Tribuna Expresso

Perfil

Euro 2020 - descrição

Euro 2020 - descrição

Euro 2020

Paulo Sousa está sob pressão, mas tem Boniek e um vídeo do seu lado. Polónia só ganhou por uma vez a Espanha

As críticas ao treinador português já se faziam sentir, mas subiram de tom após a derrota no primeiro jogo no Europeu, frente à Eslováquia. Há sinais de tensão no grupo de trabalho polaco, que inclui Lewandowski, melhor jogador do Mundo para a FIFA em 2020. A redação do Expresso conta-lhe uma história por grupo, todos os dias

João Pedro Barros

O treinador da seleção da Polónia, Paulo Sousa, numa sessão de treino na Arena Gdansk, a 15 de junho de 2021

MARCIN GADOMSKI

Partilhar

O céu parece prestes a cair em cima da cabeça de Paulo Sousa e, para se redimir, o treinador tem apenas um caminho: fazer com que a sua Polónia vença (ou pelo menos empate) frente a Espanha (sábado, 20h, Sport TV 1), em Sevilha. Após a derrota no jogo inaugural frente à Eslováquia (1-2), um segundo desaire significaria a eliminação automática do Euro 2020. Adeptos e comentadores no país de leste pedem mesmo a cabeça do treinador, que, aliás, entrou já contestado na competição.

Não será propriamente fácil ser estrangeiro e treinador da Polónia, porque nos últimos 65 anos apenas há outro nome na lista: Leo Beenhakker, holandês que conquistou vários títulos no comando do Real Madrid nos anos 80 mas que terminou despedido após falhar o apuramento para o Mundial 2010. Em relação a Sousa, as críticas chegam, por exemplo, do ex-internacional Henryk Wawrowski, atualmente vice-presidente da associação de futebol da Pomerânia Ocidental.

“Quando se começou a ventilar o nome dele, escrevi que poderia ser o segundo Sá Pinto, antigo treinador do Legia [entrou na equipa de Varsóvia já com a época 2018/19 em andamento e ficou no 2.º lugar na Liga polaca, com os mesmos pontos do campeão Lechia Gdańsk]. (...) Contratar um treinador estrangeiro com todo o seu staff é algo errado. É uma mentalidade diferente. Ele traz a sua equipa e agora vai dizer ‘desculpem, mas não resultou’ e pedir uma indenização”, afirmou Wawrowski ao Interia Sport. O salário do português – que a imprensa polaca diz ser o mais alto jamais pago a um selecionador – foi mesmo tema de discussão no país.

Paulo Sousa na chegada ao hotel em Sevilha, esta sexta-feira

Paulo Sousa na chegada ao hotel em Sevilha, esta sexta-feira

Adam Warzawa

A Polónia não tem uma equipa qualquer. Aliás, conta até com o jogador do ano da FIFA, o avançado Robert Lewandowski, do Bayern de Munique, mas isso não tem significado vida fácil para Paulo Sousa: em seis jogos no cargo, apenas conseguiu uma vitória, frente à modesta Andorra (3-0). É certo que o apuramento para o Mundial 2022 continua a ser possível – um empate na Hungria e uma derrota tangencial em Inglaterra (2-1) podem ser considerados resultados normais –, mas exibições pouco convincentes retiraram margem de manobra à equipa técnica.

Antes do Europeu, houve dois infortúnios: as lesões de Milik e Piątek, possíveis parceiros de ataque de Lewandowski. Depois, no 1-2 frente à Eslováquia (teoricamente o rival mais fraco no grupo E do Europeu), o guarda-redes Szczęsny marcou na própria baliza e o médio Krychowiak foi expulso após uma falta infantil, quando já tinha um amarelo.

O treinador avisou

Parece que um mal nunca vem só, mas Sousa recebeu na quinta-feira um voto de confiança do presidente da federação polaca. A antiga lenda Boniek – possivelmente o melhor jogador de todos os tempos do país – apostou nele em janeiro para quebrar uma tradição conservadora no banco da seleção e falou da “falta de sorte” que tem tido um “treinador muito inteligente”: “Quer nos classifiquemos ou não [para os oitavos de final], Paulo Sousa continuará a ser o selecionador. Não o vou despedir. Gostaria que houvesse na Polónia 10 ou 15 treinadores com a sua mentalidade e criatividade (...) A minha avaliação global é positiva", revelou, em declarações citadas pelo jornal espanhol “Marca”.

A federação polaca parece ter dado outro sinal significativo de apoio ao seu líder técnico, ainda que uma forma mais subtil. Num vídeo divulgado no YouTube sobre a preparação do jogo frente à Eslováquia, encontram-se excertos de uma palestra em que Paulo Sousa alerta precisamente para os dois momentos que permitiram os golos do adversário: fala da rapidez do lateral esquerdo Robert Mak – que construiria o lance que terminaria com o autogolo de Szczęsny –- e do perigo nas bolas paradas, nomeadamente por parte do defesa Skriniar, do Inter de Milão, autor do 1-2 final.

Foi precisamente após o segundo golo da Eslováquia que Lewandowski abriu os braços para os companheiros de equipa, um gesto que não passou despercebido. Já no dia seguinte, Krychowiak – que ficará de fora frente a Espanha, por ter sido expulso – assumiu responsabilidades e fez uma profissão de fé um pouco envergonhada, em declarações recolhidas pelo “Mundo Deportivo”: “Dormi mal, mas para muitos também foi uma noite difícil. Agora não espero que ninguém acredite em nós. Talvez ninguém acredite que sejamos capazes de ser bem sucedidos, mas o mais importante é que essa crença deve estar na equipa”.

Fazer o que só uma vez foi feito

A olhar ao histórico, o antigo treinador de Basileia, Fiorentina e Bordéus, entre outros, terá pela frente uma partida de dificuldade máxima: os polacos já enfrentaram os espanhóis por 10 vezes, mas venceram apenas um encontro (um particular em Barcelona, em 1980, por 2-1). No último confronto, em 2010, a Polónia foi arrasada (6-0).

Esta sexta-feira, na conferência de imprensa de antevisão do jogo, Paulo Sousa sublinhou ser “uma pessoa positiva”: “Nos momentos mais difíceis acontecem as transformações mais importantes. Temos que ultrapassar os nossos limites e ter convicção. Senti dentro do grupo que a temos”.

Sobre a exibição do também criticado Lewandowski, teceu elogios: “Ele fez muitas coisas. A partir do minuto 62, quando ficámos com 10, ele trabalhou muito mais do que o normal, teve uma chance clara com um cabeceamento que quase entrou, trabalhou sem bola e criou espaços. Não é o que ele saber fazer melhor, mas sacrificou-se pela equipa”.