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Euro 2020

João Vieira Pinto contra o mundo (e outras frustrações semelhantes)

Dezembro de 1996: durante sete segundos JVP foi um dos melhores jogadores de todos os tempos; um segundo depois, foi mais um brilhante jogador português que não chegou onde provavelmente devia ter chegado. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

Pedro Candeias

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Então, o jogo, as equipas e o contexto são os seguintes: Portugal 0-0 Alemanha. Vítor Baía; Carlos Secretário, Hélder, Fernando Couto e Dimas; Oceano e Paulinho Santos; Figo, Rui Costa e Rui Barros; João Vieira Pinto. Köpke; Kohler, Sammer e Babbel; Reuter, Eists e Ziege; Basler, Möller; Bobic e Klinsmann.

No velhinho estádio da Luz, as duas equipas mais fortes do Grupo 9 de qualificação para o Mundial de 1998 encontraram-se em pleno inverno, depois de um verão em que as coisas não tinham corrido assim tão mal de um lado (Portugal) e particularmente bem do outro (Alemanha) no Euro96: a Seleção caíra nos quartos de final diante da República Checa que viria a ser derrotada pela Mannschaft na final.

Ora, nesta altura ainda éramos legitimamente conhecidos como os campeões dos campeões de um jogo alternativo chamado “futebol sem balizas”, expressão que carece de explicação sumária: muita criatividade, pouca eficácia. O onze escolhido por Artur Jorge naquela noite de dezembro é, aliás, bastante elucidativo na medida em que o avançado centro foi João Vieira Pinto e atrás de si estiveram Rui Barros, Rui Costa e Figo; num exercício de meinho, dificilmente algum deles iria parar ao meio.

Portugal terminaria a campanha falhada em terceiro lugar, com cinco vitórias, quatro empates e uma derrota, 12 golos marcados (oito deles à Arménia e Albânia) e quatro sofridos. Para esta frustração também contribuiria o cartão vermelho de Marc Batta a Rui Costa em Berlim (1997, 1-1), mas na verdade a qualificação perdeu-se logo no arranque, no 0-0 com a Arménia e no 1-2 com a Ucrânia. Os dois empates com a Alemanha resultaram, até, no melhorzito que a Seleção fez durante a viagem interrompida.

Isso não significa que não tivesse tentado – e aqui entra uma das mais míticas jogadas do nosso futebol.

Voltando à Luz e a dezembro de 1996: durante sete segundos João Vieira Pinto foi um dos melhores jogadores de todos os tempos; um segundo depois, foi mais um brilhante jogador português que não chegou onde provavelmente devia ter chegado.

Sempre em progressão, o pequeno avançado driblou quatro possantes alemães que caíram fulminados no chão por balas imaginárias, abrindo-se o espaço para um remate que teria de resultar em golo se a justiça divina tivesse baixado em Lisboa. Agnosticamente, Köpke defendeu o tiro e o lance de JVP entrou para a galeria de golos que deviam ter acontecido, só que não.

Mas João Vieira Pinto que não se lamente: está ao lado de outros que, como ele, sentiram a glória escapar-lhes por caprichos ou pela inclemente Física.

Por exemplo, o lendário Pelé, que no Mundial de 1970 enganou o guarda-redes uruguaio Mazurkiewicz com ginga brasileira e a seguir chutou ao lado.

Ou Lucas Moura, então no PSG, que disparou desde o meio-campo defensivo até ao ataque, sempre em linha reta, sem desvios, e picou a bola sobre o guarda-redes do Marselha Mandanda - até ver a jogada cortada subtilmente por Fanni.

E também Cristiano, no célebre não-golo à Espanha porque Nani decidiu intrometer-se na História quando esta estava mesmo a ser escrita. O mais extraordinário é como a amizade entre ambos resistiu ao desgosto do CR7.

No final, deixo-vos o slalom clássico "Bruns contra o mundo", um dos preferidos dos internautas e viajantes do YouTube. Bruns, médio defensivo, cortou um lance junto à linha de fundo e começou a correr, beneficiando de um ressalto e depois de um túnel involuntário, continuou a correr, tabelou com um colega e chutou para a eternidade - mas a bola bateu nos dois postes.