor a sua filosofia e criar um grupo blindado ao exterior, de onde chegam muitas críticas

“Nesta seleção espanhola não dispõe de grandes estrelas. Conta com a vantagem de ter uma fase de grupos acessível, em que vai jogar em casa (Sevilha). Mas o seu futuro para além disso parece incerto”, conta à Tribuna Expresso Francisco Cabezas, jornalista do “El Mundo”. Na prática, Espanha recebe Polónia, Eslováquia e Suécia no grupo E e ninguém no país vizinho perdoará que não siga em frente. Nas eliminatórias logo se verá, mas Luis Enrique é o homem a quem se pede para tornar a seleção espanhola grande outra vez, nove anos depois do último título.

As expectativas não estão propriamente nos píncaros, reconheça-se. “Chegar às semifinais valeria uma nota alta; até cair nos quartos, frente a uma grande potência e dando luta, valeria uma aprovação se a fase de grupos e os oitavos forem decentes”, escrevia, há dias, Ladislao Monino no “El País”.

Chegar a uma fase avançada da competição não será fácil e o caminho até ao arranque da competição não foi menos do que tortuoso. Comecemos pelo que se tem passado nos últimos dias: os testes positivos à covid-19 de Busquets e depois de Diego Llorente levantaram as suspeitas de um surto da doença na comitiva que treina no quartel-general da Cidade do Futebol de Las Rozas, nos arredores de Madrid. Espanha é, curiosamente, a única equipa que não tirou partido da prerrogativa que a UEFA concedeu às equipas de convocar 26 jogadores em vez dos habituais 23 (para já, estão inscritos 24).

O avançado Gerard Moreno a ser vacinado contra a covid-19, esta sexta-feira. A decisão de vacinar a comitiva espanhola gerou controvérsia em Espanha

O avançado Gerard Moreno a ser vacinado contra a covid-19, esta sexta-feira. A decisão de vacinar a comitiva espanhola gerou controvérsia em Espanha

Pablo Garcia/RFEF HANDOUT

Foi “um erro”, arrisca dizer à Tribuna Expresso Francisco Cabezas, jornalista do “El Mundo” que faz questão de ressalvar que não está a acompanhar o dia a dia da seleção em Madrid, mas que transmite o sentimento geral no país. “A sua ideia inicial era poder trabalhar com um grupo de trabalho reduzido, em vez de ser previdente face a um Europeu muito diferente e em plena pandemia”, explica Cabezas. E na quinta-feira, em conferência de imprensa, o técnico recusou meter a viola no saco: “Se fosse hoje teria convocado 23 jogadores. Com um vírus, quantas mais pessoas pior".

Raúl Varela, jornalista e uma das principais vozes da "Rádio Marca", tem sido bem mais acutilante do que o jornalista do "El Mundo": “O que não pode acontecer é oferecer uma sensação de improvisação que desmotiva até o mais otimista. Basta algumas explicações dando os porquês do que decidiu face a esses casos positivos”. Depois conclui: “Luis Enrique é o chefe, mas não lidera. E precisamos que o faça”.

Entretanto, a tempestade amainou: Llorente testou negativo por quatro vezes e juntou-se de novo ao grupo no sábado, enquanto Busquets ainda está isolado mas tudo indica que se poderá juntar mais tarde ao grupo. Mas Luis Enrique tem falado pouco à comunicação social e tem frequentemente respondido a perguntas complexas com frases curtas. Como quando foi questionado sobre os assobios que ele e o avançado Morata receberam no Wanda Metropolitano, antes do jogo particular frente a Portugal, disse: “dá-me igual”.

A comitiva da seleção foi vacinada na semana passada, mas isso sucedeu tarde demais para que Cabezas não olhe para a preparação como “caótica”. “[A vacinação dos jogadores] tem provocado uma grande polémica na sociedade espanhola, pelos privilégios face a outros grupos de risco ou essenciais. O Governo de Espanha argumenta que os desportistas olímpicos também já foram vacinados. De qualquer forma, a ausência de planeamento face a esta situação é evidente. Os jogadores não vão poder alcançar a imunidade plena durante o torneio porque só há tempo para administrar-lhes a primeira dose”, nota.

Um treinador que prefere quebrar a torcer

Luis Enrique é um selecionador "com uma grande virtude", frisa Cabezas: "Tem um plano próprio e não se deixa influenciar, nem pelos jornalistas, nem pelos poderes instituídos. O seu relacionamento com a comunicação social foi sempre ácido. Não quer ser simpático nem tem qualquer interesse no circo que costuma rodear o mundo do futebol. É assim desde que era jogador”.

Como futebolista, após cinco épocas a vestir de branco, trocou o Real Madrid pelo Barcelona, onde terminaria a carreira de jogador – em que passou apenas por três clubes, sendo o primeiro o Sporting de Gijón, a sua cidade natal. Chegou a confessar que nunca se sentiu amado pelos adeptos do Real e esse passado certamente não o terá ajudado noutra polémica: ter deixado Sergio Ramos de fora do Europeu. Mais: pela primeira vez numa grande competição, Espanha não tem nenhum jogador da equipa da capital.

“Isso colocou-o na mira dos média. Mas Luis Enrique é daqueles homens que se motivam perante a adversidade”, explica Francisco Cabezas. Podemos resumir a personalidade do técnico em poucas palavras: antes quebrar do que torcer.

Luis Enrique na sala de imprensa. Na comunicação social espanhola há várias vozes a acusar o treinador de pouca disponibilidade para explicar as suas opções

Luis Enrique na sala de imprensa. Na comunicação social espanhola há várias vozes a acusar o treinador de pouca disponibilidade para explicar as suas opções

Pablo Garcia / RFEF/ HANDOUT

Adversidades não lhe têm de resto faltado na carreira e mesmo no percurso pessoal. Enrique chegou ao cargo em julho de 2018, após a rábula do despedimento de Lopetegui, a dois dias de arrancar o Mundial da Rússia, em 2018. Acabou por abandonar o lugar menos de um ano depois, por problemas pessoais – veio mais tarde a saber-se que a razão era a doença da filha, que lutava contra um tipo raro de tumor ósseo. Xana acabou por morrer em agosto e, em novembro, Luis Enrique reassumiu o cargo.

No entanto, o processo não foi pacífico: a posição tinha sido assumida pelo seu antigo número dois, Robert Moreno, e houve acusações mútuas. Enrique diz que Moreno – que antes se tinha mostrado disponível a devolver o cargo ao seu antigo líder de equipa – “queria continuar como treinador até ao Campeonato da Europa” e depois sim, voltar ao papel de adjunto. “É desleal e teve uma ambição excessiva”, acusou Luis Enrique, que assumiu que não queria mais Moreno na sua equipa técnica. Por sua vez, Moreno diz não entender o que fez “de errado” para ser vetado.

Entretanto surgiu a pandemia, o Europeu foi adiado e o timoneiro espanhol ganhou mais um ano para moldar Espanha à sua imagem – só que a covid-19 atacou a equipa poucos dias antes do campeonato arrancar. Durante a carreira, Luis Enrique foi sempre um polivalente – só nunca jogou a central e a guarda-redes – e agora terá de ser criativo para recuperar uma Espanha com menos vedetas e com uma espinha dorsal em construção.

Nem tiki-taka nem futebol direto, mas sim versatilidade

E que estilo de jogo procura Luis Enrique impor? O jogo de preparação frente a Portugal, a 4 de junho, terá dado uma boa imagem dos pontos fortes e fracos da equipa.

Enrique não é um apaixonado do tiki-taka [o estilo de jogo baseado na posse e troca de bola, celebrizado pela Espanha de Luis Aragonés e Vicente del Bosque e pelo Barcelona de Guardiola], mas gosta que as suas equipas dominem o jogo e a posse. Porém, no Barça – que treinou com grande sucesso entre 2014 e 2017, conquistando uma Champions, um Mundial de Clubes, duas Ligas e três Taças do Rei – tinha outro poder para desatar os nós mais complicados: Messi, Suárez e Neymar eram capazes de evitar um dia mau com dois ou três segundos de magia.

Na Espanha de 2021, as caraterísticas dos próprios avançados – Ferran Torres, Moreno e Morata, por exemplo – convidam a um estilo de jogo em que a profundidade terá mais relevo do que o jogo posicional.

Alvaro Morata, jogador da Juventus, é uma das grandes esperanças do ataque espanhol

Alvaro Morata, jogador da Juventus, é uma das grandes esperanças do ataque espanhol

Kiko Huesca

“Se há algo que carateriza o futebol de Luis Enrique é a sua ideia versátil de jogo. Boa parte do seu êxito baseia-se na pressão no meio-campo adversário. Não é um apóstolo do tiki-taka, mas gosta de dominar o jogo. No entanto, quer uma posse de bola efetiva e que conclua com algo palpável. Não se importa muito com o lado estético, mas sim que a sua equipa dê sentido ao jogo de ataque”, enquadra Francisco Cabezas.

O rumo parecia ter sido encontrado em novembro, quando, em jogo da Liga das Nações, Espanha goleou a Alemanha por 6-0, com um hat-trick de Ferran Torres. Mas no jogo seguinte, em março deste ano, no apuramento para o Mundial, a equipa não passou de um empate caseiro frente à Grécia. Contra Portugal, o futebol jogado também não foi particularmente atrativo e, acima de tudo, consistente. Resultado: um nulo.

“A seleção transmite sinais caraterísticos de equipas jovens com bons princípios, mas que estão em formação”, podia ler-se no “El País”, no rescaldo do jogo disputado em Madrid e que também serviu para apresentar a candidatura ibérica ao Mundial de 2030. É certo que Luis Enrique procurou rejuvenescer a equipa (média de idades de 26 anos, quando Portugal, por exemplo, apresenta uma média de 27,4): para além de Busquets, do Europeu de 2012 apenas resta o lateral esquerdo Jordi Alba.

No entanto, a imprensa do país vizinho não deixa de olhar mais para as dúvidas do que para este rejuvenescimento. Será o jovem Unai Simón titular na baliza? No centro da defesa são compatíveis dois centrais esquerdinos (Laporte e Pau Torres)? Tantas mudanças no onze (Luis Enrique não se cansa de dizer que qualquer um dos 24 jogadores pode ser titular) não tornam mais difícil estabelecer rotinas? De Espanha tanto se pode esperar tudo como nada: que ganhe a França num dia bom e que perca frente à Eslováquia num dia mau.

“Luis Enrique é um bom gestor de grupos, ainda que a convivência com ele requeira um tempo de adaptação. Exige o mesmo compromisso que ele mesmo tem com o trabalho. Um exemplo é a sua experiência com Leo Messi, com o qual teve um célebre desentendimento nos seus primeiros tempos como treinador do Barcelona. Hoje em dia, Messi considera que Luis Enrique fui um dos melhores treinadores que teve na carreira”, recorda o jornalista Francisco Cabezas.

“Muito poucas vezes tive um grupo de trabalho e uma comunhão tão grande entre staff e jogadores. Apenas recordo algo parecido no Barça B. Sempre estive otimista, mas agora estou mais", revelou na sexta-feira o treinador, num raro momento em que mostrou um pouco do que lhe vai na alma. Contraditoriamente, talvez as expetativas moderadas em torna da prestação da La Roja tornem mais fácil a missão de Luis Enrique.