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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

"A Danish Dynamite jogou o mais maravilhoso e expressivo futebol de ataque"

A Dinamarca dos anos 80 é uma das equipas de culto, gozando de um misticismo especial mesmo sem ter vencido qualquer competição, tal como a Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. A Tribuna Expresso conversou com o jornalista Rob Smyth, um dos autores do livro "Danish Dynamite: The Story of Football's Coolest Team" para recordar Simonsen, Elkjær, Laudrup e companhia

Hugo Tavares da Silva

Michel Barrault

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Para aqueles que não sabem o que foi a Danish Dynamite, o que era?
É interessante porque as pessoas associam-na muitas vezes à equipa que ganhou em 1992, mas, na verdade, era uma equipa completamente diferente, no estilo e tudo o resto. Desde os anos 80, a equipa, treinada por Sepp Piontek, jogou o mais maravilhoso e expressivo futebol de ataque. Ficou perto de ganhar o Euro 1984, perdeu na semi-final com a Espanha em penáltis. E, depois, teve um Campeonato do Mundo, no México, verdadeiramente estranho, em que bateram toda a gente no grupo da morte e depois perderam 5-1 com a Espanha, mas acho que a razão por que os amávamos tanto era a maneira de jogar. E também porque eles pareciam mesmo divertidos, tinham carisma, individualmente e coletivamente. Isto foi um tempo em que o futebol não era grande coisa, eu sei que havia jogadores como Maradona e Platini e por aí fora, mas havia muita brutalidade - a famosa entrada ao Maradona, que lhe partiu o tornozelo. A Dinamarca parecia um antídoto a isso. O estilo eram tão atacante, era tão livres. Falamos agora de uma defesa de três, mas na altura eram de facto uma defesa de três, não tinha laterais, eram três defesas, cinco médios, verdadeiros médios, e dois avançados. Era o espírito de aventura, divertimento e talento.

Quem eram as grandes estrelas? E o estilo, que era ofensivo, era de toque e passe curto?
Sim, mas na verdade a qualidade mais distintiva era o drible. Tinham tão bons dribladores, havia tantos que tinham uma mudança de velocidade brilhante. Havia Jens Bertelsen, Michael Laudrup, Preben Elkjær, Frank Arnesen... Eram todos fantásticos dribladores, até Morten Olsen, que jogava a libero, foi um dos últimos da espécie de liberos atacantes. Era brilhante a avançar de trás com a bola. As super estrelas eram provavelmente os avançados, Laudrup em particular, que apareceu mais tarde, surgiu em 1983, com 18 anos. Era óbvio que era um génio. Preben Elkjær era provavelmente o meu jogador preferido deles porque podia ser talentoso, mas também tinha uma mentalidade forte. Era um avançado centro brilhante, podia fazer tudo. Era provavelmente um dos jokers da equipa, de natureza misteriosa. Elkjær ganhou a Serie A com o Verona, foi um grande choque em 84/85, acho que ele ainda fala desse título em vez do da Dinamarca [risos].

Havia outros. O Arnesen era um jogador maravilhoso, jogou muito na Bélgica, no Anderlecht. Era um driblador soberbo e subtil. Uma coisa que aprendi sobre esta equipa, há coisas que podes encontrar no YouTube, é que quase inventaram truques para enganar adversários. Houve dois em particular: um deles foi Elkjær contra a Inglaterra e outro o Arnesen, contra a Alemanha Ocidental. Nunca tinha visto nada assim, eram incrivelmente criativos. A equipa tinha outros heróis mais discretos, como Klaus Berggreen, Jens-Jørn Bertelsen, faziam muito do trabalho sujo. Depois tiveram outros como Søren Lerby, no meio-campo, que era um individuo rijo, um vencedor em série, penso que ganhou sete títulos com Anderlecht, Ajax e Bayern Munique. Havia um bom equilíbrio entre trabalhadores de colarinho azul e branco.

Mencionaste Laudrup, estava na Lazio na altura, começou o torneio com 19 anos e até festejou o 20º aniversário por lá. Dava para ver que seria uma lenda?
Penso que sim, pela qualidade e compostura... Na verdade, esqueci-me de uma parte importante da história: Allan Simonsen, que foi o primeiro grande futebolista dinamarquês, ganhou a Bola de Ouro. Era mais velho, começou nos anos 70, quando não eram muito bons. Depois, houve uma tragédia nessa história. Eles qualificaram-se para o torneio, ele marcou o golo decisivo, em Wembley, que os colocou à frente de Inglaterra, mas depois partiu a perna no primeiro jogo do Europeu e a carreira dele acabou praticamente. Mas Laudrup, sim. Houve um jogo que fizeram, mesmo antes de Wembley, em que ganharam à França, fora, que era uma grande equipa, e acho que Laudrup marcou dois. Bobby Robson, o selecionador inglês, foi ver o jogo e disse que era arrepiante o quão bom eram, particularmente Laudrup. Era pura classe. Esteve quase a ir para o Liverpool, creio, mas depois foi para a Juventus. Via-se logo como era bom. Ele completava a equipa. A única tristeza foi termos visto tão pouco tempo Laudrup, Elkjær e Simonsen juntos, por causa da lesão de Simonsen. Ver os três durante todo o torneio teria sido fascinante.

Michael Laudrup: "[A Danish Dynamite] foi a resposta da Europa ao Brasil"

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Treze dos 20 convocados jogavam na Dinamarca e na Bélgica. Eram ligas importantes na altura?
Sim. Acho que é fácil de esquecer a Bélgica, particularmente o Anderlecht, que era uma grande equipa. Agora fala-se nos Big Five, mas era mais aberto aí, alguns jogaram ou cresceram no Ajax. A liga dinamarquesa não era muito grande, a maioria que ainda estava lá era os guarda-redes e gente como Bertelsen, um herói discreto do meio-campo, mas acho que o facto de muitos dele jogarem fora foi muito importante, pois naquela altura não muitos países tinham transferências ou exportavam como a Dinamarca. Penso que Lerby e Arnesen foram para o Ajax com 17 anos, e eles aprenderam tanto provavelmente porque o futebol dinamarquês era muito amador. Ao estarem nestes ambientes profissionais aprenderam muito, misturando-se até com pessoas como Johan Cruijff, no Ajax. Mas a Bélgica era uma grande liga e aconteceu uma situação muito interessante: jogaram uns contra os outros num jogo decisivo da fase de grupos [do Euro 1984] e metade dos jogadores de ambas as equipas eram do Anderlecht, o que culminou quase em desacatos entre eles. Embora fossem colegas de equipa e gostassem uns dos outros, as expectativas eram muito grandes. É raro ver isso hoje em dia, os jogadores estão por todo o mundo.

Como era Sepp Piontek?
Ligeiramente assustador. Até agora, quando nos encontrámos com ele, foi um pouco assustador. É uma espécie de... bem, a palavra que os jogadores usavam com muito ênfase era "alemão", e não era só uma coisa literal. O caráter dele era tão diferente do caráter dos jogadores, que eram relaxados, mais amadores. Há muitas histórias no início quando ele tentou discipliná-los e eu penso que eles acabaram por se encontraram a meio caminho. Na verdade, Piontek tinha mais sentido de humor do que aparentava. E os jogadores alinharam até certa altura. No fim, quando tudo colapsou no México, sentiu-se que não tinha funcionado entre eles, mas penso que durante muito tempo a relação foi boa. A família de Elkjær, que era quase o rapaz problemático mas também uma espécie de preferido do treinador, ainda vai de férias com a de Piontek, creio.

Eles gostavam dele claramente, e davam resposta. Mas ele era duro. Não recebe muito crédito por ser um revolucionário tático, mas há coisas pequenas que acontecem hoje. Ele usava extremos com os pés trocados muitas vezes, ele jogava com três atrás sem laterais, depois podia usar quatro atrás. Ele era inteligente, muito confiante, muito bom com os media. Lembro-me quando eles ganharam a Inglaterra e havia um grande contraste: Bobby Robson estava nervoso, e foi atacado de maneira selvagem pela imprensa britânica, enquanto Piontek - estou certo de que estaria a fazer bluff até certa altura, acho que ele admitiu depois que estava, era um jogo de tudo ou nada - estava muito seguro e isso passou para os jogadores. Foi interessante. Quando ele foi escolhido, muitos jogadores pensaram que era impossível funcionar, porque eles tinham a perspetiva da cultura alemã e também pensaram que a Alemanha os via como amadores felizes. Foi um grande sucesso, moldar a equipa como ele fez. Ele nunca esteve completamente no poder porque, no México, a mentalidade humilde dos dinamarqueses surgiu fortemente. Eles não achavam que eram bons o suficiente para ganhar o Campeonato do Mundo, mas eram. Acho que o alemão fez um trabalho fantástico, ele manteve o suficiente da diversão e talento. Se fosse um ditador, não teriam jogado com tanta criatividade e liberdade. Ele tinha um caráter interessante.

Josef Emanuel Hubertus Piontek. Ou Sepp Piontek

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Peter Robinson - EMPICS

Enquanto escreviam o livro houve alguma coisa que realmente gostaram de aprender sobre a equipa ou algum jogador? Alguma história?
Foi tão divertido, em parte porque o fiz com Mike [Gibbons] e Lars [Eriksen], passei algum tempo com eles. A melhor coisa, que reforçou o amor por aquela equipa, foi o quão acessíveis foram todos. Não sei como é em Portugal, mas se tentasse fazer um livro destes em Inglaterra teria muitas dificuldades. Estivemos três horas com Piontek, num hotel estranho qualquer que parecia saído dos anos 70 [risos]. Foi bom conhecer o caráter de jogadores como Laudrup. Elkjær foi incrível. Mas outros também, como Ivan Nielsen, um central rápido e brilhante, que agora trabalha como canalizador. Ganhou a Taça dos Campeões Europeus com o PSV, era um dos melhores defesas do mundo, mas estava ali sentado, numa sexta-feira à tarde, com os seus baldes, sei lá, a beber uma cerveja e um cigarro pendurado na boca. Foram coisas que adorei, que adicionaram charme à história. Klaus Berggreen foi outro, um médio que corria muito, agora tem um negócio de moda. Ele foi brilhante, havia tantas histórias, algumas que nem pudemos publicar sobre os tempos na Serie A. Era gente muito gostável.

Como vês a seleção dinamarquesa hoje em dia? Quão longe estão da Danish Dynamite?
Não estão nem perto em termos de criatividade e talento, capacidade ofensiva, mas acho que são uma boa equipa. Não ficaria chocado se chegassem longe no torneio*. Os recentes desempenhos são bons, têm muita experiência, jogadores sólidos, como [Martin] Braithwaite, [Pierre] Højbjerg e Christian Eriksen*. É interessante: acho que a equipa de 1992, que obviamente ganhou aquilo, estava longe da qualidade da equipa dos anos 80, com algumas exceções. Essa equipa dos anos 80 fica sozinha, era uma equipa romântica. Esta seleção de hoje lembra-me mais a de 1992. São resilientes, inteligentes. Não estou a dizer que vão ganhar, mas não me chocaria, acho que é a melhor equipa que a Dinamarca teve provavelmente desde os anos 90.

* a conversa com Rob Smyth teve lugar antes do primeiro jogo da Dinamarca