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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Nota 10

Christian Eriksen é o número 10 e foi ao minuto 10 que o estádio parou e explodiu num aplauso, jogadores dos dois lados e adeptos, e só por isso o Dinamarca - Bélgica já merecia nota 10. Mas também foi um belo jogo de futebol, com uma 1.ª parte em que os da casa dominaram por completo os belgas e uma 2.ª em que a entrada de De Bruyne virou tudo do avesso. A Bélgica ganhou por 2-1 e está na próxima fase

Lídia Paralta Gomes

Jonathan Nackstrand - Pool/Getty

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Já aqui muito falámos do que aconteceu no último sábado, do bom e do mau, mas essencialmente ficaram-nos os bons momentos, porque Christian Eriksen está vivo, está connosco e os seus colegas e rivais deram várias lições daquilo que é a humanidade.

Esta quinta-feira, no regresso ao Parken, no regresso da Dinamarca ao relvado, não houve só humanidade como também um momento talvez só ao alcance dos mais civilizados, e por civilizados leia-se duas equipas que por um minuto esqueceram os seus objetivos particulares para se unirem em algo que é maior que todos eles, maior que o futebol - homenagear alguém que passou por uma das maiores provações, que lutou pela vida e agarrou-a.

Quando o relógio de jogo bateu os 10 minutos, o estádio parou, parou o futebol e aquele minuto foi para Christian Eriksen, que em condições normais ali estaria com a sua camisola 10. Todos, adeptos, árbitros e jogadores de ambas as equipas, uniram-se num aplauso, talvez Eriksen até o tenha ouvido, afinal o Rigshospitalet é mesmo ao lado do Parken.

Há coisas mais importantes que ganhar, de facto.

(*** lágrimas a serem enxaguadas***)

Até porque por essa altura a Bélgica até já perdia, depois da entrada a matar dos dinamarqueses, pressionantes, intensos, uma atitude que rapidamente deu os seus frutos.

E por frutos leia-se segundo golo mais rápido da história dos Europeus.

A bola entrou na baliza ao minuto 1.38 e, como podem imaginar, foi tudo muito rápido: o central Denayer tentou rasgar a linha para Tielmans, mas a bola acabou interceptada por Hojbjerg que deu logo para Poulsen entre os centrais. Com um remate forte, cruzado, o avançado do RB Leipzig bateu Courtois.

O golo era uma espécie de tiro antes do aviso. Na 1.ª parte, a Dinamarca praticamente não deixou a Bélgica ter bola, respirar, fazer visitas ao seu meio-campo. Foi como se estivessem a jogar com mais um - e se calhar estavam mesmo.

Ainda assim, apesar do perigo andar sempre a rondar a área belga, rarearam as oportunidades flagrantes. A única aconteceu aos 35', após um lance individual de Mikkel Damsgaard, grande talento dinamarquês para os próximos anos, a dançar na área antes de rematar em jeito. Saiu um pouco ao lado.

Após o intervalo, as coisas mudaram. E mudaram porque Roberto Martinez, percebendo que coletivamente as coisas não estavam a funcionar, apostou no talento. Kevin De Bruyne, ainda não a 100% fisicamente, saltou para o campo no regresso, pouco depois viriam Eden Hazard e Axel Witsel e em duas grandes jogadas aconteceu a reviravolta.

WOLFGANG RATTAY/Getty

Aos 54, Lukaku arrancou pela direita com aquela cavalgada que ninguém pára e deu para a entrada de De Bruyne. O médio do City, pressionado, cruzou para o coração da área, onde entrou de rompante Thorgan Hazard para o empate.

Era então a altura de maior preponderância da Bélgica, que aos 70’, em mais uma jogada brilhante, colocou-se em vantagem. Muito mais móvel que na 1.ª parte, Lukaku, a aparecer muito nas alas, voltou a ser decisivo, ao aguentar a bola na direita, arrastando defesas antes de encontrar Tielmans mais solto. Seguiram-se vários passes laterais de primeira, Tielmans para Eden Hazard que combinou com o irmão Thorgan até a bola chegar a um livre Kevin De Bruyne, que com um remate forte na passada voltou a bater Schmeichel. Grande jogada, tricotada por grandes jogadores.

Os últimos 20 minutos seriam de reação da Dinamarca, que até final não desistiu, sempre com um coletivo muito forte. Braithwaite esteve perto do empate aos 75’, num bom remate frontal, e aos 87’ enviou um cabeceamento ao ferro após um cruzamento de Mathias Jensen.

O sufoco da 1.ª parte voltaria para assombrar os belgas, mas o resultado não se alterou. Talvez os dinamarqueses, pelo grande jogo coletivo que fizeram, merecessem mais do que os zero pesados pontos que ostentam na classificação do Grupo B, mas o talento de De Bruyne, Eden Hazard e Lukaku não precisa de aparecer muitas vezes para decidir jogos, como este, que entre o futebol, a emoção e as demonstrações de solidariedade, foi dedicado a um 10 e foi mesmo nota 10.