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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

Seleções herdeiras de outras, nomes que mudam… ou de como o futebol acompanha a História

República Checa e Croácia defrontam-se na segunda jornada do Grupo D. São seleções recentes, herdeiras (uma oficial, outra não, mas já lá vamos) das antigas Checoslováquia e Jugoslávia. Ocasião para ver como a política e a guerra afetaram os campeonatos europeus de futebol em décadas recentes. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

Pedro Cordeiro

Cartaz de um jogo que não se repetirá: checoslovacos e jugoslavos defrontaram-se em 1963 num amigável em Zagreb, hoje capital da Croácia. Ganharam os da casa por 2-0

DR

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Esta sexta-feira defrontam-se em Glasgow, às 17h, duas das seleções mais jovens do Velho Continente. Poderíamos não ficar a sabê-lo olhando para os registos oficiais, já que a Croácia surge como filiada na UEFA desde 1993, ao passo que a República Checa aparece como uma das fundadoras da confederação europeia, em 1954. Mas isso é enganador.

A atual República Checa nasceu enquanto país a 1 de janeiro de 1993, do “divórcio” pacífico com a Eslováquia. Até então eram a Checoslováquia, nascida dos escombros do Império Austro-Húngaro em 1918, após a I Guerra Mundial. Já a Croácia é um de sete estados soberanos “filhos” da antiga Jugoslávia — com a Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Kosovo (este com reconhecimento internacional limitado) e Macedónia do Norte —, de parto bem mais doloroso e arrastado, que incluiu guerra civil e genocídio.

Enquanto croatas e eslovacos são considerados membros da UEFA e da FIFA desde os anos 90, à semelhança dos eslovenos, bósnios e macedónios (montenegrinos e kosovares aderiram na década seguinte), às seleções sérvia e checa é reconhecido o estatuto de “herdeiras” dos países de cuja dissolução resultaram. E assim a sua data oficial de entrada no organismo que regula o futebol europeu é um ano em que não existiam sequer enquanto país. Outro tal caso é a Rússia, uma de 15 nações em que se desmembrou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). De longe a maior e dominante, ficou-lhe por isso com o legado.

A República Checa moderna é formada em larga medida pela Boémia (região que retém o nome do antigo reino medieval visto como berço do país), a Morávia e a pequena Silésia checa (a maior parte do território silesiano fica na Polónia). Ora, a Boémia teve a sua própria seleção de futebol no início do século XX. Disputou seis amigáveis entre 1906 e 1908, cinco deles com a Hungria, ora em Budapeste, ora em Praga (1-1, 4-4, 2-5, 5-3, 2-5) e um com a Inglaterra em Praga (0-4). Da primeira vez que o país jogou com o nome Checoslováquia, foi com a Jugoslávia, “mãe” da Croácia que esta tarde terá pela frente, e a quem espetou sete secos.

Se as seleções representam países, mudanças no desenho do mundo afetam o futebol. É normal que muitos leitores se lembrem de competições em que havia duas Alemanhas, mas quem recorda dois Iémenes? E os onzes do Sarre, Tanganica, Vietname do Sul ou República Árabe Unida? Esta última juntava o Egito e a Síria, imagine-se!

Caiu um Muro e depois…

Há 30 anos a Europa conheceu convulsões que alteraram as suas fronteiras internas, com o fim da URSS, da Checoslováquia e da Jugoslávia, consequências da queda do Muro de Berlim em 1989. No desporto-rei isso refletiu-se no Europeu de 1992, disputado na Suécia e o último com apenas oito seleções na fase final (e também o derradeiro sem Portugal, já agora). Os soviéticos ainda se qualificaram em nome próprio, mas o país acabou no dia de Natal de 1991.

A Itália ainda foi designada putativa suplente caso o tumulto político impedisse a participação da ex-URSS, mas lá se arranjou forma. Na fase final a seleção chamou-se Comunidade de Estados Independentes, nome anódino de uma organização em que participam algumas das 15 repúblicas (as bálticas Estónia, Letónia e Lituânia não aderiram, o Turquemenistão e a Ucrânia foram fundadores mas não ratificaram o acordo constituinte, a Geórgia saiu em 2008). A nova equipa tinha por hino um trecho da Nona Sinfonia de Beethoven, à semelhança da União Europeia. Após o Euro 92, em que foi eliminada na fase de grupos, deixou de existir, substituída por 15 novas seleções distribuídas entre Europa e Ásia.

A seleção da Checoslováquia que se tornaria campeã europeia em 1976

A seleção da Checoslováquia que se tornaria campeã europeia em 1976

Peter Robinson - EMPICS/Getty

Os checoslovacos não se qualificaram para esse torneio. Os jugoslavos sim, mas acabaram por não participar, dois anos depois de terem impressionado no Mundial Itália 90 (isto apesar de já então haver adeptos croatas a apupar a equipa nacional, desejosos de independentizar-se). Em 1992 o país estava estilhaçado e imerso numa horrenda guerra que, na Bósnia, não terminaria até meio da década. O caráter nacionalista, religioso e étnico do conflito tornava impensável uma seleção comum. Dez dias antes do início do campeonato em solo sueco, a Dinamarca era chamada a tomar a vaga dos jugoslavos. Acabaria campeã europeia!

Banidos os jugoslavos também do Mundial de 1994 nos Estados Unidos, checos e eslovacos encetaram a qualificação unidos, e separaram-se pelo meio. A Checoslováquia passou a chamar-se Representação de Checos e Eslovacos. Mas não conseguiu o apuramento.

Que há num nome?

Só na qualificação para o de 1998 (a disputar em França) passaria a haver seleções da República Checa e da Eslováquia. A primeira foi ao Mundial de 2006, a segunda ao de 2010, caindo ambas na fase de grupos. Em europeus, os checos estrearam-se como vice-campeões em 1996 e foram semifinalistas em 2004. Eslovacos foram aos oitavos-de-final em 2016.

Também nos preliminares de 1998 surgiram Eslovénia, Croácia, Bósnia, Macedónia, a quem disputas com a Grécia obrigavam a chamar Antiga República Jugoslava da Macedónia, hoje Macedónia do Norte. Também jogou a República Federal da Jugoslávia, resquício onde cabiam Sérvia, ainda com Kosovo dentro, e Montenegro. Foi já no século XXI que sérvios, kosovares e montenegrinos ganharam seleções próprias. Os dois últimos nunca foram a uma fase final.

As variações de nomes podem confundir o espectador. A seleção que designavam por Jugoslávia vinha de um país que foi, sucessivamente, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (1920-29), Reino da Jugoslávia (1929-41), República Federal Popular da Jugoslávia (1946-63), República Federal Socialista da Jugoslávia (1963-92) e República Federal da Jugoslávia (1994-2002).

Apesar de ser a Sérvia a herdeira do palmarés do país extinto — que regista dois quartos lugares em mundiais (1930 e 1962) e dois segundos e um quarto em europeus (1960, 1968, 1976, este a jogar em casa) —, é da Croácia a melhor prestação entre estas seleções. Foi terceira no mundial francês em que se estreou e finalista vencida no da Rússia em 2018. Já a Sérvia, Bósnia e Eslovénia foram sempre, até agora, eliminadas nas fases de grupos.

Para o desafio deste dia 18 de junho, os checos partem em vantagem. Ganharam aos escoceses no primeiro jogo (2-0), ao passo que os croatas perderam (0-1) para os ingleses. Resta uma dúvida, neste texto tão pejado de mudanças de nome: se a Holanda conseguiu pôr toda a gente a chamar-lhe Países Baixos desde 2019, porque é que quase ninguém ligou à República Checa quando, em 2013, pediu para ser tratada por Chéquia? Voltemos aos clássicos para rematar, e à doce adolescente de Shakespeare que nunca foi a bola mas suspirava, à varanda, para o seu amado: “Que há num nome?” Tanto, Julieta, se tu soubesses…