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Euro 2020 - descrição

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Euro 2020

A questão do 9 em Espanha, um debate que não é novo (mas é irresistível)

Luis Enrique já avisou: "Morata e mais dez" esta noite contra a Polónia de Paulo Sousa (20h, SportTV1). Apesar disso, país e imprensa discutem o posto de artilheiro da La Roja: Álvaro Morata ou Gerard Moreno? Ou os dois?

Hugo Tavares da Silva

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Os espanhóis não tiveram direito a tentar estar na final four da primeira Taça das Nações Europeias, ou Europeu hoje em dia, graças aos temores ideológicos de Francisco Franco. O último rival da qualificação e o território que o ditador não quis que os seus compatriotas pisassem era a União Soviética, que acabaria por vencer o primeiro Campeonato da Europa da história.

Quatro anos depois, Franco cedeu e autorizou a rapaziada que jogava balompié a almejar engordar o nacionalismo. Nas eliminatórias ficaram para trás Roménia, Irlanda do Norte e República da Irlanda. Nas meias-finais, já na fase final do torneio, os espanhóis eliminaram a poderosa Hungria que já não era tão poderosa como nos anos 50, e que contava com Lajos Baróti, que treinaria o Benfica no início dos anos 80. Na final, diante dos campeões em título, os soviéticos, vislumbrou-se a primeira grande frente de ataque espanhola: Jesús María Pereda, Marcelino Martínez e, claro, o mago Luis Suárez, o senhor Bola de Ouro de 1960. A final terminou 2-1 e quis o destino que o primeiro herói do futebol espanhol vestisse a camisola 9. Marcelino, um futebolista do Zaragoza, assinou o golo decisivo a seis minutos do fim.

É o número 9 da seleção que nos traz aqui.

Depois do empate sem golos diante da Suécia, apesar da boa exibição, principalmente na primeira parte, os alarmes soaram no território espanhol. Álvaro Morata está debaixo do holofote - a "Marca" diz que já não é só um avançado, é um "referendo", uma "sondagem", um "costume tradicional" -, sobretudo por duas oportunidades importantes perdidas. A teimosia ou acerto de Luis Enrique serão também colocados à prova. A situação fica mais complicada, perante a opinião pública ou a feroz imprensa espanhola, porque o selecionador deixa no banco Gerard Moreno, o avançado do Villarreal que fez uma belíssima temporada, culminada com a vitória na Liga Europa. Neste torneio, Gerard guarda o 9 na traseira da camisola.

Conhecedor do sensível orgulho dos avançados, principalmente quando feridos de morte, Luis Enrique deixou um aviso na véspera do Espanha-Polónia (hoje, 20h, SportTV1): “Vão jogar Morata mais dez”.

Na quarta-feira, Gerard Moreno, tido como um futebolista normal, discreto, mostrou um pouco quem é e defendeu o companheiro de ofício: “Não gosto dos assobios [a Morata]. Temos que estar unidos. Equipa e afición”. Apesar deste sinal importante no grupo, o debate fora dele é implacável: Morata ou Gerard Moreno?

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“Tem sido o grande debate da seleção, mas isto não é novo”, começa a dizer à Tribuna Expresso Francisco Cabezas, jornalista do “El Mundo”. “Para a afición, Morata foi sempre, entre aspas, um futebolista suspeito, a quem sempre acusaram de não ser eficaz à frente da baliza. Para mim, o problema de Espanha não tem nada a ver com Morata, mas acabas por ter de arranjar sempre una cabeza de turco [um bode expiatório] quando as coisas não funcionam bem.”

O que falta, então? “O primeiro problema que vejo é ser uma seleção que, comparada com os outros anos, tem falta de qualidade. Quando fazes uma comparação com o resto das favoritas que estão no Europeu, vês que são futebolistas que estão possivelmente um degrau abaixo das grandes estrelas”, explica Cabezas.

Para Pedro Barata, antigo jornalista da “Marca” e comentador da Rádio Euro na RTP Play, trata-se de uma herança. “O debate à volta do 9 da seleção espanhola é antigo e já vem mesmo desde a época dourada. A Espanha foi para o Euro 2008, a primeira conquista daquele período, com dois daqueles que provavelmente eram ou que estavam entre os cinco melhores pontas de lança da competição, David Villa e Fernando Torres, e acaba esse ciclo já com o falso 9, por um lado por uma questão estilística, mas também devido à queda de nível entre as opções para a posição de ponta de lança”, diz.

E continua: “Morata é um jogador sempre olhado com muita desconfiança em Espanha. É um avançado com muita propensão a falhar oportunidades, com um rácio de eficácia muito baixo. É alguém que, por exemplo, nunca resolveu os problemas relacionados com o fora de jogo, é muito precipitado nas suas desmarcações. Mesmo mentalmente, é alguém que se vê muito afetado pelos seus erros, parece sempre jogar com uma espécie de raiva interior e que, quando tem tempo para finalizar, finaliza pior. Se há algo evidente na carreira dele é que, quando Morata tem tempo para pensar o remate e a oportunidade, acaba por pensar demasiado e errar. E quando remata mais por instinto, é muitas vezes quando finaliza melhor. Isso viu-se no Espanha-Suécia.”

Já sabemos que o papel dos avançados vai muito para lá do que fazem à frente da baliza, mas hoje olhemos para a pólvora, a semente do debate na La Roja. Álvaro Morata, de 28 anos, fez 20 golos esta época (11 na Serie A e seis na Champions) com a camisola da Juventus, um clube onde vai continuar na próxima época. Já Gerard Moreno, de 29 anos, celebrou 30 golos (23 na La Liga, tantos como Karim Benzema, só atrás de Leo Messi, com 30).

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Francisco Cabezas faz o diagnóstico: “Este clima bélico que há na imprensa nunca favorece a Espanha. O nível de crítica em redor da seleção espanhola é sempre, sempre, sempre muito alto. Creio que isso, desta vez, tem muito que ver com a presença de Luis Enrique. É um treinador que nunca se casou com a imprensa. Tem uma personalidade muito forte, tem umas ideias e essas ideias nunca se movem, por muito que a imprensa o intimide. Há um sector da imprensa que o tem na mira porque não convocou nenhum futebolista do Real Madrid, porque não convocou o capitão, Sergio Ramos.”

Este jornalista espanhol vislumbra em Gerard Moreno um futebolista que “possivelmente mereceria um espaço nesta equipa”, mas preferia que acompanhasse Morata, em vez de o substituir. “Em qualquer caso, a vitória contra a Polónia é indispensável para que este clima de pré-crise não aumente mais.”

Mas, que tipo de jogador é Gerard Moreno?

“Sempre foi visto como um dos bons avançados da La Liga”, reflete Pedro Barata, que defende que Espanha tem tido problemas em inventar avançados de elite. “É um jogador com muita técnica, muito boa leitura de jogo, explodiu, entre aspas, recentemente. Este ano foi o melhor marcador espanhol da temporada, fez uma época de luxo no Villarreal. Mas há uma questão tática: no Villarreal, Gerard Moreno joga muitas vezes com Paco Alcácer, um 9, um homem de um toque na área, e ele atua como uma espécie de segundo avançado, partindo da direita para o meio", explica, com base nos hábitos que o avançado traz do seu clube.

E Luis Enrique, prossegue, "não tem visto Gerard Moreno nem como 9, na posição de Morata, nem nesta dinâmica do Villarreal, porque quer ter pela direita um jogador como Ferrán Torres". Uma curiosidade deste segundo jogo da Espanha é se o treinador vai mudar algo na frente do ataque da equipa: "Esta Espanha precisa muito de quem lhe dê facilidade em chegar ao golo, a equipa precisa de muitas coisas para marcar, e precisa de quem lhe dê atalhos para que essas muitas coisas se reduzam. Gerard Moreno seria um desses jogadores, sobretudo pelo grande momento de forma em que chega.”

Esta noite encontram-se duas seleções em apuros, já que a Polónia de Paulo Sousa perdeu na estreia com a surpreendente Eslováquia (1-2). A Suécia vai liderando o Grupo E, com quatro pontos, depois da vitória de quinta-feira contra os eslovacos (1-0).