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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Locatelli foi de mota e esta Itália é um avião

Manuel Locatelli marcou dois dos três golos com que a Itália bateu facilmente a Suíça, num encontro em que carimbou desde já o apuramento para a fase a eliminar, além de ter mostrado que pode ir longe neste Euro. Com uma linha média a funcionar na perfeição, faltou apenas aos italianos alguma eficácia no último passe - já o são, mas quando isso sair bem, serão ainda mais temíveis

Lídia Paralta Gomes

Valerio Pennicino - UEFA/Getty

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Antes de Locatelli ser Manuel, no meu imaginário Locatelli era Roberto.

Não era futebolista, não era um médio inteligente, completo, bom playmaker, bom nos posicionamentos, era sim um motociclista, Roberto Locatelli, campeão da antiga categoria 125cc em 2000, hoje deve ser rapaz para os seus quarenta e alguns e não consta que os dois estejam relacionados. Mas sim, só há bem pouco tempo é que, para mim, Locatelli deixou de ser Roberto para passar a ser Manuel.

E imagino que depois desta noite, até o mais empedernido adepto das duas rodas vai passar a ter por Manuel o Locatelli que antes era o Roberto.

Porque foi ele o homem que tratou de traduzir por golos o intenso domínio com que Itália espezinhou uma Suíça que veio para este Euro irreconhecível, passiva, sem ideias, que com a derrota por 3-0 no Olímpico de Roma se vê agora obrigada a ganhar na última jornada para ainda pensar no apuramento.

Já a Itália veio para este Europeu de avião. Depois da comoção nacional, escândalo de proporções bíblicas que foi falhar a qualificação para o Mundial 2018, em 2021 os transalpinos são uma equipa diferente, onde gente do Sassuolo pode ter mais destaque que um jogador da Juventus, com médios capazes de pautar o jogo como bem lhes dá na gana, seja Jorginho, Barella ou Locatelli - e parece estar aqui a mina de ouro de Mancini para os próximos anos.

Foi por ali que o jogo se fez, de acordo com a vontade daqueles homens, que desde cedo pegaram no jogo, não deixaram a Suíça progredir mais do que o necessário e fizeram fluir o ataque da Itália, que num dia de maior inspiração de Insigne ou Immobile, poderia ter massacrado.

Valerio Pennicino - UEFA/Getty

Mas não estando lá os avançados, estava Locatelli. Aos 26’, e já depois da Itália ver um golo anulado a Chiellini, numa jogada rápida o médio do Sassuolo, bem dentro do seu meio-campo defensivo, viu a fugida de Berardi pela direita. A bola foi de primeira e em força, chegou ao seu colega de equipa em Itália, que depois viu de novo Locatelli a correr, que nem uma mota, que nem Roberto, campo acima para ir fazer aquilo que o cruzamento de Berardi pedia: um pequeno toque para entrar na baliza.

Até ao final da 1.ª parte, a Itália continuou em grande rotação, em ritmo frenético quando assim tinha de ser, mais pausada quando o jogo o pedia, e só no início da 2.ª parte chegou um ténue sinal de mudança de atitude da Suíça, que seria rapidamente travada de novo por Locatelli.

Com a defesa helvética a falhar todas as marcações, o médio de 23 anos apareceu sozinho à entrada da área, mesmo em frente à carreira de tiro, e do seu pé esquerdo saiu um remate perfeito para o qual Yann Sommer não teve sequer reação.

Depois do golo, a Itália, confiante na defesa, segura na linha média, voltou a dar a iniciativa à Suíça, aproveitando depois para sair rápido, simples. Mas faltou sempre alguma assertividade no último passe, com Immobile de mira pouco afinada e Insigne trapalhão - ainda assim, Immobile faria o 3-0, em mais um remate de média distância, já perto dos 90’.

Da Suíça pouco ou nada se viu. A única oportunidade digna desse nome aconteceu aos 64’, num bom lance do ataque helvético que acabou com o remate de Zuber, que Donnarumma, quase sempre mais um espectador no Olímpico, defendeu bem com os pés.

Com este resultado, a Itália tratou rapidamente da sua vida e é a primeira apurada pra os oitavos de final do Euro 2020. E a jogar assim, é possível que chegue bem mais longe que isso.