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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

A genialidade de Gascoigne não aterrou em Wembley, só a chuva e um affaire à distância

Inglaterra e Escócia voltaram a encontrar-se em Wembley, tal como em 1996, para um jogo da fase de grupos de um Campeonato da Europa. Na altura, Shearer e Gascoigne arquitetaram o resultado, desta vez ficou 0-0. Os escoceses deixaram sinais animadores

Hugo Tavares da Silva

Chloe Knott - Danehouse

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Aquela chuvinha que caía quando alguém injetava os hinos nas veias dos orgulhosos britânicos prometia uma coisa a sério. A história entre Inglaterra e Escócia já vai longa, começou num relvado qualquer em 1872, e não se olhavam nos olhos num grande torneio desde 1996, numa tarde em que Gascoigne foi Gascoigne. Os velhos conhecidos empataram esta noite sem golos, um resultado que espetou mais sorrisos nos rostos dos escoceses.

A Escócia, que até abusara do futebol direto para Lyndon Dykes contra a República Checa (0-2), surgiu muito mais fina. Billy Gilmour, um rapaz do Chelsea, e Kieran Tierney, do Arsenal, ajudaram a dar esse passo em frente. O canhoto dos gunners jogou a central do lado esquerdo, pertinho de Andy Robertson, uma sociedade que deu bom resultado.

Os primeiros a criar perigo, em Wembley, foram os escoceses. John Stones meteu-se à frente da bola de Che Adams. Este arranque de jogo cheirava aqui e ali a meados dos anos 90, àquela Premier League menos chique, mais rude, de duelos, cabeças partidas, correrias e carrinhos. A chuva estava ali para alegrar a película.

A Inglaterra, que quase nunca se encontrou realmente durante o jogo ou então trouxe para o Europeu uma versão barata, teve aos 11 minutos o lance mais perigoso: Stones cabeceou uma bola ao poste, depois de um canto. O ambiente em Wembley, tal como em 1996, estava vivo.

Apesar de a Inglaterra estar melhor, ali a meio da primeira parte, havia demasiados sinais que denunciavam que algo não estava bem. Para começar, raramente encontravam Harry Kane, a grande figura da equipa. Depois, Raheem Sterling, Mason Mount e Phil Foden tinham pouca bola no corredor central, onde o veneno tem mais força. A Escócia ia fechando bem e até saía com qualidade, por vezes homenageando gerações de tempos idos que colocavam em prática o combination game ou o passing game, a semente para o divino futebol húngaro dos anos 50, assim como para o holandês e até para o catalão. É uma cascata de ideias que começou na Escócia: jogar curto, pela relva, para o colega com a mesma camisola. Inovador diante do agora mal-amado kick and rush.

Jordan Pickford foi gigante quando O’Donnell chutou forte e tentou a sorte. A Escócia estava efetivamente melhor, até porque parecia estar a conseguir desempenhar um plano. É assim que se reconhece a valentia e qualidade de certos jogadores e treinadores: ter menos recursos do que o rival e competir, ou até superiorizar-se. Era isso que estávamos a ver.

O intervalo chegou sem grandes sobressaltos e foi depois, no recomeço do jogo, que foi inaugurado um affaire escandaloso digno de registo. É algo muito próprio do futebol moderno. Um realizador escolhe a imagem de Jack Grealish no banco, a imagem aparece nos ecrãs do estádio e há uma reação. Futebolistas percebem, comentam algo com o elegante futebolista do Aston Villa, que sorri. Voltaria a acontecer, e haveria mais uma manifestação.

Andy Rain - Pool

O que é certo é que, para quem considerava que a Inglaterra estava a fazer um jogo pobre e enfadonho, faltava alguém como Grealish. Ou Sancho. Se o rival está confortável e bem organizado, faltam os geradores de caos, os que abrem espaços, seja com mobilidade seja com um drible que elimina o marcador e desmonta a estrutura alheia.

Talvez não por acaso, Grealish foi o primeiro a entrar. O jogo inglês implorava por criatividade. A surpresa, quem sabe, foi ter saído Phil Foden, o rapaz com o cabelo à Gascoigne que se ia apresentando a um nível razoável. Talvez mais surpreendente ainda tenha sido a mudança de Kane por Rashford, um jogador que não está assim tão talhado para jogar a 9 contra linhas defensivas que se posicionam mais atrás.

O jogo encaminhava-se para o fim, já mais dividido e com menos balizas, com exceção para um lance em que Dykes esteve perto de marcar. A glória foi-lhe roubada, isto se a bola ia na direção da baliza (é possível, muito), por Reece James, com um gesto karateca.

Matt Dunham - Pool

A Inglaterra continuava sem se encontrar. Grealish tentou algumas vezes pegar na bola e deixar desconfortáveis os que vestiam de escuro. A técnica é magistral, a ousadia, a elegância. É tudo bom, as meias dobradas lá em baixo, as caneleiras quase inexistentes. Enfim, à falta de golos, os olhos também comem. E o golo até quase chegou, perto do fim, depois de um momento estranho na área dos visitantes, com a bola a ficar presa na selva de corpos molhados (fotografia em cima).

O árbitro, que não ficou convencido com um lance em que Sterling pediu penálti de Robertson, apitou finalmente para o final da partida e os escoceses pareciam reagir a uma missão cumprida, havia sorrisos. Os ingleses parecem apáticos, sem aquela paixão de outros tempos a pressionar, é verdade que se calhar tinham indicações para não entrar demasiado no jogo da fisicalidade. Mas futebolisticamente, foi pobre e esperava-se mais.

A Inglaterra soma agora quatro pontos no Grupo D, os mesmos da República Checa, que empatou esta tarde com a Croácia (0-0). A Escócia, claro, ainda pode sonhar: tem um ponto à entrada para a última jornada. Nas outras duas participações, em 1992 e 1996, os escoceses não passaram da fase de grupos, com a então Holanda a ter uma grande responsabilidade. Mas esta equipa de Steve Clarke, antigo adjunto de José Mourinho no Chelsea, parece ter qualquer coisa.