Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

"Fiz o passe para o Gazza, ele dá aquele toque e parecia que estava em slow motion. Fez golo e depois a celebração, louca e divertida"

Darren Anderton, a viver na Califórnia, lembra à Tribuna Expresso o Inglaterra-Escócia do Euro 1996, contando alguns pormenores do golo de Paul Gascoigne e da celebração, a famosa dentist 's chair. As duas seleções voltam a encontrar-se esta noite (20h, SIC), na segunda jornada da fase de grupos do Campeonato da Europa

Hugo Tavares da Silva

Adam Butler - PA Images

Partilhar

A imprensa estava a morder como mordem as bestas com dentes hostis. O empate contra a Suíça de Artur Jorge, no arranque do Euro 1996, em casa, fez soar os alarmes. Alan Shearer, que marcou pela seleção ao fim de 21 meses, era o único que esboçava um sorriso no hotel. E, claro, não ganhando, jogando mal, a tão badalada noitada desvairada em Hong Kong voltou para cima da mesa. Terry Venables, o selecionador inglês, quis que os rapazes estivessem num ambiente diferente antes do torneio, por isso a federação agendou um estágio na China e Hong Kong (HK).

Mas subestimaram um dado relevante: calharia no aniversário de Paul Gascoigne.

Certa noite, em HK, os futebolistas ingleses tiveram autorização para uma noite à vontadinha, terá sido Gascoigne a pedir ao selecionador, os 29 anos estavam aí. David Seaman estava a meter-se janota quando deu conta de que ia passar na televisão uma final da FA Cup em que havia jogado, um Arsenal-Sheffield Wednesday. Deitou-se na cama para ver cinco minutos e adormeceu. David Platt, outro futebolista do Arsenal, era um dos capitães e aconselhou alguns jovens jogadores a não irem. “Ele sabia para onde soprava o vento”, diz à Tribuna Expresso Rob Smyth, um jornalista britânico que na altura ainda estava na universidade.

Aquele jogo contra a Escócia era decisivo, até porque, depois do empate com os helvéticos (1-1), viria a seguir a então Holanda de Bergkamp, Seedorf e Kluivert. Britânicos de um lado, britânicos do outro. David Seaman, Gary Neville, Tony Adams, Gareth Southgate, Stuart Pearce, Paul Ince, Paul Gascoigne, Steve McManaman, Darren Anderton, Alan Shearer e Teddy Sheringham contra Andy Goram, Stewart McKimmie, Tom Boyd, Colin Calderwood, Colin Hendry, Tosh McKinlay, Gary McAllister, John Collins, Stuart McCall, John Spencer e Gordon Durie.

O jogo foi nervoso, havia muita pressão. Depois de algumas oportunidades para cada lado, tímidas, apesar de um cacau fortíssimo de Gary McAllister, de livre, à figura de Seaman, o golo de Alan Shearer chegou finalmente (53’). O cruzamento veio da direita, foi uma bolinha linda, linda como qualquer pôr do sol num lugar distante, de Gary Neville. Embriagado de felicidade, o número 9 correu como corria sempre, com o braço direito no ar e o sorriso de homem realizado.

Perto do minuto 80, o árbitro apitou penálti de Tony Adams e os ingleses experienciaram um déjà vu, pois fora assim que se deixaram empatar com a Suíça, com um penálti aos 83’. McAllister voltou a bater com força, tal como no livre direto, e Seaman voou, defendendo a bola. Wembley, como se fosse uma pessoa, respirou fundo. Logo a seguir, para o fôlego escapar-se novamente, aconteceu um dos momentos mágicos da história dos Campeonatos da Europa.

Bola longa do guarda-redes do Arsenal e Sheringham, já depois do meio-campo, recebe com qualidade e toca para Darren Anderton na esquerda, que faz um passe de primeira maravilhoso para o genial número 8. Gazza dança como quem vai chutar, dá um toque por cima de Colin Hendry com a canhota e bate para as redes com o pé direito. Wembley celebrou o chapéu de Gascoigne ao defesa escocês e depois foi abaixo. Foi um golaço.

“Eu consegui ver o passe porque estou a ver o outro jogador e vejo o Gazza a fazer a corrida”, começa a contar à Tribuna Expresso Darren Anderton, um futebolista que na altura jogava no Tottenham. "Por isso implorei ao Teddy [Sheringham]: ‘Teddy, Teddy, passa, passa’. Claro que o Teddy fez o que estava certo e passou-me a bola, e eu consegui fazer o passe para o Gazza... e depois, of course, a magia dele. Eu estava a pensar ‘chuta, chuta, chuta’ [risos], mas, claro, ele dá aquele toque e parecia que estava em slow motion. Quando a bola desce, sim, é agora, isto é golo. Depois, o Gazza faz o golo e a celebração, que é louca e divertida.”

E a vida daquela equipa mudou.

“O golo veio quase imediatamente depois da defesa do penálti”, lembra Rob Smyth. “Foi quase como se a Inglaterra tivesse marcado duas vezes. Parecia que ia ser 1-1 e, num minuto, estava 2-0. Foi incrível. Eles precisavam de ganhar. Se empatassem com a Escócia, ficariam muito vulneráveis. O golo é tão famoso neste país, pelo brilhantismo mas também pela celebração, baseada em todos os problemas antes do torneio.”

E continua: “É interessante o contexto. Gazza fez um jogo muito mau contra a Suíça, não parecia estar em forma, foi substituído, e uma boa parte da imprensa dizia que ele devia sair da equipa. Foi o típico momento de Gascoigne, a carreira dele está cheia de altos e baixos. Não foi o seu último grande momento, pois ele jogou muito bem contra a Holanda depois, assim como na qualificação para o Mundial de 1998, mas foi o último grande momento à Gascoigne, diria".

Darren Anderton, então com 24 anos, fala em descompressão. “Sentimos tanto alívio, sabes, libertámos tanta energia. Foi imenso. Disseram-nos que éramos maus, mas claro que o Gazza sofria mais, porque era o jogador mais famoso do mundo provavelmente. Ou era tão bom, ou era tão mau. Depois, ele faz o golo genial e toda a gente lembra-se. Ele estava a jogar na Escócia, no Rangers, fez o golo contra os companheiros de equipa. Foi tudo o que devia ter acontecido.”

Se o golo é um daqueles míticos do futebol europeu, a celebração não lhe fica atrás. Depois de meter a bola dentro da baliza escocesa, Gascoigne deitou-se na relva, abriu a boca e esperou que os companheiros lhe despejassem água na boca dele. Ou seja, como se fosse uma garrafa de rum, vodka ou outra coisa qualquer. Era uma referência àquela noite de Hong Kong, a famosa dentist 's chair. A cadeira do dentista.

Neil Munns - PA Images

“Não me lembro de muita coisa [gargalhada], foi muito louco”, conta Anderton. “Foi só uma noite normal, estava calma até, bebemos umas cervejas, jantámos, depois tivemos autorização para ir sair à noite, foram alguns jogadores e alguns membros do staff. Depois, à meia-noite, ia ser o aniversário do Gazza e acho que foi quando começou [risos]. Foram muitas bebidas tontas e depois alguém viu uma cadeira parva no meio da pista de dança e foi assim.”

As imagens de futebolistas embriagados e com as camisolas rasgadas chegaram ao Reino Unido e fizeram primeiras páginas. A reputação da seleção estava arruinada. “Olhem para o Gazza, um bêbado sem orgulho”, escreveu o “The Sun”.

Darren, porque os futebolistas têm sempre outros olhos, vê outra coisa. “Estávamos só a criar espírito de equipa, sabes. É bom sair. Eu não conhecia todos os jogadores assim tão bem como conheço os meus colegas de equipa. Foi bom, é o que precisas, e é claro que a imprensa levou aquilo da maneira errada porque jogámos tão mal no primeiro jogo. É natural, percebemos, como futebolistas ingleses, que isso ia acontecer. Tínhamos um treinador que era tão inteligente, esperto, e que disse: ‘Ok, ok, sem problema, nós lidamos com isto. Não podemos ir para mais noitadas, não fazem isto e aquilo, mas lidaremos com isto no estágio, ficamos juntos, ninguém dá entrevistas sobre isso. Estamos concentrados no próximo jogo’. E foi assim que criámos um espírito de equipa tão incrível. Isso é tão, tão importante em qualquer equipa.”

Smyth contextualiza: "O futebol inglês estava a tornar-se mais profissional, mas ainda havia uma grande cultura de beber e o espírito de equipa estava associado a isso. Sabendo que trouxe muita confusão até no avião de regresso, em que Gazza partiu umas quantas televisões e que alguém o esmurrou na cara enquanto dormia, como uma partida, acho que foi Alan Shearer, não sei se já foi confirmado, Gascoigne estava bebado e estava meio descontrolado... até correu bem no fim, porque mostraram, com aquela celebração, que a equipa era muito forte. Foi uma coisa muito inglesa, era parte da cultura. Arsène Wenger chegou uns meses depois e começou a mudar as coisas. Uma nova geração estava a aparecer, como os irmãos Neville, que eram mais responsáveis. Mas, sim, era uma grande parte da construção de uma equipa, acho que até correu bem nesse sentido, por mais estranho que pareça".

A seguir, na derradeira jornada do Grupo A, a Inglaterra goleou a Holanda (4-1), com golos em dose dupla de Shearer e Sheringham. Nos “quartos” bateram a Espanha de Hierro, Kiko e Zubizarreta nos penáltis depois de um zero-zero.

Na semi-final esperava-lhes um clássico do futebol europeu: Inglaterra-Alemanha. Darren Anderton diz que até jogaram bem, como com a Holanda, mas que faltaram mais golos. Só houve dois, um para Alan Shearer e outro para Stefan Kuntz (1-1). Depois do prolongamento, em que o golo de ouro escapou a Anderton com uma bola ao poste, assim como a Gascoigne, que chegou tarde ao segundo poste por milímetros, foi necessário recorrer novamente aos penáltis. Desta vez, tal como nas “meias” do Itália 90, pingou para os outros (5-6).

Só falhou Gareth Southgate, o atual selecionador inglês.

Neil Munns - PA Images

Os ingleses, a quem escapa um troféu importante desde 1966, sonharam como haviam sonhado em 1990, mas voltaram a não ser felizes. Mas naquele 15 de junho de 1996, um sábado em que até o sol quis testemunhar o milagre de um futebolista errante, celebrou-se uma espécie de dia sagrado. Foi o dia em que Gascoigne foi mais Gascoigne do que nunca.

Quem era este homem? “Era alguém que nunca cresceu, como futebolista e pessoa, para o bem e para o mau”, reflete Rob Smyth, um jornalista que escreve para publicações como “The Guardian”, “Four Four Two” e “The Telegraph”. “Ele manteve aquele otimismo inocente como jogador que lhe permitiu fazer coisas como aquele golo à Escócia. Ainda é o jogador inglês mais excitante que vi, não o melhor, mas o mais excitante. Diria que é mais por 1990, mas 1996 é uma parte disso. Eternamente jovem, dentro e fora do campo, para o bom e para o mau.”

E acrescenta: “Ele era muito imprudente, fazia coisas que não perdoarias a outra pessoa. Não acho que ele poderia ter sido salvo, se é a palavra certa, ele era tão vulnerável psicologicamente. Aconteceram algumas coisas, como um amigo que morreu quando eram jovens, acho que foi atropelado. As pessoas costumam dizer que se tivesse assinado pelo Manchester United e estado com Alex Ferguson as coisas teriam sido diferentes. Não acho que seria assim, ele era tão frágil mentalmente... Em 1990, mas também 1996, ele viveu aquilo como se não fosse a vida real, foi uma forma de escapar de todos os problemas que tinha. Foi por isso que quando jogava bem, ele era tão brilhante, [o relvado] era o seu lugar feliz”.

Esta noite há Inglaterra-Escócia, às 20h (SIC e SportTV), em Wembley.