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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Gábor Király, o mais velho de sempre a jogar em Europeus, já se ri das suas calças de fato de treino: "Não vou ter saudades de nada"

Faz cinco anos que Gábor Király ficou com o recorde de antiguidade num Campeonato da Europa. Tinha 40 anos e, uns dias depois, sofreria três golos de Portugal e ficaria com a camisola de Ronaldo, que viu "muito chateado" no final e daí explicar como é uma "pessoa perfeita". O antigo guarda-redes retirou-se aos 43 anos, quando "já sentia muita dor". Hoje é presidente do seu próprio clube, dá palestras motivacionais e já achou graça quando a Tribuna Expresso lhe perguntou, na Hungria, pelas calças cinzentas com que insistia em jogar (talvez porque a questão só apareceu no final da conversa)

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Gábor Király é o jogador mais internacional de sempre da Hungria, com 108 partidas feitas pela seleção

Manuel Blondeau/Getty

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- "Are you ok?"

Perguntar se alguém está okay não é anormal, mas implica que algo de arreliador tenha acontecido antes e nada, nos meros segundos que a videochamada tem de vida, o dá a entender do lado do quarto de hotel do jornalista que a tecnologia coloca na aparente sala do complexo desportivo do Király Sport, onde Gábor está sentado.

O húngaro mais internacional entre os húngaros está descontraído e bem-disposto, fala pausadamente, alonga-se nas respostas. Não há filtro de computadores portáteis que tape a sensação de que ali está um homem feliz, dois anos após só ter deixado o futebol com 43 anos. Aos 40, estava na baliza onde Portugal marcou três golos no último jogo da fase de grupos do Euro 2016.

Király lembra-se do calor, "ainda por cima estava de mangas compridas" e, claro, "de calças", aquelas cinzentas e largas à antiga, que "ainda por cima são feitas de um têxtil muito grosso". Foi ele quem puxou o tema à conversa. Mesmo assim, para não despertar o trombil de reações passadas a insistentes perguntas sobre essa escolha de indumentária, como no anterior Europeu, deixámos esse tema para o fim - aí, Gábor até se riu. Como as coisas mudam.

O que tens estado a fazer com a tua vida?
Bom, há 18 anos comecei a construir um complexo desportivo, somos donos de um clube de futebol e tenho muita coisa a fazer diariamente. Depois de acabar a carreira, estou por aqui todos os dias, mas, antes, também organizava as coisas, mesmo quando jogava em Inglaterra ou Alemanha. Só que antes fazia-o de longe, agora faço-o aqui. Temos 2.500 crianças, 22 treinadores e um grande centro de treinos. Há sempre muita coisa para fazer.

Então, és o presidente do clube?
Yeah, o presidente era o meu pai, mas, infelizmente, morreu há um par de meses e agora sou o novo presidente.

Lamento, não sabia. No teu perfil de LinkedIn diz que és um "Business Motivational Speaker", como surgiu isso?
Gosto de fazê-lo. Tinha algumas questões acerca de motivação e falar em público e, quando acabei a carreira, preparei-me para isto e é uma grande oportunidade, porque posso falar da minha experiência de vida ou no futebol, o que é muito bom para o lado dos negócios, pois as pessoas precisam sempre de refrescar a sua motivação e, através do meu exemplo, posso mostrar-lhes algumas coisas.

É mais difícil ser um orador ou estar em frente a uma baliza, a ter que parar bolas que são rematadas à bruta na tua direção?
[Ri-se] Ambas são difíceis e tens que te preparar para ambas. Se és um jogador profissional tens de trabalhar muito, mas, antes de dares uma palestra motivacional, tens de preparar o que queres dizer em cada minuto, quem queres alcançar, como podes chegar-lhes, e isto é um grande desafio. E isto é um desafio grande deste meu novo trabalho no setor dos negócios, dos bancos ou das escolas, é sempre o mesmo, só mudam as pessoas que estão a pensar no que estás a dizer. Tenho que preparar exatamente o que pretendo dizer.

Quando és jogador estás no meio de um campo com milhares de pessoas a olharem para ti e a maioria dos futebolistas diz que se abstrai do que tem à volta. Mas, sendo um orador, tens de olhar de frente e concentrar-te, talvez, em 100 pessoas. Isso deixa-te nervoso?
É diferente, mas sempre consegui fechar-me dos adeptos. Não do ambiente, isso sentes, mas focas-te na bola, no teu movimento no campo, tens tudo treinado e queres ser perfeito, não importa se estão 50.000 pessoas no estádio ou apenas um adepto, tens de apanhar a bola e defender a tua baliza de qualquer maneira. É a tua prioridade. Sendo orador, tens 100 ou 500 pessoas e podes chegar-lhes, podes ser mais interativo, podes falar. Mas tens de estruturar na tua mente o que vais dizer, por isso tens de pensar na forma como as pessoas vão entender as tuas palavras, o que é muito interessante.

Sabes que as pessoas estão focadas em ti se estiveres a jogar num estádio, mas tens de as conquistar se estiveres a falar para elas.
Sim, exatamente.

Gábor Király, em 1998, a fazer uma acrobacia nos tempos de Hertha de Berlim

Gábor Király, em 1998, a fazer uma acrobacia nos tempos de Hertha de Berlim

Frank Peters/Getty

Tens saudades de jogar?
Joguei futebol profissional durante 26 anos e estive em 882 jogos, é suficiente. Dei tudo pelo futebol e agora quero sentir outras coisas, outros desafios. Não sinto falta de jogar futebol, mas estou todos os dias num campo de futebol, ou perto, e se vejo um guarda-redes ou um treinador ou um avançado, quero dizer-lhes algo com base na minha experiência. Então vou lá, mostro-lhes e sabes a adrenalina? Sinto-a a vir outra vez. Um ano e meio depois de me retirar comecei a treinar de novo, aos poucos e de forma simples, algum movimento e com alguns pesos, sem fazer grandes sets. Ao fim de seis dias já tinha um saco de kickbox e queria fazer só 30 segundos a bater no saco - e, ao minuto e 20 segundos, apercebi-me que ainda não tinha parado. A minha força estava a crescer, os meus socos mais precisos e senti que era profissional outra vez. Terminei o treino e, durante 10 anos, não fiz nada, porque não quero ter este tipo de desafio na minha vida. Quero treinar, mas, sabes, o cérebro liga-se e quer sempre mais, mais e mais, e eu não quero ficar assim. Tenho de encontrar um equilíbrio entre treinar alguma coisa, mas apenas o suficiente. Durante a minha vida sempre que treinar mais e mais, porque o teu sucesso irá sempre aumentar em função disso. Mas estou feliz. Se quiser jogar teqball ou head tennis, treino. Se quero jogar um cinco para cinco, jogo. Se quero ir para a baliza para mostrar aos miúdos algumas técnicas, faço-o. Mas depende sempre de como me sinto.

Há muitos jogadores que dizem que vão prolongando a carreira porque têm receio de parar e do que virá a seguir ao futebol. É uma decisão assim tão difícil de tomar?
Ao início, perguntaste o que eu estava a fazer agora. Bom, comecei a construir o meu futuro há 18 anos, quando tinha 26 ou 27. Estava no Hertha de Berlim, depois fui para Londres, ainda voltei à Alemanha e já estava a preparar o meu futuro. Construí um complexo desportivo onde não havia nada, era só um campo verde. Nem havia água, nada. Construí uma coisa a partir do zero porque queria ficar ligado ao futebol. E em 2006 fundámos um clube. Queria ver como se criava um clube a partir do nada e hoje estamos na quarta divisão [da Hungria] e temos a oportunidade de subir à terceira. Temos feito um trabalho muito bom nos escalões jovens e já temos 18 anos de experiência. Fui jogador profissional, o foco estava em mim, mas, nos bastidores, fui-me preparando para o meu futuro para se um dia terminasse a carreira pudesse, no dia seguinte, sentar-me nesta carreira e não haver grande diferença. Todos os dias tenho de liderar treinos e só tenho folga ao fim de semana, não tenho jogos. Mas agora tenho mais trabalho para fazer no complexo desportivo, faço o trabalho que quero e o futebol e quero continuar assim.

Então quais as razões para teres continuado a jogar até aos 43 anos? Ainda és o mais velho de sempre a ter jogado num Europeu.
Sim, tinha 40 anos nessa altura. Quando era um miúdo e sonhava com uma carreira profissional, queria que, ao último jogo, pensasse 'não vou ter saudades de nada'. E pensei. O meu corpo já estava em dor nos últimos 5, 6 ou 7 anos, claro, não estava a ficar mais novo, mas queria sempre ir avançando. Fiz tudo e não sinto falta de nada e não mudaria nada. Estas foram as experiências que fui colhendo e sou muito feliz com elas.

Mas quando tinhas 38 ou 39 anos, como é que continuavas a motivar-te?
As pessoas que tinha à volta eram muito boas e, por essa altura, já estava na Hungria. Estive 18 anos entre Alemanha e Inglaterra, só regressei com 39 e acordava todos os dias em casa. Não precisava de viajar de avião para os jogos. Acordava e o estádio, o centro de treinos, a minha família e os meus pais, tudo estava na minha cidade. Estava muito feliz nessa altura e queria desfrutar dessa vida. Mas, no último ano, já sentia muita dor no corpo e tinha de acabar a carreira.

O que te recordas daquele jogo contra Portugal, com seis golos?
Ontem [9 de junho] passou na televisão húngara um documentário com cerca de duas horas sobre a seleção húngara de 2016, a mostrar o percurso e como éramos nos bastidores. O Cristiano Ronaldo aparecia com uma entrevista e disse como, naquele dia, estava mesmo muito calor. O meu primeiro pensamento sobre esse jogo é o mesmo, ainda por cima estava de mangas compridas e com calças, que ainda por cima são feitas de um têxtil muito grosso. Para os adeptos, ok, seis golos é incrível. Para nós, foi uma luta, queríamos ganhar e Portugal também. Foi muito difícil jogar contra Portugal nesse clima. Acho que após o 3-3 rematámos a bola contra o poste e, no tal documentário, o jogador que rematou disse que, se tivesse marcado, provavelmente Portugal teria empatado outra vez. É por isso que acho que o jogo foi uma boa experiência e memória para todos. Fiquei com a camisola do Cristiano, fiquei muito feliz e orgulhoso por termos jogado um contra o outro muitas vezes, em Inglaterra e nas seleções nacionais. Neste documentário, disse que, depois do terceiro golo, o Cristiano estava muito chateado e isso faz dele a pessoa perfeita - ele já tem tudo, mas queria ganhar este simples jogo de futebol. Esta é a boa mensagem para os miúdos: não importa qual é o teu nome, tens sempre de querer ganhar. Não interessa se estás na rua ou num campeonato profissional, tens de querer ganhar.

No Euro 2016, o guarda-redes húngaro sofreu três golos da Portugal. Desse dia, a primeira coisa que se lembra é do calor

No Euro 2016, o guarda-redes húngaro sofreu três golos da Portugal. Desse dia, a primeira coisa que se lembra é do calor

Michael Steele/Getty

Como comparas essa seleção da Hungria com a atual?
Aquela equipa tinha muitos jogadores muito jovens e vários já velhos. Agora, esses que eram jovens estão com mais cinco anos de experiência em competições de seleções, a diferença é essa. Só há um ou dois jogadores velhos, os outros têm todos 25 ou 26 anos e já sabem o que é participar num Campeonato da Europa, as sensações, a pressão e o ambiente. Mas o nosso grupo agora é mais difícil - temos o campeão europeu, o campeão do mundo e, por cima disto, 'só' a Alemanha. Acho que a Hungria está a evoluir passo a passo, mas os adversários são mais fortes. Não somos favoritos. Mas talvez possamos dificultar a vida às seleções grandes.

Jogaste em Inglaterra e Alemanha. Notaste grandes diferenças na forma de treinar e estimular os guarda-redes?
Sim, claro. Na Hungria é mais técnico, não tanto focado no fitness; na Alemanha não se focam tanto na técnica, apenas no suficiente, prezam mais a preparação física; em Inglaterra não há técnica, é à base do 'preocupa-te só em defender a bola' e mais treino físico. Experimentei tudo. Cheguei a Inglaterra com o meu estilo, mas quis mudar e aprender, quis ser um guarda-redes inglês. Em Alemanha, claro, queres integrar-te no país e no seu futebol e aprendi muito - tanto o que precisava de fazer para melhorar, mas também o que não podia fazer. Isto foi a principal aprendizagem.

Começaste a jogar no início dos anos 90 e, desde então, o estilo dos guarda-redes mudou bastante. Hoje pede-se muito mais que tenham jogo de pés e capacidade de passe a curta e longa distância.
O futebol devenvolve-se muito rapidamente. Comecei aos 17 anos, quando ainda podias apanhar a bola de um lançamento lateral ou de um passe do teu defesa. Não havia problema. Claro que as regras mudaram, o atleticismo entrou no futebol e os guarda-redes tiveram de mudar de estilo. Tivemos de aprender a jogar com os pés, a melhorar o pé fraco e, hoje em dia, os miúdos crescem a jogar com ambos os pés. Tens de usá-los, como é óbvio, mas as estatísticas são interessantes - em 70% dos jogos não tocas na bola com as mãos, mas são esses 30% que sobram que decidem os jogos. É por isso que não podes meter um jogador de campo na baliza. Os guarda-redes agora têm de pensar nas duas coisas, têm de ser mais compactos na parte mental.

Também porque, se jogadores numa equipa grande, o jogo está a acontecer perto da baliza oposto durante a maior parte do tempo. É ingrato?
É o nosso trabalho.

Estava a guardar esta pergunta para último: por que achas que passavas a vida a ser questionado pelas calças de fato de treino cinzento?
[Solta uma gargalhada] Sim, sim.

Há cinco anos, vi-te na zona mista a seguir ao Portugal-Hungria e não achaste piada nenhuma.
Hoje és a primeira pessoa que me pergunta sobre as calças. Disse-te que joguei futebol durante 26 anos e em 23 desses anos joguei com as calças de fato de treino cinzento. Claro que no Campeonato da Europa a exposição era maior e muitas pessoas aperceberam-se, outras não compreendiam por que as usava e se calhar outras recordaram-se dos meus tempos na Alemanha. Pronto, era a grande história, mas nunca pensei que fosse assim tão interessante. Sempre quis jogar bem, trabalhar no duro e nunca falava das minhas luvas, chuteiras ou calças. Queria era jogar bem e pronto. Acho que alcancei algo especial no futebol, é verdade que muitas pessoas ainda se recordam das minhas calças, as minhas defesas e também dos meus erros. O futebol é isto, é um mundo mágico. Se trabalhas no futebol e eu também trabalhei, então fazemos parte da mesma grande família. É um mundo diferente.

Estarás em Budapeste a ver os jogos?
Sim, vou ao estádio para ambos os encontros e também vou viajar até à Alemanha, para ver o jogo de Munique. Vou desfrutar das partidas, embora tenha muitas coisas para fazer todos os dias. Mas posso ir fazendo umas entrevistas. Quero aproveitar este Europeu, não quero só estar a trabalhar e a fazer o que as pessoas querem que eu faça.