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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Schick, elegante e pé afinado

Avançado checo fez dois golos na vitória contra a Escócia (2-0), um deles foi um golaço do meio-campo. Terá o golo do torneio chegado tão cedo?

Hugo Tavares da Silva

Marc Atkins

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Há muitas coisas belas num jogo de futebol. Uma tabela, um drible em que o defesa cheira a bola com os olhos, uma defesa possível embora digam que é impossível, um carrinho à Maldini, uma bola a tilintar no poste, enfim, tantas. Mas há mais, claro: um avançado com quase 1.90m, canhoto e com o número 10 nas costas mora seguramente nesse lote especial.

Patrik Schick, de 25 anos, joga no Bayer Leverkusen e é o homem de quem falamos. Fez os dois golos à Escócia, permitindo à sua República Checa começar o torneio com uma vitória (2-0). Não foram só os golos, Schick é fino, fino. Ajuda os colegas, mostra-se, toca, serve de referência, tenta uns dribles malandros e vai justificando o salário dos scouts de Sampdoria, Roma, Leipzig e agora Leverkusen, para onde se transferiu no verão de 2020. Numa janela do WhatsApp vejo uma mensagem de um comentador televisivo que diz: “Já disse no ar que era o Bergkamp ou o Berbatov dos tempos modernos”. Arrojado, mas belo. E depois desta tarde talvez seja mesmo assim.

Schick fez o 1-0, na sequência de um canto curto. O bom cruzamento, da direita, foi do lateral Coufal. O gesto técnico foi de número 9, daqueles verdadeiros. Alguns minutos depois, e a seguir aos escocês Hendry enviar a bola à trave e à inauguração do espetáculo do guarda-redes checo, Vaclik, deu-se o momento mais alto do torneio, ombreando com o golaço de Yarmolenko, no Ucrânia-Países Baixos.

A bola, não muito agradada com o destino que teve uns segundos antes num ataque da Escócia, passeava-se sozinha uns metros à frente do meio-campo, quando Schick apareceu em seu resgate. O avançado olhou para a baliza, viu David Marshall adiantado, e bateu de primeira como batem os craques, uma coisa assim à Beckham. O arco foi imenso, parece até mentiroso, e o destino foi o desejado por meio mundo, ou quase todo o mundo menos o território escocês: as redes de Marshall, que o abraçaram naquele momento de agonia. A chapelada de Karel Poborsky a Vítor Baía, em 1996, talvez descanse em paz e agora saía menos das bocas dos vaidosos checos e do pensamento dos amargurados portugueses.

Há algo nestes futebolistas e nestas competições muito agradável de notar: o contexto do clube, muitas vezes, nada tem a ver com o contexto que vivem na seleção, seja na qualidade que os rodeia, seja no papel que desempenham. Schick é quem nunca foi na Roma, por exemplo. Andy Robertson, que é obviamente uma peça de alto gabarito no Liverpool, é o maior craque da Escócia, por tudo o que produz pela esquerda, foi sempre por ali que esteve o ouro escocês. Não foram poucas as vezes que a Escócia esteve perto de marcar, mas não era o dia deles.

O jogo foi bom para aqueles que aceitam que nem todos os jogadores jogam à bola como os deuses. E, já agora, foi um bom jogo para aqueles que gostam que existam espaços, erros e real discussão a dois pelo resultado, e não andebol moderno com os pés e uma equipa à espera da outra. Há estilos, características muito típicas, teimosias ou até falta de qualidade aqui e ali, mas há sempre, como suspirava Galeano, uma “linda jugadita”. Afinal, somos todos mendigos à espera de uma esmola, de um milagre num campo de futebol. Hoje saiu do pé de Schick.

Há outro rapaz que nunca mais vai esquecer este dia: Adam Hlozek, de 18 anos e 10 meses, o mais jovem da história checa em Campeonatos da Europa. Segundo o Playmaker, do Zerozero, o miúdo supera assim os feitos de Tomas Rosicky, em 2000, quando tinha 19 anos e oito meses, e de Vladimir Darida, em 2008, com 21 anos e 10 meses. Darida jogou esta tarde e levava no braço esquerdo a braçadeira de capitão.

A República Checa junta-se assim à Inglaterra, com três pontos, na liderança do Grupo D. Schick, que esteve perto do hat-trick, iguala Romelu Lukaku na lista de melhores marcadores. De acordo com o Playmaker, do Zerozero, é somente a terceira vez que um checo bisa num jogo do Campeonato da Europa, depois de Smicer (2000) e Baros (2004).

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